{"id":14286,"date":"2025-04-02T07:57:12","date_gmt":"2025-04-02T10:57:12","guid":{"rendered":"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/?p=14286"},"modified":"2025-04-02T16:52:38","modified_gmt":"2025-04-02T19:52:38","slug":"14286-2","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/gilvander.org.br\/site\/14286-2\/","title":{"rendered":"A gra\u00e7a para al\u00e9m da lei (Jo 8,1-11) \u2013 Por Marcelo Barros"},"content":{"rendered":"\n<p><strong>A gra\u00e7a para al\u00e9m da lei (<\/strong>Jo 8,1-11) <strong>\u2013<\/strong> Por Marcelo Barros<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full is-resized\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2025\/04\/635befce6111b.marcelo-barros-foto-livro.default.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-14287\" width=\"779\" height=\"779\" srcset=\"https:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2025\/04\/635befce6111b.marcelo-barros-foto-livro.default.jpg 320w, https:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2025\/04\/635befce6111b.marcelo-barros-foto-livro.default-300x300.jpg 300w, https:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2025\/04\/635befce6111b.marcelo-barros-foto-livro.default-150x150.jpg 150w\" sizes=\"auto, (max-width: 779px) 100vw, 779px\" \/><\/figure>\n\n\n\n<p>Nesse 5\u00ba domingo da Quaresma (ano C), lemos no evangelho o encontro de Jesus com uma mulher que, como diz o evangelho, foi surpreendida em flagrante de adult\u00e9rio. (Jo\u00e3o 8, 1 &#8211; 11). Embora essa cena n\u00e3o se encontre nos manuscritos mais antigos do evangelho, desde a antiguidade, a hist\u00f3ria da mulher ad\u00faltera continua o cap\u00edtulo 7 de Jo\u00e3o, cuja cena se passa no contexto da festa das Tendas. O espa\u00e7o \u00e9 o templo de Jerusal\u00e9m e acontece de manh\u00e3 bem cedo, de madrugada. O fato de que a cena aconte\u00e7a no templo \u00e9 muito significativa. O templo de Deus que deveria ser o local da renova\u00e7\u00e3o da alian\u00e7a do Amor Divino com o seu povo e sinal da presen\u00e7a divina para proteger os seus filhos e filhas se tornou local de julgamento e condena\u00e7\u00e3o das pessoas consideradas pecadoras.<\/p>\n\n\n\n<p>Na \u00e9poca de Jesus, os escribas e fariseus eram considerados os s\u00e1bios da comunidade de Israel e se colocavam como guardi\u00f5es da lei. Conforme essa lei, o adult\u00e9rio era considerado pecado grave e castigado com pena de morte (Lv 20, 10 e Dt 22, 22). No entanto, conforme a lei os dois, homem e mulher, deveriam ser punidos,<\/p>\n\n\n\n<p>Aqui nessa cena, os escribas e fariseus s\u00f3 trazem a mulher e dizem que a lei manda matar a mulher. E o homem ad\u00faltero? Eles absolveram? O pecado cometido por um homem e uma mulher, agora \u00e9 julgado por um grupo de homens que insistem em condenar apenas a mulher. Injusto e hipocrisia. O texto ressalta que os religiosos do templo querem a todo custo condenar Jesus&nbsp; e fazem isso n\u00e3o com armas. Ao contr\u00e1rio, servem-se do que h\u00e1 de mais sagrado: a pr\u00f3pria lei considerada como revelada por Deus.<\/p>\n\n\n\n<p>O texto deixa claro que os doutores da lei e os fariseus pouco se importavam com a mulher que apanharam praticando adult\u00e9rio e trouxeram a Jesus. Ela servia apenas como arma para que os religiosos pudessem pegar Jesus e o acusar perante o sin\u00e9drio. Se ele a defendesse, eles poderiam acus\u00e1-lo de ser contra a lei de Mois\u00e9s. Os religiosos usam a lei de Deus para matar a mulher e, ao mesmo tempo, para acusar Jesus como desrespeitador da lei. Infelizmente, essa distor\u00e7\u00e3o terr\u00edvel da f\u00e9 e da religi\u00e3o acontece at\u00e9 hoje, nas nossas Igrejas, inclusive.<\/p>\n\n\n\n<p>A lei de Deus se insere nas culturas humanas e por isso assume costumes humanos, que na \u00e9poca e hoje nem sempre s\u00e3o os mais abertos e respeitosos. A senten\u00e7a de apedrejar uma mulher que cometesse adult\u00e9rio era para salvar a institui\u00e7\u00e3o do casamento. Mas, a mesma lei convivia com a cultura segundo a qual o homem podia ter v\u00e1rias mulheres. Al\u00e9m disso, pela lei do levirato, a mulher deveria ser dada ao parente do marido morto, como se fosse uma propriedade que o morto deixou para o parente mais pr\u00f3ximo.