{"id":15034,"date":"2026-03-07T10:05:10","date_gmt":"2026-03-07T13:05:10","guid":{"rendered":"https:\/\/gilvander.org.br\/site\/?p=15034"},"modified":"2026-03-07T10:05:10","modified_gmt":"2026-03-07T13:05:10","slug":"beber-da-fonte-do-bem-viver-e-do-bem-querer-jo-4-5-42-por-marcelo-barros","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/gilvander.org.br\/site\/beber-da-fonte-do-bem-viver-e-do-bem-querer-jo-4-5-42-por-marcelo-barros\/","title":{"rendered":"BEBER DA FONTE DO BEM-VIVER E DO BEM-QUERER (Jo 4, 5-42) &#8211; Por Marcelo Barros"},"content":{"rendered":"\n<p><strong>BEBER DA FONTE DO BEM-VIVER E DO BEM-QUERER<\/strong> (Jo 4, 5-42) &#8211; Por Marcelo Barros<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"900\" height=\"900\" src=\"https:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/unnamed.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-15035\" srcset=\"https:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/unnamed.jpg 900w, https:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/unnamed-300x300.jpg 300w, https:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/unnamed-150x150.jpg 150w, https:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/unnamed-768x768.jpg 768w\" sizes=\"auto, (max-width: 900px) 100vw, 900px\" \/><\/figure>\n\n\n\n<p>Irm\u00e3o Marcelo Barros. Reprodu\u00e7\u00e3o Redes Virtuais<\/p>\n\n\n\n<p>Neste 3\u00ba Domingo da Quaresma, antigamente, realizavam-se os primeiros escrut\u00ednios, isso \u00e9, a consulta e verifica\u00e7\u00e3o para que a comunidade pudesse sentir se, de fato, as pessoas adultas que faziam o catecumenato para serem batizadas na Noite da P\u00e1scoa estavam preparadas para receber o sacramento da vida nova. Por isso, desde aqueles tempos, nesse domingo, as Igrejas costumam meditar sobre o evangelho do encontro de Jesus, na beira de um po\u00e7o, com a mulher da Samaria (Jo\u00e3o 4, 5- 42).&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Nas regi\u00f5es semi\u00e1ridas, como no sert\u00e3o do nordeste brasileiro, os po\u00e7os s\u00e3o essenciais. Assim como as cisternas e a capta\u00e7\u00e3o de \u00e1gua da chuva podem transformar a vida. Na cultura b\u00edblica, na regi\u00e3o semi\u00e1rida, os po\u00e7os representam o centro da vida. \u00c9 o local onde as pessoas se encontram e no qual firmam-se as alian\u00e7as de vida.<\/p>\n\n\n\n<p>Algu\u00e9m j\u00e1 afirmou que todo deserto sempre esconde ao menos um po\u00e7o. A vida humana consiste em caminhar na dire\u00e7\u00e3o do po\u00e7o, para que as \u00e1guas da Vida renovem em n\u00f3s a energia do viver e do amar. No deserto do mundo, somos sempre atra\u00eddos por algum po\u00e7o. Existem po\u00e7os que s\u00e3o miragens. Quando deles nos aproximamos, vemos que est\u00e3o secos. Em alguns desses po\u00e7os, as \u00e1guas n\u00e3o s\u00e3o pot\u00e1veis. No entanto, existem po\u00e7os de \u00e1guas l\u00edmpidas, que nos fazem gostar de ter sede, s\u00f3 para saborear aquelas \u00e1guas repousantes e renovadoras.<\/p>\n\n\n\n<p>Apesar de que o encontro de Jesus com a samaritana \u00e9 relato simb\u00f3lico, no qual Jesus representa a comunidade do quarto evangelho e a mulher samaritana simboliza um grupo da religi\u00e3o samaritana, malvista na \u00e9poca, mas que se aproxima da comunidade crist\u00e3. O evangelho quer formar a comunidade para acolher as pessoas de outra cultura. Provavelmente, o texto parte de recorda\u00e7\u00f5es ocorridas na hist\u00f3ria de Jesus.<\/p>\n\n\n\n<p>A primeira coisa que chama a aten\u00e7\u00e3o nesse evangelho \u00e9 que, naquela \u00e9poca e desde s\u00e9culos, as fam\u00edlias e grupos judaicos, vindos da regi\u00e3o norte da Galileia para ir em peregrina\u00e7\u00e3o ao templo de Jerusal\u00e9m, no sul, evitavam a Samaria, para n\u00e3o serem contaminados(as) pelo contato com algum dos templos pag\u00e3os que os samaritanos constru\u00edram em seu territ\u00f3rio. Na volta da peregrina\u00e7\u00e3o, como j\u00e1 voltavam do templo, alguns menos rigorosos preocupavam-se menos com isso. Aceitavam tomar o caminho mais direto e passavam pela Samaria. Conforme o relato de Jo\u00e3o 4, parece ser o caso de Jesus e os disc\u00edpulos e disc\u00edpulas. Eles e elas voltam da Judeia para a Galileia, passando pela Samaria.