{"id":14571,"date":"2025-07-19T09:15:36","date_gmt":"2025-07-19T12:15:36","guid":{"rendered":"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/?p=14571"},"modified":"2025-07-19T09:15:41","modified_gmt":"2025-07-19T12:15:41","slug":"o-poder-do-capital-privado-e-a-submissao-do-estado-por-frei-betto","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/gilvander.org.br\/site\/o-poder-do-capital-privado-e-a-submissao-do-estado-por-frei-betto\/","title":{"rendered":"O PODER DO CAPITAL PRIVADO E A SUBMISS\u00c3O DO ESTADO\u00a0\u2013 Por Frei Betto"},"content":{"rendered":"\n<p><strong>O PODER DO CAPITAL PRIVADO E A SUBMISS\u00c3O DO ESTADO\u00a0\u2013 Por Frei Betto<a id=\"_ftnref1\" href=\"#_ftn1\"><strong>[1]<\/strong><\/a>\u00a0<\/strong><\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"980\" height=\"634\" src=\"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2025\/07\/1457477459_119657_1457478822_noticia_normal.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-14572\" srcset=\"https:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2025\/07\/1457477459_119657_1457478822_noticia_normal.jpg 980w, https:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2025\/07\/1457477459_119657_1457478822_noticia_normal-300x194.jpg 300w, https:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2025\/07\/1457477459_119657_1457478822_noticia_normal-768x497.jpg 768w\" sizes=\"auto, (max-width: 980px) 100vw, 980px\" \/><figcaption>Frei Betto. Reprodu\u00e7\u00e3o Redes Virtuais<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;Desde a Gr\u00e9cia Antiga, Arist\u00f3fanes j\u00e1 ironizava a m\u00e1 distribui\u00e7\u00e3o da riqueza em sua com\u00e9dia \u201c<em>Pluto \u2013 A Riqueza\u201d <\/em>(388 a.C.). Nela, o deus da riqueza \u00e9 cego, impedido de reconhecer os justos e, assim, favorece os espertos e inescrupulosos. A pe\u00e7a, repleta de cr\u00edticas \u00e1cidas, mostra como o dinheiro move todas as rela\u00e7\u00f5es humanas \u2014 do amor \u00e0 guerra \u2014 e denuncia que, ao inv\u00e9s de premiar a virtude ou a moral, a riqueza acaba sendo controlada por quem sabe manipul\u00e1-la. Da\u00ed o substantivo \u201cplutocracia\u201d, o poder do dinheiro. Uma reflex\u00e3o que, dois mil anos depois, continua muito atual, infelizmente.<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;A Oxfam divulgou relat\u00f3rio, em fins de junho, demonstrando o aprofundamento da desigualdade mundial. Em sete anos (2015-2022) a fortuna do 1% mais rico da popula\u00e7\u00e3o do planeta (77 milh\u00f5es de pessoas) cresceu mais de US$ 33,9 trilh\u00f5es. Com esse montante a pobreza no mundo poderia ser eliminada 22 vezes! Segundo o Banco Mundial, bastariam 1 trilh\u00e3o e 515 bilh\u00f5es de d\u00f3lares.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;Os pa\u00edses ricos assinam protocolos de erradica\u00e7\u00e3o da fome e combate \u00e0 crise ambiental, mas nunca desembolsam o prometido. O dinheiro para salvar vidas \u00e9 escasso. No entanto, bastou Trump amea\u00e7ar retirar o apoio financeiro \u00e0 OTAN para a Uni\u00e3o Europeia prometer desembolsar 800 bilh\u00f5es de euros para equipamentos b\u00e9licos. Para eliminar vidas o dinheiro \u00e9 farto. Eis a l\u00f3gica do capitalismo!<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;Quem s\u00e3o as 77 milh\u00f5es de pessoas do seleto clube dos mais ricos do mundo? S\u00e3o todas aquelas que ganham, por ano, US$ 310 mil (<strong>=<\/strong> cerca de 1 milh\u00e3o e 700 mil reais) ou mais. Essa elite multibilion\u00e1ria controla 45% da riqueza global, calculada em US$ 556 trilh\u00f5es (dados de 2023). Isso significa que o 1% mais rico da popula\u00e7\u00e3o possui entre 250 e 278 trilh\u00f5es de d\u00f3lares.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;Segundo o relat\u00f3rio da Oxfam, desde 2015 apenas 3 mil bilion\u00e1rios viram suas fortunas engordarem US$ 6,5 trilh\u00f5es.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;Um dos fatores que explicam tamanha desigualdade \u00e9 a aus\u00eancia de tributa\u00e7\u00e3o progressiva. Os mais ricos deveriam pagar mais impostos, como Lula quer implantar no Brasil. O que vigora \u00e9 o imposto regressivo: proporcionalmente os mais pobres pagam mais impostos que os mais ricos. E os ricos consideram as pol\u00edticas sociais \u201cgastos\u201d e n\u00e3o investimentos. Alardeiam sempre que o governo gasta muito. No entanto, silenciam &nbsp;quando o Planalto destina recursos bilion\u00e1rios ao agroneg\u00f3cio ou isentam empresas de pagar impostos. No Brasil, esta isen\u00e7\u00e3o j\u00e1 atinge R$ 860 bilh\u00f5es! A Oxfam esclarece que os bilion\u00e1rios pagam, em impostos, apenas 0,3% de sua fortuna.