{"id":14991,"date":"2026-02-07T16:23:35","date_gmt":"2026-02-07T19:23:35","guid":{"rendered":"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/?p=14991"},"modified":"2026-02-07T17:31:55","modified_gmt":"2026-02-07T20:31:55","slug":"o-poder-do-simbolo-na-campanha-politica-por-frei-betto","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/gilvander.org.br\/site\/o-poder-do-simbolo-na-campanha-politica-por-frei-betto\/","title":{"rendered":"O PODER DO S\u00cdMBOLO NA CAMPANHA POL\u00cdTICA &#8211; \u00a0 Por Frei Betto"},"content":{"rendered":"\n<p><strong>O PODER DO S\u00cdMBOLO NA CAMPANHA POL\u00cdTICA &#8211; &nbsp; Frei Betto<a id=\"_ftnref1\" href=\"#_ftn1\"><strong>[1]<\/strong><\/a><\/strong><\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full is-resized\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/02\/images.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-14992\" width=\"780\" height=\"503\"\/><figcaption>Frei Betto. Reprodu\u00e7\u00e3o Redes Virtuais<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>Em campanhas pol\u00edticas, raramente vence quem apresenta apenas os melhores dados ou os planos mais bem estruturados. Ganha quem consegue tocar zonas profundas da psique coletiva. Bandeiras, cores, gestos, slogans, m\u00fasicas e imagens n\u00e3o s\u00e3o meros adornos publicit\u00e1rios: s\u00e3o s\u00edmbolos. E o s\u00edmbolo, como j\u00e1 ensinaram Sigmund Freud e Joseph Campbell, fala diretamente ao inconsciente.<\/p>\n\n\n\n<p>Freud demonstrou que grande parte do comportamento humano \u00e9 movido por desejos, medos e puls\u00f5es que escapam \u00e0 consci\u00eancia racional. O indiv\u00edduo acredita escolher com base na l\u00f3gica, mas frequentemente responde a est\u00edmulos simb\u00f3licos que ativam mem\u00f3rias infantis, arqu\u00e9tipos familiares ou fantasias de prote\u00e7\u00e3o e poder. Transferindo isso para a pol\u00edtica, o eleitor n\u00e3o vota apenas em propostas; vota em figuras que representam pai, m\u00e3e, her\u00f3i, salvador ou vingador.<\/p>\n\n\n\n<p>O candidato que se apresenta como \u201chomem forte\u201d evoca a imagem paterna autorit\u00e1ria, que promete ordem diante do caos. J\u00e1 o que se constr\u00f3i como figura acolhedora ativa a dimens\u00e3o materna, sin\u00f4nimo de cuidado e pertencimento. Freud chamaria isso de transfer\u00eancia: emo\u00e7\u00f5es originalmente dirigidas \u00e0s figuras prim\u00e1rias da inf\u00e2ncia s\u00e3o projetadas no l\u00edder pol\u00edtico. Assim, o palanque transforma-se em div\u00e3 coletivo.<\/p>\n\n\n\n<p>Joseph Campbell amplia essa leitura ao recorrer \u00e0 mitologia comparada. Para ele, todas as culturas compartilham narrativas fundamentais, organizadas em arqu\u00e9tipos universais: o her\u00f3i, o mentor, o inimigo, a jornada, a queda e o retorno. Em campanhas eleitorais eficazes, o candidato \u00e9 apresentado como protagonista de uma epopeia contempor\u00e2nea. H\u00e1 sempre um drag\u00e3o a ser derrotado \u2014 corrup\u00e7\u00e3o, sistema, elite, comunismo, capitalismo \u2014 e um povo que aguarda liberta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Campbell explica que o mito n\u00e3o \u00e9 uma f\u00e1bula ultrapassada, mas uma linguagem simb\u00f3lica que d\u00e1 sentido \u00e0 experi\u00eancia humana. Quando