<\/p>\n\n\n\n<p>O evangelho afirma que Jesus <em>devia<\/em> passar por ali. Assim como a comunidade crist\u00e3 deve ir \u00e0s pessoas exclu\u00eddas, hereges e malvistas. Era como se, hoje, dissesse: para fazer uma verdadeira inser\u00e7\u00e3o na realidade das pessoas mais pobres, \u00e9 preciso entrar na rela\u00e7\u00e3o com outras culturas e outras religi\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<p>O texto salienta que era meio dia. Isso indica que aquela mulher era muito marginalizada. Qualquer pessoa com pouco mais de direito humano reconhecido iria ao po\u00e7o pela manh\u00e3 ou \u00e0 tarde, em hor\u00e1rio mais adequado para buscar \u00e1gua. Naquele clima semi\u00e1rido, s\u00f3 iria ao po\u00e7o buscar \u00e1gua ao meio dia quem n\u00e3o tinha direito de ir em outro hor\u00e1rio. O evangelho diz que o pr\u00f3prio Jesus est\u00e1 cansado e senta \u00e0 beira do po\u00e7o.&nbsp;\u00c9 ali, naquela situa\u00e7\u00e3o que ele rompe as barreiras do preconceito, ao aproximar-se de uma mulher samaritana e faz isso, n\u00e3o como mestre e sim como algu\u00e9m que precisa dela. Coloca-se como necessitado e lhe pede \u00e1gua.<\/p>\n\n\n\n<p>Na B\u00edblia, o po\u00e7o \u00e9 o lugar no qual se selam alian\u00e7as. Conforme o relato b\u00edblico, patriarcas como Isaac, Jac\u00f3 e mesmo Mois\u00e9s conhecem a mulher com a qual se casariam na beira de um po\u00e7o e o juramento do casamento ocorreu na beira de um po\u00e7o. Agora, conforme o evangelho, \u00e9 Jesus que, na beira de um po\u00e7o, encontra a samaritana. \u00c9 no po\u00e7o de nossos desejos e nossas sedes que Jesus nos encontra. Mas, ser\u00e1 que temos claro qual \u00e9 nossa sede mais profunda e onde est\u00e1 o po\u00e7o do qual tiramos a \u00e1gua para renovar nossa vida?&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Esse encontro de Jesus com a mulher samaritana nos fala de v\u00e1rias sedes. A samaritana vem buscar \u00e1gua no po\u00e7o. Jesus fala de uma \u00e1gua que quem bebe nunca mais precisar\u00e1 voltar ao po\u00e7o. Isso faz a mulher perguntar sobre o Messias e sobre as quest\u00f5es sociais e religiosas que existiam entre judeus e samaritanos. Jesus responde: Sou eu que estou falando com voc\u00ea.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>No Candombl\u00e9 de tradi\u00e7\u00e3o Ketu, uma das grandes festas anuais \u00e9 a das \u00c1guas de Oxal\u00e1. \u00c0 noite, todos os membros &nbsp;da casa purificam-se com um bori e preparam-se para carregar as \u00e1guas. Antes do nascer do sol, a comunidade \u00e9 acordada pela Ialorix\u00e1. Todas as pessoas, vestidas de branco, saem em sil\u00eancio, em prociss\u00e3o, carregando potes e moringas, tendo \u00e0 frente a Ialorix\u00e1 tocando o seu Aj\u00e1. \u00c9 como se fosse um rito de pedido de perd\u00e3o pelas injusti\u00e7as sofridas por Oxal\u00e1, em sua visita ao reino do seu filho Xang\u00f4.&nbsp; Neste ritual, \u00e9 a \u00e1gua que purifica e que simboliza o perd\u00e3o. \u00c9 a \u00e1gua que faz o Orix\u00e1 Oxal\u00e1 retomar o seu trono de rei, pai de Xang\u00f4.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>No Cristianismo \u00e9 a \u00e1gua que nos faz filhos e filhas de Deus e tem a caracter\u00edstica de despertar em n\u00f3s mais sede. Sede da intimidade divina e sede de justi\u00e7a e Paz. Para n\u00f3s e para as Igrejas \u00e9 sempre um desafio unir a sede mais \u00edntima que temos no cora\u00e7\u00e3o e a expectativa social e pol\u00edtica da liberta\u00e7\u00e3o. At\u00e9 hoje, nas Igrejas, ainda vemos certa divis\u00e3o. Muitas vezes, as pessoas que cultivam a espiritualidade interior n\u00e3o ligam para o social e as pessoas que se dedicam mais ao social nem sempre sabem como ligar a sua sede de justi\u00e7a e liberta\u00e7\u00e3o com a sede do cora\u00e7\u00e3o que s\u00f3 se sacia em Deus.