{"id":14952,"date":"2026-01-17T18:08:24","date_gmt":"2026-01-17T21:08:24","guid":{"rendered":"https:\/\/gilvander.org.br\/site\/?p=14952"},"modified":"2026-01-17T18:08:27","modified_gmt":"2026-01-17T21:08:27","slug":"do-batismo-das-aguas-ao-mergulho-no-espirito-jo-129-34-por-marcelo-barros","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/gilvander.org.br\/site\/do-batismo-das-aguas-ao-mergulho-no-espirito-jo-129-34-por-marcelo-barros\/","title":{"rendered":"DO BATISMO DAS \u00c1GUAS AO MERGULHO NO ESP\u00cdRITO (Jo 1,29-34) \u2013 Por Marcelo Barros"},"content":{"rendered":"\n<p><strong>DO BATISMO DAS \u00c1GUAS AO MERGULHO NO ESP\u00cdRITO (Jo 1,29-34) \u2013 Por Marcelo Barros<\/strong><\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"800\" height=\"530\" src=\"https:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/01\/image_processing20221226-11986-xk0m6d.jpeg\" alt=\"\" class=\"wp-image-14953\" srcset=\"https:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/01\/image_processing20221226-11986-xk0m6d.jpeg 800w, https:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/01\/image_processing20221226-11986-xk0m6d-300x199.jpeg 300w, https:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/01\/image_processing20221226-11986-xk0m6d-768x509.jpeg 768w\" sizes=\"auto, (max-width: 800px) 100vw, 800px\" \/><figcaption>Irm\u00e3o Marcelo Barros<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>Neste II Domingo do tempo comum, o evangelho proposto pelo lecion\u00e1rio ecum\u00eanico \u00e9 Jo\u00e3o 1, 29- 34. A primeira s\u00e9rie de domingos do tempo comum (antes da Quaresma) come\u00e7a por esse trecho do quarto evangelho que conta o testemunho de Jo\u00e3o Batista sobre o batismo de Jesus.<\/p>\n\n\n\n<p>O que lemos hoje neste evangelho \u00e9 que as comunidades pentecostais t\u00eam raz\u00e3o: n\u00e3o basta o batismo nas \u00e1guas. \u00c9 preciso sermos batizados e batizadas (mergulhados\/as) no Esp\u00edrito. Essa era a preocupa\u00e7\u00e3o da comunidade crist\u00e3 que, no final do s\u00e9culo I, escreveu esse texto: N\u00e3o basta o rito das \u00e1guas. \u00c9 preciso mergulhar no Esp\u00edrito e esse evangelho sublinha que s\u00f3 Jesus pode fazer isso conosco.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Atualmente, n\u00e3o temos mais dentro das Igrejas essas controv\u00e9rsias que foram pr\u00f3prias do final do primeiro s\u00e9culo entre comunidades crist\u00e3s e grupos que se consideravam disc\u00edpulos de Jo\u00e3o Batista. No entanto, ainda hoje, em todas as Igrejas crist\u00e3s, temos muita gente que colocam a seguran\u00e7a da sua f\u00e9 em leis, estruturas e ritos.<\/p>\n\n\n\n<p>A esses, o Jo\u00e3o Batista do quarto evangelho confessa: Eu n\u00e3o o conhecia&#8230; (v 33). Algu\u00e9m pode perguntar como Jo\u00e3o podia dizer que n\u00e3o conhecia Jesus, se o evangelho de Lucas coloca Jo\u00e3o e Jesus como parentes e se mesmo neste evangelho segundo Jo\u00e3o, antes dessa cena, Jo\u00e3o j\u00e1 havia dado testemunho do Cristo (1, 19- 28).&nbsp;A\u00ed descobrimos que o conhecer ao qual Jo\u00e3o se refere n\u00e3o corresponde a um conhecimento formal. O conhecer b\u00edblico \u00e9 entrar na intimidade do outro.<\/p>\n\n\n\n<p>Em sua vers\u00e3o do quarto evangelho, Andr\u00e9 Chouraqui traduz essa palavra de Jo\u00e3o Batista da seguinte maneira: <em>&#8220;Antes, eu n\u00e3o havia penetrado no conhecimento mais profundo da sua pessoa&#8221;<a href=\"#_ftn1\" id=\"_ftnref1\"><strong>[1]<\/strong><\/a>.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>De fato, antes, Jo\u00e3o havia dito aos mensageiros dos fariseus: no meio de voc\u00eas, est\u00e1 algu\u00e9m que voc\u00eas n\u00e3o conhecem (v 26). Aqui, ele revela que esse novo conhecimento, ele, Jo\u00e3o Batista, s\u00f3 adquiriu, quando viu o sopro divino descer e pousar sobre Jesus.