{"id":14293,"date":"2025-04-03T06:14:36","date_gmt":"2025-04-03T09:14:36","guid":{"rendered":"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/?p=14293"},"modified":"2025-04-03T06:14:41","modified_gmt":"2025-04-03T09:14:41","slug":"atire-a-primeira-pedra-ai-ai-ai-anotacoes-sobre-joao-8-1-a-11-por-nancy-cardoso","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/gilvander.org.br\/site\/atire-a-primeira-pedra-ai-ai-ai-anotacoes-sobre-joao-8-1-a-11-por-nancy-cardoso\/","title":{"rendered":"\u201cATIRE A PRIMEIRA PEDRA AI AI AI\u2026\u201d \u2013 ANOTA\u00c7\u00d5ES SOBRE JO\u00c3O 8, 1 a 11\u00a0 &#8211; Por Nancy Cardoso"},"content":{"rendered":"\n<p><strong>\u201cATIRE A PRIMEIRA PEDRA AI AI AI\u2026\u201d \u2013 ANOTA\u00c7\u00d5ES SOBRE JO\u00c3O 8, 1 a 11<\/strong>\u00a0 &#8211; Por Nancy Cardoso<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"576\" src=\"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2025\/04\/maxresdefault-1024x576.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-14294\" srcset=\"https:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2025\/04\/maxresdefault-1024x576.jpg 1024w, https:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2025\/04\/maxresdefault-300x169.jpg 300w, https:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2025\/04\/maxresdefault-768x432.jpg 768w, https:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2025\/04\/maxresdefault.jpg 1280w\" sizes=\"auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><figcaption>Nancy Cardoso, biblista e te\u00f3loga feminista<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>Quero prestar aten\u00e7\u00e3o nos corpos: Jesus sobe o Monte das Oliveiras e desce no dia seguinte; Jesus senta para conversar com o povo; o povo se ajunta. Corpos! De repente corpos de homem arrastando uma mulher (eles: viris, violentos, animados; ela: violentada, descabelada, semivestida, assustada). Os corpos ali reunidos formam um corpo espectador e a mulher \u00e9 colocada no centro. Eles tremem de prazer. Ela treme de medo. A conversa interrompida, todos prestam aten\u00e7\u00e3o na cena: o corpo dela e os olhos dos homens. Eles estufam o peito e desafiam a Jesus. Jesus se abaixa e rabisca no ch\u00e3o. Eles insistem mais ainda, estufando o peito e aumentando a voz. Ela treme. Jesus se levanta e diz. Sil\u00eancio. Os corpos dos homens murcham. Se afastam. A mulher suspira quase aliviada. Que texto!<\/p>\n\n\n\n<p>Mas o que este texto est\u00e1 fazendo no Evangelho de Jo\u00e3o? A narrativa da Mulher Ad\u00faltera est\u00e1 inserida dentro da narrativa da Festa das Tendas no Evangelho de Jo\u00e3o. De tantas maneiras ela est\u00e1 fora do lugar! Uma leitura cuidadosa vai mostrar que ela \u00e9 s\u00f3 uma isca, uma desculpa, uma armadilha na briga entre os homens. Ela vai ser usada para causar esc\u00e2ndalo. Flagrada \u201cno ato, desaparece da cena com quem ela estava. N\u00e3o importa. Ela n\u00e3o importa: \u00e9 s\u00f3 uma desculpa para testar posi\u00e7\u00f5es teol\u00f3gicas e pol\u00edticas. Muita gente que estuda o Evangelho de Jo\u00e3o reconhece que esta narrativa n\u00e3o pertence a Jo\u00e3o. Outros Evangelhos n\u00e3o can\u00f4nicos e mais antigos apresentam o mesmo relato com poucas diferen\u00e7as. Diferentes c\u00f3pias do Evangelho n\u00e3o apresentam esta narrativa. Algumas tradu\u00e7\u00f5es a colocam em Lucas. O estilo n\u00e3o \u00e9 joanino naquilo que se refere ao vocabul\u00e1rio e \u00e0 gram\u00e1tica. Ent\u00e3o o que esta mulher est\u00e1 fazendo aqui? Santo Agostinho comentando o texto diz que o texto pode induzir as mulheres ao adult\u00e9rio\u2026 porque ser\u00e3o perdoadas. (para saber mais: A mulher Ad\u00faltera no Evangelho de Jo\u00e3o (Jo\u00e3o 7, 53 \u2013 8, 1, Gilvan Leite de Ara\u00fajo &gt; <a href=\"https:\/\/www.researchgate.net\/publication\/330895168_A_Mulher_Adultera_no_Evangelho_de_Joao%20_Jo_753-811\">https:\/\/www.researchgate.net\/publication\/330895168_A_Mulher_Adultera_no_Evangelho_de_Joao _Jo_753-811<\/a> ).