{"id":14859,"date":"2025-11-04T16:02:39","date_gmt":"2025-11-04T19:02:39","guid":{"rendered":"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/?p=14859"},"modified":"2025-11-04T16:02:45","modified_gmt":"2025-11-04T19:02:45","slug":"as-relacoes-de-genero-e-a-utopia-de-jesus-lc-2027-38-por-marcelo-barros","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/gilvander.org.br\/site\/as-relacoes-de-genero-e-a-utopia-de-jesus-lc-2027-38-por-marcelo-barros\/","title":{"rendered":"AS RELA\u00c7\u00d5ES DE G\u00caNERO E A UTOPIA DE JESUS (Lc 20,27-38). Por Marcelo Barros"},"content":{"rendered":"\n<p><strong>AS RELA\u00c7\u00d5ES DE G\u00caNERO E A UTOPIA DE JESUS <\/strong>(Lc 20,27-38). Por Marcelo Barros<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full is-resized\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/images-1.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-14860\" width=\"702\" height=\"1254\"\/><figcaption>Marcelo Barros, monge irm\u00e3o, biblista e te\u00f3logo da Teologia da Liberta\u00e7\u00e3o<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>Nesse 32\u00ba domingo comum do ano C, o evangelho de Lucas (20, 27- 38) nos traz o \u00fanico contato que os evangelhos mostram ter havido entre Jesus e a classe sacerdotal do templo que era do grupo dos saduceus.<\/p>\n\n\n\n<p>Os evangelhos, escritos nos anos 70 e 90, revelam forte conflito entre Jesus e dois grupos religiosos: o dos fariseus e o dos escribas. De fato, esses dois grupos coordenaram o Juda\u00edsmo rab\u00ednico depois da guerra do Imp\u00e9rio Romano contra Israel e da destrui\u00e7\u00e3o do templo de Jerusal\u00e9m (ano 70 da era crist\u00e3). Provavelmente, as pol\u00eamicas que os evangelhos contam terem ocorrido entre Jesus e os fariseus e entre Jesus e os escribas foram escritos nos anos 80 e retratam mais os debates e dificuldades das comunidades crist\u00e3s do final do s\u00e9culo I com os rabinos do Juda\u00edsmo daquela \u00e9poca do que os conflitos que, em sua \u00e9poca, anos 30, Jesus tenha vivido com esses grupos religiosos.<\/p>\n\n\n\n<p>Conforme os evangelhos, com o grupo dos sacerdotes (saduceus), Jesus n\u00e3o teve, praticamente, contatos. Eles representavam a religi\u00e3o atrelada ao poder imperial. A \u00fanica coisa que sabemos sobre esse grupo \u00e9 que os saduceus se diziam descendentes do sumo sacerdote Sadoc, por isso se chamavam saduceus e s\u00f3 aceitavam como livros sagrados a Tor\u00e1 (o Pentateuco,os cinco primeiros livros da B\u00edblia) e n\u00e3o acreditavam na ressurrei\u00e7\u00e3o dos mortos.<\/p>\n\n\n\n<p>Conforme o evangelho de hoje, \u00e9 esse o assunto da pol\u00eamica que alguns saduceus armam com Jesus. Ele estava em Jerusal\u00e9m j\u00e1 consciente do que lhe iria acontecer, pois estava amea\u00e7ado de morte e de ressurrei\u00e7\u00e3oPor isso, esse debate sobre a ressurrei\u00e7\u00e3o ainda parece mais estranho. Provavelmente, ningu\u00e9m entre n\u00f3s escolheria esse texto do evangelho para ler em um encontro com juventude ou com pessoas de fora da Igreja e ligadas \u00e0 cultura contempor\u00e2nea. No entanto, para Jesus, deve ter soado como se aqueles homens religiosos estivessem discutindo a sorte dele. \u00c9 como se dissessem: \u201c<em>Voc\u00ea vai morrer inutilmente e nada vai sobrar de tudo isso. Sua luta n\u00e3o vale a pena<\/em>\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Para Jesus, a ressurrei\u00e7\u00e3o n\u00e3o era apenas uma quest\u00e3o de continuidade da sua vida pessoal. N\u00e3o se tratava apenas de sobreviv\u00eancia, ou de revitaliza\u00e7\u00e3o do seu corpo. Jesus acreditava na ressurrei\u00e7\u00e3o da vida. Plenitude de Vida, ou, como afirma o quarto evangelho: vida em abund\u00e2ncia (Jo 10,10). Isso significa que o projeto divino \u00e9 a ressurrei\u00e7\u00e3o. Por isso, Jesus diz: \u201c<em>Deus \u00e9 Deus dos vivos e n\u00e3o dos mortos\u201d<\/em>. Portanto, nessa discuss\u00e3o de Jesus com os saduceus, o que est\u00e1 em jogo n\u00e3o \u00e9 apenas a cren\u00e7a na vida depois da morte. \u00c9 o projeto divino a partir do aqui e do agora.