{"id":14204,"date":"2025-03-05T13:00:36","date_gmt":"2025-03-05T16:00:36","guid":{"rendered":"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/?p=14204"},"modified":"2025-03-05T13:00:42","modified_gmt":"2025-03-05T16:00:42","slug":"o-brasil-entre-o-livre-mercado-o-extrativismo-e-o-agronegocio-por-antonio-lupo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/gilvander.org.br\/site\/o-brasil-entre-o-livre-mercado-o-extrativismo-e-o-agronegocio-por-antonio-lupo\/","title":{"rendered":"O BRASIL ENTRE O LIVRE MERCADO, O EXTRATIVISMO E O AGRONEG\u00d3CIO \u2013 POR ANTONIO LUPO"},"content":{"rendered":"\n<p><strong>O BRASIL ENTRE O LIVRE MERCADO, O EXTRATIVISMO E O AGRONEG\u00d3CIO \u2013 POR ANTONIO LUPO<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Fonte: Entrevista com Antonio Lupo \u2013 Parte I<br>01.03.25 &#8211; Lorenzo Poli <a href=\"https:\/\/www.pressenza.com\/it\/2025\/01\/brasile-tra-libero-mercato-estrattivismo-e-agrobusiness-intervista-ad-antonio-lupo-parte-i\/\">https:\/\/www.pressenza.com\/it\/2025\/01\/brasile-tra-libero-mercato-estrattivismo-e-agrobusiness-intervista-ad-antonio-lupo-parte-i\/<\/a><\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full is-style-default\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"820\" height=\"615\" src=\"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2025\/03\/Antonio-Lupo.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-14205\" srcset=\"https:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2025\/03\/Antonio-Lupo.jpg 820w, https:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2025\/03\/Antonio-Lupo-300x225.jpg 300w, https:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2025\/03\/Antonio-Lupo-768x576.jpg 768w\" sizes=\"auto, (max-width: 820px) 100vw, 820px\" \/><figcaption>Dr. Antonio Lupo, da it\u00e1lia, amigo do MST e da luta pela Reforma Agr\u00e1ria<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p><strong>O Brasil vive uma crise ecol\u00f3gica e ambiental sem precedentes e as implica\u00e7\u00f5es pol\u00edticas e geopol\u00edticas s\u00e3o mais complicadas do que parecem. Conversamos sobre isso com Antonio Lupo, oncologista e hematologista, ex-m\u00e9dico-chefe assistente do Hospital Niguarda de Mil\u00e3o, membro da M\u00e9dicos pelo Ambiente (ISDE) e do Comitato Amigos Sem Terra Italia.\u00a0\u00a0Ambientalista que atua h\u00e1 muitos anos no Movimento Amigos Sem Terra Brasil de\u00a0 Italia e do Movimento Via Campesina, uma das maiores organiza\u00e7\u00f5es camponesas e ambientais do Sul do Mundo, que conta com mais de 200 milh\u00f5es de agricultores<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><strong>Pergunta: Apesar do fim de Bolsonaro e da vit\u00f3ria de Lula h\u00e1 dois anos, como voc\u00ea v\u00ea o Brasil hoje?<\/strong>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Antonio Lupo:<\/strong> \u201cA situa\u00e7\u00e3o no Brasil \u00e9 dif\u00edcil e complexa. O Brasil \u00e9 um pa\u00eds enorme, com 850 milh\u00f5es de hectares, 27 vezes maior que a It\u00e1lia, com uma popula\u00e7\u00e3o relativamente pequena, 212,5 milh\u00f5es (censo de 2022), e com uma urbaniza\u00e7\u00e3o muito forte de 87,6% (2022).\u00a0\u00a0Nas megal\u00f3poles, as favelas (que n\u00e3o s\u00e3o sub\u00farbios!) dobraram \u2013 de 2010 a 2022 \u2013 de 6 mil para 12 mil, e no mesmo per\u00edodo os habitantes de 6 para mais de 12 milh\u00f5es.<br>Nos dois primeiros anos do governo Lula, a inseguran\u00e7a alimentar grave, que afetava 17,2 milh\u00f5es de brasileiros em 2022, caiu para 2,5 milh\u00f5es, de 8% para 1,2% da popula\u00e7\u00e3o.\u00a0\u00a0O ministro do Desenvolvimento Social e Combate \u00e0 Fome (MDS), Wellington Dias, disse que a renda melhorou: \u201cA renda de todas as pessoas cresceu 11,5% e a renda dos mais pobres cresceu 38,6%\u201d.