{"id":14196,"date":"2025-03-03T15:38:50","date_gmt":"2025-03-03T18:38:50","guid":{"rendered":"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/?p=14196"},"modified":"2025-03-03T15:39:48","modified_gmt":"2025-03-03T18:39:48","slug":"lc-41-13-jesus-nao-cai-na-tentacao-da-magica-nem-do-poder-e-nem-da-idolatria-por-frei-gilvander","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/gilvander.org.br\/site\/lc-41-13-jesus-nao-cai-na-tentacao-da-magica-nem-do-poder-e-nem-da-idolatria-por-frei-gilvander\/","title":{"rendered":"Lc 4,1-13 \u2013 JESUS N\u00c3O CAI NA TENTA\u00c7\u00c3O DA M\u00c1GICA, NEM DO PODER E NEM DA IDOLATRIA. Por frei Gilvander"},"content":{"rendered":"\n<p><strong>Lc 4,1-13 \u2013 JESUS N\u00c3O CAI NA TENTA\u00c7\u00c3O DA M\u00c1GICA, NEM DO PODER E NEM DA IDOLATRIA<\/strong>. Por frei Gilvander Moreira<a id=\"_ftnref1\" href=\"#_ftn1\">[1]<\/a><\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full is-style-default\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"720\" height=\"540\" src=\"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2025\/03\/DOROTHY-STANG-1.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-14199\" srcset=\"https:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2025\/03\/DOROTHY-STANG-1.png 720w, https:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2025\/03\/DOROTHY-STANG-1-300x225.png 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 720px) 100vw, 720px\" \/><figcaption>Irm\u00e3 Dorothy, mulher imprescind\u00edvel, pois dedicou toda&nbsp; sua vida aos pobres e \u00e0 defesa da Amaz\u00f4nia. N\u00e3o caiu em nenhuma tenta\u00e7\u00e3o. Reprodu\u00e7\u00e3o Redes Virtuais<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>No Evangelho de Lucas, em Lc 4,1-13, est\u00e1 a narrativa das tenta\u00e7\u00f5es de Jesus com algumas diferen\u00e7as em rela\u00e7\u00e3o aos Evangelhos de Mateus (Mt 4,1-11) e de Marcos (Mc 1,12-13). Que tipo de pessoa Jesus se torna para testemunhar um caminho de liberta\u00e7\u00e3o e salva\u00e7\u00e3o dos oprimidos?&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Lucas retoma a ordem do Evangelho de Marcos, interrompida para colocar a genealogia de Jesus, mas conserva de Marcos somente &#8220;durante quarenta dias no deserto&#8221; e &#8220;o tentava&#8221;.&nbsp; Omite os detalhes com que Marcos termina sua narra\u00e7\u00e3o global das tenta\u00e7\u00f5es de Jesus. Em Marcos, a tenta\u00e7\u00e3o \u00e9 narrada de forma gen\u00e9rica e abstrata, enquanto que Lucas utiliza materiais provenientes da Fonte &#8220;Q&#8221;<a href=\"#_ftn2\" id=\"_ftnref2\">[2]<\/a> para especificar a natureza concreta das tenta\u00e7\u00f5es, igual a Mateus (cf. Mt 4,2b-10).<\/p>\n\n\n\n<p>Talvez algu\u00e9m pudesse imaginar que, por se tratar de experi\u00eancia t\u00e3o \u00edntima do pr\u00f3prio Jesus, os disc\u00edpulos e as disc\u00edpulas podem ter sabido disso pelo pr\u00f3prio Jesus que partilhou com eles e elas como foi importante para ele discernir qual a vontade do Pai sobre sua miss\u00e3o e, portanto como ler e interpretar os textos sagrados da B\u00edblia. De fato, o modo como Lucas conta as tenta\u00e7\u00f5es as aproxima do que Jesus vai sofrer no Horto das Oliveiras, na noite em que seria preso e entregue aos tribunais para sofrer pena de morte. Lucas termina o seu relato dizendo que o tentador se afastou dele \u2018at\u00e9 o tempo oportuno\u201d, que teria sido no Getsemani.