um pol\u00edtico veste determinadas cores, adota gestos calculados ou repete frases ritual\u00edsticas,est\u00e1 encenando um mito moderno. A pol\u00edtica torna-se teatro sagrado, onde o eleitor assume o papel de comunidade inici\u00e1tica, \u00e0 espera de reden\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>A for\u00e7a do s\u00edmbolo reside justamente em sua ambiguidade. Ele n\u00e3o explica: sugere. N\u00e3o argumenta: convoca. Uma bandeira n\u00e3o diz nada objetivamente, mas pode provocar l\u00e1grimas. Um bon\u00e9, uma camisa ou um gesto com as m\u00e3os (vide a sauda\u00e7\u00e3o nazista) podem condensar ideologias inteiras. Freud diria que o s\u00edmbolo funciona como condensa\u00e7\u00e3o on\u00edrica, produz m\u00faltiplos significados comprimidos em uma \u00fanica imagem.<\/p>\n\n\n\n<p>Por isso, slogans simples costumam ser mais eficazes que programas complexos. Operam como mantras pol\u00edticos, repetidos at\u00e9 se fixarem no inconsciente coletivo. A raz\u00e3o cede espa\u00e7o ao afeto. O eleitor passa a \u201csentir\u201d que aquele candidato \u00e9 verdadeiro, forte ou diferente \u2014 ainda que n\u00e3o consiga explicar por qu\u00ea.<\/p>\n\n\n\n<p>Essa din\u00e2mica ajuda a compreender por que fatos frequentemente perdem para narrativas. O s\u00edmbolo cria pertencimento. Quem adere passa a integrar uma tribo emocional. Criticar o l\u00edder torna-se, ent\u00e3o, um ataque pessoal, pois o indiv\u00edduo j\u00e1 fundiu sua identidade ao mito.<\/p>\n\n\n\n<p>Freud alerta para o perigo das massas quando guiadas por impulsos inconscientes. Campbell, por sua vez, lembra que o her\u00f3i tamb\u00e9m pode degenerar em tirano quando deixa de servir ao coletivo e passa a exigir adora\u00e7\u00e3o. A hist\u00f3ria pol\u00edtica recente mostra como s\u00edmbolos podem libertar, mas tamb\u00e9m aprisionar.<\/p>\n\n\n\n<p>Compreender o papel do s\u00edmbolo na campanha pol\u00edtica \u00e9, portanto, um exerc\u00edcio de cidadania. Reconhecer os arqu\u00e9tipos em a\u00e7\u00e3o, perceber as transfer\u00eancias emocionais e identificar as narrativas m\u00edticas ajudam o eleitor a recuperar certa autonomia diante do espet\u00e1culo eleitoral.<\/p>\n\n\n\n<p>Em um mundo saturado de imagens, quem domina o simb\u00f3lico governa afetos. E quem governa afetos frequentemente angaria votos. Cabe ao cidad\u00e3o atravessar o v\u00e9u do mito e perguntar, para al\u00e9m da encena\u00e7\u00e3o: que projeto real se esconde atr\u00e1s da alegoria?<\/p>\n\n\n\n<p>Porque, como ensinam Freud e Campbell, o s\u00edmbolo \u00e9 poderoso, mas n\u00e3o \u00e9 inocente.<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator\"\/>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref1\" id=\"_ftn1\">[1]<\/a> Frei Betto \u00e9 escritor, autor do romance sobre a Amaz\u00f4nia e o mundo ind\u00edgena \u201cTom Vermelho do Verde\u201d (Rocco), entre outros livros. Livraria virtual:&nbsp;<a href=\"http:\/\/freibetto.org\/\">freibetto.org<\/a>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O PODER DO S\u00cdMBOLO NA CAMPANHA POL\u00cdTICA &#8211; &nbsp; Frei Betto[1] Em campanhas pol\u00edticas, raramente vence quem apresenta apenas os melhores dados ou os planos mais bem estruturados. 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