\u00a0\u00a0A popula\u00e7\u00e3o ativa \u00e9 de 108 milh\u00f5es de pessoas, sendo 43,5% do sexo feminino (dados de 2023 do Calend\u00e1rio Atlante De Agostini 2025), mas o cientista pol\u00edtico Val\u00e9rio Arcary lembrou que \u201ch\u00e1 38 milh\u00f5es de empregos regulares, mesmo que a grande maioria deles sejam empregos mal remunerados. Mas, ao mesmo tempo, estamos testemunhando uma expans\u00e3o da informalidade.\u00a0\u00a0J\u00e1 temos pelo menos 40 milh\u00f5es de pessoas trabalhando no setor informal.\u201d\u00a0\u00a0 Apesar da grande destrui\u00e7\u00e3o causada pelo colonialismo desde o in\u00edcio at\u00e9 hoje e dos fortes efeitos do aquecimento global, o Brasil ainda possui uma enorme riqueza natural, n\u00e3o apenas na Amaz\u00f4nia.\u00a0\u00a0Certamente desempenha um papel fundamental na Am\u00e9rica Latina no setor industrial, especialmente em 3 setores: minera\u00e7\u00e3o, manufatura e servi\u00e7os agroindustriais.\u00a0\u00a0O pa\u00eds explora minerais como ferro, ouro, prata, petr\u00f3leo, carv\u00e3o, estanho e diamantes.\u00a0\u00a0As maiores empresas de minera\u00e7\u00e3o do pa\u00eds \u2013 Anglo American, Vale S\/A e Alcoa \u2013 s\u00e3o todas empresas privadas e multinacionais.\u00a0 A \u00fanica ind\u00fastria ainda estatal\u00a0 \u00e9 a Petrobras, que pretende ser um centro de combust\u00edveis f\u00f3sseis para toda a Am\u00e9rica Latina, mas o Brasil (assim como a \u00c1frica) \u00e9 alvo do extrativismo mineral e agr\u00edcola de todas as grandes pot\u00eancias, incluindo as do BRICS, principalmente a China.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>P: O modelo BRICS \u00e9 com certeza uma alternativa ao unipolarismo atlantista liderado pelos <strong>EUA, mas \u00e9 baseado na exporta\u00e7\u00e3o de mat\u00e9rias-primas em vez da importa\u00e7\u00e3o de tecnologia. Esta \u00e9 realmente uma solu\u00e7\u00e3o para o modelo capitalista e extrativista?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><strong>Antonio Lupo:<\/strong> \u201cO nascimento do BRICS remonta a 2010, quando a \u00c1frica do Sul se juntou ao Grupo BRIC (China, R\u00fassia, \u00cdndia e Brasil), que se expandiu em 2024 para incluir v\u00e1rios pa\u00edses \u2013 Egito, Emirados \u00c1rabes Unidos, Eti\u00f3pia e Ir\u00e3. Em 1\u00ba de janeiro de 2025, mais nove pa\u00edses \u2013 Bielorr\u00fassia, Bol\u00edvia, Cuba, Indon\u00e9sia, Cazaquist\u00e3o, Mal\u00e1sia, Tail\u00e2ndia, Uganda e Uzbequist\u00e3o \u2013 tornaram-se parceiros aguardando a admiss\u00e3o final. Mais quatro pa\u00edses \u2013 Arg\u00e9lia, Nig\u00e9ria, Vietn\u00e3 e Turquia \u2013 foram convidados a aderir. Eles representam aproximadamente 4 bilh\u00f5es de habitantes, ou seja, metade da popula\u00e7\u00e3o do planeta, em um territ\u00f3rio de 40 milh\u00f5es de quil\u00f4metros quadrados.&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Os BRICS atualmente respondem por 41,4% do PIB global, 37% do com\u00e9rcio global e 40% da produ\u00e7\u00e3o global de petr\u00f3leo. Eles certamente n\u00e3o s\u00e3o pa\u00edses anticapitalistas, soberanistas ou antiglobaliza\u00e7\u00e3o: a maioria deles tem um forte extrativismo de mat\u00e9rias-primas minerais (petr\u00f3leo, g\u00e1s, metais, minerais etc.) e de mat\u00e9rias-primas agr\u00edcolas que exportam, mas isso n\u00e3o exclui que alguns deles tenham uma forte inseguran\u00e7a alimentar. Por exemplo, a \u00cdndia, o pa\u00eds com a maior popula\u00e7\u00e3o do mundo, ficou em 111\u00ba lugar entre 125 pa\u00edses no \u00cdndice Global da Fome (GHI) de 2023 e em \u00faltimo lugar no ranking mundial de desnutri\u00e7\u00e3o \u201caguda\u201d entre crian\u00e7as: a taxa \u00e9 de 18,7%. \u00c9 imposs\u00edvel defini-los como \u201cpa\u00edses democr\u00e1ticos\u201d, basta pensar na persist\u00eancia das castas e na ca\u00e7a aos mu\u00e7ulmanos pelo governo hindu-nacionalista de Modi, no regime de Al-Sisi no Egito ou na teocracia no Ir\u00e3. E mesmo do ponto de vista de alian\u00e7as pol\u00edticas, nem todos os pa\u00edses BRICS s\u00e3o anti-EUA, mas concordam apenas com o multipolarismo: isto \u00e9, tentar afrouxar o jugo do monop\u00f3lio do d\u00f3lar sobre os mercados e as finan\u00e7as, que, mais ou menos, continuam sofrendo.