<\/p>\n\n\n\n<p>Espec\u00edficas de Lucas s\u00e3o as seguintes express\u00f5es: &#8220;cheio do Esp\u00edrito Santo&#8221;, &#8220;durante todo esse tempo&#8221;, &#8220;poder&#8221;, &#8220;em um instante&#8221;, o uso invari\u00e1vel do substantivo <em>diabolos<\/em> (= &#8220;diabo&#8221;) em toda a narra\u00e7\u00e3o, a motiva\u00e7\u00e3o que apresenta o diabo em Lc 4,6b e a conclus\u00e3o do epis\u00f3dio (Lc 4,13). Lucas transformou o plural &#8220;pedras&#8221;, &#8220;p\u00e3es&#8221; (Mt 4,3) para sua forma singular; omitiu a &#8220;montanha alt\u00edssima&#8221; de que fala Mt 4,8<a href=\"#_ftn3\" id=\"_ftnref3\"><sup>[3]<\/sup><\/a>.<\/p>\n\n\n\n<p>A diferen\u00e7a de ordem das tenta\u00e7\u00f5es nas vers\u00f5es de Mateus e de Lucas nos leva a perguntar: Qual teria sido a ordem original no Evangelho &#8220;Q&#8221;? Qual dos evangelistas que alterou a ordem origin\u00e1ria? O biblista K. H. Rengstorf<a href=\"#_ftn4\" id=\"_ftnref4\"><sup>[4]<\/sup><\/a> sugere que Lucas segue a ordem dos tr\u00eas pedidos no Pai Nosso: 1) &#8220;Proclamar que teu nome \u00e9 santo&#8221;; 2) &#8220;Que chegue o teu reino&#8221;; 3) &#8220;D\u00e1-nos cada dia o p\u00e3o para nossa subsist\u00eancia&#8221;. \u00c9 muito fecunda essa aproxima\u00e7\u00e3o entre o relato das tenta\u00e7\u00f5es e os pedidos que Jesus prop\u00f5e no Pai Nosso.<\/p>\n\n\n\n<p>Mateus teria colocado a tenta\u00e7\u00e3o da &#8220;montanha&#8221; alt\u00edssima&#8221; na \u00faltima posi\u00e7\u00e3o, porque o tema da &#8220;montanha&#8221; \u00e9 particularmente significativo na sua narra\u00e7\u00e3o evang\u00e9lica (por exemplo, o discurso da montanha: Mt 5-7; a apari\u00e7\u00e3o final de Jesus ressuscitado no monte: Mt 28,16-20; todo o evangelho que tenta apresentar Jesus como o novo Mois\u00e9s) ou tamb\u00e9m porque, segundo Mateus, o ponto culminante seria recusar todo culto a Satan\u00e1s para dedicar-se \u00fanica e exclusivamente a servi\u00e7o de Deus.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas Lucas preferiu colocar a tenta\u00e7\u00e3o do pin\u00e1culo do templo como a \u00faltima, porque para ele o lugar mais importante est\u00e1 em Jerusal\u00e9m. Segundo o biblista Bultmann, o epis\u00f3dio \u00e9 uma cria\u00e7\u00e3o das primeiras comunidades crist\u00e3s para explicar de forma apolog\u00e9tica, porque Jesus n\u00e3o fez nenhum milagre\/prod\u00edgio em proveito pr\u00f3prio nem se acomodou \u00e0s dominantes ideias messi\u00e2nicas do seu tempo.<\/p>\n\n\n\n<p>As primeiras comunidades crist\u00e3s foram transmitindo diversos relatos de tenta\u00e7\u00e3o, mas \u00e9 prov\u00e1vel que o relato de Marcos, da tenta\u00e7\u00e3o, no deserto, constitua a base mais antiga do epis\u00f3dio, em Lucas. \u00c9 absolutamente imposs\u00edvel provar a realidade hist\u00f3rica destas cenas de tenta\u00e7\u00e3o, j\u00e1 que n\u00e3o temos o menor fundamento para emitir um ju\u00edzo hist\u00f3rico. \u00c9 mais prov\u00e1vel que tenha significado simb\u00f3lico.