{"id":14873,"date":"2025-11-22T09:37:16","date_gmt":"2025-11-22T12:37:16","guid":{"rendered":"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/?p=14873"},"modified":"2025-11-22T09:45:12","modified_gmt":"2025-11-22T12:45:12","slug":"14873-2","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/gilvander.org.br\/site\/14873-2\/","title":{"rendered":"FESTA DO POVO POBRE, CRISTO E REI (Lc 23, 35- 43) \u2013 Por \u00a0Marcelo Barros"},"content":{"rendered":"\n<p><strong>FESTA DO POVO POBRE, CRISTO E REI<\/strong> (Lc 23, 35- 43) \u2013 Por &nbsp;Marcelo Barros<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full is-resized\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/images-2.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-14874\" width=\"779\" height=\"517\"\/><figcaption>Marcelo Barros<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>\u201cNo olhar da gente, a certeza do irm\u00e3o: reinado do povo\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>Neste \u00faltimo domingo do tempo comum, XXXIV Domingo comum C, a Igreja Cat\u00f3lica celebra o que chama de \u201cFesta de Cristo-Rei\u201d e nesse ano C, nos prop\u00f5e meditar sobre Lucas 23, 35 a 43, a cena na qual Jesus, na cruz, \u00e9 reconhecido como rei pelo bandido com o qual estava sendo crucificado. Este lhe pede:<\/p>\n\n\n\n<p>&#8211; <em>\u201cSenhor, lembra-te de mim quando come\u00e7ares a reinar\u201d<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>e Jesus responde: <em>\u201c- Hoje mesmo estar\u00e1s comigo no para\u00edso\u201d.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Para o evangelho, o modo como Jesus viveu sua miss\u00e3o de libertador foi de modo contr\u00e1rio ao poder e \u00e0 for\u00e7a. Ele nunca usou propriamente esse t\u00edtulo para si e, ao contr\u00e1rio, manifestou-se claramente contr\u00e1rio. O evangelho de Jo\u00e3o conta que depois de repartir o p\u00e3o com a multid\u00e3o, as pessoas querem faz\u00ea-lo rei e ele foge para orar na montanha (Jo 6, 15). Foi Pilatos, o governador romano que colocou na cruz de Jesus, o t\u00edtulo \u201cRei dos Judeus\u201d e fez isso para ridiculariz\u00e1-lo.<\/p>\n\n\n\n<p>Quando, na cruz, Jesus responde ao bandido que est\u00e1 ao seu lado: \u201c<em>Hoje mesmo estar\u00e1s comigo no para\u00edso\u201d<\/em>, isso n\u00e3o pode significar que o reino de Deus \u00e9 o para\u00edso para onde se vai depois da morte.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o deixa de ser significativo que o primeiro cidad\u00e3o do reino de Jesus tenha sido um bandido que a tradi\u00e7\u00e3o crist\u00e3 chamou de \u201cladr\u00e3o\u201d e at\u00e9 de bom ladr\u00e3o, mas cuja tradu\u00e7\u00e3o mais exata da palavra grega usada pelos evangelhos seria um subversivo pol\u00edtico condenado \u00e0 morte pelo imp\u00e9rio.<\/p>\n\n\n\n<p>Alguns exegetas fazem o malabarismo de deslocar o Hoje da frase que o evangelho diz ter Jesus pronunciado: \u201c<em>Em verdade te digo: Hoje estar\u00e1s comigo no para\u00edso\u201d<\/em> cont\u00e9m a promessa imediata para hoje. Se ele disse: \u201c<em>Em verdade, hoje, eu te digo: estar\u00e1s comigo no para\u00edso<\/em>\u201d, a afirma\u00e7\u00e3o ganha outro sentido. A\u00ed para\u00edso significaria a entrada no reino e o evangelho n\u00e3o teria necessariamente ligado isso com a morte. Seja como for, o fato \u00e9 que, na cruz, Jesus revela que, mesmo na \u00faltima hora, toda pessoa pode contar com o perd\u00e3o divino e a participa\u00e7\u00e3o no seu reinado. E claro o mais importante \u00e9 que o <em>Hoje<\/em> do qual Jesus fala \u00e9 o hoje da salva\u00e7\u00e3o que vai al\u00e9m da refer\u00eancia imediata ao tempo.