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p><strong>P: Qual \u00e9 o papel atual da China no BRICS e, acima de tudo, qual paradigma de desenvolvimento ela est\u00e1 promovendo no Brasil?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>\u00a0<strong>Antonio Lupo:<\/strong> \u201cNa minha opini\u00e3o, a China n\u00e3o \u00e9 uma democracia, mas \u00e9 o \u00fanico Estado-na\u00e7\u00e3o que \u201cgoverna\u201d, ou seja, planeja, decide e se relaciona em parte com suas 22 prov\u00edncias e munic\u00edpios, mantendo-se dentro de uma l\u00f3gica de capitalismo de Estado. Seu papel no BRICS \u00e9 central, inclusive para quebrar a depend\u00eancia dos diversos pa\u00edses do d\u00f3lar como moeda dominante, para o equil\u00edbrio entre sua importa\u00e7\u00e3o de produtos do extrativismo mineral e agr\u00edcola, especialmente dos pa\u00edses da \u00c1frica e da Am\u00e9rica Latina, e as exporta\u00e7\u00f5es e investimentos e a oferta de produtos tecnol\u00f3gicos de diversos n\u00edveis, inclusive muito elevados.<br>Em rela\u00e7\u00e3o ao Brasil, basta lembrar que em 2024 a China importou 69 milh\u00f5es de toneladas de soja transg\u00eanica do Brasil: dois ter\u00e7os das 92 milh\u00f5es de toneladas que o Brasil exportou, de um total de 147 milh\u00f5es produzidas naquele ano (apenas 52 milh\u00f5es foram consumidas no Brasil!).\u00a0E para produzir e exportar soja transg\u00eanica, o Brasil \u2013 que tem o maior consumo de agrot\u00f3xicos do mundo \u2013 utiliza mais de 50% de todos os agrot\u00f3xicos vendidos no mundo.\u00a0\u00a0Os produtos qu\u00edmicos mais utilizados s\u00e3o os herbicidas \u00e0 base de glifosato, mas tamb\u00e9m outros produtos da Syngenta (Su\u00ed\u00e7a &#8211; China), Bayer e BASF (Alemanha), proibidos na Europa.<\/p>\n\n\n\n<p>Tamb\u00e9m s\u00e3o utilizados inseticidas como o Larvin, produzido e vendido pela Bayer Brasil, e que cont\u00e9m o agente nervoso e cancer\u00edgeno Tiodicarbe, proibido na Europa.\u00a0\u00a0No Brasil, de uma \u00e1rea total cultivada de 88 milh\u00f5es de hectares, 44 milh\u00f5es de hectares s\u00e3o destinados ao cultivo de soja transg\u00eanica, principalmente na Amaz\u00f4nia, no Cerrado e no Mato Grosso, de Blairo Maggi, o rei da soja. Em 1992, a soja representou cerca de 8% da safra brasileira. Em 2022, foram produzidas 120 milh\u00f5es de toneladas de soja por ano em 40 milh\u00f5es de hectares, com uma duplica\u00e7\u00e3o da \u00e1rea utilizada em rela\u00e7\u00e3o a 2008, 21,2 milh\u00f5es de hectares, e um aumento de mais de 10 milh\u00f5es de hectares tamb\u00e9m em rela\u00e7\u00e3o a 2015.\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0O Brasil \u00e9 um dos poucos pa\u00edses que exporta para a China muito mais do que importa, com um saldo decididamente positivo: at\u00e9 43,4 bilh\u00f5es de d\u00f3lares em 2021. E isso \u00e9 motivo para receber tratamento especial, diz Andr\u00e9a Curiacos Bertolini, assessora de agricultura do governo brasileiro entre 2019 e 2023, na \u00e9poca de Jair Bolsonaro. \u201cDo ponto de vista estrat\u00e9gico, a China depende do Brasil\u201d, disse ele. \u201cPara os chineses, a alternativa seria comprar dos estadunidenses. Mas por causa da atual guerra comercial eles preferem negociar conosco.\u201d Atualmente, Brasil e China tamb\u00e9m colaboram em projetos para produ\u00e7\u00e3o e utiliza\u00e7\u00e3o no Brasil de tratores e biofertilizantes j\u00e1 produzidos e utilizados na China.