{"id":14958,"date":"2026-01-17T19:08:25","date_gmt":"2026-01-17T22:08:25","guid":{"rendered":"https:\/\/gilvander.org.br\/site\/?p=14958"},"modified":"2026-01-17T19:08:28","modified_gmt":"2026-01-17T22:08:28","slug":"nova-desordem-semantica-mundial-e-a-midia-por-frei-betto","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/gilvander.org.br\/site\/nova-desordem-semantica-mundial-e-a-midia-por-frei-betto\/","title":{"rendered":"Nova desordem (sem\u00e2ntica) mundial e a m\u00eddia \u2013 Por Frei Betto"},"content":{"rendered":"\n<p><strong>Nova desordem (sem\u00e2ntica) mundial e a m\u00eddia \u2013 Por Frei Betto<\/strong><\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full is-resized\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/01\/image_processing20200201-29235-x5nooa.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-14959\" width=\"779\" height=\"436\" srcset=\"https:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/01\/image_processing20200201-29235-x5nooa.jpg 800w, https:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/01\/image_processing20200201-29235-x5nooa-300x168.jpg 300w, https:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/01\/image_processing20200201-29235-x5nooa-768x431.jpg 768w\" sizes=\"auto, (max-width: 779px) 100vw, 779px\" \/><figcaption>Frei Betto &#8211; Reprodu\u00e7\u00e3o Redes Virtuais<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>Neste mundo j\u00e1 marcado por crises interligadas \u2013 clim\u00e1tica, pand\u00eamica, geopol\u00edtica \u2013 assistimos n\u00e3o a um ajuste, mas a um desmonte acelerado da arquitetura internacional p\u00f3s-Guerra Fria. A volta de Donald Trump \u00e0 presid\u00eancia dos EUA n\u00e3o \u00e9 um mero evento eleitoral; \u00e9 a materializa\u00e7\u00e3o de um projeto pol\u00edtico que exalta como virtude a ruptura com o multilateralismo. Este fen\u00f4meno, por\u00e9m, n\u00e3o surge no v\u00e1cuo; \u00e9 amplificado e, em certa medida, normalizado por um discurso midi\u00e1tico que, ao adotar eufemismos e enquadramentos parciais, acaba por justificar a\u00e7\u00f5es imperialistas sob novos r\u00f3tulos.<\/p>\n\n\n\n<p>O multilateralismo, com todas as suas imperfei\u00e7\u00f5es e hipocrisias, era a coluna vertebral de uma ordem baseada em regras, ainda que muitas s\u00f3 figurassem em documentos protocolares. Organiza\u00e7\u00f5es como a ONU, o FMI e a OMC serviam como arenas de negocia\u00e7\u00e3o e freios (t\u00eanues) ao exerc\u00edcio bruto do poder. A doutrina &#8220;America First&#8221; de Trump atacou esse sistema de frente: retirada da UNESCO, do Conselho de Direitos Humanos, amea\u00e7as \u00e0 OTAN, guerra comercial unilateral, desprezo por acordos clim\u00e1ticos. A mensagem de Trump \u00e9 clara: os compromissos coletivos s\u00e3o obst\u00e1culos ao poderio mundial dos EUA.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Se em um primeiro momento isso foi visto como um transtorno de personalidade do presidente estadunidense, hoje se revela como uma estrat\u00e9gia consciente, que encontrou eco em l\u00edderes de outros pa\u00edses e redefiniu o tabuleiro global. A &#8220;nova desordem mundial&#8221; \u00e9 uma arena de todos contra todos, onde a for\u00e7a bruta, a coer\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica e a diplomacia do ultimato substituem a negocia\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>No v\u00e1cuo provocado por essa ruptura, o que emerge n\u00e3o \u00e9 um mundo multipolar equilibrado, mas um caos de competi\u00e7\u00e3o predat\u00f3ria, onde grandes pot\u00eancias e corpora\u00e7\u00f5es agem com total impunidade renovada. A anexa\u00e7\u00e3o de territ\u00f3rios, as interven\u00e7\u00f5es militares &#8220;cir\u00fargicas&#8221;, os bloqueios econ\u00f4micos asfixiantes e o apoio a governos autorit\u00e1rios continuam. Mas a linguagem para descrev\u00ea-los sofreu uma sofistica\u00e7\u00e3o perversa. \u00c9 aqui que a cumplicidade involunt\u00e1ria ou intencional de parte da grande imprensa se torna crucial.