{"id":14155,"date":"2025-02-24T18:36:12","date_gmt":"2025-02-24T21:36:12","guid":{"rendered":"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/?p=14155"},"modified":"2025-02-24T18:36:17","modified_gmt":"2025-02-24T21:36:17","slug":"mundo-a-deriva-por-frei-betto","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/gilvander.org.br\/site\/mundo-a-deriva-por-frei-betto\/","title":{"rendered":"MUNDO \u00c0 DERIVA \u2013 POR FREI BETTO"},"content":{"rendered":"\n<p><strong>MUNDO \u00c0 DERIVA \u2013 POR FREI BETTO<\/strong><\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"980\" height=\"634\" src=\"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2025\/02\/1457477459_119657_1457478822_noticia_normal-1.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-14156\" srcset=\"https:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2025\/02\/1457477459_119657_1457478822_noticia_normal-1.jpg 980w, https:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2025\/02\/1457477459_119657_1457478822_noticia_normal-1-300x194.jpg 300w, https:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2025\/02\/1457477459_119657_1457478822_noticia_normal-1-768x497.jpg 768w\" sizes=\"auto, (max-width: 980px) 100vw, 980px\" \/><\/figure>\n\n\n\n<p>&#8220;Da\u00ed a&nbsp;<a href=\"https:\/\/www.ihu.unisinos.br\/78-noticias\/610537-odio-e-amor-nas-redes-digitais\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">usina do \u00f3dio<\/a>, das&nbsp;fake news, de tudo que fa\u00e7a um sobressair sobre os outros. A emo\u00e7\u00e3o prevalece sobre a raz\u00e3o. E a&nbsp;imposi\u00e7\u00e3o&nbsp;sobre o di\u00e1logo. N\u00e3o se procura ter parceiros e, sim, seguidores. Milh\u00f5es de&nbsp;pequenos ditadores&nbsp;emitem a sua verdade sobre o mundo, ainda que seja uma clamorosa&nbsp;<a href=\"https:\/\/www.ihu.unisinos.br\/publicacoes\/78-noticias\/576672-combate-as-fake-news-etica-ou-espetaculo\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">mentira<\/a>, e assim fuzilam virtualmente todos que se lhe op\u00f5em&#8221;, escreve&nbsp;<a href=\"https:\/\/www.ihu.unisinos.br\/78-noticias\/615892-o-capitalismo-salvara-a-humanidade\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Frei Betto<\/a>, escritor, autor de &#8220;A arte de semear estrelas&#8221; (Rocco), entre outros livros.<\/p>\n\n\n\n<p>Eis o artigo.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>MUNDO \u00c0 DERIVA \u2013 Por Frei Betto<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>At\u00e9 meados do s\u00e9culo XX, a&nbsp;mobilidade humana&nbsp;era muito restrita. As pessoas mantinham v\u00ednculos comunit\u00e1rios mais estreitos. Relacionavam-se, por toda a vida, com familiares, amigos, frequentadores da mesma igreja ou do mesmo clube. Se viagens ocorriam, eram peri\u00f3dicas, e quase nunca para lugares muito distantes dos limites da cidade. Av\u00f3s, pais e irm\u00e3os moravam, quase todos, pr\u00f3ximos uns dos outros. Isso refor\u00e7ava os&nbsp;elos comunit\u00e1rios, a autoidentidade, o senso de agrega\u00e7\u00e3o. Os la\u00e7os de sangue falavam mais alto que o padr\u00e3o de vida ou o n\u00edvel de cultura.<\/p>\n\n\n\n<p>Tudo isso ruiu com a&nbsp;mobilidade geogr\u00e1fica&nbsp;facilitada pela p\u00f3s-modernidade. O barco que conduzia o cl\u00e3 familiar congregado foi de encontro aos penhascos da&nbsp;sociedade consumista&nbsp;e se estilha\u00e7ou. Todos ficaram \u00e0 deriva.<\/p>\n\n\n\n<p>Hoje, nessa enorme gaiola de cimento e ferro, chamada pr\u00e9dio de apartamentos, o vizinho de porta&nbsp;nada sabe a respeito&nbsp;de quem mora ao lado. Est\u00e3o todos condenados \u00e0&nbsp;perda de identidade, ao anonimato, \u00e0 estranheza. Enquanto na \u201caldeia\u201d os olhares eram de familiaridade e acolhimento, agora s\u00e3o de suspeita e medo. Como diria&nbsp;Sartre, o outro \u00e9, potencialmente, o inferno. Como preservar a&nbsp;autoestima&nbsp;se a pessoa n\u00e3o se sente estimada?