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p><strong>O Brasil entre o livre mercado, o extrativismo e o agroneg\u00f3cio<\/strong>. <\/p>\n\n\n\n<p>Entrevista com <strong>Antonio Lupo \u2013 Parte II<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><strong>Fonte<\/strong>: 01.02.25 &#8211; Lorenzo Poli https:\/\/www.pressenza.com\/it\/2025\/02\/brazil-between-free-market<\/p>\n\n\n\n<p>extractivism-and-agrobusiness-entrevista-com-antonio-lupo-parte-ii\/<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Pergunta: Lula \u00e9 certamente um anticorpo ao fascismo e ao imperialismo norte-americano na regi\u00e3o,&nbsp; mas ele n\u00e3o tem uma cultura camponesa e n\u00f3s vemos isso em suas posi\u00e7\u00f5es sobre os acordos de livre com\u00e9rcio entre a UE e o Mercosul. O que est\u00e1 acontecendo?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><strong>Antonio Lupo:<\/strong> Lula (presidente de 2002 at\u00e9 o final de 2010 e de 2023 at\u00e9 o presente) foi metal\u00fargico, sindicalista e um dos fundadores do PT (Partido dos Trabalhadores) em 1982.\u00a0Sempre morou na cidade, mas\u00a0 era sens\u00edvel aos problemas da fome da popula\u00e7\u00e3o e \u00e0 realidade da produ\u00e7\u00e3o agr\u00edcola: um de seus\u00a0 primeiros atos como presidente foi o maravilhoso programa &#8220;FOME ZERO&#8221;, que foi apresentar na\u00a0 ONU. Em maio de 2010, o Programa Mundial de Alimentos (PMA) das Na\u00e7\u00f5es Unidas concedeu a\u00a0 Lula da Silva o t\u00edtulo de \u201ccampe\u00e3o mundial na luta contra a fome\u201d \u00ab Qual \u00e9 o balan\u00e7o social de Lula? \u00bb \u2013 O Mundo Diplom\u00e1tico em Espanhol.\u00a0O Movimento Sem Terra apoiou Lula, mas n\u00e3o obteve grandes resultados para a Reforma Agr\u00e1ria. Menos sens\u00edvel ainda aos problemas da\u00a0 agricultura familiar foi certamente a pr\u00f3xima presidente, Dilma Rousseff, tamb\u00e9m do PT, que foi deposta em um golpe em 2016.<\/p>\n\n\n\n<p>As negocia\u00e7\u00f5es entre a UE e o bloco comercial do Mercosul (que inclui Brasil, Argentina, Uruguai e Paraguai) come\u00e7aram em 2000 e foram conclu\u00eddas em dezembro de 2024, tamb\u00e9m assinadas por Milei, o presidente fascista e anarcocapitalista \u201ctrumpiano\u201d, da Argentina.\u00a0\u00a0O acordo do Mercosul \u00e9 contestado por movimentos populares na Am\u00e9rica Latina, incluindo o MST, por alguns estados europeus, que temem a exporta\u00e7\u00e3o do agroneg\u00f3cio brasileiro (carne bovina, etc.), mas tamb\u00e9m\u00a0 pela Via Campesina Europeia, o movimento ecol\u00f3gico de pequenos agricultores europeus, que faz\u00a0 parte da Via Campesina Internacional, o grande movimento global de 200 milh\u00f5es de pequenos agricultores.<\/p>\n\n\n\n<p>Alguns governos europeus, como o da Fran\u00e7a, se op\u00f5em ao Mercosul por protecionismo, a It\u00e1lia de Meloni \u00e9 amb\u00edgua, pensando em promover produtos feitos na It\u00e1lia, mas&nbsp; os pequenos agricultores sabem bem que o Mercosul \u00e9 uma vit\u00f3ria do agroneg\u00f3cio e da grande distribui\u00e7\u00e3o, que estrangula os pequenos agricultores, como o Parlamento Europeu e sua pol\u00edtica v\u00eam fazendo h\u00e1 muitos anos, com o Programa de Acelera\u00e7\u00e3o do Cresicimento (PAC), que financia 80% dos grandes produtores, do&nbsp; agroneg\u00f3cio e obedece aos produtores europeus de agrot\u00f3xicos.<\/p>\n\n\n\n<p>Lula provavelmente assinou tamb\u00e9m para buscar apoio na Europa e escapar parcialmente do<\/p>\n\n\n\n<p>dom\u00ednio dos EUA, que apoiaram o golpe e o governo do fascista Bolsonaro, mas isso n\u00e3o reverte a expans\u00e3o do agroneg\u00f3cio no Brasil e em toda a Am\u00e9rica Latina.\u00a0\u00a0Devemos ter em mente que no Brasil Lula \u00e9 presidente, mas a maioria dos dois Parlamentos ainda \u00e9 de centro e direita neoliberal. No atual governo Lula, h\u00e1 um ministro da Agricultura, Carlos F\u00e1varo, ex-pecuarista, que sempre esteve ligado ao agroneg\u00f3cio, enquanto Paulo Teixeira \u00e9 ministro do Desenvolvimento\u00a0 Agr\u00e1rio e Agricultura Familiar e \u00e9 do PT. Para concluir\u00a0 um caos enorme!