{"id":14630,"date":"2025-08-08T21:02:19","date_gmt":"2025-08-09T00:02:19","guid":{"rendered":"https:\/\/gilvander.org.br\/site\/?p=14630"},"modified":"2025-08-08T21:02:25","modified_gmt":"2025-08-09T00:02:25","slug":"sobriedade-social-como-atitude-de-espera-lc-12-32-48-por-marcelo-barros","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/gilvander.org.br\/site\/sobriedade-social-como-atitude-de-espera-lc-12-32-48-por-marcelo-barros\/","title":{"rendered":"SOBRIEDADE SOCIAL COMO ATITUDE DE ESPERA (Lc 12, 32- 48). Por Marcelo Barros"},"content":{"rendered":"\n<p><strong>SOBRIEDADE SOCIAL COMO ATITUDE DE ESPERA (Lc 12, 32- 48)<\/strong>. Por Marcelo Barros<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"800\" height=\"453\" src=\"https:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/24_08_marcelo_barros.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-14631\" srcset=\"https:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/24_08_marcelo_barros.png 800w, https:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/24_08_marcelo_barros-300x170.png 300w, https:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/24_08_marcelo_barros-768x435.png 768w\" sizes=\"auto, (max-width: 800px) 100vw, 800px\" \/><figcaption>Marcelo Barros. Reprodu\u00e7\u00e3o Redes Virtuais<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>Neste XIX domingo comum (ano C), o evangelho lido \u00e9 Lucas 12, 32- 48. Nesta passagem, em seu caminho pascal para Jerusal\u00e9m, Jesus continua a aprofundar a forma\u00e7\u00e3o do seu grupo de disc\u00edpulos e disc\u00edpulas. No texto que meditamos no domingo passado, tinha nos advertido contra a ambi\u00e7\u00e3o do lucro e do acumular riqueza. Agora, nesse texto que, hoje, o evangelho prop\u00f5e, aponta a partilha, que passa pelo despojamento e&nbsp; ren\u00fancia \u00e0 riqueza, como forma de viver a f\u00e9 em Cristo e testemunhar a expectativa da realiza\u00e7\u00e3o do projeto divino no mundo.<\/p>\n\n\n\n<p>Se f\u00f4ssemos filmar essa cena do evangelho, ver\u00edamos que ela se passa \u00e0 noite. De fato, essa fala de Jesus lembra a Vig\u00edlia Pascal, a noite na qual, cada ano, de modo mais forte, reavivamos nossa esperan\u00e7a de ressuscitar com Jesus. De fato, no s\u00e1bado santo \u00e0 noite, ou no domingo da Ressurrei\u00e7\u00e3o de madrugada, as antigas comunidades crist\u00e3s reviviam a madrugada da ressurrei\u00e7\u00e3o. Nas Igrejas antigas, a vig\u00edlia pascal durava a noite inteira e era mesmo sacramento da vida crist\u00e3, ou seja, de um modo de viver renovado, na espera do Senhor que vem.<\/p>\n\n\n\n<p>Hoje, muitas comunidades eclesiais procuram recuperar essa m\u00edstica da Vig\u00edlia que tamb\u00e9m \u00e9 comum \u00e0s espiritualidades origin\u00e1rias e das comunidades negras. Desde os tempos da col\u00f4nia, os\/as negros\/as escravizados\/as s\u00f3 conseguiam se reunir com tempo e um pouco mais de liberdade durante a noite, quando os patr\u00f5es dormiam. Talvez por isso, mas tamb\u00e9m pelo pr\u00f3prio car\u00e1ter de vig\u00edlia dos seus cultos,&nbsp; at\u00e9 hoje, a maioria das celebra\u00e7\u00f5es de Candombl\u00e9 e de Umbanda s\u00e3o feitas durante a noite.<\/p>\n\n\n\n<p>Tamb\u00e9m muitas comunidades ind\u00edgenas mant\u00eam o costume de se reunirem de madrugada ao redor da fogueira. Esse encontro de madrugada em torno do fogo aceso \u00e9 o momento de louvor e de invoca\u00e7\u00e3o aos Esp\u00edritos ou aos Encantados.