<\/p>\n\n\n\n<p>O texto parece totalmente preso \u00e0 cultura antiga. Para compreend\u00ea-lo, \u00e9 preciso conhecer, na antiga cultura judaica, a chamada \u201c<em>lei do levirato\u201d. <\/em>Conforme essa lei, uma mulher que ficava vi\u00fava pertencia, por direito, ao parente mais pr\u00f3ximo do falecido. Portanto, a mulher era sempre propriedade dos homens da fam\u00edlia. Assim, a heran\u00e7a do falecido continuava com a fam\u00edlia dele. A vi\u00fava deveria casar com o parente mais pr\u00f3ximo do marido falecido. &nbsp;&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Para mostrar que a ideia de ressurrei\u00e7\u00e3o parecia um absurdo, os saduceus teriam contado a Jesus uma hist\u00f3ria quase imposs\u00edvel sobre uma mulher que ficou vi\u00fava de sete irm\u00e3os, com os quais foi se casando sucessivamente. Os saduceus queriam saber de qual dos sete, ela seria esposa na ressurrei\u00e7\u00e3o dos mortos. E Jesus responde:<\/p>\n\n\n\n<p><em>\u201cVoc\u00eas est\u00e3o errados em imaginar a ressurrei\u00e7\u00e3o como continuidade dessa sociedade patriarcal, na qual a mulher sempre pertence a algum homem. Na ressurrei\u00e7\u00e3o, todos ser\u00e3o como anjos, isto \u00e9, livres. N\u00e3o haver\u00e1 casamento patriarcal\u201d.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Em determinados tempos da hist\u00f3ria, esse evangelho foi contado por monges para justificar o celibato. Diziam que as pessoas celibat\u00e1rias inauguram desde agora um estilo de vida que seria essa que Jesus anuncia ser a dos anjos do c\u00e9u: n\u00e3o casam, nem se d\u00e3o em casamento.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 claro que esse tipo de interpreta\u00e7\u00e3o \u00e9 proje\u00e7\u00e3o dos costumes da Igreja medieval na cultura dos evangelhos. De modo algum, Jesus quis falar sobre celibato. A cultura semita era de valoriza\u00e7\u00e3o das rela\u00e7\u00f5es corporais e da fam\u00edlia, s\u00f3 que patriarcal e para preservar a propriedade patriarcal. \u00c9 a cultura patriarcal que Jesus contesta e diz que o reino de Deus deve superar.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Atualmente, a discuss\u00e3o sobre esses assuntos n\u00e3o incide mais sobre celibato. Em grupos conservadores de Igreja a discuss\u00e3o agora \u00e9 sobre o que chamam de <em>\u201cideologia de g\u00eanero<\/em>\u201d. \u00c9 triste ver, em nome de Jesus, ministros crist\u00e3os inventarem \u201c<em>ideologia de g\u00eanero<\/em>\u201d e lutar contra esse fantasma que os pr\u00f3prios intelectuais de direita inventaram. Pior ainda perceber que fazem isso para defender o Patriarcalismo e lutar contra a liberdade das pessoas e a igualdade nas rela\u00e7\u00f5es de g\u00eaneros. Exatamente como os saduceus da \u00e9poca de Jesus, membros da classe alta que dominavam o templo e o sin\u00e9drio, esses eclesi\u00e1sticos mais ligados ao fundamentalismo, ao dualismo, ao moralismo e ao rigorismo lit\u00fargico, identificam a f\u00e9 crist\u00e3 com a cultura patriarcal. &nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Ao contr\u00e1rio do que essas pessoas dizem, Jesus deixa claro que a ressurrei\u00e7\u00e3o, ou seja, a utopia que, em nome de Deus, ele traz ao mundo, vai transformar todas as estruturas humanas e inaugurar nova forma das pessoas se relacionarem.<\/p>\n\n\n\n<p>Esse evangelho ensina que n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel ser revolucion\u00e1rio no ponto de vista social e pol\u00edtico e, ao mesmo tempo, ser fechado e conservador no que diz respeito \u00e0 \u00e9tica pessoal e \u00e0s rela\u00e7\u00f5es de g\u00eanero. O evangelho nos chama a antecipar a utopia de um mundo novo poss\u00edvel aqui e agora.