{"id":14600,"date":"2025-07-26T09:55:34","date_gmt":"2025-07-26T12:55:34","guid":{"rendered":"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/?p=14600"},"modified":"2025-07-26T09:55:39","modified_gmt":"2025-07-26T12:55:39","slug":"a-historia-sob-censura-frei-betto","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/gilvander.org.br\/site\/a-historia-sob-censura-frei-betto\/","title":{"rendered":"A HIST\u00d3RIA SOB CENSURA &#8211; Frei Betto"},"content":{"rendered":"\n<p><strong>A HIST\u00d3RIA SOB CENSURA<\/strong> &#8211; Frei Betto<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"682\" src=\"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2025\/07\/20201016freibetto1joaolaet-1024x682.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-14601\" srcset=\"https:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2025\/07\/20201016freibetto1joaolaet-1024x682.jpg 1024w, https:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2025\/07\/20201016freibetto1joaolaet-300x200.jpg 300w, https:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2025\/07\/20201016freibetto1joaolaet-768x512.jpg 768w, https:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2025\/07\/20201016freibetto1joaolaet-1536x1023.jpg 1536w, https:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2025\/07\/20201016freibetto1joaolaet-420x280.jpg 420w, https:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2025\/07\/20201016freibetto1joaolaet.jpg 1732w\" sizes=\"auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><figcaption>Frei Betto &#8211; Reprodu\u00e7\u00e3o Redes Virtuais<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;Aconteceu em uma escola da capital paulista. O professor de Hist\u00f3ria do Brasil do 3\u00ba ano do ensino m\u00e9dio introduziu o tema do \u201cPer\u00edodo Militar \u2013 1964-1985\u201d. Evitou a palavra \u201cditadura\u201d. Discorreu sobre a deposi\u00e7\u00e3o do presidente Jo\u00e3o Goulart, a mobiliza\u00e7\u00e3o de tropas pelas ruas, os cinco primeiros Atos Institucionais: cassa\u00e7\u00e3o de mandatos, suspens\u00e3o de direitos pol\u00edticos, dissolu\u00e7\u00e3o dos partidos e introdu\u00e7\u00e3o do bipartidarismo, elei\u00e7\u00f5es indiretas etc.<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;Antes da segunda aula foi convocado \u00e0 dire\u00e7\u00e3o da escola. O diretor explicou que ele n\u00e3o poderia prosseguir com o tema, caso quisesse preservar o emprego. Um grupo de pais o acusava de fazer \u201cdoutrina\u00e7\u00e3o ideol\u00f3gica\u201d de seus filhos.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;O professor contra-argumentou. Frisou que n\u00e3o h\u00e1 nenhuma li\u00e7\u00e3o de hist\u00f3ria ideologicamente neutra. O enfoque da narrativa depende de quem se posiciona em torno do fato. Para a elite paulista, homens como Fern\u00e3o Dias Paes Leme, Domingos Jorge Velho e Raposo Tavares foram heroicos desbravadores do sert\u00e3o brasileiro. Por isso merecem monumentos e seus nomes batizam importantes rodovias e logradouros. Para ind\u00edgenas e negros escravizados, foram a vers\u00e3o colonial do Esquadr\u00e3o da Morte rural.<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;Por que muitos livros did\u00e1ticos ainda se referem aos conjurados mineiros como \u201cinconfidentes\u201d? Como disse Machado de Assis, &#8220;as palavras s\u00e3o como as moedas: quanto mais circulam, mais perdem o valor.&#8221; Mas n\u00e3o perdem a raiz etimol\u00f3gica. Inconfid\u00eancia significa trai\u00e7\u00e3o.&nbsp;Quem deu aos companheiros de Tiradentes a pecha de &#8220;inconfidentes&#8221; foi a Coroa portuguesa, por meio dos autos do processo judicial conduzido pela Devassa, como era chamada a investiga\u00e7\u00e3o oficial da conspira\u00e7\u00e3o. Inconfidente \u00e9 quem n\u00e3o merece confian\u00e7a. Fosse hoje, a rainha Maria I denominaria a conjura\u00e7\u00e3o de \u201cDeduragem Mineira\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;Contr\u00e1rio \u00e0 censura imposta pela diretoria da escola,&nbsp;o professor se demitiu.