<\/p>\n\n\n\n<p>As tr\u00eas cenas t\u00eam um denominador comum: todas corrigem uma id\u00e9ia equivocada da miss\u00e3o de Jesus como &#8220;Filho&#8221; de Deus. O n\u00famero de &#8220;tr\u00eas&#8221; tenta\u00e7\u00f5es indica &#8220;toda a vida&#8221;, \u201ctodas as tenta\u00e7\u00f5es\u201d. As tr\u00eas tenta\u00e7\u00f5es de Jesus s\u00e3o uma s\u00edntese de todas as tenta\u00e7\u00f5es que Jesus sofreu ao longo de sua miss\u00e3o libertadora.<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;O biblista Dupont diz que &#8220;Jesus fala de uma experi\u00eancia por ele vivenciada, por\u00e9m a expressa em linguagem simb\u00f3lica, perfeitamente apta para impressionar os seus ouvintes<a href=\"#_ftn5\" id=\"_ftnref5\"><sup>[5]<\/sup><\/a>&#8220;. O biblista R. E. Brown chega \u00e0 seguinte conclus\u00e3o: &#8220;Mateus e Lucas, ou a fonte comum a ambos, n\u00e3o fazem injusti\u00e7a aos fatos hist\u00f3ricos ao concentrar o dramatismo destas cenas em um s\u00f3 epis\u00f3dio e ao desmascarar o verdadeiro autor das tenta\u00e7\u00f5es, pondo nos seus l\u00e1bios toda esta carga de sedu\u00e7\u00e3o<a href=\"#_ftn6\" id=\"_ftnref6\"><sup>[6]<\/sup><\/a>&#8220;. Seja linguagem figurativa ou &#8220;dramatismo&#8221;, o que n\u00e3o pode ser \u00e9 ing\u00eanuo literalismo. Mais do que se tratar de um fato hist\u00f3rico ou n\u00e3o, o sentido teol\u00f3gico \u00e9 o mais importante.<\/p>\n\n\n\n<p>A narra\u00e7\u00e3o evang\u00e9lica apresenta as tenta\u00e7\u00f5es de Jesus como fen\u00f4menos que procedem de fontes externas; n\u00e3o h\u00e1 o m\u00ednimo de ind\u00edcio de que provenham de um conflito interior, mas s\u00e3o um s\u00edmbolo da sedu\u00e7\u00e3o contida na hostilidade, na oposi\u00e7\u00e3o e inclusive na recusa ao projeto de Jesus.<\/p>\n\n\n\n<p>As tr\u00eas cenas da tenta\u00e7\u00e3o descrevem Jesus como Filho de Deus, obediente \u00e0 vontade do Pai; por isso n\u00e3o cede \u00e0 sedu\u00e7\u00e3o de usar seus poderes ou sua autoridade de Filho para uma finalidade distinta da que constitui sua miss\u00e3o. Ao citar tr\u00eas tenta\u00e7\u00f5es do povo no deserto, conforme o livro do Deuteron\u00f4mio, faz-se um paralelo entre Jesus e os povos escravizados que se libertaram da escravid\u00e3o no Egito sob o imperialismo dos fara\u00f3s. Onde os povos do Primeiro Testamento falharam, Jesus sai vitorioso. E n\u00f3s podemos vencer as tenta\u00e7\u00f5es de hoje.<\/p>\n\n\n\n<p>Observe o contexto liter\u00e1rio: Lucas inseriu a narrativa das tenta\u00e7\u00f5es depois da genealogia de Jesus para mostrar que Jesus \u00e9 humano como qualquer pessoa e, enquanto ser humano, vem de Deus. Lucas tem uma vis\u00e3o dial\u00e9tica da hist\u00f3ria e trabalha muito com contrastes. Ap\u00f3s ter superado as tenta\u00e7\u00f5es, Lucas mostra Jesus iniciando sua miss\u00e3o p\u00fablica e apresentando seu programa de liberta\u00e7\u00e3o integral (Lc 4,16-19) na pequena sinagoga de Nazar\u00e9. Como ir\u00e1 colocar em pr\u00e1tica esse programa? As tenta\u00e7\u00f5es s\u00e3o propostas que Jesus rejeitou, porque por meio delas n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel libertar os oprimidos, pois m\u00e1gica, poder e idolatria n\u00e3o criam condi\u00e7\u00f5es de vida e liberdade para todos e todas.