{"id":14172,"date":"2025-03-01T08:12:20","date_gmt":"2025-03-01T11:12:20","guid":{"rendered":"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/?p=14172"},"modified":"2025-03-01T08:12:25","modified_gmt":"2025-03-01T11:12:25","slug":"lc-639-45-a-etica-das-relacoes-na-comunidade-do-evangelho-por-marcelo-barros","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/gilvander.org.br\/site\/lc-639-45-a-etica-das-relacoes-na-comunidade-do-evangelho-por-marcelo-barros\/","title":{"rendered":"Lc 6,39-45: A \u00c9TICA DAS RELA\u00c7\u00d5ES NA COMUNIDADE DO EVANGELHO \u2013 Por Marcelo Barros"},"content":{"rendered":"\n<p><strong>Lc 6,39-45: A \u00c9TICA DAS RELA\u00c7\u00d5ES NA COMUNIDADE DO EVANGELHO <\/strong>\u2013 Por Marcelo Barros<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full is-resized is-style-default\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2025\/03\/635befce6111b.marcelo-barros-foto-livro.default.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-14173\" width=\"778\" height=\"778\" srcset=\"https:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2025\/03\/635befce6111b.marcelo-barros-foto-livro.default.jpg 320w, https:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2025\/03\/635befce6111b.marcelo-barros-foto-livro.default-300x300.jpg 300w, https:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2025\/03\/635befce6111b.marcelo-barros-foto-livro.default-150x150.jpg 150w\" sizes=\"auto, (max-width: 778px) 100vw, 778px\" \/><figcaption>Marcelo Barros, irm\u00e3o, padre, monge, biblista e Te\u00f3logo da Liberta\u00e7\u00e3o<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>Neste VIII domingo do tempo comum, (ano C), o texto do evangelho lido nas comunidades conclui as palavras de Jesus no discurso da plan\u00edcie. Essa palavra conclui com uma orienta\u00e7\u00e3o para as pessoas que t\u00eam fun\u00e7\u00e3o de \u201cguias\u201d das comunidades. Ali Jesus instrui as pessoas respons\u00e1veis pelas comunidades e o teor do discurso n\u00e3o \u00e9 sobre a rela\u00e7\u00e3o com Deus. N\u00e3o tem nenhuma palavra sobre o culto ou a ora\u00e7\u00e3o. A instru\u00e7\u00e3o \u00e9 sobre a \u00e9tica na rela\u00e7\u00e3o de cada um (uma) consigo mesmo (a) e com as outras pessoas.<\/p>\n\n\n\n<p>Esse texto do evangelho \u00e9 constru\u00eddo sobre senten\u00e7as que Jesus teria dito aqui e acol\u00e1, certamente, em contextos diferentes e que o evangelho uniu em um s\u00f3 discurso. Juntou uma senten\u00e7a de Jesus a outra atrav\u00e9s de \u201cpalavras-chaves\u201d como medida (v. 38), olho (v. 39), \u00e1rvore (v. 43- 44), boca, casa e assim por diante.<\/p>\n\n\n\n<p>O importante \u00e9 a pr\u00e1tica. A \u00c9tica se verifica a partir dos frutos, ou seja, do resultado que produz (Cf. Tg 3, 12; Lc 13, 6- 9). Esse \u00e9 um ensinamento judaico, presente nos livros sapienciais, nos quais a pessoa justa \u00e9 comparada \u00e0 \u00e1rvore que d\u00e1 fruto e \u00e9 irrigada pelas \u00e1guas divinas (Cf. Salmos 1 e 92, v. 13- 14; Ct 2, 1- 3; Eclo 24, 12- 27).&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Atualmente, no Brasil, injustamente e criminosamente, h\u00e1 grupos cat\u00f3licos, evang\u00e9licos e pentecostais que acusam os cultos afro-brasileiros e ind\u00edgenas de serem idol\u00e1tricos e at\u00e9 mesmo demon\u00edacos. Se usamos esse crit\u00e9rio do evangelho e procuramos os frutos que esses cultos t\u00eam produzido, descobrimos que as comunidades de espiritualidade afrodescendente t\u00eam promovido a unidade das pessoas em situa\u00e7\u00f5es sociais e econ\u00f4micas adversas, t\u00eam ajudado as pessoas negras a terem consci\u00eancia de sua dignidade humana e a resistirem em meio \u00e0 viol\u00eancia e ao racismo estrutural da sociedade. Se os frutos s\u00e3o esses, como \u00e9 poss\u00edvel julgar mal essas comunidades? Intoler\u00e2ncia religiosa \u00e9 inaceit\u00e1vel.