<\/p>\n\n\n\n<p>Para se compreender bem esse testemunho de Jo\u00e3o sobre Jesus, \u00e9 importante notar, quantas vezes, no texto, aparecem os verbos ver e conhecer. Isso significa que Jo\u00e3o teve de mudar o modo de ver e de conhecer para, de fato, descobrir a verdadeira identidade de Jesus. O profeta Jo\u00e3o s\u00f3 pode conhecer realmente quem era aquele homem, ao ver que ele,&nbsp; Jesus, se inseria no meio do povo e que, ao ser batizado, se abriu plenamente para receber o Esp\u00edrito de Deus. Foi o Esp\u00edrito que revelou Jesus a Jo\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Em nossos dias, aprendemos de Jo\u00e3o Batista a reconhecer Jesus como sendo o Cristo de Deus, assim como a toda e qualquer pessoa consagrada de Deus, seja gente religiosa, seja quem n\u00e3o \u00e9 religioso (a), mas a quem o Esp\u00edrito se manifesta, seja atrav\u00e9s de um sinal ritual (por exemplo, nas espiritualidades origin\u00e1rias do povo ind\u00edgena ou negro), seja na entrega da sua vida para que as pessoas sejam livres e felizes. Nos transes dos cultos de matriz africana, nas experi\u00eancias xam\u00e2nicas das espiritualidades ind\u00edgenas podemos descobrir o Esp\u00edrito de Deus revelando que Deus assume seus eleitos e eleitas, assim como assumiu Jesus como Cristo, como consagrado, como seu Filho predileto.<\/p>\n\n\n\n<p>Para n\u00f3s, crist\u00e3os e crist\u00e3s, somente ao fazermos uma experi\u00eancia \u00edntima e profunda de contato com Jesus \u00e9 que podemos mergulhar no Esp\u00edrito e nos abrir a essa vis\u00e3o universal. Essa experi\u00eancia n\u00e3o se faz apenas atrav\u00e9s de ritos, ou de institui\u00e7\u00f5es religiosas.<\/p>\n\n\n\n<p>Como aconteceu com o batismo que o profeta Jo\u00e3o fazia no rio Jord\u00e3o, os ritos que, hoje, realizamos podem tamb\u00e9m ser instrumentos que revelam o projeto divino. Para isso, \u00e9 importante que sejam n\u00e3o apenas ritos que fazemos para Deus e sim a mem\u00f3ria das maravilhas que Deus fez e faz para n\u00f3s. Deus n\u00e3o precisa do nosso louvor, nem de nossos ritos. O que Ele quer \u00e9 que escutemos a sua Palavra e ponhamos em pr\u00e1tica a sua proposta para o mundo: Paz, justi\u00e7a e cuidado com tudo o que o Amor Divino criou.<\/p>\n\n\n\n<p>Os ritos lit\u00fargicos podem nos ajudar a descobrir o projeto divino,&nbsp; mas a intimidade com Deus n\u00e3o se alimenta apenas com o rito e as institui\u00e7\u00f5es. Tanto \u00e9 assim que o quarto evangelho \u00e9 o \u00fanico que n\u00e3o se preocupa em contar o batismo de Jesus. Fala s\u00f3 do testemunho de Jo\u00e3o Batista sobre o fato de que viu o Esp\u00edrito descer sobre Jesus. O mais importante n\u00e3o \u00e9 o rito. \u00c9 abrir-nos ao Esp\u00edrito. \u00c9 sermos testemunha do Esp\u00edrito vir sobre a pessoa de Jesus e vir sobre n\u00f3s.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Para o profeta Jo\u00e3o Batista, o ponto de partida foi reconhecer em Jesus o Cordeiro ou o Servo de Deus. Desde o pr\u00f3logo que o evangelho procura ler a vinda de Jesus \u00e0 luz do livro do \u00caxodo. Agora apresenta Jesus como o novo cordeiro pascal. N\u00e3o tanto o cordeiro do sacrif\u00edcio, mas aquele a quem o Servo Sofredor, apresentado pelo 2\u00ba Isa\u00edas, foi comparado (52, 13- 53, 12). \u00c9 ele que se solidariza com a humanidade pecadora. Jesus assume em si o pecado estrutural do mundo, do sistema social e n\u00e3o apenas os pecados pessoais de cada um\/uma.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Quando esse evangelho foi escrito, n\u00e3o havia mais templo em Jerusal\u00e9m. Por isso, conforme o texto, ao ir ao Jord\u00e3o ser batizado por Jo\u00e3o, Jesus se preocupa n\u00e3o com os pecados individuais, mas com o pecado do mundo, isso \u00e9,&nbsp; com a estrutura in\u00edqua da sociedade. \u00c9 dessa servid\u00e3o que ele vem nos libertar. Essa passagem do quarto evangelho pode ser comparada com a passagem do evangelho de Lucas, na qual na sinagoga de Nazar\u00e9, Jesus anuncia a sua miss\u00e3o p\u00fablica: <em>\u201cO Esp\u00edrito de Deus vem sobre mim e me manda curar os doentes, soltar os cativos e libertar os oprimidos\u201d <\/em>(Lc 4, 16- 21).