<\/p>\n\n\n\n<p>Nos anos 1980, Gustavo Gutierrez escreveu o livro \u201c<em>Beber do pr\u00f3prio po\u00e7o\u201d.<\/em> Baseado em um verso do livro dos Prov\u00e9rbios, prop\u00f5e viver a espiritualidade a partir da realidade de nossas vidas, tanto no plano afetivo, como no social e pol\u00edtico. Precisamos descolonizar a f\u00e9 e a espiritualidade, como queremos descolonizar a nossa cultura e a pr\u00f3pria vida.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Cada p\u00e1gina do evangelho sempre possibilita v\u00e1rias leituras que n\u00e3o se excluem. A conversa de Jesus com a samaritana \u00e9 muito subversiva porque ali, claramente, Jesus revela a supera\u00e7\u00e3o da religi\u00e3o do templo. Ele diz \u00e0 mulher&nbsp; que chegou a hora, na qual n\u00e3o se deve mais adorar a Deus nos templos, de forma cultual e formal. Deus \u00e9 esp\u00edrito e verdade e seus adoradores devem ador\u00e1-lo em esp\u00edrito e verdade. Em sua tradu\u00e7\u00e3o desse evangelho, Jean-Yves Leloup mostra que, na cultura de Jesus, o esp\u00edrito \u00e9 sopro. \u00c9 respira\u00e7\u00e3o vital. A verdade \u00e9 o amor solid\u00e1rio. Ent\u00e3o, a verdadeira adora\u00e7\u00e3o de Deus \u00e9 retomar o mais profundo sopro de vida. \u00c9 o que hoje os povos ind\u00edgenas chamam o bem-viver. A verdade n\u00e3o \u00e9 apenas conceito intelectual e sim pr\u00e1xis da justi\u00e7a social libertadora. Quem restringe a espiritualidade ao templo e ao cultual n\u00e3o descobriu ainda esse apelo de Jesus no evangelho.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Neste ano, esse 3\u00ba Domingo da Quaresma cai exatamente na data em que a humanidade comemora o Dia Mundial da Mulher. No Brasil inteiro, somos chamados e chamadas a nos mobilizar contra a viol\u00eancia contra a mulher e, especificamente, o feminic\u00eddio, ou seja, o crime contra a vida da mulher que tem se tornado como uma epidemia que fere e dilacera a todos n\u00f3s, homens e mulheres. Que a nossa convers\u00e3o quaresmal nos comprometa na defesa intransigente e radical da vida e da seguran\u00e7a das mulheres. Neste ano, a Campanha da Fraternidade chama-nos \u00e0 solidariedade com as pessoas que n\u00e3o t\u00eam garantido o direito humano \u00e0 habita\u00e7\u00e3o digna. Nesses dias, o Brasil tem testemunhado a calamidade provocada pelas inunda\u00e7\u00f5es e temporais na zona da Mata de Minas Gerais e em outras regi\u00f5es. Mais uma vez, quem mais sofre com essas trag\u00e9dias s\u00e3o as mulheres e as crian\u00e7as desabrigadas.<\/p>\n\n\n\n<p>Pior ainda do que o desastre natural \u00e9 o pouco caso praticado por alguns governos estaduais e&nbsp; pela naturalidade que a repeti\u00e7\u00e3o frequente de trag\u00e9dias como essa provoca na sociedade. \u00c9 importante a mobiliza\u00e7\u00e3o de solidariedade \u00e0s v\u00edtimas e, ao mesmo tempo, o nosso clamor coletivo para que essa realidade receba dos poderes p\u00fablicos a prioridade que merece e o direito \u00e0 moradia digna e segura seja sinal de um pa\u00eds mais justo com o seu pov<\/p>\n\n\n\n<p><strong>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; <em>Bai\u00e3o da nova mulher<\/em><\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><em>Z\u00e9 Vicente<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Viva, viva, a mulher desta na\u00e7\u00e3o<br>Que vai gerando no ventre<br>A nova semente da liberta\u00e7\u00e3o!<br>E vem trazendo no sangue<br>A semente nova da revolu\u00e7\u00e3o!&nbsp;<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>BEBER DA FONTE DO BEM-VIVER E DO BEM-QUERER (Jo 4, 5-42) &#8211; Por Marcelo Barros Irm\u00e3o Marcelo Barros. 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