<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;Outra causa da desigualdade \u00e9 a d\u00edvida p\u00fablica. Os&nbsp;t\u00edtulos da d\u00edvida p\u00fablica s\u00e3o emitidos pelo governo para captar recursos junto a investidores. Na pr\u00e1tica, quando o Estado emite um t\u00edtulo, est\u00e1 pedindo dinheiro emprestado; em troca, promete devolver esse valor acrescido de juros em uma data futura. \u00c9 uma forma de financiar o setor p\u00fablico.<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;A ciranda funciona assim: o governo vende t\u00edtulos a investidores (bancos, fundos de investimentos, empresas ou pessoas f\u00edsicas) e, em troca, recebe dinheiro imediatamente.&nbsp;No vencimento do t\u00edtulo (ou de parcelas), o governo devolve o valor acrescido de juros. Portanto, quanto mais altos os juros (como agora), mais os especuladores do mercado financeiro embolsam dinheiro.<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;O capital privado, como bancos e grandes fundos, compra esses t\u00edtulos como forma de investimento seguro e rent\u00e1vel. Assim, o Estado canaliza recursos p\u00fablicos (via pagamento de juros) para remunerar o capital privado!<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;Isso produz v\u00e1rios efeitos: 1)&nbsp;Depend\u00eancia do Estado em rela\u00e7\u00e3o ao mercado financeiro; 2) Press\u00e3o por super\u00e1vits prim\u00e1rios (corte de investimentos sociais) para garantir o pagamento da d\u00edvida;&nbsp;3)&nbsp;Prioridade ao pagamento de juros em detrimento de investimentos sociais.<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;Os impactos sociais da d\u00edvida p\u00fablica s\u00e3o profundos e controversos, pois envolvem a forma como o Estado aloca seus recursos. Quando uma parcela significativa do or\u00e7amento p\u00fablico \u00e9 destinada ao pagamento da d\u00edvida (juros e amortiza\u00e7\u00f5es), isso pode restringir investimentos em \u00e1reas sociais fundamentais, como sa\u00fade, educa\u00e7\u00e3o, moradia, seguran\u00e7a etc.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;Para suportar tamanha depend\u00eancia do p\u00fablico ao privado, apela-se ao \u201cajuste fiscal\u201d. Isso significa manter a credibilidade do governo frente ao mercado e garantir o pagamento da d\u00edvida; promover cortes de gastos p\u00fablicos (inclusive em servi\u00e7os essenciais); reduzir ou eliminar os programas sociais; congelar sal\u00e1rios de servidores p\u00fablicos. Mas se o governo opta por aumentar os impostos dos mais ricos, a grita \u00e9 geral!<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;Tudo isso afeta principalmente a popula\u00e7\u00e3o mais vulner\u00e1vel, que depende dos servi\u00e7os p\u00fablicos, arca com a perda de direitos sociais e queda na qualidade de vida.<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;Na base da pir\u00e2mide social do planeta est\u00e3o 3,7 bilh\u00f5es de pessoas \u2013 quase metade da popula\u00e7\u00e3o mundial. Enquanto os mais ricos det\u00eam 45% da riqueza global, os mais pobres apenas 2,4%.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;A Oxfam constata que, entre 1995 e 2023, a riqueza acumulada em m\u00e3os privadas aumentou US$ 342 trilh\u00f5es, ou seja, oito vezes mais que a riqueza dos governos, que cresceu apenas US$ 44 trilh\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;Qual a sa\u00edda? Dar ouvidos ao alerta emitido por Arist\u00f3fanes quatro s\u00e9culos antes de Cristo: eleger governantes que representem os interesses da maioria da popula\u00e7\u00e3o, e n\u00e3o corruptos e oportunistas associados \u00e0 plutocracia, que defendem as ambi\u00e7\u00f5es da minoria rica e votam contra os direitos da maioria trabalhadora, como tantos deputados federais e senadores hoje no Congresso Nacional.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator\"\/>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref1\" id=\"_ftn1\">[1]<\/a> Escritor, autor do romance sobre a ditadura e os ind\u00edgenas \u201cTom vermelho do verde\u201d (Rocco), entre outros livros. Livraria virtual:&nbsp;<a href=\"http:\/\/freibetto.org\/\">freibetto.org<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O PODER DO CAPITAL PRIVADO E A SUBMISS\u00c3O DO ESTADO\u00a0\u2013 Por Frei Betto[1]\u00a0 &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;Desde a Gr\u00e9cia Antiga, Arist\u00f3fanes j\u00e1 ironizava a m\u00e1 distribui\u00e7\u00e3o da riqueza em sua com\u00e9dia \u201cPluto \u2013 A Riqueza\u201d (388 a.C.). 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