\u201d<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Pergunta<\/strong>: <strong>Embora Lula tenha anunciado a redu\u00e7\u00e3o do desmatamento e pol\u00edticas ambientais s\u00e9rias, <\/strong>i<strong>nfelizmente o Pr\u00e9-Sal continua existindo e a Amaz\u00f4nia continua sendo devastada para dar lugar a monoculturas intensivas nas m\u00e3os de multinacionais que determinam o uso intensivo de pesticidas (incluindo o glifosato), pecuaria intensiva, emiss\u00f5es de gases de efeito estufa, resist\u00eancia aos medicamentos para produtos fitofarmac\u00eauticos aos quais a Natureza inevitavelmente reage. Qual \u00e9 a situa\u00e7\u00e3o hoje?Antonio Lupo:<\/strong> \u201cO desmatamento na Amaz\u00f4nia nestes 2 anos de governo Lula, com o objetivo de &#8220;desmatamento zero at\u00e9 2030&#8221;, para, entre outras coisas, &#8220;estocar&#8221; 6 bilh\u00f5es de toneladas de CO2 (uma fatia maior que as emiss\u00f5es anuais dos Estados Unidos) <strong>diminuiu 30,6% em rela\u00e7\u00e3o a 2023 e 45,7% em rela\u00e7\u00e3o a 2022, <\/strong>no Pantanal em 77,2 e no Cerrado em 48,4% em 2023 em rela\u00e7\u00e3o a 2024. O verdadeiro\u00a0 desafio, para o Brasil que coloca o meio ambiente no centro, estar\u00e1 ent\u00e3o em conciliar os objetivos de conserva\u00e7\u00e3o com os planos decenais de &#8220;reindustrializa\u00e7\u00e3o&#8221; do pa\u00eds.<\/p>\n\n\n\n<p>Recentemente, surgiram protestos entre comunidades ind\u00edgenas do Mato Grosso e do Par\u00e1 contra a constru\u00e7\u00e3o da ferrovia EF-170 ou \u201cFerrogr\u00e3o\u201d (tamb\u00e9m chamada de \u201cferrovia da soja\u201d, devido<\/p>\n\n\n\n<p>ao uso comercial a que se destinam os quase mil quil\u00f4metros de infraestrutura), que dever\u00e1<\/p>\n\n\n\n<p>destruir 25.000 hectares de floresta tropical entre as bacias do Xingu e do Tapaj\u00f3s.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Os problemas mais graves e importantes s\u00e3o a seca, os inc\u00eandios, 98% dos quais s\u00e3o provocados por pecuaristas para desmatar florestas,<\/strong> e a degrada\u00e7\u00e3o, que j\u00e1 afeta uma \u00e1rea tr\u00eas vezes maior do que a afetada pelo desmatamento.\u00a0\u00a0<strong>O Brasil \u00e9 o maior exportador mundial de carne bovina. A pecu\u00e1ria intensiva e os matadouros industriais tamb\u00e9m s\u00e3o respons\u00e1veis por mais de 80% do desmatamento em seu territ\u00f3rio. <\/strong>O WWF afirma que um quinto (17%) da carne bovina importada do Brasil para a Uni\u00e3o Europeia est\u00e1 ligada ao desmatamento ilegal. Com mais de 1 milh\u00e3o de toneladas,<strong> a It\u00e1lia \u00e9 o maior importador europeu de carne bovina do Brasil,<\/strong> tamb\u00e9m usada para fazer produtos como a Bresaola della Valtellina IGP. No Brasil as principais fontes de energia s\u00e3o: energia hidrel\u00e9trica, petr\u00f3leo, carv\u00e3o ebiocombust\u00edveis, al\u00e9m de outras fontes utilizadas em menor escala, como g\u00e1s natural e energia nuclear. Energia hidr\u00e1ulica. 75% da energia el\u00e9trica produzida no Brasil vem de usinas<\/p>\n\n\n\n<p>hidrel\u00e9tricas, que representam 42% da matriz energ\u00e9tica brasileira<strong>.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><strong>O pr\u00e9-sal \u00e9 outro grande problema. <\/strong>A Petrobras descobriu o Pr\u00e9-Sal em 2006, o que abriu um novo cap\u00edtulo na hist\u00f3ria energ\u00e9tica do Brasil, tornando-o um dos maiores produtores de petr\u00f3leo do mundo.\u00a0\u00a0<strong>O Pr\u00e9-Sal atingiu 81% de participa\u00e7\u00e3o na produ\u00e7\u00e3o nacional de petr\u00f3leo em setembro de\u00a0 2024,<\/strong> com recorde de 3,6 milh\u00f5es de barris produzidos por dia. Mas onde est\u00e1 o Pr\u00e9-Sal?