<\/p>\n\n\n\n<p>Talvez, nos primeiros tempos, o texto do evangelho de hoje fazia parte de uma esp\u00e9cie de \u201cdiret\u00f3rio\u201d ou de \u201ccarta de orienta\u00e7\u00f5es\u201d que as comunidades crist\u00e3s elaboraram para pessoas que vinham de outras religi\u00f5es e costumes querendo ser da comunidade. S\u00e3o orienta\u00e7\u00f5es \u00e9ticas e n\u00e3o doutrinais. Nessas normas de Jesus, a preocupa\u00e7\u00e3o \u00e9 a \u00e9tica da rela\u00e7\u00e3o entre as pessoas que integram a comunidade, principalmente a \u00e9tica de quem tem fun\u00e7\u00e3o de coordena\u00e7\u00e3o ou anima\u00e7\u00e3o do grupo.<\/p>\n\n\n\n<p>Conforme o evangelho de Mateus, Jesus afirma que os fariseus e escribas do templo de Jerusal\u00e9m se comportam como \u201cguias cegos\u201d. Portanto, a comunidade do evangelho de Mateus julgava assim a pessoas de outra religi\u00e3o. Seriam os escribas e os fariseus do Juda\u00edsmo rab\u00ednico que era a religi\u00e3o dominante da Palestina do seu tempo. Nos mesmos anos 80 do primeiro s\u00e9culo, Lucas aplica essa palavra de Jesus aos pr\u00f3prios disc\u00edpulos, aos membros da comunidade crist\u00e3, &nbsp;principalmente a ministros, di\u00e1conos, padres e bispos das comunidades. At\u00e9 hoje, corremos o risco de achar que cegos s\u00e3o sempre os outros e n\u00e3o n\u00f3s mesmos. Se algu\u00e9m pensa que tem clareza total sobre si mesmo, \u00e9 duplamente cego porque \u00e9 cego at\u00e9 em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 pr\u00f3pria cegueira. \u00c9 o pior cego: n\u00e3o v\u00ea e ainda pensa que est\u00e1 vendo. No evangelho de Jo\u00e3o, no epis\u00f3dio do cego de nascen\u00e7a, ao falar dos fariseus, Jesus diz que se eles assumissem sua pr\u00f3pria cegueira, n\u00e3o teriam culpa, mas como se vangloriam de ver bem, ent\u00e3o sua cegueira se torna culpada (Cf. Jo 9,39-41).<\/p>\n\n\n\n<p>Quase todas as tradi\u00e7\u00f5es espirituais consideram que uma base importante para a espiritualidade \u00e9 o conhecimento de si mesmo. Segundo o evangelho de Tom\u00e9, (texto crist\u00e3o do s\u00e9culo II), Jesus disse: \u201cQuem conhece todas as coisas, mas n\u00e3o conhece a si mesmo, de fato, n\u00e3o conhece nada\u201d (n. 67). Essa \u00e9 uma afirma\u00e7\u00e3o radical e corajosa. Santa Tereza de \u00c1vila afirmava que \u201cum dia de humilde conhecimento de si mesmo \u00e9 melhor do que mil dias de ora\u00e7\u00e3o\u201d. Na Idade M\u00e9dia, o Mestre Eckhart declarava: \u201cN\u00e3o se pode conhecer a Deus, se antes n\u00e3o se conhece a si mesmo\u201d<a href=\"#_ftn1\" id=\"_ftnref1\"><strong>[1]<\/strong><\/a>.<\/p>\n\n\n\n<p>Antigamente, monges e monjas se definiam como pessoas que habitavam consigo mesmo. Em seu livro Di\u00e1logos, o papa Greg\u00f3rio Magno define Bento de N\u00farsia (S\u00e3o Bento) como um homem que habitava consigo mesmo. Essa \u00e9 uma boa defini\u00e7\u00e3o para a nossa busca de espiritualidade: buscar habitar consigo mesmo(a). Quem trabalha por justi\u00e7a social e quem se empenha em transformar o mundo n\u00e3o pode ignorar essa dimens\u00e3o interior e pessoal da transforma\u00e7\u00e3o. Em meio a toda a sua luta n\u00e3o violenta contra o colonialismo e pela independ\u00eancia da \u00cdndia, o Mahatma Gandhi afirmava: \u201cComece por voc\u00ea mesmo (mesma) a transforma\u00e7\u00e3o que quer para o mundo\u201d. De outro modo, Jesus diz a mesma coisa: \u201cPrimeiramente tire a trave que est\u00e1 no seu olho para poder tirar a palha que est\u00e1 no olho do seu irm\u00e3o\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Nessas palavras do evangelho, Jesus vai direto ao ponto fundamental: todos n\u00f3s temos alguns pontos cegos. Carregamos intimamente aspectos, sentimentos e tend\u00eancias que nem sempre conseguimos ver. Exigir dos outros o que n\u00f3s mesmos n\u00e3o cumprimos \u00e9 hipocrisia e falsidade. Hip\u00f3crita \u00e9 quem pretende ser o que n\u00e3o \u00e9. Jesus nos pede que sejamos coerentes.<\/p>\n\n\n\n<p>Comecemos por n\u00f3s mesmos, cada um\/a procurando mudar o pr\u00f3prio cora\u00e7\u00e3o e depois poderemos pedir mudan\u00e7as aos outros. O modelo \u00e9 o mestre Jesus: \u201cPor que me chamais \u201cSenhor, Senhor\u201d e n\u00e3o fazeis o que eu digo?\u201d. E a\u00ed fica claro que cumprir sua palavra \u00e9 construir sua casa (tanto a casa interior: o mais profundo da gente mesmo, como a social, a comunidade nova) sobre a rocha, que \u00e9 a Palavra de Deus.