{"id":14201,"date":"2025-03-04T08:26:32","date_gmt":"2025-03-04T11:26:32","guid":{"rendered":"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/?p=14201"},"modified":"2025-03-04T08:29:20","modified_gmt":"2025-03-04T11:29:20","slug":"lc-41-13-no-deserto-o-aprendizado-do-amor-filial-por-marcelo-barros","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/gilvander.org.br\/site\/lc-41-13-no-deserto-o-aprendizado-do-amor-filial-por-marcelo-barros\/","title":{"rendered":"Lc 4,1-13 &#8211; NO DESERTO, O APRENDIZADO DO AMOR FILIAL. Por Marcelo Barros"},"content":{"rendered":"\n<p><strong>Lc 4,1-13 &#8211;<\/strong> <strong>NO DESERTO, O APRENDIZADO DO AMOR FILIAL<\/strong>. Por Marcelo Barros<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full is-resized is-style-default\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2025\/03\/hqdefault.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-14202\" width=\"700\" height=\"525\" srcset=\"https:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2025\/03\/hqdefault.jpg 480w, https:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2025\/03\/hqdefault-300x225.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 700px) 100vw, 700px\" \/><figcaption>Marcelo Barros, irm\u00e3o, padre, monge e te\u00f3logo da Liberta\u00e7\u00e3o<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>Anualmente, no 1\u00ba Domingo da Quaresma, a Liturgia Latina nos prop\u00f5e meditar no epis\u00f3dio que a tradi\u00e7\u00e3o chama \u201cas tenta\u00e7\u00f5es de Jesus no deserto\u201d. Neste ano C, lemos a vers\u00e3o do Evangelho de Lucas, cap\u00edtulo 4, vers\u00edculos de 1 a 13.<\/p>\n\n\n\n<p>Tenta\u00e7\u00e3o n\u00e3o significa prova a vencer. N\u00e3o \u00e9 como teste, no qual se escolhe entre o bem e o mal. Tenta\u00e7\u00e3o significa a escolha a fazer, em um projeto de vida, diante de duas ou diversas alternativas de caminho.<\/p>\n\n\n\n<p>Conforme os evangelhos, ao se tornar adulto, Jesus se fez disc\u00edpulo do profeta Jo\u00e3o, o Batista. Como profeta, aceitou ser mergulhado (batizado) no rio Jord\u00e3o e fez a mesma travessia que antigamente tinha sido vivida na fronteira pelo povo hebreu que fugia da escravid\u00e3o no Egito, quando, em nome de Deus, entrou na posse da terra prometida para conquist\u00e1-la. Conforme o evangelho, no batismo, atrav\u00e9s das palavras de um verso do Salmo 2, Jesus recebe do pr\u00f3prio Deus a confirma\u00e7\u00e3o: \u201cTu \u00e9s o meu Filho\u201d. Depois de contar o batismo de Jesus, o Evangelho de Lucas desenvolve a genealogia que mostra como Jesus, o novo Ad\u00e3o, se revela filho de Deus, como ser humano e inserido na descend\u00eancia humana. No entanto, para viver a miss\u00e3o de filho de Deus, Jesus tinha de discernir o modo de viver isso. De acordo com a B\u00edblia, no \u00caxodo, o povo hebreu, depois de passar pelas \u00e1guas do Mar Vermelho, para conquistar a liberdade e a terra prometida, precisou atravessar o deserto para aprender a viver a alian\u00e7a de intimidade com Deus e aceitar ser conduzido pelo Esp\u00edrito. Jesus tamb\u00e9m precisou passar por esse mesmo caminho, para aprender a viver a sua miss\u00e3o como profeta. Ele teve de discernir isso na solid\u00e3o interior.<\/p>\n\n\n\n<p>Nos anos 80 do primeiro s\u00e9culo da era comum, os Evangelhos de Mateus, Marcos e Lucas afirmam que foi no deserto que Jesus tomou as decis\u00f5es fundamentais a respeito de como deveria cumprir a sua miss\u00e3o. Mateus conta que Jesus reviveu as dificuldades do antigo povo hebreu e recorreu \u00e0 Palavra de Deus para vencer essas provoca\u00e7\u00f5es. As comunidades crist\u00e3s, \u00e0s quais o Evangelho de Lucas se dirige, n\u00e3o conheciam bem a B\u00edblia judaica. Por isso, esse Evangelho conta as tenta\u00e7\u00f5es de Jesus n\u00e3o apenas como as antigas tenta\u00e7\u00f5es do povo b\u00edblico, mas como se assumisse e vencesse as mesmas tenta\u00e7\u00f5es de toda a humanidade.