<\/p>\n\n\n\n<p>Nos vers\u00edculos tr\u00eas a seis &#8211; de Jo\u00e3o 8 &#8211; os escribas e fariseus exp\u00f5em uma situa\u00e7\u00e3o concreta: uma mulher flagrada em adult\u00e9rio. Imediatamente j\u00e1 expressam o que diz a Lei sobre esta quest\u00e3o: ela \u00e9 culpada e deve ser apedrejada. Mas\u2026 sobre o crime de adult\u00e9rio, no qual se baseiam os escribas e fariseus, a Lei, na realidade afirma que o crime de adult\u00e9rio deve ser punido com morte, sem, no entanto, afirmar qual o tipo de pena a ser aplicada, conforme prescreve os livros de Lev\u00edtico e Deuteron\u00f4mio (cf. Lv 20,10 e Dt 22,22-24).<\/p>\n\n\n\n<p>Chama a aten\u00e7\u00e3o na narrativa \u00e9 a aus\u00eancia do homem envolvido no crime, uma vez que duas pessoas foram flagradas, um homem e uma mulher casada. Nesse sentido, se deve indagar porque o homem em quest\u00e3o n\u00e3o est\u00e1 presente, mas, apenas a figura da mulher. Lev\u00edtico, cap\u00edtulo 20, vers\u00edculo 10: \u201cSe um homem cometer adult\u00e9rio com a mulher de outro homem, com a mulher de seu pr\u00f3ximo, o homem e a mulher ad\u00faltera ser\u00e3o punidos com a morte\u201d. \u00c9 uma mulher sem nome, sem voz, sem identidade, a n\u00e3o ser pelo fato de ser designada como ad\u00faltera. Mas a real inten\u00e7\u00e3o dos escribas e dos fariseus, no vers\u00edculo seis, se torna clara: p\u00f4r Jesus \u00e0 prova. Querem \u201cencostar Jesus na parede\u201d, ou seja, coloc\u00e1-lo numa situa\u00e7\u00e3o dif\u00edcil, expor suas contradi\u00e7\u00f5es com a tradi\u00e7\u00e3o e com o poder.<\/p>\n\n\n\n<p>Se Jesus perdoar a mulher, ir\u00e1 contra a Lei, se aprovar a condena\u00e7\u00e3o ir\u00e1 contra a sua prega\u00e7\u00e3o e se colocaria em choque com as autoridades romanas. Este contexto \u00e9 importante para entender o cap\u00edtulo 8 do Evangelho Jo\u00e3o: j\u00e1 est\u00e3o dadas as condi\u00e7\u00f5es para a pris\u00e3o de Jesus com o objetivo de interromper seu movimento e as comunidades\u2026 mas ainda falta organizar a den\u00fancia que justificaria a condena\u00e7\u00e3o. Sobre isso se trata o cap\u00edtulo 8. O texto \u00e9 conhecido: Jesus inverte a situa\u00e7\u00e3o dizendo \u201cquem n\u00e3o tem pecado que atire a primeira pedra\u201d. Logo a seguir o texto informa que os homens se retiraram um a um \u2013 come\u00e7ando pelos mais velhos! \u2013 acusados que foram pela consci\u00eancia. Se ela foi pega em flagrante\u2026 onde est\u00e1 o homem?<\/p>\n\n\n\n<p>Sem esta prova ficava claro que abusavam da precariedade de uma mulher para criar um caso que justificasse a pris\u00e3o de Jesus. O di\u00e1logo de Jesus com a mulher \u00e9 simples e did\u00e1tico: \u201conde est\u00e3o os que te acusavam? Ningu\u00e9m te condenou? E pela 1\u00aa vez no texto ela fala: ningu\u00e9m, Senhor. E Jesus conclui: nem eu te condeno\u2026 vai e n\u00e3o peques mais (aqui um gen\u00e9rico, sem refer\u00eancia ao suposto adult\u00e9rio). Sempre no corpo delas!<\/p>\n\n\n\n<p>No Antigo Testamento e Novo Testamento profetas e sacerdotes, legisladores e poetas v\u00e3o tecer suas lutas e provoca\u00e7\u00f5es no corpo de mulheres reais ou inventadas. O sistema legal do casamento patriarcal judaico interpretava o adult\u00e9rio como uma les\u00e3o ao direito do marido de possuir a sexualidade de sua esposa. Os escribas e fariseus que arrastaram a mulher diante de Jesus representavam a supremacia masculina sobre as mulheres. Eles eram representantes da hierarquia patriarcal (tanto a romana quanto a judaica).