<\/p>\n\n\n\n<p>Por tr\u00e1s dessa cena, o mais importante \u00e9 ver a quest\u00e3o messi\u00e2nica, mist\u00e9rio at\u00e9 hoje n\u00e3o totalmente resolvido. J\u00e1 sabemos que, por seu modo de assumir a miss\u00e3o de Messias, Jesus frustrou as expectativas judaicas do seu tempo. N\u00e3o correspondeu \u00e0 figura do revolucion\u00e1rio que enfrenta os romanos e estabelece o reinado messi\u00e2nico no mundo. Desde o princ\u00edpio, as comunidades crist\u00e3s tentaram espiritualizar a sua forma de viver a miss\u00e3o (<em>o meu reino n\u00e3o \u00e9 desse mundo<\/em>). Como compreender isso hoje?<\/p>\n\n\n\n<p>A festa de Cristo Rei foi criada em 1925, quando na Europa, a sociedade caminhava para uma \u00e9poca de ditaduras como o Fascismo e o Nazismo em pa\u00edses como Portugal, Espanha, It\u00e1lia, Alemanha e, a partir da\u00ed, o que resultou em uma guerra mundial. Era como se ao proclamar Jesus como Rei se quisesse contrapor outro modo de viver o poder na sociedade.<\/p>\n\n\n\n<p>Infelizmente, na pr\u00f3pria Igreja, o papa da \u00e9poca fez acordo com o ditador italiano para ser reconhecido como soberano do pequeno estado do Vaticano e entendia isso como s\u00edmbolo da realeza de Cristo.<\/p>\n\n\n\n<p>Na festa de Cristo Rei de 1963, portanto h\u00e1 mais de 60 anos, em Roma, durante o Conc\u00edlio Vaticano II, Dom Helder Camara escrevia em uma de suas circulares: \u201c<em>Eu me angustio ao ver que, de certo modo, exploramos a realeza dele para justificar, inconscientemente a nossa. Durante a missa, pensei o tempo todo no pobre Rei, com estopa nas costas e coroado de espinhos&#8230;<\/em>\u201d (25\u00aa Circular \u2013 Tomo 1. Volume 1, p. 238).<\/p>\n\n\n\n<p>Atualmente, como j\u00e1 nos anos 1960, sonhava Dom Helder Camara, muitos de n\u00f3s desejamos que o bispo de Roma, primaz da comunh\u00e3o cat\u00f3lica das Igrejas, se liberte das amarras do poder, renuncie a ser chefe de Estado, justamente para viver com mais liberdade o seu minist\u00e9rio de pastor. Ao ler, hoje, o evangelho da crucifix\u00e3o, n\u00e3o podemos esquecer que todos os poderes da \u00e9poca, o pol\u00edtico e o religioso, se colocaram de acordo para condenar Jesus \u00e0 morte.<\/p>\n\n\n\n<p>De fato, temos de nos perguntar o que significa no mundo atual, chamar Jesus de rei, mesmo se esclarecemos que ele reina na cruz e que sua forma de ser rei \u00e9 oposta \u00e0 forma da nobreza do mundo. No mundo antigo, como a sociedade registrou em livros, a monarquia era a \u00fanica forma de poder social e pol\u00edtico. Reis e rainhas eram senhores e tinham direito \u00e0s propriedades dos seus s\u00faditos e at\u00e9 \u00e0s suas pessoas como escravos. Mesmo se dizemos que Jesus \u00e9 ou foi um rei diferente, de fato, com essa imagem, chamamos Jesus de um bom senhor de escravos. E, sem querer, legitimamos uma sociedade de senhores e de escravos. Alguns argumentam: S\u00f3 o Cristo \u00e9 o Senhor. Os evangelhos testemunham: Jesus nunca quis escravos. Durante a ceia, diz claramente aos disc\u00edpulos e disc\u00edpulas: \u201c<em>N\u00e3o vos chamo de servos, mas de amigos, porque o servo n\u00e3o sabe o que faz o seu senhor; mas tenho-vos chamado amigos, porque partilhei convosco tudo quanto ouvi do meu Pai\u201d (Jo 15, 15).<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Hoje s\u00e3o milh\u00f5es de pessoas no mundo que vivem como marginais nos mais diversos tipos de cruz inventados pelo mundo para exterminar a multid\u00e3o de descart\u00e1veis que n\u00e3o s\u00e3o necess\u00e1rios ao com\u00e9rcio e ao lucro dos poderosos e da elite econ\u00f4mica que, no Brasil, Jess\u00e9 de Souza chama de \u201celite do atraso\u201d, marcada pelo racismo e pela desumanidade monstruosa.