\u00a0\u00a0A \u00e1rea foi definida por um pol\u00edgono de 149 mil km\u00b2, entre os estados de Santa Catarina e Esp\u00edrito Santo, que inclui grande parte das bacias de Santos e Campos, as maiores bacias produtivas do pa\u00eds. <strong>O campo de petr\u00f3leo est\u00e1 localizado em \u00e1guas muito profundas, at\u00e9 7 mil metros abaixo da superf\u00edcie. <\/strong>Evidentemente,<strong> o Pr\u00e9-Sal \u00e9 uma viol\u00eancia horr\u00edvel ao mar e aos oceanos, que s\u00e3o 70% da superf\u00edcie do globo, que absorvem gases de efeito estufa junto com o fitopl\u00e2ncton, contrastante o aquecimento global de origem antr\u00f3pica, ou seja, eles s\u00e3o os verdadeiros donos do Planeta, <\/strong>juntamente com a atmosfera.\u00a0\u00a0Lula sempre foi favor\u00e1vel ao Pr\u00e9-Sal, como motor do desenvolvimento do Brasil e da Am\u00e9rica Latina, e no ano passado tamb\u00e9m se declarou favor\u00e1vel \u00e0 extra\u00e7\u00e3o de petr\u00f3leo na costa da Amaz\u00f4nia, no litoral do estado do Amap\u00e1, em contraste com a posi\u00e7\u00e3o de Marina Silva e do Minist\u00e9rio do Meio Ambiente, que manifestaram &#8220;preocupa\u00e7\u00e3o&#8221; com os poss\u00edveis riscos ambientais.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p><strong>O Brasil entre o livre mercado, o extrativismo e o agroneg\u00f3cio. Entrevista com<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><strong>Antonio Lupo \u2013 Parte III 02.02.25<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><strong>Fonte: &#8211; <\/strong>https:\/\/www.pressenza.com\/it\/2025\/02\/brasil-entre-o-extrativismo-de-livre-mercado-eo<\/p>\n\n\n\n<p>agroneg\u00f3cio-entrevista-com-antonio-lupo-parte-iii\/<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Pergunta: Voc\u00ea acha que h\u00e1 um problema de reflex\u00e3o na esquerda brasileira para entender essa<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><strong>situa\u00e7\u00e3o pol\u00eamica?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><strong>Antonio Lupo:<\/strong> \u201cN\u00e3o consigo fazer uma an\u00e1lise aprofundada. Se nos referirmos aos partidos de esquerda, PSOL e PT, acho que eles n\u00e3o est\u00e3o em grande forma. Nas elei\u00e7\u00f5es municipais de 2024, 78% dos cidad\u00e3os votaram (muito mais do que na It\u00e1lia e na Europa!), mas a esquerda n\u00e3o se saiu bem porque os projetos de mudan\u00e7a \u2013 n\u00e3o de \u201cdesenvolvimento\u201d \u2013 n\u00e3o s\u00e3o claros em uma na\u00e7\u00e3o pobre e ainda \u201ccolonial\u201d, onde a exporta\u00e7\u00e3o de mat\u00e9rias-primas e a urbaniza\u00e7\u00e3o ainda prevalecem. Na realidade, a vida \u00e9 mais do que pobre, ela n\u00e3o tende a diminuir, na verdade, ela cresceu um ponto nos \u00faltimos 15 anos. No plano social e de movimentos, h\u00e1 uma grande variedade no Brasil, mas <strong>talvez faltem objetivos unificadores que abordem o principal problema do mundo inteiro, a crise das cidades tanto na socialidade quanto na produ\u00e7\u00e3o de trabalho<\/strong> em um mundo dominado pelo capitalismo financeiro, robotizado e ultradigitalizado.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Pergunta: O Movimento Sem Terra e a Via Campesina t\u00eam como pilares a luta pela Soberania<\/strong> <strong>Alimentar, o cuidado da Terra, a agricultura camponesa e natural; mas hoje parece que o Brasil est\u00e1 indo na dire\u00e7\u00e3o oposta: expuls\u00e3o progressiva dos camponeses e redu\u00e7\u00e3o de sua for\u00e7a de trabalho em poucos anos. Qual \u00e9 a situa\u00e7\u00e3o hoje e em que dire\u00e7\u00e3o voc\u00ea acha que n\u00f3s, como movimentos, devemos avan\u00e7ar?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><strong>Antonio Lupo:<\/strong> \u201cO Movimento Sem Terra comemorou seu 40\u00ba anivers\u00e1rio no ano passado.\u00a0\u00a0O Congresso Nacional n\u00e3o foi realizado (o anterior foi em 2014, 10 anos antes), devido \u00e0 trag\u00e9dia das enchentes no Rio Grande do Sul causadas por violentas correntes de ar vindas da Amaz\u00f4nia desmatada at\u00e9 o Atl\u00e2ntico, que comprometeram principalmente as colheitas de arroz, alimento fundamental para todos os brasileiros, al\u00e9m das enchentes.