<\/p>\n\n\n\n<p>A Palestina no tempo de Jesus vivia em situa\u00e7\u00e3o de ocupa\u00e7\u00e3o militar, de aliena\u00e7\u00e3o pol\u00edtica e econ\u00f4mica. As elites judaicas sobreviviam de acordos com os romanos; a maioria do povo era explorada no trabalho, na terra, no corpo. As mulheres sofriam uma dupla opress\u00e3o: pelo imp\u00e9rio invasor e pelos poderes internos. Casadas muito jovens, viviam em situa\u00e7\u00e3o de subordina\u00e7\u00e3o dentro e fora de casa. Infelizes. Mulheres que ousavam a liberdade tinham diante de si a prostitui\u00e7\u00e3o, a loucura dos dem\u00f4nios, o vexame p\u00fablico e a escravid\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Sem querer avaliar rela\u00e7\u00f5es antigas por par\u00e2metros novos, \u00e9 importante destacar que Jesus se organizava e convivia com mulheres assim: prostitutas, loucas, possu\u00eddas. Casadas, largadas, fugidas. Novos modos de ser fam\u00edlia. Comunidade. No Brasil por muito tempo \u201cpara as mulheres, bastava a mera suspeita de envolvimento com outro homem para que fossem severamente punidas pela sociedade e pelo Estado com duras penas. Por outro lado, para que o homem fosse considerado ad\u00faltero, era necess\u00e1rio comprovar uma rela\u00e7\u00e3o extraconjugal habitual e mantida, isto \u00e9, que sustentasse a amante.<\/p>\n\n\n\n<p>O homem que \u201ctinha sua honra violada\u201d pela suposta infidelidade da esposa e reagisse praticando o homic\u00eddio de sua ent\u00e3o companheira, costumeiramente argumentava em ju\u00edzo a \u201cleg\u00edtima defesa da honra\u201d. Em 2023 o STF considerou inconstitucional os crimes de honra. Em 2024, foram 1450 feminic\u00eddios, a grande maioria por pessoa pr\u00f3xima e\/ou familiar.<\/p>\n\n\n\n<p>Diz-se \u00e0 boca pequena: \u201cos homens n\u00e3o sabem porque matam, mas as mulheres sabem porque s\u00e3o mortas\u201d. At\u00e9 quando? Vamos aprender com Jesus a rabiscar no ch\u00e3o e murchar o machismo que mata, violenta e silencia. Porque\u2026 Gente foi feita pra brilhar N\u00e3o pra morrer de fome. M\u00fasica<strong> \u201cGente\u201d, de Caetano Veloso<\/strong>: <\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-embed is-type-video is-provider-youtube wp-block-embed-youtube wp-embed-aspect-16-9 wp-has-aspect-ratio\"><div class=\"wp-block-embed__wrapper\">\n<div class=\"epyt-video-wrapper\"><iframe loading=\"lazy\"  id=\"_ytid_78469\"  width=\"810\" height=\"456\"  data-origwidth=\"810\" data-origheight=\"456\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/a5oS7KdVyjQ?enablejsapi=1&#038;autoplay=0&#038;cc_load_policy=0&#038;cc_lang_pref=&#038;iv_load_policy=1&#038;loop=0&#038;rel=1&#038;fs=1&#038;playsinline=0&#038;autohide=2&#038;theme=dark&#038;color=red&#038;controls=1&#038;disablekb=0&#038;\" class=\"__youtube_prefs__  epyt-is-override  no-lazyload\" title=\"YouTube player\"  allow=\"fullscreen; accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen data-no-lazy=\"1\" data-skipgform_ajax_framebjll=\"\"><\/iframe><\/div>\n<\/div><\/figure>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u201cATIRE A PRIMEIRA PEDRA AI AI AI\u2026\u201d \u2013 ANOTA\u00c7\u00d5ES SOBRE JO\u00c3O 8, 1 a 11\u00a0 &#8211; Por Nancy Cardoso Quero prestar aten\u00e7\u00e3o nos corpos: Jesus sobe o Monte das Oliveiras e desce no dia seguinte;<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":14294,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[21,22,44,48,27,30,43,26,32],"tags":[],"class_list":["post-14293","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-artigo","category-cebs-comunidades-eclesiais-de-base","category-direito-a-memoria","category-direitos-das-mulheres","category-direitos-humanos","category-fe-e-politica","category-pedagogia-emancipatoria","category-teologia-da-libertacao","category-videos"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/14293","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=14293"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/14293\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":14295,"href":"https:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/14293\/revisions\/14295"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media\/14294"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=14293"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=14293"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=14293"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}