{"id":14279,"date":"2025-03-28T17:45:42","date_gmt":"2025-03-28T20:45:42","guid":{"rendered":"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/?p=14279"},"modified":"2025-03-28T17:45:47","modified_gmt":"2025-03-28T20:45:47","slug":"para-regressarmos-ao-bem-viver-do-amor-lc-151-3-11-32-por-marcelo-barros","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/gilvander.org.br\/site\/para-regressarmos-ao-bem-viver-do-amor-lc-151-3-11-32-por-marcelo-barros\/","title":{"rendered":"Para regressarmos ao bem-viver do Amor (Lc 15,1-3.11\u201332) \u2013 Por Marcelo Barros"},"content":{"rendered":"\n<p><strong>Para regressarmos ao bem-viver do Amor (Lc 15,1-3.11\u201332)<\/strong> \u2013 Por Marcelo Barros<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full is-resized\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2025\/03\/mqdefault.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-14280\" width=\"784\" height=\"441\" srcset=\"https:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2025\/03\/mqdefault.jpg 320w, https:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2025\/03\/mqdefault-300x169.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 784px) 100vw, 784px\" \/><figcaption>Padre e monge Marcelo Barros. Reprodu\u00e7\u00e3o Redes Virtuais<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>Neste 4\u00ba domingo da Quaresma (ano C), a par\u00e1bola de Jesus sobre o Pai que nos ama com amor maternal (Lc 15, 1 \u2013 3 e 11 &#8211; 32) nos convida ao caminho da solidariedade amorosa. Conforme este evangelho, tudo come\u00e7a por uma acusa\u00e7\u00e3o que os religiosos do templo (escribas e fariseus) fazem a Jesus. Ele \u00e9 acusado de viver no meio de gente pecadora e de vida errada, com a qual, conforme os crit\u00e9rios religiosos, n\u00e3o se deveria conviver. Pior ainda: Jesus cultiva rela\u00e7\u00e3o pr\u00f3xima e come com essas pessoas consideradas de m\u00e1 vida.<\/p>\n\n\n\n<p>Nas culturas antigas, as refei\u00e7\u00f5es eram os momentos sociais mais importantes, atrav\u00e9s dos quais ficava claro quem era quem e de que lado as pessoas estavam. Comer juntos significava identifica\u00e7\u00e3o profunda entre as pessoas que partilhavam a mesma mesa. Nesse contexto, comer publicamente com pecadores e publicamos era verdadeiro esc\u00e2ndalo. Jesus fazia isso. Para os religiosos fundamentalistas e moralistas, essa conduta de Jesus era chocante e inaceit\u00e1vel. Significava trair os valores da tradi\u00e7\u00e3o religiosa. Jesus justifica o seu comportamento, afirmando: o amor de Deus \u00e9 assim! Eu fa\u00e7o isso porque \u00e9 assim que Deus se coloca: junto com os pequenos e marginalizados.<\/p>\n\n\n\n<p>Para explicar isso aos religiosos, escandalizados com o seu comportamento considerado imoral, Jesus conta tr\u00eas par\u00e1bolas:<\/p>\n\n\n\n<p>1\u00ba &#8211; a do pastor que deixa as 99 ovelhas no abrigo e sai em busca de uma \u00fanica ovelha perdida (Lc 15, 4- 7);<\/p>\n\n\n\n<p>2\u00ba &#8211; a da mulher que procura a moeda perdida at\u00e9 encontr\u00e1-la (Lc 15, 8- 10);<\/p>\n\n\n\n<p>3\u00ba &#8211; Finalmente a do pai misericordioso que age como m\u00e3e carinhosa (Lc 15, 11- 32).<\/p>\n\n\n\n<p>Nessa terceira par\u00e1bola, Jesus explica o seu comportamento dizendo que age assim, porque Deus \u00e9 assim e sempre atua desse modo. Jesus revela que Deus \u00e9 como uma mulher pobre que sempre acolhe o filho ou filha e o\/a protege, incondicionalmente, seja em que situa\u00e7\u00e3o for.<\/p>\n\n\n\n<p>Em seu livro: \u201cA volta do filho pr\u00f3digo\u201d, o espiritual holand\u00eas Henri Nouwen conta que, no Marrocos, na \u00cdndia e na Turquia, algu\u00e9m fez uma pesquisa, na qual perguntava se, naquelas culturas, seria admiss\u00edvel algu\u00e9m fazer um pedido daqueles ao pai: \u201c<em>quero a parte da heran\u00e7a que me cabe\u201d.