{"id":15041,"date":"2026-03-07T10:57:35","date_gmt":"2026-03-07T13:57:35","guid":{"rendered":"https:\/\/gilvander.org.br\/site\/?p=15041"},"modified":"2026-03-07T10:57:36","modified_gmt":"2026-03-07T13:57:36","slug":"feminicidio-e-exclusao-historica-das-mulheres-frei-betto","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/gilvander.org.br\/site\/feminicidio-e-exclusao-historica-das-mulheres-frei-betto\/","title":{"rendered":"FEMINIC\u00cdDIO E EXCLUS\u00c3O HIST\u00d3RICA DAS MULHERES \u2013 Frei Betto"},"content":{"rendered":"\n<p><strong>FEMINIC\u00cdDIO E EXCLUS\u00c3O HIST\u00d3RICA DAS MULHERES \u2013 Frei Betto<\/strong><\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full is-resized\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"301\" height=\"168\" src=\"https:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/images-10.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-15042\" style=\"width:780px;height:auto\"\/><\/figure>\n\n\n\n<p>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0Frei Betto. Reprodu\u00e7\u00e3o Redes Virtuais<\/p>\n\n\n\n<p>\u00a0O Brasil segue entre os pa\u00edses\u00a0que registra o maior n\u00famero de assassinatos de\u00a0mulheres no mundo. A cada dia, em m\u00e9dia, quatro s\u00e3o\u00a0mortas\u00a0em raz\u00e3o do g\u00eanero, segundo dados do F\u00f3rum Brasileiro de Seguran\u00e7a P\u00fablica. O feminic\u00eddio \u2014 crime tipificado em 2015 \u2014 \u00e9 o est\u00e1gio final de um ciclo de viol\u00eancias sustentado por desigualdades hist\u00f3ricas, culturais e simb\u00f3licas.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p>Embora as causas sejam m\u00faltiplas, especialistas&nbsp;afirmam&nbsp;que estruturas patriarcais profundamente enraizadas continuam a legitimar a subordina\u00e7\u00e3o feminina, tanto no espa\u00e7o privado quanto no p\u00fablico. Nesse contexto, institui\u00e7\u00f5es sociais de grande influ\u00eancia, como a Igreja Cat\u00f3lica, tornam-se parte&nbsp;fundamental&nbsp;do debate.<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;A Igreja Cat\u00f3lica tem papel central na forma\u00e7\u00e3o cultural do pa\u00eds desde o per\u00edodo colonial. Sua presen\u00e7a vai al\u00e9m da esfera religiosa. Alcan\u00e7a a educa\u00e7\u00e3o, a pol\u00edtica e a moral social. Ao mesmo tempo em que desenvolve a\u00e7\u00f5es relevantes de assist\u00eancia social e defesa da vida, mant\u00e9m uma posi\u00e7\u00e3o r\u00edgida quanto ao papel das mulheres em sua hierarquia: elas s\u00e3o oficialmente impedidas de exercer o sacerd\u00f3cio. A justificativa teol\u00f3gica se baseia na tradi\u00e7\u00e3o e na interpreta\u00e7\u00e3o de que Jesus teria escolhido apenas homens como ap\u00f3stolos, argumento reiterado pelo Vaticano ao longo dos s\u00e9culos.<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;Para os cr\u00edticos, essa exclus\u00e3o n\u00e3o \u00e9 apenas simb\u00f3lica. Ao impedir mulheres de ocupar posi\u00e7\u00f5es de autoridade espiritual, a Igreja refor\u00e7a uma l\u00f3gica da hierarquia de g\u00eanero que ecoa para al\u00e9m dos muros do templo.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cQuando uma institui\u00e7\u00e3o que prega valores morais universais sustenta a ideia de que mulheres n\u00e3o podem liderar espiritualmente, contribui para a naturaliza\u00e7\u00e3o da desigualdade\u201d,&nbsp;avalia a soci\u00f3loga Maria Clara Azevedo,&nbsp;pesquisadora&nbsp;das quest\u00f5es de&nbsp;g\u00eanero.<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;Segundo ela, n\u00e3o se trata de responsabilizar diretamente a Igreja pelo feminic\u00eddio, mas de reconhecer como discursos e pr\u00e1ticas institucionais moldam mentalidades.<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;O feminic\u00eddio, em grande parte dos casos, ocorre no ambiente dom\u00e9stico e \u00e9 cometido por parceiros ou ex-parceiros. Antes da morte, h\u00e1 quase sempre um hist\u00f3rico de viol\u00eancia psicol\u00f3gica, f\u00edsica ou simb\u00f3lica. Nesse percurso, a ideia de posse sobre o corpo e a vida da mulher aparece como elemento recorrente. \u00c9 justamente nesse ponto que a cr\u00edtica feminista se conecta ao debate religioso: a persist\u00eancia de narrativas que associam a mulher \u00e0 obedi\u00eancia, ao sacrif\u00edcio e ao sil\u00eancio pode dificultar a ruptura&nbsp;de&nbsp;rela\u00e7\u00f5es abusivas.<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;A&nbsp;Igreja Cat\u00f3lica vive hoje tens\u00f5es internas sobre o papel feminino. Embora mulheres sejam maioria entre fi\u00e9is e respons\u00e1veis por grande parte do trabalho pastoral, continuam afastadas das decis\u00f5es centrais. O papa Francisco deu sinais de abertura ao permitir maior participa\u00e7\u00e3o feminina em cargos administrativos no Vaticano, mas manteve intacta a proibi\u00e7\u00e3o da ordena\u00e7\u00e3o sacerdotal. Para te\u00f3logas feministas, trata-se de um limite estrutural. \u201cEnquanto o poder sacramental for exclusivamente masculino, a igualdade ser\u00e1 sempre parcial\u201d, afirma a te\u00f3loga Ivone Gebara.