<\/p>\n\n\n\n<p>Segundo Lucas, Jesus foi tentado durante quarenta dias, n\u00famero simb\u00f3lico que lembra o tempo em que Mois\u00e9s ficou na montanha (Ex 34,28), sem comer nem beber, a fim de escrever, na intimidade com Deus, o Dec\u00e1logo da alian\u00e7a para a nova sociedade. Lembra tamb\u00e9m o tempo em que o profeta Elias permaneceu no monte Horeb, depois do qual desceu para superar a idolatria imposta pelo rei Acab e pela rainha Jezabel e transformar completamente a sociedade do ponto de vista pol\u00edtico e religioso (cf. 1Rs 19,8). Lembra, ainda, os quarenta anos dos hebreus no deserto, com suas tenta\u00e7\u00f5es de voltar ao Egito, mesmo que fosse para sobreviver como escravo, desde que de barriga cheia, mas sob o imperialismo que massacre de in\u00fameras formas.<\/p>\n\n\n\n<p>Na Primeira tenta\u00e7\u00e3o (Lc 4,3-4) &#8211; <em>\u201cSe \u00e9s Filho de Deus, mande que esta pedra se transforme em p\u00e3o\u201d <\/em>-, Jesus n\u00e3o aceita se tornar o Messias da acumula\u00e7\u00e3o. O diabo \u00e9 aquele que tem um projeto capaz de perverter o projeto de Deus e de Jesus. Ele quer um deus que seja garantia de prosperidade para uma minoria, um deus de palanque e de status. Jesus recusa ser o messias da abund\u00e2ncia porque o projeto de Deus vai al\u00e9m de promessas eleitoreiras: &#8220;N\u00e3o s\u00f3 de p\u00e3o vive a pessoa humana&#8221; (Lc 4,4; cf. Dt 8,3). O texto do Deuteron\u00f4mio fala do tempo em que o povo vivia no deserto e se contentava em sobreviver assim desde que tivesse p\u00e3o para comer. A palavra de Jav\u00e9, por\u00e9m, tinha objetivos mais amplos: conduzir todos os povos escravizados \u00e0 plena posse da terra para terem vida e dignidade. Jesus recusa-se a ser o messias da abund\u00e2ncia para si, pois sua proposta \u00e9 a partilha (Lc 11,41) e p\u00e3o para todos (Lc 9,12-17). Dt 8,3 faz parte de Dt 8,1-6; recorda quando os povos oprimidos, ao marchar no deserto, murmuravam contra Mois\u00e9s e Ar\u00e3o (Ex 16; Nm 11,7-8). A tenta\u00e7\u00e3o de abrir m\u00e3o da caminhada libertadora precisa ser superada. Se parar de caminhar e s\u00f3 pensar em comer, a escravid\u00e3o volta. Padre Alfredinho, da Fraternidade do Servo Sofredor, gostava de dizer: \u201cOs ricos se salvar\u00e3o quando aprenderem a passar fome\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Na segunda tenta\u00e7\u00e3o (Lc 4,5-8) &#8211; <em>\u201cEu te darei todo esse poder com gl\u00f3ria&#8230;, se te prostrares diante de mim\u201d<\/em> -, Jesus n\u00e3o aceita se tornar o Messias do poder.Jesus \u00e9 tentado a resolver o problema dos oprimidos tornando-se chefe pol\u00edtico de estruturas injustas. Refutou com veem\u00eancia Jesus: <em>\u201cAdorar\u00e1s ao Senhor teu Deus, e s\u00f3 a Ele prestar\u00e1s culto\u201d<\/em> (Lc 4,8 cita Dt 6,13)<a href=\"#_ftn7\" id=\"_ftnref7\">[7]<\/a>. Todo tipo de idolatria oprime e mata de muitas formas.