<\/p>\n\n\n\n<p>Conforme o Evangelho de Lucas, ao sair do rio Jord\u00e3o, isso \u00e9, do batismo, Jesus \u00e9 empurrado ao deserto pelo pr\u00f3prio Esp\u00edrito de Deus. No relato po\u00e9tico desse Evangelho, aquele que divide (o divisor \u2013 em grego, <em>diabolos<\/em>) sempre tenta Jesus com o argumento: \u201cSe voc\u00ea \u00e9 mesmo o filho de Deus\u201d&#8230;<\/p>\n\n\n\n<p>Para o diabo, se Jesus se reconhece como \u201cfilho de Deus\u201d, deve &nbsp;fazer milagre e, assim, mostrar ao mundo a for\u00e7a de Deus. No tempo em que Lucas escreve, v\u00e1rias religi\u00f5es faziam isso e tinham muito poder e prest\u00edgio no meio do povo. Nas pr\u00f3prias Igrejas crist\u00e3s, muita gente pensava que esse seria um bom caminho para a nossa f\u00e9: convencer o povo atrav\u00e9s do milagre e garantir prest\u00edgio e poder para quem \u00e9 de Deus e age em nome de Deus. Entendiam \u201cmilagre\u201d como se fosse fazer algo m\u00e1gico para al\u00e9m do que \u00e9 poss\u00edvel humanamente. Mas milagre n\u00e3o \u00e9 isso.<\/p>\n\n\n\n<p>At\u00e9 hoje, para canonizar algu\u00e9m como exemplo de santidade, o Vaticano exige a comprova\u00e7\u00e3o de tr\u00eas milagres. Se a pessoa \u00e9 mesmo santa, deve fazer milagres. Jesus n\u00e3o pensou assim e disse que Deus n\u00e3o quer isso. O Deus que Jesus acredita n\u00e3o \u00e9 o deus do milagre e do poder. Se fosse esse deus que Jesus testemunhasse como filho, teria suscitado uma religi\u00e3o igual a tantas outras que o imp\u00e9rio romano j\u00e1 oferecia.<\/p>\n\n\n\n<p>Foi no deserto mais profundo da solid\u00e3o interior, onde nem os disc\u00edpulos e disc\u00edpulas o acompanhavam, que Jesus teve de vencer a provoca\u00e7\u00e3o e optar pelo n\u00e3o poder, pelo n\u00e3o milagre e pelo n\u00e3o religioso.&nbsp; Conforme o Evangelho de Lucas, Jesus sempre responde ao diabo com a pr\u00f3pria Palavra de Deus. Assume a inseguran\u00e7a no futuro, tanto para si mesmo, como para a causa que defende. Isso \u00e9 o mais dif\u00edcil para ele. \u00c9 a f\u00e9 como entrega total nas m\u00e3os do Pai que \u00e9 sua vit\u00f3ria na tenta\u00e7\u00e3o. Nesse sentido, Pedro Casald\u00e1liga tinha raz\u00e3o ao afirmar: \u201cMinhas causas s\u00e3o mais importantes do que minha vida\u201d. A causa do reino \u00e9 a causa da vida n\u00e3o apenas minha, mas de todos e todas.<\/p>\n\n\n\n<p>Infelizmente, at\u00e9 hoje, a maioria das pessoas que assumem o poder nas institui\u00e7\u00f5es eclesi\u00e1sticas e muita gente nas Igrejas continuam a acreditar que Jesus cedeu \u00e0s tenta\u00e7\u00f5es e seguiu o caminho proposto por Satan\u00e1s: Fazem como se Jesus tivesse se servido do poder a seu favor para viver a sua miss\u00e3o de salvador do mundo. Alguns chegam a pensar: <em>Sem poder, como vai conseguir fazer alguma coisa? Mostre que faz milagre. O sangue de Jesus tem poder. Conquiste o mundo e a\u00ed, sim, voc\u00ea ser\u00e1 Salvador.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Jesus se sentiu tentado a isso, mas resistiu e venceu a tenta\u00e7\u00e3o. Percebeu que a Palavra de Deus indicava outro caminho: a cruz, isso \u00e9, a doa\u00e7\u00e3o da vida pela inser\u00e7\u00e3o no meio dos pequenos e marginais e a solidariedade aos violentados e exclu\u00eddos.<\/p>\n\n\n\n<p>Para n\u00f3s, a Quaresma n\u00e3o pode constar apenas de ritos lit\u00fargicos. Tem de nos ajudar a retomar o caminho da f\u00e9 como caminho do deserto. Precisamos descobrir que o diabo que tentou Jesus no deserto, n\u00e3o foi um \u201cdeus negativo, do mal e abstrato\u201d, mas foi o ap\u00f3stolo Pedro quando n\u00e3o aceitou que Jesus caminhasse para a cruz. \u201cDiabo\u201d tamb\u00e9m foram os saduceus, sacerdotes e fariseus acumpliciados com os poderes pol\u00edticos e econ\u00f4micos opressores que tentavam impor a Jesus um jeito falso e idol\u00e1trico de viver e conviver. \u201cDiabo\u201d era a pr\u00f3pria Igreja crist\u00e3 se institucionalizando para a qual Mateus, Marcos e Lucas escreveram os evangelhos.<\/p>\n\n\n\n<p>Durante os seus 21 s\u00e9culos de hist\u00f3ria, as Igrejas crist\u00e3s vivem o tempo todo essas tenta\u00e7\u00f5es. Muitas vezes, as hierarquias das Igrejas ca\u00edram nas tenta\u00e7\u00f5es que Jesus tinha vencido. \u00c9 preciso ajudarmos as nossas Igrejas a compreenderem que assumir a cruz como caminho de miss\u00e3o implica em renunciar ao poder e ao status e doar a vida convivendo com as pessoas e povos injusti\u00e7ados e assumindo a causa deles.