<\/p>\n\n\n\n<p>Como est\u00e1 escrito, o evangelho n\u00e3o discute a culpa da mulher. J\u00e1 parte do princ\u00edpio: <strong>ela \u00e9 culpada<\/strong>. A acusa\u00e7\u00e3o de adult\u00e9rio pode ser cal\u00fania, inj\u00faria e difama\u00e7\u00e3o, pois s\u00e3o os inimigos da mulher que a acusa. Melhor t\u00edtulo para este evangelho seria Mulher amea\u00e7ada de morte por doutores da lei e fariseus. Armaram uma cilada para Jesus. Ou Jesus concordava que, de acordo com a lei, apedrejassem a mulher, ou se colocava contra a lei de Deus.<\/p>\n\n\n\n<p>Jesus n\u00e3o entra no jogo dos inimigos da mulher. N\u00e3o responde imediatamente. Inclina-se e come\u00e7a a escrever no ch\u00e3o. \u00c9 uma atitude estranha. Nos quatro evangelhos, \u00e9 a \u00fanica vez que Jesus age assim. No livro do \u00caxodo est\u00e1 escrito que Deus entregou a Mois\u00e9s a lei que escreveu com o pr\u00f3prio dedo (Ex 31, 18). Duas vezes, esse evangelho afirma que Jesus escreveu na terra (Jo 8,6.8). Ser\u00e1 que assim, queria salientar que assim como Deus escreveu na pedra, agora Jesus tem tamb\u00e9m autoridade para reescrever a lei?<\/p>\n\n\n\n<p>O fato \u00e9 que Jesus se nega a se concentrar sobre o mal. Enquanto aqueles homens viam ali uma mulher ad\u00faltera, para Jesus, ela era apenas e sempre uma pessoa humana, portanto, filha amada de Deus. Na Idade M\u00e9dia, o Mestre Eckhart, um dos mais importantes te\u00f3logos ocidentais, ensinava: \u201c<em>O Senhor n\u00e3o olha o mal. N\u00e3o se interessa por nossos pecados\u201d. <\/em>Jesus quer outro modo de rela\u00e7\u00e3o entre n\u00f3s e Deus. Por isso, ele reage dizendo: \u201c<em>Est\u00e1 bem. Ent\u00e3o, quem de voc\u00eas n\u00e3o tiver pecado, atire a primeira pedra\u201d.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>O que Jesus fez foi revelar a hipocrisia profunda que havia na atitude dos escribas e fariseus que condenavam a mulher. Aqueles homens tudos como s\u00e1bios e religiosos recobraram alguma sensatez. Sa\u00edram todos, um por um, como diz o evangelho: a come\u00e7ar pelos mais velhos. Hoje, em dia, h\u00e1 religiosos que, em nome da lei de Deus, condenam as pessoas que julgam pelas apar\u00eancias. E nem sempre t\u00eam a honestidade de \u201csair\u201d, isso \u00e9, de mudar de postura, quando fica claro que n\u00e3o teriam moral para condenar ningu\u00e9m. \u00c0s vezes, padres e pastores muito severos e r\u00edgidos em condenar problemas morais e posturas sexuais que a lei tradicional condena n\u00e3o usam a mesma severidade quando se trata de suas pr\u00f3prias fragilidades e contradi\u00e7\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<p>Ser\u00e1 que esse mundo de den\u00fancias morais que desabam sobre o clero e a hierarquia tornar\u00e3o a nossa Igreja (clero e leigos) mais humilde, mais misericordiosa com os que s\u00e3o considerados pecadores?<\/p>\n\n\n\n<p>No final do caso contado nesse evangelho, Jesus se encontra sozinho, ele e a mulher. Ela confirma que ningu\u00e9m a condenou. Jesus simplesmente lhe diz: <em>Vai em paz e n\u00e3o peques mais<\/em>. Jesus n\u00e3o a proibiu de continuar amando e sendo mulher.<\/p>\n\n\n\n<p>Na \u00e9poca de Jesus, as mulheres eram vistas como fonte de impureza e ocasi\u00e3o de pecado e sedu\u00e7\u00e3o. Os grupos judaicos quando constru\u00edam as sinagogas faziam uma grade e era por tr\u00e1s dessa grade que, nos s\u00e1bados, as mulheres assistiam ao culto. Jesus \u00e9 diferente. Vivia rodeado de mulheres. Maria Madalena, as irm\u00e3s Marta e Maria, de Bet\u00e2nia, v\u00e1rias disc\u00edpulas que o acompanhavam desde a Galileia at\u00e9 Jerusal\u00e9m (Lc 8,1-3), sem falar nas mulheres doentes e at\u00e9 prostitutas de aldeia que se aproximavam dele. Nos quatro evangelhos h\u00e1 nomes de mais mulheres que seguiam Jesus do que nomes de homens disc\u00edpulos. Nenhum outro profeta daquele tempo era assim. Jesus olha as mulheres com olhos diferentes, de admira\u00e7\u00e3o e respeito. Ele as trata com ternura. Defende sua dignidade e as acolhe como disc\u00edpulas no seu movimento popular religioso. Nas poucas vezes que o 4\u00ba evangelho fala de mulheres, elas s\u00e3o sempre sinais e profecias da ternura divina. As cenas mais afetuosas do evangelho s\u00e3o aquelas nas quais aparece uma mulher.