{"id":15092,"date":"2026-04-18T10:27:20","date_gmt":"2026-04-18T13:27:20","guid":{"rendered":"https:\/\/gilvander.org.br\/site\/?p=15092"},"modified":"2026-04-18T10:27:20","modified_gmt":"2026-04-18T13:27:20","slug":"o-ira-como-fonte-de-nossas-crencas-por-frei-betto","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/gilvander.org.br\/site\/o-ira-como-fonte-de-nossas-crencas-por-frei-betto\/","title":{"rendered":"O IR\u00c3 COMO FONTE DE NOSSAS CREN\u00c7AS &#8211; Por Frei Betto"},"content":{"rendered":"\n<p><strong>O IR\u00c3 COMO FONTE DE NOSSAS CREN\u00c7AS &#8211; Por Frei Betto<\/strong><\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full is-resized\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"300\" height=\"168\" src=\"https:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/images-16.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-15093\" style=\"width:780px;height:auto\"\/><\/figure>\n\n\n\n<p><br>Quando crian\u00e7a, acreditei que todos nasciam da cegonha e presentes de Natal provinham de Papai Noel\u2026 Assim, crescemos ouvindo mitos sem saber que tamb\u00e9m as narrativas religiosas t\u00eam ra\u00edzes m\u00edticas e hist\u00f3ricas, embora sob inspira\u00e7\u00e3o divina.<br>Sabia que a f\u00e9 crist\u00e3 e hebraica tem ra\u00edzes no Ir\u00e3? At\u00e9 1527, devido ao lucrativo com\u00e9rcio de pau-brasil nosso pa\u00eds era chamado pelos invasores portugueses de Terra de Santa Cruz. E o Ir\u00e3, at\u00e9 1935, era conhecido com o nome de P\u00e9rsia, um ex\u00f4nimo, denomina\u00e7\u00e3o que os gregos davam \u00e0quela na\u00e7\u00e3o. Naquele ano, o x\u00e1 Reza Pahlavi mudou o nome do pa\u00eds para Ir\u00e3, que significa \u201cterra dos arianos\u201d, como as v\u00e1rias etnias se referiam ao seu territ\u00f3rio.<br>A influ\u00eancia persa sobre os textos b\u00edblicos aconteceu principalmente durante e ap\u00f3s o ex\u00edlio babil\u00f4nico do povo hebreu, ocorrido no s\u00e9culo VI a.C., quando o Imp\u00e9rio Persa dominava o mundo antigo. Naquele s\u00e9culo, o reino de Jud\u00e1 foi invadido pelos babil\u00f4nios e grande parte da popula\u00e7\u00e3o de Israel levada a for\u00e7a para a Babil\u00f4nia, atual Iraque, ent\u00e3o governada pelo rei Nabucodonosor II. Em 586 a.C., os babil\u00f4nios destru\u00edram Jerusal\u00e9m e o Templo, edificado pelo rei Salom\u00e3o, foi arrasado.<br>No Antigo Testamento s\u00e3o encontrados, no Segundo Livro dos Reis (cap. 24 e 25), o relato hist\u00f3rico do cerco a Jerusal\u00e9m, a destrui\u00e7\u00e3o do Templo (os cap. 5 a 7 do Primeiro Livro dos Reis descrevem a constru\u00e7\u00e3o do Templo), a queima das casas e a deporta\u00e7\u00e3o do povo. Vide tamb\u00e9m o cap. 36 do Segundo Livro de Cr\u00f4nicas.<br>O profeta Jeremias, que viveu durante o cerco de Jerusal\u00e9m, descreve a cidade sitiada (cap. 37-39) e o ex\u00edlio (40-44). O po\u00e9tico texto Lamenta\u00e7\u00f5es narra a destrui\u00e7\u00e3o de Jerusal\u00e9m, o sofrimento dos habitantes e a derrubada do Templo. Dois profetas b\u00edblicos, Ezequiel e Daniel, descrevem a vida dos hebreus no ex\u00edlio. Ecos do sofrimento do povo no cativeiro ressoam nos Salmos.<br>O ex\u00edlio s\u00f3 terminou quando Ciro, rei da P\u00e9rsia, conquistou a Babil\u00f4nia, em 539 a.C. e libertou os hebreus que, portanto, t\u00eam uma d\u00edvida de gratid\u00e3o com o povo do Ir\u00e3. Essa liberta\u00e7\u00e3o est\u00e1 descrita na B\u00edblia, nos livros de Esdras e Neemias.<br>O contato direto entre hebreus e persas foi um evento hist\u00f3rico real. Ap\u00f3s conquistar a Babil\u00f4nia, o rei persa Ciro permitiu que os israelitas retornassem \u00e0 Judeia e reconstru\u00edssem o Templo de Jerusal\u00e9m, em 516 a.C. Este evento \u00e9 celebrado na B\u00edblia, no livro de Isa\u00edas, onde o pr\u00f3prio Ciro \u00e9 descrito como um libertador, ungido por Deus.<br>Os persas eram um povo culto e religioso. Praticavam religi\u00f5es polite\u00edstas at\u00e9 que Zaratustra (ou Zoroastro), nascido no s\u00e9culo VII a.C., centrou o culto em um Deus \u00fanico, Ahura Mazda. Muitos pesquisadores atribuem a esta fonte persa o monote\u00edsmo b\u00edblico, j\u00e1 que descobertas arqueol\u00f3gicas, como inscri\u00e7\u00f5es em tumbas do s\u00e9culo VIII a.C., indicam que, outrora, hebreus adoravam Jav\u00e9 e sua esposa Asherah, deusa cananeia da fertilidade.