<\/em> Todas as pessoas respondiam que isso seria imposs\u00edvel.<\/p>\n\n\n\n<p>As pessoas explicavam: <em>Pedir a heran\u00e7a \u00e9 como pedir a morte do pai.<\/em> O filho est\u00e1 praticamente dizendo: <em>Pai, eu n\u00e3o posso esperar que voc\u00ea morra para gozar da parte da heran\u00e7a que me cabe. J\u00e1 que voc\u00ea n\u00e3o morre, ao menos morra para mim. Embora voc\u00ea n\u00e3o tenha morrido, passe logo a heran\u00e7a que s\u00f3 seria minha depois da sua morte.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>O evangelho diz que o pai reparte tudo que tinha entre os dois filhos. Fica legalmente sem nada, como se j\u00e1 estivesse morto. N\u00e3o tem mais nenhum papel social. Continua vivo, mas como se estivesse morto e, nesse caso, morto pelo pr\u00f3prio filho<a href=\"#_ftn1\" id=\"_ftnref1\">[1]<\/a>. A teologia fala do esvaziamento de Jesus (<em>kenosis<\/em>, em grego) na encarna\u00e7\u00e3o e na cruz. Mas, essa par\u00e1bola fala de que o pr\u00f3prio Pai aceita se esvaziar \u2013 n\u00e3o ter mais nada. O que lhe importa mesmo \u00e9 que os seus filhos e filhas vivam e transformem o mundo em lugar de amor.<\/p>\n\n\n\n<p>Conforme a par\u00e1bola, o filho n\u00e3o \u00e9 feliz na sua aventura. Acaba obrigado a voltar \u00e0 casa do pai. Ele n\u00e3o volta porque se arrependeu do que fez, ou porque est\u00e1 com saudade do pai, ou ainda porque pense que o pai pode precisar dele. Ele continua ego\u00edsta e autocentrado. N\u00e3o se converte. Decide voltar porque est\u00e1 com fome e sabe que na casa do pai ter\u00e1 cama e comida. Para o pai, pouco importa se o filho voltou por interesse pr\u00f3prio, ou por necessidade. O importante \u00e9 que voltou. Jesus n\u00e3o justifica que se une \u00e0s pessoas de m\u00e1 vida ou pecadoras, porque essas est\u00e3o arrependidas, ou porque v\u00e3o mudar de vida. Junta-se a elas, porque o Pai as ama e corre ao encontro delas, assim que as v\u00ea se aproximarem dele, mesmo que a motiva\u00e7\u00e3o seja meramente interesseira. A \u00fanica coisa que importa a\u00ed \u00e9 o amor do Pai.<\/p>\n\n\n\n<p>Ao voltar \u00e0 casa, o filho pr\u00f3digo tem consci\u00eancia de que n\u00e3o tem mais nenhum direito,&nbsp; porque, ao pedir a parte da heran\u00e7a, tinha realmente perdido direito a mais heran\u00e7a. \u201c<em>N\u00e3o mere\u00e7o ser chamado de filho. Trata-me como a dos teus empregados<\/em>\u201d (Lc 15,19). Isso \u00e9 o que ele pedia e esperava. Mas, o pai nem o deixa falar. Restitui a ele a condi\u00e7\u00e3o de filho. Gratuitamente.<\/p>\n\n\n\n<p>Para acolher em casa o filho que havia partido e se tinha perdido, o Pai assume o conflito com o filho mais velho que aparenta ser bom, honesto e sempre ficou do lado do pai. Do mesmo modo, para se solidarizar com as pessoas desviadas e tidas como pecadoras, Jesus precisou se afastar dos c\u00edrculos religiosos, romper com os conventos das pessoas que vivem falando de Deus 24 horas por dia. Jesus diz que os religiosos se comportam como o filho mais velho. Mant\u00eam com Deus uma rela\u00e7\u00e3o institucional e baseada na lei. Pensam agradar a Deus, o servindo no culto, na casa. Ocorre que Deus n\u00e3o quer ser servido em si mesmo e sim na vida e no bem das pessoas, especialmente das que se desviaram do caminho. Temos de nos colocar nesse cuidado com os outros\/as para participar da festa de Deus no seu reino que come\u00e7a aqui e agora.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>O projeto divino \u00e9 esse: ser atra\u00eddo pela miseric\u00f3rdia maternal de Deus e, por pura gra\u00e7a, voltar a outro tipo de rela\u00e7\u00e3o \u2013 sem contabilidade do perde e ganha \u2013 sem se basear em direitos e sim na festa pascal do amor.