{"id":15026,"date":"2026-02-28T10:03:22","date_gmt":"2026-02-28T13:03:22","guid":{"rendered":"https:\/\/gilvander.org.br\/site\/?p=15026"},"modified":"2026-02-28T10:03:22","modified_gmt":"2026-02-28T13:03:22","slug":"ele-veio-morar-entre-nos-por-marcelo-barros","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/gilvander.org.br\/site\/ele-veio-morar-entre-nos-por-marcelo-barros\/","title":{"rendered":"ELE VEIO MORAR ENTRE N\u00d3S &#8211; Por Marcelo Barros"},"content":{"rendered":"\n<p><strong>ELE VEIO MORAR ENTRE N\u00d3S &#8211; Por Marcelo Barros<\/strong><\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full is-resized\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"497\" height=\"331\" src=\"https:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/02\/campanha-da-fraternidade.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-15027\" style=\"width:780px;height:auto\" srcset=\"https:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/02\/campanha-da-fraternidade.png 497w, https:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/02\/campanha-da-fraternidade-300x200.png 300w, https:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/02\/campanha-da-fraternidade-420x280.png 420w\" sizes=\"auto, (max-width: 497px) 100vw, 497px\" \/><\/figure>\n\n\n\n<p>Nesse in\u00edcio de Quaresma, no Brasil, a Igreja Cat\u00f3lica lan\u00e7a a Campanha da Fraternidade para dar concretitude maior \u00e0 convers\u00e3o proposta para esse tempo de prepara\u00e7\u00e3o intensiva para a festa da P\u00e1scoa. O tema desse ano \u00e9 Fraternidade e Moradia, com o lema: <em>Ele veio morar entre n\u00f3s.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>O objetivo da campanha \u00e9 ajudar-nos a perceber que, para grande parte do povo brasileiro, a moradia \u00e9 um imenso desafio. Os dados s\u00e3o assustadores: seis milh\u00f5es de pessoas n\u00e3o t\u00eam onde morar.&nbsp; Al\u00e9m disso, 26 milh\u00f5es vivem em habita\u00e7\u00f5es inadequadas, em situa\u00e7\u00f5es insalubres e em condi\u00e7\u00f5es de risco. Al\u00e9m disso, 300 mil pessoas vivem, literalmente, em situa\u00e7\u00e3o de rua. Esses dados revelam mais do que uma falha do sistema social e pol\u00edtico. No Brasil, como em outros pa\u00edses, o problema da moradia faz parte de um projeto de sociedade, que se organiza a partir da desigualdade social e de injusti\u00e7as estruturais decorrentes da \u00e9poca da escravid\u00e3o. No final do s\u00e9culo XIX, as pessoas escravizadas foram \u201clibertadas\u201d do cativeiro, com a roupa do corpo, sem direito a nada e precisaram abrigar-se embaixo de pontes, nas encostas de morros e em casas de papel\u00e3o ou de material recolhido na rua.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Desde as \u00faltimas d\u00e9cadas do s\u00e9culo XX, em quase todas as capitais do pa\u00eds, a vitalidade do com\u00e9rcio e do lazer migrou para shoppings. Na maioria dos casos, o antigo centro da cidade jaz praticamente abandonado. Em muitas cidades, h\u00e1 dezenas de edif\u00edcios e pr\u00e9dios desocupados, enquanto uma multid\u00e3o de fam\u00edlias empobrecidas dormem pelas pra\u00e7as ainda n\u00e3o engradadas e nas cal\u00e7adas das ruas.<\/p>\n\n\n\n<p>Em 1948, a Carta dos Direitos Humanos da ONU j\u00e1 reconhece o direito de moradia digna, como universal e b\u00e1sico. A nossa Constitui\u00e7\u00e3o Federal de 1988, no artigo 6\u00ba define que a moradia est\u00e1 entre direitos sociais de todas as pessoas, assim como educa\u00e7\u00e3o, sa\u00fade, alimenta\u00e7\u00e3o, trabalho, transporte, lazer, seguran\u00e7a, previd\u00eancia social, prote\u00e7\u00e3o \u00e0 maternidade e \u00e0 inf\u00e2ncia, e assist\u00eancia aos desamparados. Apesar disso, de 1990 para c\u00e1 a exclus\u00e3o social s\u00f3 tem aumentado, como express\u00e3o de uma pol\u00edtica cruel que permite que um oper\u00e1rio ganhe 1.600 reais, enquanto \u201c<em>os sal\u00e1rios chegam a R$ 93 mil na Eletrobras e R$ 145 mil na Petrobras<\/em>\u201d (Cf. Gazeta do Povo, 23\/02\/ 2026).<\/p>\n\n\n\n<p>A situa\u00e7\u00e3o prec\u00e1ria de grande parte do povo brasileiro em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 moradia \u00e9 injusti\u00e7a estrutural da sociedade, mas tamb\u00e9m questiona, diretamente, a f\u00e9 e as religi\u00f5es. Em todos os caminhos espirituais da humanidade, a hospitalidade \u00e9 considerada como dever sagrado. Na tradi\u00e7\u00e3o indiana, a express\u00e3o v\u00e9dica <em>atithi devo bhava<\/em> \u2014 \u201c<em>o h\u00f3spede \u00e9 como um deus\u201d<\/em> \u2014 eleva o ato de acolher a um princ\u00edpio espiritual, integrado no <em>dharma<\/em>, a ordem moral do mundo.