<\/p>\n\n\n\n<p>No trecho que escutamos hoje, o evangelho&nbsp; de Lc 12,32-48 diz que n\u00f3s, crist\u00e3os e crist\u00e3s, vivemos em uma esp\u00e9cie de noite permanente, \u00e0 espera da vinda do projeto que Deus tem para o mundo. \u00c9 uma longa vig\u00edlia de P\u00e1scoa. As comunidades precisam permanecer atentas e vigilantes. \u00c9 preciso vigiarmos. No entanto, ao mesmo tempo, a utopia pela qual esperamos e que o evangelho chama de reinado divino pode tardar. Essa express\u00e3o &#8220;pode tardar&#8221; indica que as comunidades de Lucas precisaram mudar a concep\u00e7\u00e3o da primeira gera\u00e7\u00e3o crist\u00e3 que pensava que a vinda do reino de Deus e a manifesta\u00e7\u00e3o \u00faltima de Jesus ao mundo, ocorreria logo. No tempo do evangelista Lucas, as comunidades j\u00e1 tinham percebido que n\u00e3o \u00e9 assim. Por isso, a pessoa crist\u00e3 tem de se engajar na hist\u00f3ria, ao mesmo tempo, sem deixar de esperar. Esperar, sim, mas com \u201cm\u00e3os \u00e0 obra\u201d colocando em pr\u00e1tica os valores do reino divino: o amor ao pr\u00f3ximo, o cuidado e a solidariedade com quem sofre, o respeito ao outro, a \u00e9tica, a justi\u00e7a e a miseric\u00f3rdia.<\/p>\n\n\n\n<p>Alguns exegetas interpretaram esses cap\u00edtulos de Lucas, 11- 13, como express\u00f5es da tal \u201ccrise galilaica\u201d, (galilaica porque corresponde ao final do tempo da miss\u00e3o de Jesus na Galileia), crise mission\u00e1ria e existencial. Nesse momento de crise, Jesus se interroga sobre como prosseguir sua miss\u00e3o de testemunha e arauto do reinado divino. Ele constata que o que tinha feito antes, de certa forma, era insuficiente. E &nbsp;&nbsp;descobre o que fazer melhor. Na crise Jesus descobre que n\u00e3o basta solidariedade e que justi\u00e7a se faz necess\u00e1ria tamb\u00e9m.<\/p>\n\n\n\n<p>O evangelho responde a essa quest\u00e3o dizendo que temos sim de esperar, mas de forma ativa vivendo sob o signo da partilha e que apresse aquilo que esperamos. O mundo e a vida n\u00e3o podem ser somente salas de espera sem import\u00e2ncia e na qual estamos s\u00f3 aguardando a vinda do reinado divino&#8230; Por isso, as comunidades recordaram algumas par\u00e1bolas de Jesus que ensinam: temos de continuar trabalhando do jeito que Jesus nos ensinou. N\u00e3o se espera o Senhor de bra\u00e7os cruzados.<\/p>\n\n\n\n<p>S\u00f3 nessa breve passagem, o evangelho narra tr\u00eas par\u00e1bolas:<\/p>\n\n\n\n<p>&#8211; a primeira \u00e9 a do patr\u00e3o que vai a uma festa de casamento e pode chegar de noite ou de madrugada.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8211; a segunda par\u00e1bola \u00e9 a do ladr\u00e3o que ningu\u00e9m sabe a hora na qual assaltar\u00e1 a casa.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8211; a terceira \u00e9 a do administrador fiel que est\u00e1 pronto a qualquer momento a prestar contas de sua gest\u00e3o. Ent\u00e3o, seria um erro pensar que o Senhor tarda e por causa disso podemos viver tranquilos (v. 45).<\/p>\n\n\n\n<p>A vigil\u00e2ncia evang\u00e9lica toma a fisionomia de uma cidadania ativa e cr\u00edtica que luta pacificamente para que o reinado divino seja vivido desde agora, tanto no plano das consci\u00eancias, como no n\u00edvel das estruturas sociais e pol\u00edticas do mundo. Portanto, nossas vig\u00edlias s\u00e3o lit\u00fargicas, mas devem principalmente ser vig\u00edlias atentas ao que se passa no n\u00edvel social e pol\u00edtico do Brasil e do mundo. Vivemos a expectativa do reinado divino n\u00e3o de forma passiva e sim com atitude cr\u00edtica de vigil\u00e2ncia sobre a realidade como os profetas, homens e mulheres, que um disc\u00edpulo de Isa\u00edas comparou com guarda-noturno que fica sobre a muralha, velando sobre a cidade que dorme (Is 62).<\/p>\n\n\n\n<p>A primeira palavra com a qual Jesus abre o evangelho de hoje nos fala muito de perto: \u201cN\u00e3o temais, meu pequeno rebanho, porque foi do agrado do Pai vos dar o Reino\u201d. Al\u00e9m de ser uma grande consola\u00e7\u00e3o escutar essa palavra t\u00e3o carinhosa, ela \u00e9 tamb\u00e9m indicativo do caminho que devemos assumir. Ser \u201cpequeno rebanho\u201d n\u00e3o \u00e9 apenas o fato de sermos numericamente poucas pessoas. Ser pequeno rebanho significa assumirmos a voca\u00e7\u00e3o de ser pequenos, ou seja, comunidade pobre, sem poder e que vive a f\u00e9 a partir de baixo. N\u00e3o \u00e9 pequeno rebanho o Cristianismo que se coloca como aliado do poder, em grandes templos, bas\u00edlicas e catedrais.