<\/p>\n\n\n\n<p>A convers\u00e3o consiste em passar de uma rela\u00e7\u00e3o com Deus, antes baseada no direito de heran\u00e7a do filho para uma volta ao conv\u00edvio com um Deus esvaziado e anulado que se preocupa apenas que os seus filhos e filhas vivam dignamente. De fato, muitas vezes, as religi\u00f5es e Igrejas ainda insistem demais na culpabilidade e na consci\u00eancia do pecado das pessoas. A par\u00e1bola de Jesus insiste muit\u00edssimo mais na festa e na alegria divina: \u201c<em>\u00c9 preciso nos alegrar porque ele estava morto e reviveu. Estava perdido e foi reencontrado<\/em>\u201d (Lc 15,24).<\/p>\n\n\n\n<p>A Campanha da Fraternidade de 2025 nos mostra que na realidade do mundo atual mais uma vez somos n\u00f3s, filhos e filhos da M\u00e3e-Terra, que nos apoderamos da heran\u00e7a sem nos dar conta de que assim a matamos n\u00e3o apenas para n\u00f3s e sim para todos os seres vivos. Do mesmo modo como o Pai dessa par\u00e1bola que meditamos hoje, a M\u00e3e-Terra nos acolhe de novo e nos recoloca na condi\u00e7\u00e3o de filhos e filhas da grande fam\u00edlia da Vida. Voltemos a esse conv\u00edvio amoroso a partir da justi\u00e7a socioambiental com a humanidade v\u00edtima do Capitalismo, com a M\u00e3e-Terra, com toda a natureza e com o Pai de amor maternal que se apresenta a n\u00f3s na comunh\u00e3o do universo. \u00c9 P\u00e1scoa. \u00c9 tempo de convers\u00e3o ecossocial.<\/p>\n\n\n\n<p>Na MPB encontramos essa composi\u00e7\u00e3o do Chico C\u00e9sar que tem rela\u00e7\u00e3o com o evangelho que meditamos hoje:<\/p>\n\n\n\n<p><em>Deus me proteja de mim<br>E da maldade de gente boa<br>Da bondade da pessoa ruim<br>Deus me governe e guarde, ilumine e zele assim<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Caminho se conhece andando<br>Ent\u00e3o vez em quando \u00e9 bom se perder<br>Perdido fica perguntando<br>Vai s\u00f3 procurando<br>E acha sem saber<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Perigo \u00e9 se encontrar perdido<br>Deixar sem ter sido<br>N\u00e3o olhar, n\u00e3o ver<br>Bom mesmo \u00e9 ter sexto sentido<br>Sair distra\u00eddo, espalhar bem-querer<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Deus me proteja de mim<br>E da maldade de gente boa<br>Da bondade da pessoa ruim<br>Deus me governe e guarde, ilumine e zele assim<\/em><\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator\"\/>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref1\" id=\"_ftn1\">[1]<\/a> &#8211; KENETH BAILEY, <strong>Poet and peasant and through peassant eyes, (<\/strong>1983), citado por HENRI NOUWEN, <strong>A Volta do Filho Pr\u00f3digo, <\/strong>S\u00e3o Paulo, Paulinas, 13\u00aa ed. 2004, p. 40.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Para regressarmos ao bem-viver do Amor (Lc 15,1-3.11\u201332) \u2013 Por Marcelo Barros Neste 4\u00ba domingo da Quaresma (ano C), a par\u00e1bola de Jesus sobre o Pai que nos ama com amor maternal (Lc 15, 1<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":14280,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[21,22,44,27,30,43,26],"tags":[],"class_list":["post-14279","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-artigo","category-cebs-comunidades-eclesiais-de-base","category-direito-a-memoria","category-direitos-humanos","category-fe-e-politica","category-pedagogia-emancipatoria","category-teologia-da-libertacao"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/14279","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=14279"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/14279\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":14281,"href":"https:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/14279\/revisions\/14281"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media\/14280"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=14279"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=14279"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=14279"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}