<\/p>\n\n\n\n<p>Sem d\u00favida, a melhor forma de celebrar a salva\u00e7\u00e3o divina \u00e9 n\u00e3o legitimar monarquias nem nobrezas humanas e realmente nos colocar como cidad\u00e3os e cidad\u00e3s do reinado dos povos crucificados aos quais precisamos fazer descer da cruz.<\/p>\n\n\n\n<p>No Brasil de hoje, para o povo mais pobre, rei e rainha s\u00e3o t\u00edtulos de carnaval: em Pernambuco, rei e rainha de Maracatu. Em alguns estados do Nordeste, recorda os pastoris e reizados que crian\u00e7as e jovens dan\u00e7am na \u00e9poca do Natal. Crian\u00e7as gostam das hist\u00f3rias de reis e rainhas. At\u00e9 hoje, o Cinema fatura com as aventuras dos tempos antigos e recorda as magias da terra do meio, as tramas do \u201cSenhor do anel\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Na m\u00fasica Utopia, o querido poeta e compositor Z\u00e9 Vivente canta:<\/p>\n\n\n\n<p><em>&nbsp;\u201cNo olhar da gente, a certeza do irm\u00e3o: reinado do povo\u201d<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Assim, com essas palavras, proclamamos a esperan\u00e7a do poder popular. Somos chamados e chamadas a crer que na luta pac\u00edfica dos&nbsp; crucificados e crucificadas do mundo est\u00e1 a salva\u00e7\u00e3o que Jesus nos promete e que os movimentos populares chamam de \u201creinado do povo\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-center\"><strong>Folia de reis<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-center\">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; (Chico An\u00edsio e Arnaud Rodrigues)<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-center\"><em>Ai, andar andei<br>Ai, como eu andei<br>E aprendi a nova lei<br>Alegria em nome da rainha<br>E folia em nome de rei<br>Alegria em nome da rainha<br>E folia em nome de rei<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-center\"><em>Ai, mar marujei<br>Ai, eu naveguei<br>E aprendi a nova lei<br>Se \u00e9 de terra que fique na areia<br>O mar bravo s\u00f3 respeita rei<br>Se \u00e9 de terra que fique na areia<br>O mar bravo s\u00f3 respeita rei<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-center\"><em>Ai, voar voei<br>Ai, como eu voei<br>E aprendi a nova lei<br>Alegria em nome das estrelas<br>E folia em nome de rei<br>Alegria em nome das estrelas<br>E folia em nome de rei<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-center\"><em>Ai, eu partirei<br>Ai, eu voltarei<br>Vou confirmar a nova lei<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-center\"><em>Alegria em nome de Cristo<br>Porque Cristo foi o Rei dos reis<br>Alegria em nome de Cristo<br>Porque Cristo foi o Rei dos reis<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>FESTA DO POVO POBRE, CRISTO E REI (Lc 23, 35- 43) \u2013 Por &nbsp;Marcelo Barros \u201cNo olhar da gente, a certeza do irm\u00e3o: reinado do povo\u201d Neste \u00faltimo domingo do tempo comum, XXXIV Domingo comum<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[17],"tags":[],"class_list":["post-14873","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-destaque"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/14873","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=14873"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/14873\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":14876,"href":"https:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/14873\/revisions\/14876"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=14873"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=14873"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=14873"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}