<strong>\u00a0Lamento dizer isso, mas me parece que o MST fala de Agroecologia <\/strong>\u2013 <strong>termo que, a meu ver, muitas vezes \u00e9 gen\u00e9rico<\/strong> \u2013,<strong> mas muito menos de Soberania\u00a0 Alimentar<\/strong> (termo do qual Meloni se apropriou falsamente ao acrescent\u00e1-lo \u00e0 defini\u00e7\u00e3o do Minist\u00e9rio da Agricultura). No \u00faltimo Congresso Nacional do MST, em 2014, em Bras\u00edlia, do qual participamos, a perspectiva do movimento foi definida como &#8220;Reforma Agr\u00e1ria Popular&#8221;, ou seja, era necess\u00e1ria uma forte alian\u00e7a entre agricultores e popula\u00e7\u00e3o da cidade, pois os pequenos agricultores sozinhos n\u00e3o conseguem resistir ao poder excessivo do agroneg\u00f3cio multinacional e, portanto, n\u00e3o produzem alimentos saud\u00e1veis e sustent\u00e1veis para os cidad\u00e3os.<\/p>\n\n\n\n<p>Admitiu-se, portanto, uma situa\u00e7\u00e3o dif\u00edcil, documentada pela diminui\u00e7\u00e3o cont\u00ednua da for\u00e7a de trabalho do setor prim\u00e1rio, ou seja, dos agricultores, de 16% do total em 2008 para 8% em 2023. Dez anos depois, em vista do Congresso Nacional do MST que ocorrer\u00e1 em 2025, em um artigo do Jornal Brasil de Fato, de 4 de janeiro de 2025, podemos ler as declara\u00e7\u00f5es de algumas das mais destacadas lideran\u00e7as do MST.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Segundo Jo\u00e3o Pedro Stedile, a agenda da reforma agr\u00e1ria est\u00e1 \u201cparalisada\u201d<\/strong>, sem que o governo tenha feito uma \u00fanica desapropria\u00e7\u00e3o nos \u00faltimos dois anos. O l\u00edder dos Sem Terra afirma que o governo est\u00e1 \u201cbloqueado\u201d.\u00a0\u00a0<strong>Jo\u00e3o Paulo Rodrigues, outra lideran\u00e7a nacional do movimento, disse que \u201cpelo menos 65 mil fam\u00edlias vivem acampadas,\u00a0 esperando a regulariza\u00e7\u00e3o de seus territ\u00f3rios.<\/strong> Queremos a coloca\u00e7\u00e3o de 65 mil fam\u00edlias do MST. N\u00e3o aceitamos nada menos.&#8221; O ministro Teixeira, do MDA, prometeu a desapropria\u00e7\u00e3o de cinco\u00a0 \u00e1reas onde est\u00e3o localizados acampamentos do MST. O movimento chegou a pressionar o\u00a0 presidente Lula a assinar os decretos antes do Natal, o que n\u00e3o ocorreu. <strong>No documento final da Coordena\u00e7\u00e3o Nacional do MST, elaborado por 400 gestores, em 24 de janeiro de 2025,<\/strong> consta que:<\/p>\n\n\n\n<ol class=\"wp-block-list\" type=\"1\"><li>O atual momento da pol\u00edtica neoliberal vigente no Brasil tem aprofundado a barb\u00e1rie, nas diversas vertentes da viol\u00eancia contra a classe trabalhadora no campo e nas cidades.<\/li><li>No campo h\u00e1 uma paralisa\u00e7\u00e3o da Reforma Agr\u00e1ria, devido \u00e0 desnacionaliza\u00e7\u00e3o das terras brasileiras, \u00e0 privatiza\u00e7\u00e3o dos bens naturais que alimenta o projeto de morte da atividade agro<\/li><\/ol>\n\n\n\n<p>hidro-mineral, com consequente crise ambiental &#8211; que se expressa nos territ\u00f3rios e em n\u00edvel global<\/p>\n\n\n\n<p>3- Devemos nos comprometer a produzir alimentos saud\u00e1veis para todos os brasileiros, massificar a agroecologia, respeitar a diversidade dos biomas, combater os agrot\u00f3xicos e fortalecer a coopera\u00e7\u00e3o e a agroindustrializa\u00e7\u00e3o para organizar a experi\u00eancia coletiva na produ\u00e7\u00e3o, no trabalho e nas rela\u00e7\u00f5es humanas. Tudo com que concordo, mas me parece que faltam duas refer\u00eancias fundamentais, dois lados da mesma moeda: a Soberania Alimentar e a propriedade e qualidade das SEMENTES. Quando no Brasil 2\/3 das terras s\u00e3o utilizadas para o cultivo de soja e milho transg\u00eanicos \u2013 para fazendas intensivas europeias e principalmente chinesas \u2013 e cada vez menos terras s\u00e3o utilizadas para o cultivo de feij\u00e3o (alimento b\u00e1sico e de alto custo), enquanto a comida lixo (junk food), por custar pouco, se torna acess\u00edvel a todos e torna as crian\u00e7as pobres obesas; podemos dizer que existe Soberania Alimentar? E se os agricultores n\u00e3o possuem as sementes para produzir alimentos locais e de sazonal para vender diretamente, o que significa a palavra Agroecologia?