<\/p>\n\n\n\n<p>O diabo faz exegese no seu modo de ler a B\u00edblia: descobrir nela a motiva\u00e7\u00e3o para o poder e o sucesso messi\u00e2nico. O evangelho diz que Jesus responde ao diabo com outro modo de ler a B\u00edblia e a experi\u00eancia hist\u00f3rica dos povos que lutam por liberta\u00e7\u00e3o, e esse \u00e9 o da inser\u00e7\u00e3o amorosa e do servi\u00e7o despojado do Servo Sofredor que vai at\u00e9 a cruz, doando a vida a todos\/as, primordialmente aos injusti\u00e7ados\/as. A cita\u00e7\u00e3o completa deste vers\u00edculo do Deuteron\u00f4mio mostra claramente que absolutizar-se no poder \u00e9 repetir a\u00e7\u00e3o opressora dos fara\u00f3s.<\/p>\n\n\n\n<p>S\u00e3o dois modos de ler e interpretar a B\u00edblia que at\u00e9 hoje existem entre n\u00f3s nas pr\u00f3prias Igrejas crist\u00e3s. Quem l\u00ea a B\u00edblia ou os evangelhos para legitimar pretens\u00f5es de poder eclesi\u00e1stico, sagrado e\/ou pol\u00edtico, faz o mesmo tipo de exegese do diabo no relato das tenta\u00e7\u00f5es de Jesus.<\/p>\n\n\n\n<p>A mosca azul do poder corrompe muitas pessoas. Jesus tem outros projetos mediante os quais testemunhar\u00e1 um caminho de liberta\u00e7\u00e3o dos oprimidos. No Evangelho de Lucas, uma de suas principais caracter\u00edsticas \u00e9 o poder servi\u00e7o (cf. Lc 22,27).<\/p>\n\n\n\n<p>Na terceira tenta\u00e7\u00e3o (Lc 4,9-12) &#8211; Em Jerusal\u00e9m, no pin\u00e1culo do Templo, <em>\u201cSe \u00e9s Filho de Deus, atira-te para baixo &#8230;\u201d<\/em> -, Jesus n\u00e3o aceitou se tornar o Messias do prest\u00edgio, do status. O diabo quer livrar Jesus da morte. Desta vez cita a B\u00edblia (Sl 91,11-12). Mas ser messias do prest\u00edgio constitui idolatria. <em>&#8220;O diabo afastou-se para voltar no tempo oportuno&#8221;<\/em> (Lc 4,13). Este &#8220;tempo oportuno&#8221; \u00e9 o final da pr\u00e1tica libertadora de Jesus, onde ele vai enfrentar os chefes dos sacerdotes, doutores da Lei e anci\u00e3os (cf. Lc 20,1). Eles personificam as tenta\u00e7\u00f5es que Jesus venceu: cr\u00eaem que Deus lhes garante a prosperidade. Acham que \u00e9 o suporte pol\u00edtico para as estruturas injustas que defendem e promovem; vivem envolvidos pela busca do prest\u00edgio. Jesus vai enfrent\u00e1-los. \u00c9 sua \u00faltima tenta\u00e7\u00e3o. Eles o matam, mas a ressurrei\u00e7\u00e3o \u00e9 a prova de que o projeto de Deus, mist\u00e9rio de infinito amor, \u00e9 mais forte que as for\u00e7as de morte.<\/p>\n\n\n\n<p>Em Lc 22,31-32 Jesus fala aos disc\u00edpulos que Satan\u00e1s o instigava para peneirar os disc\u00edpulos como trigo. Lc 22,31-32 mais Lc 4,13 (&#8220;para voltar em tempo oportuno&#8221;) nos d\u00e3o elementos textuais para respaldar a tese de que Jesus foi tentado durante toda sua vida (principalmente no seu minist\u00e9rio p\u00fablico) at\u00e9 no momento da morte, e n\u00e3o somente em &#8220;40 dias&#8221; antes de entrar em campo para a miss\u00e3o. Para sermos filhos de Deus precisamos doar nossa vida aos injusti\u00e7ados\/as de ponta a ponta, a vida inteira.<\/p>\n\n\n\n<p>As tentativas de estabelecer uma conex\u00e3o entre a narra\u00e7\u00e3o das tenta\u00e7\u00f5es de Jesus, de Lucas, com 1 Jo 2,16, onde se menciona &#8220;a concupisc\u00eancia da carne, a concupisc\u00eancia dos olhos e o orgulho da vida&#8221;, s\u00e3o simplesmente erradas. Tamb\u00e9m \u00e9 equivocada a interpreta\u00e7\u00e3o de que a vit\u00f3ria de Jesus se deve \u00e0 sua condi\u00e7\u00e3o de &#8220;sumo-sacerdote&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p>Jesus vence com a ferramenta &#8220;da palavra de Deus&#8221; (Ef 6,17), pois cita sempre uma passagem do Primeiro Testamento para inspirar um projeto genuinamente humano-divino.