<\/p>\n\n\n\n<p>A cobertura de conflitos e interven\u00e7\u00f5es est\u00e1 repleta de eufemismos que encobrem a realidade e desresponsabilizam os agentes do poder. Uma &#8220;invas\u00e3o&#8221; torna-se uma &#8220;opera\u00e7\u00e3o especial&#8221; ou uma &#8220;interven\u00e7\u00e3o para assegurar estabilidade&#8221;. Bloqueios, como o imposto a Cuba, ou san\u00e7\u00f5es econ\u00f4micas, que devastam economias e causam fome em popula\u00e7\u00f5es civis, s\u00e3o descritas como \u201cembargos\u201d, &#8220;medidas de press\u00e3o&#8221; ou &#8220;ferramentas diplom\u00e1ticas&#8221;. Apoio a mil\u00edcias que derrubam governos eleitos vira &#8220;parceria com for\u00e7as locais&#8221;. O termo &#8220;guerra&#8221; \u00e9 evitado a todo custo, substitu\u00eddo por um l\u00e9xico de gest\u00e3o de crises. O colonialismo do s\u00e9culo XXI n\u00e3o se veste mais de &#8220;miss\u00e3o civilizat\u00f3ria&#8221;, como nos s\u00e9culos anteriores, mas de &#8220;responsabilidade de proteger&#8221;, &#8220;lutar contra o terrorismo&#8221; ou &#8220;defender a democracia&#8221; \u2013 conceitos v\u00e1lidos em si, mas esvaziados e instrumentalizados.<\/p>\n\n\n\n<p>Essa linguagem n\u00e3o \u00e9 inocente. Serve a um prop\u00f3sito claro: tornar aceit\u00e1vel o inaceit\u00e1vel. Ao transformar atos de agress\u00e3o em quest\u00f5es t\u00e9cnicas ou de seguran\u00e7a, a narrativa dominante isola os eventos de seu contexto hist\u00f3rico, ignora as causas profundas e oculta os interesses materiais em jogo. Cria-se uma assimetria narrativa, j\u00e1 que as a\u00e7\u00f5es de pot\u00eancias ocidentais ou seus aliados s\u00e3o enquadradas como reativas, defensivas ou necess\u00e1rias, enquanto as de seus advers\u00e1rios s\u00e3o imediatamente classificadas como ofensivas, expansionistas e malignas.<\/p>\n\n\n\n<p>Um dos casos mais gritante \u00e9 a cobertura do genoc\u00eddio em Gaza. A imprensa hegem\u00f3nica, em muitos casos, tratou o bombardeio indiscriminado e a morte de milhares de civis como &#8220;respostas&#8221; a ataques terroristas, &#8220;danos colaterais&#8221; ou &#8220;autodefesa complexa&#8221;. A palavra &#8220;genoc\u00eddio&#8221;, utilizada por juristas e historiadores s\u00e9rios, \u00e9 descartada como ret\u00f3rica excessiva, enquanto os eufemismos oficiais s\u00e3o reproduzidos acriticamente. A mesma l\u00f3gica se aplica \u00e0s san\u00e7\u00f5es ao Ir\u00e3, \u00e0 S\u00edria ou ao I\u00eamen, retratadas muitas vezes como problemas de gest\u00e3o interna de regimes &#8220;problem\u00e1ticos&#8221;, e n\u00e3o como instrumentos de guerra econ\u00f4mica que atingem os mais vulner\u00e1veis.<\/p>\n\n\n\n<p>O caso da Venezuela \u00e9 clamoroso. Os EUA decidem violar o Direito Internacional, ocupam o mar do Caribe com suas armas marinhas, assassinam pescadores considerados supostos narcotraficantes e, como o pirata Black Bart, apreende navios petroleiros. Onde est\u00e1 a m\u00eddia investigativa para comprovar as acusa\u00e7\u00f5es de que os barcos serviam ao narcotr\u00e1fico? Por que a vers\u00e3o da Casa Branca predomina?<\/p>\n\n\n\n<p>Vejam o notici\u00e1rio das grandes m\u00eddias: todas qualificam de \u201ccaptura\u201d o sequestro de Nicolas Maduro. Por que captura? Por ter o governo dos EUA posto a cabe\u00e7a dele a pr\u00eamio? E agora que os EUA retiraram a acusa\u00e7\u00e3o de \u201cnarcotraficante\u201d, o que justifica o sequestro? E Cilia Flores, por que foi sequestrada junto com o marido?