<\/p>\n\n\n\n<p>Na maioria das tradi\u00e7\u00f5es espirituais, a espiritualidade \u00e9 a busca da veracidade interior e a luta permanente para evoluir a partir da nossa realidade pessoal, seja ela qual for. Atualmente, esse \u00e9 o desafio da educa\u00e7\u00e3o, \u00e9 o desafio na atividade pol\u00edtica, \u00e9 o desafio nas Igrejas e religi\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<p>O evangelho de hoje cont\u00e9m a boa not\u00edcia de que \u00e9 sempre poss\u00edvel retomarmos o caminho da unifica\u00e7\u00e3o interior e da busca de maior coer\u00eancia. No mundo inteiro, a Igreja Cat\u00f3lica se depara com esc\u00e2ndalos nos meios clericais: esc\u00e2ndalos morais como a pedofilia praticada por ministros, na maioria das vezes, extremamente arrogantes, homof\u00f3bicos e severos com os pecados dos outros. Tamb\u00e9m com esc\u00e2ndalos econ\u00f4micos que atingem o pr\u00f3prio Vaticano. E se levant\u00e1ssemos o esc\u00e2ndalo da desumanidade que ainda vigora em certas formas de tratar os outros nos conventos e nos ambientes do clero? Para Jesus, um dos maiores esc\u00e2ndalos era o fato dos seus disc\u00edpulos competirem entre si por poder e prest\u00edgio.<\/p>\n\n\n\n<p>Que o Esp\u00edrito nos ilumine no caminho da simplicidade e da realiza\u00e7\u00e3o de nossas vidas na doa\u00e7\u00e3o de n\u00f3s mesmos\/as e na competi\u00e7\u00e3o para ver quem \u00e9 mais capaz de amar e de se doar.<\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Ca\u00e7ador de mim<\/em><\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><em>&nbsp;Milton Nascimento<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Por tanto amor,<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Por tanta emo\u00e7\u00e3o<br>A vida me fez assim<br>Doce ou atroz,<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Manso ou feroz<br>Eu, ca\u00e7ador de mim<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Preso a can\u00e7\u00f5es<br>Entregue a paix\u00f5es<br>Que nunca tiveram fim<br>Vou me encontrar<br>Longe do meu lugar<br>Eu, ca\u00e7ador de mim<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Nada a temer sen\u00e3o o correr da luta<br>Nada a fazer sen\u00e3o esquecer o medo, medo<br>Abrir o peito a for\u00e7a, numa procura<br>Fugir \u00e0s armadilhas da mata escura<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Longe se vai<br>Sonhando demais<br>Mas onde se chega assim<br>Vou descobrir o que me faz sentir<br>Eu, ca\u00e7ador de mim<\/em><\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator\"\/>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref1\" id=\"_ftn1\">[1]<\/a> &#8211; M. ECKHART, <strong>Meister Eckhart: Sermons and Treatises, <\/strong>3 vol. coordenados por MAURICE WALSHE, Element Books, Shaftesbury, 1979,&nbsp; serm\u00e3o 46, p. 20.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Lc 6,39-45: A \u00c9TICA DAS RELA\u00c7\u00d5ES NA COMUNIDADE DO EVANGELHO \u2013 Por Marcelo Barros Neste VIII domingo do tempo comum, (ano C), o texto do evangelho lido nas comunidades conclui as palavras de Jesus no<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":14173,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[21,22,44,27,30,43,26],"tags":[],"class_list":["post-14172","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-artigo","category-cebs-comunidades-eclesiais-de-base","category-direito-a-memoria","category-direitos-humanos","category-fe-e-politica","category-pedagogia-emancipatoria","category-teologia-da-libertacao"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/14172","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=14172"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/14172\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":14174,"href":"https:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/14172\/revisions\/14174"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media\/14173"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=14172"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=14172"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=14172"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}