<\/p>\n\n\n\n<p>Existe, sim, um chamado divino a viver hoje as rela\u00e7\u00f5es afetivas e sociais de um modo novo, onde se supera o machismo e o patriarcalismo, o que antecipa o reino de Deus e a ressurrei\u00e7\u00e3o. Vivemos isso quando conseguimos desprivatizar a irmandade e alargar a comunh\u00e3o das pessoas que amamos, para um amor cada vez mais amplo.<\/p>\n\n\n\n<p>Nas comunidades negras e de espiritualidades origin\u00e1rias, as pessoas podem viver sua vida afetiva e sexual com liberdade, embora devam obedecer a certas normas, pr\u00f3prias de cada Orix\u00e1 ou entidade. Deve respeitar as diferentes energias n\u00e3o as misturando. Podemos dizer que, como em todo caminho de espiritualidade aut\u00eantica, \u00e9 poss\u00edvel liberdade afetiva e sexual, mas todos e todas s\u00e3o chamados(as) a integrar sua vida afetiva e sexual no conjunto do seu projeto de vida.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 esse novo modo de viver as rela\u00e7\u00f5es, que expressa a can\u00e7\u00e3o chilena \u201c<em>Gracias \u00e0 la Vida<\/em>\u201d, de Violeta Parra. Ali se canta a alegria de um amor apaixonado e, portanto, \u00fanico, mas que \u00e9 t\u00e3o forte que transcende e faz com que a pessoa que ama desse modo, passe a olhar com amor a todas as outras pessoas e a todo o universo. \u201cAo ver teus olhos, amo os olhos de todas as outras pessoas\u201d. \u201cAo ouvir tua voz, aprendo a escutar com amor os outros\u201d. Ao sentir teus passos, passo a amar os passos de todos os humanos\u201d e assim por diante. Esse \u00e9 o desafio de uma transcend\u00eancia no modo de amar. Nos evangelhos, Jesus diz de forma contundente e provocadora: \u201c<em>Quem faz a vontade de Deus \u00e9 meu irm\u00e3o, minha irm\u00e3 e minha m\u00e3e\u201d<\/em> (Mc 3, 35).&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Sobre a vida depois da morte, o pr\u00f3prio Jesus n\u00e3o esclarece nada. A \u00fanica coisa que diz \u00e9 que se Deus \u00e9 Deus, s\u00f3 pode ser \u201c<em>Deus dos vivos e n\u00e3o de mortos\u201d. <\/em>Para afirmar isso, se baseia no relato do \u00caxodo que conta a manifesta\u00e7\u00e3o divina a Mois\u00e9s na sar\u00e7a ardente (\u00caxodo 3). Isso significa que Deus \u00e9 Deus, ao se apresentar como Libertador. Apresenta-se como Deus de Abra\u00e3o, de Isaac e de Jac\u00f3, que para Mois\u00e9s eram ancestrais que tinham morrido, h\u00e1 muito tempo. Mas, que para Jesus, est\u00e3o vivos.<\/p>\n\n\n\n<p>Isso revela a import\u00e2ncia da nossa rela\u00e7\u00e3o com os ancestrais. A sociedade atual rompeu com isso e a pr\u00f3pria f\u00e9 crist\u00e3, inserida nessa cultura de produ\u00e7\u00e3o e consumo considera como se a rela\u00e7\u00e3o das tradi\u00e7\u00f5es ind\u00edgenas e afrodescendentes com os ancestrais fosse mera supersti\u00e7\u00e3o ou coisa de cultura primitiva.<\/p>\n\n\n\n<p>No Brasil, novembro \u00e9 o m\u00eas da uni\u00e3o e da consci\u00eancia negra. \u00c9 importante que n\u00f3s, crist\u00e3os e crist\u00e3s, possamos dar o testemunho de valorizar tradi\u00e7\u00f5es religiosas afro e com elas aprendermos a ser mais humanos e amorosos. Esse evangelho de hoje nos chama a retomar essa rela\u00e7\u00e3o de amor e de mem\u00f3ria afetuosa e aprendizado permanente com os\/as parentes que nos antecederam. Podemos fazer isso, sendo, ao mesmo tempo, livres para viver um tempo novo e um jeito novo de ser como testemunhas da utopia na qual acreditamos e que desde j\u00e1 somos chamados\/as a viver.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>AS RELA\u00c7\u00d5ES DE G\u00caNERO E A UTOPIA DE JESUS (Lc 20,27-38). 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