&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>O fen\u00f4meno Trump \u00e9, assim, tanto a causa quanto o sintoma dessa nova desordem. Sua ret\u00f3rica brutalmente transacional exp\u00f5e o que antes era velado: que a ordem internacional \u00e9, em \u00faltima an\u00e1lise, um jogo de poder. Trump ao menos demonstra uma sinceridade que a grande m\u00eddia procura camuflar: a Venezuela foi invadida, n\u00e3o para que se recupere a democracia, e sim para os EUA se apropriar do petr\u00f3leo. E a Groenl\u00e2ndia \u00e9 amea\u00e7ada porque a Casa Branca est\u00e1 interessada em suas terras raras e na posi\u00e7\u00e3o geopol\u00edtica que ocupa frente \u00e0 Eur\u00e1sia.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Ao agir assim, ele normaliza a linguagem do nacionalismo agressivo. A imprensa, por sua vez, ao adotar uma postura de &#8220;objetividade&#8221; que frequentemente repete os termos do poderoso, torna-se um mecanismo de soft power. N\u00e3o precisa mentir; basta selecionar, enquadrar e suavizar.<\/p>\n\n\n\n<p>O resultado \u00e9 um p\u00fablico dessensibilizado, que consome viol\u00eancia estrutural e imperialismo como se fossem not\u00edcias meteorol\u00f3gicas de eventos inevit\u00e1veis, complicados, sem causas objetivas. A cr\u00edtica ao sistema \u00e9 esvaziada, pois falta o l\u00e9xico preciso para nomear seus mecanismos. A &#8220;nova desordem mundial&#8221; n\u00e3o \u00e9 apenas a dos tanques e das tarifas; \u00e9 a desordem sem\u00e2ntica, onde as palavras perdem seu sentido para servir ao poder.<\/p>\n\n\n\n<p>A sa\u00edda para este labirinto exige mais do que den\u00fancias. Exige um jornalismo que rejeite o eufemismo como protocolo, que restaure a linguagem direta \u2013 invas\u00e3o \u00e9 invas\u00e3o, sequestro \u00e9 sequestro, bloqueio \u00e9 bloqueio, genoc\u00eddio \u00e9 genoc\u00eddio \u2013 e investigue o poder em vez de apenas traduzi-lo.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Em um mundo p\u00f3s-multilateral, onde a for\u00e7a bruta retorna ao centro do palco, a \u00faltima trincheira da \u00e9tica jornal\u00edstica pode ser a capacidade de chamar as coisas pelos seus verdadeiros nomes. Sem isso, a nova desordem n\u00e3o ser\u00e1 apenas a nossa realidade, mas a \u00fanica hist\u00f3ria que nos ser\u00e1 permitido contar.<\/p>\n\n\n\n<p>Frei Betto \u00e9 escritor, autor do romance sobre a explora\u00e7\u00e3o da Amaz\u00f4nia \u201cTom Vermelho do Verde\u201d (Rocco), entre outros livros. Livraria virtual: <a href=\"http:\/\/freibetto.org\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">freibetto.org<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nova desordem (sem\u00e2ntica) mundial e a m\u00eddia \u2013 Por Frei Betto Neste mundo j\u00e1 marcado por crises interligadas \u2013 clim\u00e1tica, pand\u00eamica, geopol\u00edtica \u2013 assistimos n\u00e3o a um ajuste, mas a um desmonte acelerado da arquitetura<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":14959,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[21,22,46,44,27,30,29,43,26],"tags":[],"class_list":["post-14958","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-artigo","category-cebs-comunidades-eclesiais-de-base","category-direito-a-cultura-popular","category-direito-a-memoria","category-direitos-humanos","category-fe-e-politica","category-movimentos-sociais-populares","category-pedagogia-emancipatoria","category-teologia-da-libertacao"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/14958","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=14958"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/14958\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":14960,"href":"https:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/14958\/revisions\/14960"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media\/14959"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=14958"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=14958"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=14958"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}