<\/p>\n\n\n\n<p>Lucas apresenta as tr\u00eas tenta\u00e7\u00f5es em uma ordem diferente do Evangelho de&nbsp;Mateus. Este inicia apresentando a tenta\u00e7\u00e3o da transforma\u00e7\u00e3o de pedras em p\u00e3o (primeira tenta\u00e7\u00e3o), do jogar-se do pin\u00e1culo do templo e ser salvo pelos anjos (segunda tenta\u00e7\u00e3o) e a tenta\u00e7\u00e3o de contemplar em uma alta montanha os reinos com todo o esplendor (terceira tenta\u00e7\u00e3o) (Mt 4,1-11 e Lc 4,1-13).<\/p>\n\n\n\n<p>No evangelho de Lucas, a primeira tenta\u00e7\u00e3o se d\u00e1 no deserto, onde&nbsp;Jesus&nbsp;\u00e9 tentado a transformar pedra em p\u00e3o. A segunda acontece na montanha, em que contempla os reinos. A terceira, no pin\u00e1culo do templo, onde Jesus \u00e9 tentado a saltar dali para ser salvo pelos anjos. H\u00e1 uma progress\u00e3o nas tenta\u00e7\u00f5es. O cl\u00edmax do confronto entre Satan\u00e1s e&nbsp;Jesus&nbsp;aconteceu precisamente em&nbsp;Jerusal\u00e9m, onde acontecer\u00e1 a execu\u00e7\u00e3o do Justo e Inocente com a pena de morte, a pena capital. Assim, a cena na qual Jesus se encontra sobre o pin\u00e1culo da \u201ccasa de seu Pai\u201d se torna muito eloquente, porque no Evangelho de Lucas, \u201cJerusal\u00e9m\u201d \u00e9 o ponto de chegada de Jesus para realizar a miss\u00e3o (Lc 17,11; Lc 19,28-38).<\/p>\n\n\n\n<p>Para as primeiras comunidades crist\u00e3s, \u201cJerusal\u00e9m\u201d \u00e9 o ponto de partida para a miss\u00e3o (Lc 24,52). Jerusal\u00e9m&nbsp;tem uma import\u00e2ncia particular, pois \u00e9 a cidade do \u201cdestino\u201d final de Jesus e de onde se irradia a liberta\u00e7\u00e3o-salva\u00e7\u00e3o para todo o g\u00eanero humano e toda a Cria\u00e7\u00e3o. Jesus caminha para Jerusal\u00e9m como se buscasse alcan\u00e7ar uma meta (Lc 13,22). Lucas valoriza \u201cJerusal\u00e9m\u201d n\u00e3o somente como lugar f\u00edsico, mas primordialmente como lugar teol\u00f3gico que representa a \u201ccidade de Davi\u201d,&nbsp; o monte Si\u00e3o, de onde o Deus da vida legisla. Lucas se refere a \u201cJerusal\u00e9m\u201d com o termo grego <em>Ierousal\u00ebm<\/em>, designa\u00e7\u00e3o de Jerusal\u00e9m n\u00e3o como lugar geogr\u00e1fico, mas de lugar sagrado do juda\u00edsmo e, talvez, como retornando a compreens\u00e3o de que Jerusal\u00e9m simboliza a alian\u00e7a de Deus com os povos oprimidos, (a nova Jerusal\u00e9m do Apocalipse 21 e 22). Alian\u00e7a agora estendida e oferecida a toda a humanidade e at\u00e9 a todo o universo, onde se pode ouvir a voz divina que diz \u201c<em>Fa\u00e7o novas todas as coisas<\/em>\u201d (Ap&nbsp; 21,5).&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Enfim, Jesus n\u00e3o caiu nas tenta\u00e7\u00f5es da m\u00e1gica, nem do poder e nem da idolatria. Atualmente, em muitos pa\u00edses a tenta\u00e7\u00e3o do fascismo, da extrema-direita, com projetos neonazistas, tenta seduzir a maioria do povo insuflando a ilus\u00e3o de que por meio de ditadura militar-civil-empresarial ser\u00e1 poss\u00edvel superar as injusti\u00e7as socioambientais, pol\u00edticas e econ\u00f4micas que se abatem sobre os povos. Ledo engano! Feliz quem n\u00e3o cair na tenta\u00e7\u00e3o do fascismo, nem do neonazismo da extrema-direita que ronda o mundo!