<\/p>\n\n\n\n<p>O evangelho sempre nos adverte contra a tenta\u00e7\u00e3o de sermos importantes e admirados pelos poderosos (Lc 6, 26). Dom Helder Camara propunha que nos junt\u00e1ssemos na caminhada da liberta\u00e7\u00e3o como \u201cminorias abra\u00e2micas\u201d, com consci\u00eancia de sermos pequenos e fr\u00e1geis, mas que como o velho&nbsp; Abra\u00e3o, Deus torna fecundos e capazes de gerar uma vida nova. Em um poema-ora\u00e7\u00e3o, Ad\u00e9lia Prado pedia:<\/p>\n\n\n\n<p><em>\u201cMeu Deus, me d\u00e1 cinco anos.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Me d\u00e1 um p\u00e9 de fedegoso<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>com formiga preta,<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>me d\u00e1 um Natal e sua v\u00e9spera,<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>o ressonar das pessoas no quartinho.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Me d\u00e1 a negrinha Fia&nbsp; pra eu brincar,<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>me d\u00e1 uma noite pra eu dormir com minha m\u00e3e.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Me d\u00e1 minha m\u00e3e, alegria s\u00e3 e medo remedi\u00e1vel,<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>me d\u00e1 a m\u00e3o, me cura de ser grande,<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>\u00f3 meu Deus, meu pai\u201d,<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>(Ad\u00e9lia Prado, Bagagem, Editora Record, p\u00e1gina 12)<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Dom Helder cantava tamb\u00e9m: \u201cEu acredito que o mundo ser\u00e1 melhor quando o menor que padece acreditar no menor&#8230;\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>No come\u00e7o dos anos 40, do s\u00e9culo XX, em um c\u00e1rcere nazista, o te\u00f3logo e pastor Dietrich Bonhoeffer escreve em uma de suas cartas:<\/p>\n\n\n\n<p><em>\u201cA Igreja s\u00f3 \u00e9 Igreja quando existe para os outros. Para fazer um in\u00edcio, ela deveria entregar todo o seu patrim\u00f4nio aos necessitados. Os ministros devem viver exclusivamente dos donativos volunt\u00e1rios da comunidade, talvez al\u00e9m de exercer alguma profiss\u00e3o profana. A Igreja deve participar das tarefas da vida na coletividade humana, n\u00e3o como quem governa, mas como quem ajuda e serve\u201d<a href=\"#_ftn1\" id=\"_ftnref1\"><strong>[1]<\/strong><\/a>.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Acho que, nesse evangelho de hoje, o trecho do vers\u00edculo 45 em diante n\u00e3o deveria ser lido nas comunidades. (De fato, a liturgia prev\u00ea a vers\u00e3o breve que termina antes). Essa hist\u00f3ria do senhor que chega de repente e come\u00e7a a torturar o empregado era a realidade da \u00e9poca de Jesus e dos evangelhos, mas n\u00e3o pode continuar a ser colocada com o risco de se compreender que Jesus est\u00e1 dizendo que Deus agir\u00e1 assim com as pessoas. \u00c9 importante n\u00e3o disseminar mais essa imagem de Deus que, se n\u00e3o fizermos o que Ele manda, Ele vem e nos castiga. O evangelho tem de ser boa noticia e n\u00e3o amea\u00e7a \u00e0 vida das pessoas. A sobriedade pode ser a medida feliz da espera do imposs\u00edvel que, pela f\u00e9, se torna poss\u00edvel.<\/p>\n\n\n\n<p>Lc 12,32-48: SOBRIEDADE SOCIAL COMO ATITUDE DE ESPERA: EVANGELHO P\/ AL\u00c9M DOS TEMPLOS. Marcelo Barros (V\u00eddeo)<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-embed\"><div class=\"wp-block-embed__wrapper\">\nhttps:\/\/www.youtube.com\/live\/mac_Uzlixck\n<\/div><\/figure>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator\"\/>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref1\" id=\"_ftn1\">[1]<\/a> &#8211; Colet\u00e2nea de trechos das cartas in <em>CEI, <\/em><strong>in Miss\u00e3o Prof\u00e9tica, <em>Suplemento 9, <\/em><\/strong>setembro 1974, p. 18.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>SOBRIEDADE SOCIAL COMO ATITUDE DE ESPERA (Lc 12, 32- 48). Por Marcelo Barros Neste XIX domingo comum (ano C), o evangelho lido \u00e9 Lucas 12, 32- 48. 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