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Temos que sonhar com uma Igreja justa e igualit\u00e1ria em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 mulher. N\u00e3o basta apenas abrir os minist\u00e9rios para as mulheres. \u00c9 urgente voltarmos ao evangelho de Jesus e acabarmos com o sistema de duas classes na Igreja: as pessoas ordenadas e as n\u00e3o ordenadas. S\u00f3 retomando a igualdade do discipulado de Jesus e a autonomia das comunidades para celebrar a ceia e os sinais do amor divino, superaremos a marginaliza\u00e7\u00e3o estrutural da mulher na Igreja. A Igreja precisa ser exemplo de novo modo de ser no mundo, para que consigamos vencer a viol\u00eancia dom\u00e9stica, o feminic\u00eddio, o machismo, o patriarcalismo e tantas situa\u00e7\u00f5es nas quais a mulher \u00e9 v\u00edtima.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-center\"><em><strong>Maria, Maria<\/strong><\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-center\"><em><strong>Can\u00e7\u00e3o de Milton Nascimento \u2027 1978<\/strong><\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-center\"><em>Maria, Maria, \u00e9 um dom, uma certa magia<br>Uma for\u00e7a que nos alerta<br>Uma mulher que merece viver e amar<br>Como outra qualquer do planeta<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-center\"><em>Maria, Maria, \u00e9 o som, \u00e9 a cor, \u00e9 o suor<br>\u00c9 a dose mais forte e lenta<br>De uma gente que ri quando deve chorar<br>E n\u00e3o vive, apenas aguenta<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-center\"><em>Mas \u00e9 preciso ter for\u00e7a, \u00e9 preciso ter ra\u00e7a<br>\u00c9 preciso ter gana sempre<br>Quem traz no corpo a marca, Maria, Maria<br>Mistura a dor e a alegria<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-center\"><em>Mas \u00e9 preciso ter manha, \u00e9 preciso ter gra\u00e7a<br>\u00c9 preciso ter sonho sempre<br>Quem traz na pele essa marca possui<br>A estranha mania de ter f\u00e9 na vida<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-center\"><em>Mas \u00e9 preciso ter for\u00e7a, \u00e9 preciso ter ra\u00e7a<br>\u00c9 preciso ter gana sempre<br>Quem traz no corpo a marca, Maria, Maria<br>Mistura a dor e a alegria<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A gra\u00e7a para al\u00e9m da lei (Jo 8,1-11) \u2013 Por Marcelo Barros Nesse 5\u00ba domingo da Quaresma (ano C), lemos no evangelho o encontro de Jesus com uma mulher que, como diz o evangelho, foi<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":14287,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[21,22,44,27,30,43,26],"tags":[],"class_list":["post-14286","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-artigo","category-cebs-comunidades-eclesiais-de-base","category-direito-a-memoria","category-direitos-humanos","category-fe-e-politica","category-pedagogia-emancipatoria","category-teologia-da-libertacao"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/14286","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=14286"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/14286\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":14289,"href":"https:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/14286\/revisions\/14289"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media\/14287"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=14286"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=14286"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=14286"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}