<\/p>\n\n\n\n<p>Soma-se a isso um novo fator que agrava a ansiedade, a solid\u00e3o, as atitudes narc\u00edsicas: a&nbsp;aldeia digital. Assim como as pessoas buscam grupos com os quais se identificam (clube, igreja, associa\u00e7\u00e3o, n\u00facleo cultural etc.), elas tamb\u00e9m se inserem em v\u00e1rios&nbsp;nichos intern\u00e1uticos&nbsp;no esfor\u00e7o de se afirmarem socialmente. O ser humano n\u00e3o pode prescindir do olhar benfazejo do outro. Mas o espa\u00e7o cibern\u00e9tico \u00e9 substancialmente&nbsp;narc\u00edsico. A pessoa posta algo \u2013 mensagem, foto, meme etc. \u2013 como quem&nbsp;joga um peixe&nbsp;no lago cercado de pescadores. Ansiosa, quer saber quem fisgou a sua postagem, se interagiu e de que maneira. E mergulha no c\u00edrculo vicioso da digita\u00e7\u00e3o constante.<\/p>\n\n\n\n<p>Se no espa\u00e7o urbano, onde os la\u00e7os familiares est\u00e3o geograficamente distanciados, prevalece a&nbsp;desconfian\u00e7a, no virtual isso se torna mais acentuado. Como no paradoxo do gato de&nbsp;Schrodinger, o outro com quem voc\u00ea se relaciona pode ser e pode n\u00e3o ser ele. E, como \u00e9 natural, cada um busca ser reconhecido dentro daquela&nbsp;bolha. Quando algu\u00e9m posta \u00e9 tamb\u00e9m em busca de si mesmo. O smartphone funciona como um espelho, no qual bilh\u00f5es esperam ver a sua&nbsp;imagem melhorada. E o retorno, muitas vezes, \u00e9 a desconstru\u00e7\u00e3o de quem postou. Ningu\u00e9m ingressa na arena de boxe para presenciar a luta, e sim para&nbsp;esmurrar o outro&nbsp;at\u00e9 que ele seja aniquilado. E isso \u00e9 mais f\u00e1cil quando o outro \u00e9 um estranho. O outro, nessa arena virtual, \u00e9 sempre um concorrente, e n\u00e3o um parceiro.<\/p>\n\n\n\n<p>Da\u00ed a&nbsp;usina do \u00f3dio, das&nbsp;fake news, de tudo que fa\u00e7a um sobressair sobre os outros. A emo\u00e7\u00e3o prevalece sobre a raz\u00e3o. E a&nbsp;imposi\u00e7\u00e3o&nbsp;sobre o di\u00e1logo. N\u00e3o se procura ter parceiros e, sim, seguidores. Milh\u00f5es de&nbsp;pequenos ditadores&nbsp;emitem a sua verdade sobre o mundo, ainda que seja uma clamorosa&nbsp;mentira, e assim fuzilam virtualmente todos que se lhe op\u00f5em.<\/p>\n\n\n\n<p>Um exemplo dessa tend\u00eancia de isolamento e agressividade \u00e9 a crescente venda de ve\u00edculos utilit\u00e1rios (SUVs), pr\u00f3prios para zonas rurais, nas classes altas de \u00e1reas urbanas. Al\u00e9m de n\u00e3o serem adequados para trafegarem na cidade, criam nos passageiros uma sensa\u00e7\u00e3o de prote\u00e7\u00e3o e poder. Muitos adicionam \u00e0 marca modelos com express\u00f5es t\u00edpicas de conflito e belicismo:&nbsp;Defender&nbsp;(defensor),&nbsp;Raider&nbsp;(agressor),&nbsp;Crossfire&nbsp;(fogo cruzado),&nbsp;Tracker&nbsp;(perseguidor),&nbsp;Compass&nbsp;(renegado),&nbsp;Kicks&nbsp;(chutes).<\/p>\n\n\n\n<p>Conv\u00e9m escutar os s\u00e1bios: \u201c\u00c9 chegado o momento, n\u00e3o temos mais o que esperar. Ou\u00e7amos o humano que habita em cada um de n\u00f3s e clama pela nossa&nbsp;humanidade, pela nossa&nbsp;solidariedade, que teima em nos falar e nos fazer ver o outro que d\u00e1 sentido e \u00e9 a raz\u00e3o do nosso existir, sem o qual n\u00e3o somos e jamais seremos humanos na express\u00e3o da palavra\u201d (Rubens Alves: \u201cA Escutat\u00f3ria\u201d).<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>MUNDO \u00c0 DERIVA \u2013 POR FREI BETTO &#8220;Da\u00ed a&nbsp;usina do \u00f3dio, das&nbsp;fake news, de tudo que fa\u00e7a um sobressair sobre os outros. A emo\u00e7\u00e3o prevalece sobre a raz\u00e3o. E a&nbsp;imposi\u00e7\u00e3o&nbsp;sobre o di\u00e1logo. 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