<\/p>\n\n\n\n<p>03\/03\/2025.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Obs<\/strong>.: As videorreportagens nos links, abaixo, ATUALIZAM o assunto tratado, acima.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>1 &#8211; \u201cPOVO DEU UM PASSO \u00c0 FRENTE E O MAR VERMELHO SE ABRIU\u201d, Frei GILVANDER, NO QUILOMBO CAMPO GRANDE\/MST<\/strong><\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-embed is-type-video is-provider-youtube wp-block-embed-youtube wp-embed-aspect-16-9 wp-has-aspect-ratio\"><div class=\"wp-block-embed__wrapper\">\n<div class=\"epyt-video-wrapper\"><iframe loading=\"lazy\"  id=\"_ytid_69559\"  width=\"810\" height=\"456\"  data-origwidth=\"810\" data-origheight=\"456\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/CB6_5BN30f4?enablejsapi=1&#038;autoplay=0&#038;cc_load_policy=0&#038;cc_lang_pref=&#038;iv_load_policy=1&#038;loop=0&#038;rel=1&#038;fs=1&#038;playsinline=0&#038;autohide=2&#038;theme=dark&#038;color=red&#038;controls=1&#038;disablekb=0&#038;\" class=\"__youtube_prefs__  epyt-is-override  no-lazyload\" title=\"YouTube player\"  allow=\"fullscreen; accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen data-no-lazy=\"1\" data-skipgform_ajax_framebjll=\"\"><\/iframe><\/div>\n<\/div><\/figure>\n\n\n\n<p><strong>2 &#8211; PREFEITO DE ARA\u00c7UA\u00cd\/MG com PL PARA AMPUTAR APA CHAPADA DO LAGO\u00c3O PARA ABRIR ESPA\u00c7O PARA MINERADORAS<\/strong><\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-embed is-type-video is-provider-youtube wp-block-embed-youtube wp-embed-aspect-16-9 wp-has-aspect-ratio\"><div class=\"wp-block-embed__wrapper\">\n<div class=\"epyt-video-wrapper\"><iframe loading=\"lazy\"  id=\"_ytid_67882\"  width=\"810\" height=\"456\"  data-origwidth=\"810\" data-origheight=\"456\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/IUeJ6kDXmXU?enablejsapi=1&#038;autoplay=0&#038;cc_load_policy=0&#038;cc_lang_pref=&#038;iv_load_policy=1&#038;loop=0&#038;rel=1&#038;fs=1&#038;playsinline=0&#038;autohide=2&#038;theme=dark&#038;color=red&#038;controls=1&#038;disablekb=0&#038;\" class=\"__youtube_prefs__  epyt-is-override  no-lazyload\" title=\"YouTube player\"  allow=\"fullscreen; accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen data-no-lazy=\"1\" data-skipgform_ajax_framebjll=\"\"><\/iframe><\/div>\n<\/div><\/figure>\n\n\n\n<p><strong>3 &#8211; INJUSTI\u00c7AS SOCIOAMBIENTAIS BRUTAS EM MINAS GERAIS: Frei Gilvander entrevista Dr. Elcio Pacheco, adv<\/strong><\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-embed is-type-video is-provider-youtube wp-block-embed-youtube wp-embed-aspect-16-9 wp-has-aspect-ratio\"><div class=\"wp-block-embed__wrapper\">\n<div class=\"epyt-video-wrapper\"><iframe loading=\"lazy\"  id=\"_ytid_73851\"  width=\"810\" height=\"456\"  