<\/p>\n\n\n\n<p>Quem n\u00e3o compreende o Cristianismo social e a inser\u00e7\u00e3o em uma espiritualidade libertadora como continuidade do \u00caxodo b\u00edblico e da P\u00e1scoa libertadora n\u00e3o compreende a cruz de Jesus e fica com o Cristianismo que o diabo prop\u00f4s a Jesus. Pregam m\u00e1gica, poder disfar\u00e7ado e idolatria, sendo lobos em pele de cordeiro.<\/p>\n\n\n\n<p>Nesta Quaresma, a CNBB<a href=\"#_ftn1\" id=\"_ftnref1\">[1]<\/a> nos prop\u00f5e como caminho de convers\u00e3o pascal a Campanha da Fraternidade sobre Ecologia Integral. Conforme o evangelho, Jesus superou a tenta\u00e7\u00e3o de usar o poder para mudar a natureza e se impor. Hoje, a humanidade tem de superar o antropocentrismo que pensa o ser humano como centro de tudo. Tem de superar a tenta\u00e7\u00e3o de continuar usando os combust\u00edveis f\u00f3sseis, respons\u00e1veis pelo aquecimento global e Emerg\u00eancia Clim\u00e1tica com sirenes gritando atrav\u00e9s de eventos extremos cada vez mais frequentes e letais. Tem de aceitar o caminho da inser\u00e7\u00e3o amorosa no meio dos pobres. Para Jesus, a ren\u00fancia ao milagre religioso e ao poder o levou \u00e0 Cruz. Hoje, para n\u00f3s, \u00e9 como M\u00e3e-Terra que Jesus se apresenta na cruz e, nesta Quaresma, nossa convers\u00e3o precisa ser convers\u00e3o ecol\u00f3gica e comunh\u00e3o pascal com toda a cria\u00e7\u00e3o divina. Defender os Direitos da Natureza tornou-se uma necessidade para a continuidade da vida humana na nossa \u00fanica Casa Comum, a Terra.<\/p>\n\n\n\n<p><em>Poema- ora\u00e7\u00e3o de Dom Helder Camara:<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Tuas tenta\u00e7\u00f5es s\u00e3o sempre as mesmas<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>mon\u00f3tonas<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>como um velho realejo<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>de u&#8217;a m\u00fasica s\u00f3&#8230;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>As mudan\u00e7as s\u00e3o m\u00ednimas:<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>ao inv\u00e9s de transformar<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>pedra em p\u00e3o,<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>desafias a que transformem<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>p\u00e3o em pedra&#8230;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>nem precisa propor<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>que caiam de joelhos<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>para adorar-Te:<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>\u00e9 a ess\u00eancia do sistema<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>adorar o lucro,<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>tua imagem fidel\u00edssima&#8230;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>n\u00e3o lembras<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>que os Anjos de Deus<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>n\u00e3o deixar\u00e3o<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>que machuquem os p\u00e9s<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>os que por ti<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>se jogam no abismo&#8230;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Na pressa em ter o reino<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>se jogam de qualquer maneira,<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>n\u00e3o raro<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>de cabe\u00e7a para baixo&#8230;&nbsp; (Recife, 10\/11.3.1973)<a href=\"#_ftn2\" id=\"_ftnref2\"><strong>[2]<\/strong><\/a>.<\/em><em><\/em><\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator\"\/>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref1\" id=\"_ftn1\">[1]<\/a> Confer\u00eancia Nacional dos Bispos do Brasil<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref2\" id=\"_ftn2\">[2]<\/a> &#8211; DOM HELDER CAMARA. <strong>111\u00aa Circular (<\/strong>10\/ 11. 3. 1973), in <strong>Circulares p\u00f3s- Conciliares. <\/strong>Volume VI, Tomo III. Recife: CEPA, 2025, pp. 131- 132.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Lc 4,1-13 &#8211; NO DESERTO, O APRENDIZADO DO AMOR FILIAL. 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