<\/p>\n\n\n\n<p>Isso significa que o verdadeiro batismo do Esp\u00edrito Santo \u00e9 quando aceitamos mergulhar no projeto divino da liberta\u00e7\u00e3o. O batismo do Esp\u00edrito \u00e9 quando nos inserimos nas lutas pela liberta\u00e7\u00e3o&nbsp; social e pol\u00edtica da classe trabalhadora, dos povos ind\u00edgenas, das comunidades negras e de todas as pessoas oprimidas. Como pessoas de f\u00e9, vivemos isso como experi\u00eancia espiritual. Somos conduzidos e conduzidas pelo Esp\u00edrito, ou seja, descobrimos Deus presente e se revelando a n\u00f3s nessa caminhada. Em El Salvador, nos anos 80, o padre Ignacio Ellacur\u00eda, um dos jesu\u00edtas que depois foi assassinado na Universidade (UCA), afirmou: <em>Atrav\u00e9s de Monsenhor Romero, Deus passou por El Salvador.&nbsp; <\/em>O que ele quis dizer foi que, pela a\u00e7\u00e3o de Romero em defesa da vida das pessoas pobres e perseguidas pela ditadura daquele pa\u00eds, Deus se manifestou presente. Monsenhor Romero fez o que Jo\u00e3o Batista disse no Jord\u00e3o: \u201c<em>Eu vi o Esp\u00edrito descer sobre ele (Jesus) e permanecer<\/em>\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Esse evangelho de hoje nos chama a unir essas duas dimens\u00f5es da f\u00e9: o jeito afetivo, emocional, (hoje podemos dizer: pentecostal) e a dimens\u00e3o revolucion\u00e1ria, s\u00f3cio-pol\u00edtico transformadora. \u00c9 o Esp\u00edrito que Jesus partilha conosco, que nos faz poder dizer, como Paulo: \u201c<em>J\u00e1 n\u00e3o sou eu que vivo. \u00c9 Cristo que vive em mim\u201d<\/em> (Gl 2, 20).<\/p>\n\n\n\n<p><br><em>&#8220;Tu \u00e9s um Deus escondido,&nbsp;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>mas na carne de um homem.&nbsp;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>\u00c9s um Deus escondido,&nbsp;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>em cada rosto de pobre.&nbsp;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>&nbsp;Mas, teu Amor a n\u00f3s se revela,&nbsp;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>quanto mais se esconde.&nbsp;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Sempre entre Tu e eu,&nbsp;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>uma ponte. \u00c9 imposs\u00edvel olvid\u00e1-lo.&nbsp;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Tanto me chamas Tu, como te busco eu.&nbsp;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Os dois somos encontro<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Fazendo-me o que sou,&nbsp;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>desejo e busca,&nbsp;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Tu \u00e9s o que \u00e9s, dom e abra\u00e7o.&nbsp; (Pedro Casald\u00e1liga<a href=\"#_ftn2\" id=\"_ftnref2\"><strong>[2]<\/strong><\/a>.<\/em><\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator\"\/>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref1\" id=\"_ftn1\">[1]<\/a> &#8211; CHORAQUI, Andr\u00e9.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref2\" id=\"_ftn2\">[2]<\/a> &#8211; Cf. PEDRO CASALD\u00c1LIGA, <strong>Todav\u00eda esas Palabras<\/strong>, Publica\u00e7\u00e3o Policopiada, S\u00e3o F\u00e9lix do Araguaia, 1994.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>DO BATISMO DAS \u00c1GUAS AO MERGULHO NO ESP\u00cdRITO (Jo 1,29-34) \u2013 Por Marcelo Barros Neste II Domingo do tempo comum, o evangelho proposto pelo lecion\u00e1rio ecum\u00eanico \u00e9 Jo\u00e3o 1, 29- 34. 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