data-origwidth=\"810\" data-origheight=\"456\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/RkXO3Z2HlXM?enablejsapi=1&#038;autoplay=0&#038;cc_load_policy=0&#038;cc_lang_pref=&#038;iv_load_policy=1&#038;loop=0&#038;rel=1&#038;fs=1&#038;playsinline=0&#038;autohide=2&#038;theme=dark&#038;color=red&#038;controls=1&#038;disablekb=0&#038;\" class=\"__youtube_prefs__  epyt-is-override  no-lazyload\" title=\"YouTube player\"  allow=\"fullscreen; accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen data-no-lazy=\"1\" data-skipgform_ajax_framebjll=\"\"><\/iframe><\/div>\n<\/div><\/figure>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator\"\/>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref1\" id=\"_ftn1\">[1]<\/a> [1] Frei e padre da Ordem dos carmelitas; licenciado e bacharel em Filosofia pela UFPR; bacharel em Teologia pelo ITESP<strong>\/<\/strong>SP; mestre em Exegese B\u00edblica pelo Pontif\u00edcio Instituto B\u00edblico de Roma, It\u00e1lia; doutor em Educa\u00e7\u00e3o pela FAE\/UFMG; assessor da CPT, CEBI, Movimentos Sociais e Ocupa\u00e7\u00f5es.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>E-mail: <a href=\"mailto:gilvanderlm@gmail.com\">gilvanderlm@gmail.com<\/a> \u2013 <a href=\"http:\/\/www.freigilvander.blogspot.com.br\">www.freigilvander.blogspot.com.br<\/a>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; \u2013&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; <a href=\"http:\/\/www.gilvander.org.br\">www.gilvander.org.br<\/a><\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"http:\/\/www.twitter.com\/gilvanderluis\">www.twitter.com\/gilvanderluis<\/a>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; \u2013&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Face book: Gilvander Moreira III \u2013 Canal no You Tube: Frei Gilvander luta pela terra e por direitos<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref2\" id=\"_ftn2\">[2]<\/a> Fonte \u201cQ\u201d \u00e9 um Evangelho perdido com ditos e senten\u00e7as proferidas por Jesus. Conclui-se a exist\u00eancia deste Evangelho pela exist\u00eancia de passagens semelhantes nos evangelhos de Mateus e Lucas, mas que n\u00e3o existem no Evangelho de Marcos.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref3\" id=\"_ftn3\">[3]<\/a> Cf. J.DUPONT, <em>Les tentations de J\u00e9sus au d\u00e9sert<\/em>, pp. 43-72.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref4\" id=\"_ftn4\">[4]<\/a> D<em>as evangelium nack Lukas<\/em>, p. 63.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref5\" id=\"_ftn5\">[5]<\/a> Cf. J.DUPONT, <strong>Les tentations de J\u00e9sus au d\u00e9sert<\/strong><em>, <\/em>pp. 113-115.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref6\" id=\"_ftn6\">[6]<\/a> Cf. R. E. BROWN, <strong>CBQ<\/strong> 23 (1961), p. 155.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref7\" id=\"_ftn7\">[7]<\/a> Dt 6,13 faz parte de Dt 6,1-15 e recorda os riscos que exercem os cultos cananeus (cf. Dt 12,30-31; Ex 23,23-33). As rebeli\u00f5es do povo contra Mois\u00e9s (e Deus) \u00e9 um dos temas fortes do Primeiro Testamento: cf. 2Rs 16,3-4; 21,5-6; Jr 7,31; Sal 106 e etc.).<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Lc 4,1-13 \u2013 JESUS N\u00c3O CAI NA TENTA\u00c7\u00c3O DA M\u00c1GICA, NEM DO PODER E NEM DA IDOLATRIA. 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