\u00a0\u00a0Como Stedile afirmou, precisamos retomar a terra do agroneg\u00f3cio e come\u00e7ar a cultiv\u00e1-la novamente, com muitos\u00a0 agricultores, certamente tamb\u00e9m com alguma tecnologia sustent\u00e1vel (pequenos tratores).\u201d<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Pergunta: Que dire\u00e7\u00e3o os movimentos altermundialistas de esquerda devem tomar? Ainda \u00e9 muito<\/strong> <strong>ut\u00f3pico pedir para falar sobre ecologia social?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><strong>Antonio Lupo:<\/strong> \u201cRespondo citando um trecho de um artigo de Gilmar Mauro, lideran\u00e7a do MST: \u201cComo solu\u00e7\u00e3o, al\u00e9m de termos de plantar 80 milh\u00f5es de hectares de \u00e1rvores para capturar rapidamente o CO2, \u00e9 preciso repensar o consumo e, consequentemente, todo o setor \u2013 com especial destaque para a aten\u00e7\u00e3o \u00e0 constru\u00e7\u00e3o civil \u2013 para abolir as emiss\u00f5es de gases de efeito estufa. Precisamos repensar\u00a0 as cidades, os transportes, a cultura alimentar \u2013 \u00e9 poss\u00edvel alimentar toda a humanidade de forma agroecol\u00f3gica \u2013 nas mesmas agroflorestas, com tecnologias adequadas, aliando a conserva\u00e7\u00e3o da\u00a0 natureza a rela\u00e7\u00f5es de trabalho justas e democr\u00e1ticas. Isso significa transformar o territ\u00f3rio e os recursos naturais em patrim\u00f4nio p\u00fablico coletivo, com reforma agr\u00e1ria popular e reforma urbana. Significa descentralizar a ocupa\u00e7\u00e3o do solo, desdensificando grandes centros urbanos. O que\u00a0 inevitavelmente implica que temos que fazer uma revolu\u00e7\u00e3o. \u00c9 a \u00fanica alternativa que temos. N\u00e3o s\u00f3 com o confisco dos meios de produ\u00e7\u00e3o \u2013 como historicamente defendemos \u2013 mas agora com novos paradigmas tecnol\u00f3gicos e ocupa\u00e7\u00e3o do territ\u00f3rio para viver uma nova cultura, com outras\u00a0 formas de sociabilidade e felicidade.\u201d<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O BRASIL ENTRE O LIVRE MERCADO, O EXTRATIVISMO E O AGRONEG\u00d3CIO \u2013 POR ANTONIO LUPO Fonte: Entrevista com Antonio Lupo \u2013 Parte I01.03.25 &#8211; Lorenzo Poli https:\/\/www.pressenza.com\/it\/2025\/01\/brasile-tra-libero-mercato-estrattivismo-e-agrobusiness-intervista-ad-antonio-lupo-parte-i\/ O Brasil vive uma crise ecol\u00f3gica e ambiental<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":14205,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[21,22,38,27,30,56,29,43],"tags":[],"class_list":["post-14204","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-artigo","category-cebs-comunidades-eclesiais-de-base","category-direito-a-saude","category-direitos-humanos","category-fe-e-politica","category-meio-ambiente","category-movimentos-sociais-populares","category-pedagogia-emancipatoria"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/14204","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=14204"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/14204\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":14206,"href":"https:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/14204\/revisions\/14206"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media\/14205"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=14204"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=14204"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=14204"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}