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;In\u00fatil pais e escolas suporem que h\u00e1 alguma li\u00e7\u00e3o de hist\u00f3ria ideologicamente pura. Nem a hist\u00f3ria do calend\u00e1rio escapa, basta pesquisar por que o \u00faltimo m\u00eas do ano de doze meses se chama dezembro, que equivale ao numeral 10, e por que julho e&nbsp;agosto t\u00eam 31&nbsp;dias. A dica s\u00e3o os imperadores J\u00falio C\u00e9sar e Augusto.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;Em uma sociedade t\u00e3o desigual como a nossa a vers\u00e3o do opressor dificilmente coincide com a do oprimido. Lembro do padre franc\u00eas que, recebido para jantar na casa de um casal dirigente de movimento cat\u00f3lico, criou enorme constrangimento ao conversar na cozinha com as duas cozinheiras e saber que n\u00e3o tinham carteira assinada nem hor\u00e1rio estabelecido.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;Paulo Freire demonstrou que a vers\u00e3o do opressor costuma fazer a cabe\u00e7a do oprimido, j\u00e1 que os detentores de poder, pol\u00edtico e econ\u00f4mico, dominam os grandes meios de comunica\u00e7\u00e3o. Por isso, h\u00e1 tantos oprimidos que encaram o mundo pela \u00f3tica de quem os oprime, como o escravizado que sa\u00eda da senzala para trabalhar e morar na casa grande.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;O estudo curricular da Hist\u00f3ria do Brasil \u00e9 um acinte \u00e0 pr\u00f3pria hist\u00f3ria: h\u00e1 quem julgue que os colonizadores portugueses vieram trazer civiliza\u00e7\u00e3o do Brasil; as tropas brasileiras obtiveram honrosa vit\u00f3ria na Guerra do Paraguai; nossas etnias ind\u00edgenas s\u00e3o incultas.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;Por fazerem quest\u00e3o de ignorar Walter Benjamin, Michel Foucault e Eduardo Galeano \u00e9 que em muitas escolas dos EUA a anexa\u00e7\u00e3o imperialista de vastos territ\u00f3rios mexicanos, como Texas, Arizona, Calif\u00f3rnia e Novo M\u00e9xico, no s\u00e9culo XIX, \u00e9 ensinada como simples expans\u00e3o do pa\u00eds, a fim de cumprir seu \u201cdestino manifesto\u201d, isto \u00e9, a miss\u00e3o hist\u00f3rica e divina de estender seu territ\u00f3rio at\u00e9 o Pac\u00edfico.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;No pa\u00eds de Trump, como voc\u00ea acha que a Guerra do Vietn\u00e3 \u00e9 narrada nas escolas? Sim, h\u00e1 exce\u00e7\u00f5es, mas em geral n\u00e3o se admite a derrota das tropas da maior pot\u00eancia b\u00e9lica do mundo por pobres camponeses cultivadores de arroz. Felizmente alguns professores ousam utilizar como livros de refer\u00eancia a obra de Howard Zinn, em especial \u201cA People&#8217;s History of the United States\u201d (\u201cUma hist\u00f3ria popular dos Estados Unidos\u201d), que j\u00e1 vendeu mais de 1 milh\u00e3o de exemplares.<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;A direita pode querer censurar escolas e professores. Jamais lograr\u00e1 apagar o sofrimento das v\u00edtimas e silenciar seu clamor.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Frei Betto \u00e9 escritor, autor do romance sobre 500 anos da hist\u00f3ria de Minas Gerais, \u201cMinas do Ouro\u201d, entre outros livros. Livraria virtual:&nbsp;<a href=\"http:\/\/freibetto.org\/\">freibetto.org<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A HIST\u00d3RIA SOB CENSURA &#8211; Frei Betto &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;Aconteceu em uma escola da capital paulista. O professor de Hist\u00f3ria do Brasil do 3\u00ba ano do ensino m\u00e9dio introduziu o tema do \u201cPer\u00edodo Militar \u2013 1964-1985\u201d. 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