<\/p>\n\n\n\n<p>Na B\u00edblia, a tradi\u00e7\u00e3o hebraica conta que, quando o patriarca Abra\u00e3o recebeu em sua casa e preparou comida para tr\u00eas viajantes que passavam por sua terra, ele acolheu o pr\u00f3prio Deus (Gn 18). A B\u00edblia liga \u00e0 luta pela terra ao direito de moradia e deixa claro que, atrav\u00e9s do profeta Natam, Deus manda dizer a Davi que n\u00e3o quer templos nem santu\u00e1rios e sim promete estabelec\u00ea-lo em uma casa duradora (2 Sm 7). A\u00ed o termo casa significava moradia e tamb\u00e9m fam\u00edlia e descend\u00eancia. \u00c9 nesse sentido que os profetas prometem que o Cristo nasceria da \u201ccasa\u201d de Davi, ou seja, da sua descend\u00eancia. No evangelho, Jesus conta a par\u00e1bola do julgamento final, na qual ele diz claramente: \u201cCada vez que fizestes isso (receber em casa) a um desses pequeninos em meu nome, foi a mim que fizestes\u201d (Mt, 25, 31).<\/p>\n\n\n\n<p>No mundo inteiro e, especificamente, no Brasil atual, a falta de moradia ou a vida em habita\u00e7\u00f5es in\u00f3spitas e inseguras \u00e9 uma forma nova de condenar popula\u00e7\u00f5es inteiras a uma cruz terr\u00edvel e ainda mais desumana, porque \u00e9 cotidiana e permanente. Para celebrarmos essa P\u00e1scoa de 2026, de forma profunda e verdadeira, precisamos fazer tudo o que estiver ao nosso alcance para fazer descer da cruz a multid\u00e3o de pessoas sem teto, sem terra e sem trabalho.<\/p>\n\n\n\n<p>Na realidade do mundo, o cumprimento do dever sagrado de acolher n\u00e3o pode ser mais e apenas receber, momentaneamente, em casa, &nbsp;algu\u00e9m que passa, mas comprometer-se para que todas as pessoas tenham casa e possam viver e conviver em ambiente sadio e hospitaleiro.<\/p>\n\n\n\n<p>Essa Campanha da Fraternidade deveria ser ecum\u00eanica, porque diz respeito a problemas sofridos por pessoas das mais diversas tradi\u00e7\u00f5es espirituais. Ela s\u00f3 pode alcan\u00e7ar seus objetivos se n\u00e3o separamos f\u00e9 e vida, espiritualidade e compromisso social. Para n\u00f3s, crist\u00e3os e crist\u00e3s, o apelo divino \u00e9 celebramos a P\u00e1scoa de Jesus como princ\u00edpio de transforma\u00e7\u00e3o de nossas vidas pessoais e da realidade do mundo, em todas as suas dimens\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<p>Como afirmava o m\u00e1rtir latino-americano S\u00e3o Oscar Romero: \u201c<em>Ser a favor da vida ou da morte. Cada dia, vejo com mais clareza que essa \u00e9 a op\u00e7\u00e3o a seguir. Nisso, n\u00e3o existe neutralidade poss\u00edvel. Ou servimos \u00e0 vida, ou somos c\u00famplices da morte de muitos seres humanos. Aqui se revela qual \u00e9 a nossa f\u00e9: ou cremos no Deus que \u00e9 Vida, ou usamos o nome de Deus, servindo aos carrascos da morte<\/em>\u201d<a href=\"#_ftn1\" id=\"_ftnref1\">[1]<\/a>. &nbsp;&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity\"\/>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref1\" id=\"_ftn1\">[1]<\/a> &#8211; Cf. citado por CASALD\u00c1LIGA, Pedro. <strong>A Pol\u00edtica morreu. Viva a Pol\u00edtica. <\/strong>Ag\u00eancia Latino-americana Mundial, 2008, p. 11.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>ELE VEIO MORAR ENTRE N\u00d3S &#8211; Por Marcelo Barros Nesse in\u00edcio de Quaresma, no Brasil, a Igreja Cat\u00f3lica lan\u00e7a a Campanha da Fraternidade para dar concretitude maior \u00e0 convers\u00e3o proposta para esse tempo de prepara\u00e7\u00e3o<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[21,38,49,35,27,30,43,26],"tags":[],"class_list":["post-15026","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-artigo","category-direito-a-saude","category-direito-a-terra","category-direitos-dos-quilombolas","category-direitos-humanos","category-fe-e-politica","category-pedagogia-emancipatoria","category-teologia-da-libertacao"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/15026","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=15026"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/15026\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":15028,"href":"https:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/15026\/revisions\/15028"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=15026"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=15026"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=15026"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}