<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;Representantes da Igreja argumentam,&nbsp;por\u00e9m,&nbsp;que a doutrina n\u00e3o implica inferioridade. Em documentos oficiais, o Vaticano sustenta que homens e mulheres&nbsp;t\u00eam&nbsp;\u201cdignidade igual, mas fun\u00e7\u00f5es diferentes\u201d. Essa distin\u00e7\u00e3o&nbsp;\u00e9 questionada por setores da sociedade civil que veem nela uma forma sofisticada de segrega\u00e7\u00e3o. Em um pa\u00eds onde mulheres ainda lutam por igualdade salarial, seguran\u00e7a e representa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, a manuten\u00e7\u00e3o de espa\u00e7os exclusivamente masculinos em institui\u00e7\u00f5es de grande influ\u00eancia simb\u00f3lica&nbsp;\u00e9 question\u00e1vel e reprov\u00e1vel.<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;O enfrentamento&nbsp;do feminic\u00eddio exige pol\u00edticas p\u00fablicas eficazes, educa\u00e7\u00e3o sobreigualdade de g\u00eanero e transforma\u00e7\u00e3o cultural profunda. Nesse processo, o di\u00e1logo com institui\u00e7\u00f5es religiosas \u00e9 &nbsp;essencial. Reconhecer sua influ\u00eancia n\u00e3o significa negar sua import\u00e2ncia social, mas convoc\u00e1-las \u00e0 reflex\u00e3o cr\u00edtica sobre seus&nbsp;&nbsp;limites. Em um Brasil marcado por cruzes nos altares e o&nbsp;n\u00famero cada vez maior&nbsp;de mulheres nas estat\u00edsticas de mortes violentas, a pergunta que permanece \u00e9 at\u00e9 que ponto tradi\u00e7\u00f5es podem ser preservadas quando colidem com o direito fundamental \u00e0 vida e \u00e0 dignidade.<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;Entre o altar, que ainda exclui, e o t\u00famulo, que se multiplica, est\u00e1 o desafio de romper&nbsp;estruturas que, direta ou indiretamente, continuam a dizer \u00e0s mulheres qual \u00e9 e qual n\u00e3o deve ser o&nbsp;lugar&nbsp;delas.<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;A escolha da bispa Sarah Mullally, de 63 anos, para chefiar a Igreja Anglicana no Reino Unido, em outubro de 2025, representa um dos momentos mais significativos da hist\u00f3ria recente do cristianismo ocidental. Mais do que uma decis\u00e3o administrativa ou espiritual, esse gesto simboliza uma ruptura com s\u00e9culos de tradi\u00e7\u00e3o patriarcal que associaram lideran\u00e7a religiosa exclusivamente \u00e0 figura masculina. A presen\u00e7a feminina no mais alto cargo da Igreja confronta n\u00e3o apenas estruturas internas, mas tamb\u00e9m valores culturais profundamente enraizados na sociedade brit\u00e2nica.<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;Desde a autoriza\u00e7\u00e3o para a ordena\u00e7\u00e3o de mulheres como sacerdotes e, posteriormente, como bispas, a Igreja Anglicana vive tens\u00f5es constantes. Setores conservadores aceitaram essas mudan\u00e7as&nbsp;de forma relutante, muitas vezes criando mecanismos paralelos para evitar a autoridade feminina. Agora a elei\u00e7\u00e3o de uma mulher como l\u00edder m\u00e1xima, contudo, ultrapassou qualquer possibilidade de acomoda\u00e7\u00e3o simb\u00f3lica. Para grupos abertamente machistas, isso foi visto como uma \u201ctrai\u00e7\u00e3o\u201d \u00e0 tradi\u00e7\u00e3o, provocando rea\u00e7\u00f5es intensas, que v\u00e3o desde boicotes internos at\u00e9 amea\u00e7as de ruptura institucional.<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;Essas rea\u00e7\u00f5es n\u00e3o se limitaram ao campo religioso. Parlamentares conservadores, comentaristas e&nbsp;formadores&nbsp;de opini\u00e3o alinhados a vis\u00f5es patriarcais tendem a explorar o tema como sinal de decad\u00eancia moral ou submiss\u00e3o da Igreja a pautas progressistas. Ao mesmo tempo, a elei\u00e7\u00e3o fortalece movimentos feministas e setores reformistas, que&nbsp;enxergam no gesto um avan\u00e7o hist\u00f3rico na luta por igualdade de g\u00eanero.<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;A ruptura causada pelos machistas na Igreja Anglicana, embora barulhenta, tamb\u00e9m revela um paradoxo: ao resistirem \u00e0 lideran\u00e7a feminina, esses grupos exp\u00f5em&nbsp;a fragilidade de uma f\u00e9 sustentada mais por hierarquias de poder do que por princ\u00edpios espirituais. A elei\u00e7\u00e3o de uma mulher divide a Igreja Anglicana, mas obriga o Reino Unido a rever seu atual conservadorismo pol\u00edtico.<\/p>\n\n\n\n<p>Frei Betto \u00e9 escritor, autor do romance sobre a Amaz\u00f4nia \u201cTom Vermelho do Verde\u201d (Rocco), entre outros t\u00edtulos. 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