<br>Muitas no\u00e7\u00f5es recorrentes na B\u00edblia, como livre-arb\u00edtrio, ju\u00edzo final, hierarquia de anjos, para\u00edso, inferno, ressurrei\u00e7\u00e3o dos mortos, e a luta permanente entre o Bem e o Mal est\u00e3o no livro sagrado do zoroastrismo, o Avesta. Aparece tamb\u00e9m ali a figura de um salvador universal, Saoshyant, que significa &#8220;aquele que traz benef\u00edcios&#8221;. Ele ressuscitar\u00e1 os mortos, liderar\u00e1 o julgamento final e trar\u00e1 a imortalidade aos humanos. Restaura o mundo \u00e0 sua perfei\u00e7\u00e3o original, sem doen\u00e7as, velhice ou morte. Seria um dos tr\u00eas salvadores nascidos de virgens no fim dos tempos. O conceito de Saoshyant influenciou a escatologia de outras religi\u00f5es, inclusive a cren\u00e7a no Messias no juda\u00edsmo e cristianismo.<br>Tais fatores motivam muitos estudiosos a investigar se o contato com a religi\u00e3o persa, o Zoroastrismo, teria de alguma forma influ\u00eddo na teologia judaica e, por sua vez, tamb\u00e9m na teologia crist\u00e3. Temas como dualidade entre bem e mal, ju\u00edzo final, ressurrei\u00e7\u00e3o dos mortos, exist\u00eancia de hierarquia de anjos e salvador messi\u00e2nico s\u00e3o centrais na f\u00e9 persa e tornaram-se mais proeminentes no juda\u00edsmo posterior ao ex\u00edlio.<br>Na B\u00edblia hebraica mais antiga, o mal n\u00e3o aparece como uma for\u00e7a independente. Mas textos posteriores mostram um desenvolvimento maior da figura de Satan\u00e1s como advers\u00e1rio, o que pode refletir essa vis\u00e3o dualista vinda dos persas.<br>A no\u00e7\u00e3o de ressurrei\u00e7\u00e3o coletiva no fim dos tempos \u00e9 pouco destacada nos textos b\u00edblicos antigos, mas surge mais tarde, possivelmente motivada por cren\u00e7as persas.<br>N\u00e3o h\u00e1 consenso absoluto entre estudiosos da B\u00edblia sobre suas ra\u00edzes persas. \u00c9 constrangedor aceit\u00e1-la para quem julga que a B\u00edblia foi diretamente inspirada por Deus a autores hebreus e crist\u00e3os. O que a maioria concorda \u00e9 que houve um di\u00e1logo cultural entre as fontes do zoroastrismo e as dos textos b\u00edblicos. Essa adapta\u00e7\u00e3o de conceitos persas ao monote\u00edsmo hebreu seria hoje qualificada de \u201cpl\u00e1gio\u201d.<br>\u00c0 pergunta que amigos me fazem se tais pesquisas desacreditam a f\u00e9, respondo que \u00e9 fr\u00e1gil a f\u00e9 que se baseia em narrativas m\u00edticas e bibliogr\u00e1ficas, e n\u00e3o em uma rela\u00e7\u00e3o pessoal com Deus centrada no amor ao pr\u00f3ximo.<\/p>\n\n\n\n<p>Fontes de Pesquisa<br>Estudiosos como Shaul Shaked, da Universidade Hebraica de Jerusal\u00e9m, documentam como o aramaico &#8211; l\u00edngua oficial persa &#8211; e o persa est\u00e3o presentes no vocabul\u00e1rio e nas ideias judaicas com exemplos de palavras de origem persa que tamb\u00e9m constam do vocabul\u00e1rio religioso hebraico.<br>A obra Persepolis and Jerusalem: Iranian Influence on the Apocalyptic Hermeneutic, de Jason M. Silverman, \u00e9 uma an\u00e1lise aprofundada e direta sobre o tema. Investiga especificamente como a ideologia e a religi\u00e3o persa podem ter moldado a literatura apocal\u00edptica judaica, que inclui livros como Daniel e Ezequiel.<br>Iranian Influence on Judaism: First Century B.C.E. to Second Century C.E., de Shaul Shaked, publicado pela Cambridge University Press, mapeia meticulosamente as \u00e1reas de presen\u00e7a lingu\u00edstica e conceitual entre as duas tradi\u00e7\u00f5es religiosas.<br>O artigo Creation in Collision?: Isaiah 40-48 and Zoroastrianism, Babylonian Religion and Genesis 1, de Tina D. Nilsen, foca em uma passagem espec\u00edfica (Isa\u00edas 40-48) para discutir se o conceito de um Deus criador \u00fanico, central ao monote\u00edsmo judaico, foi desenvolvido em di\u00e1logo com tradi\u00e7\u00f5es persas e babil\u00f4nicas.<\/p>\n\n\n\n<p>Os outros da B\u00edblia: Hist\u00f3ria, f\u00e9 e cultura dos povos antigos e sua atua\u00e7\u00e3o no plano divino, de Andr\u00e9 Daniel Reinke,<br>investiga as intera\u00e7\u00f5es culturais entre os hebreus e os povos vizinhos (mesopot\u00e2micos, eg\u00edpcios, cananeus, persas, gregos e romanos). Analisa como cren\u00e7as e culturas pag\u00e3s se fazem presentes na f\u00e9 do antigo Israel e na pr\u00f3pria constru\u00e7\u00e3o da B\u00edblia. Ver do mesmo autor N\u00f3s e a B\u00edblia: Hist\u00f3ria, f\u00e9 e cultura do juda\u00edsmo e do cristianismo.<br>A B\u00edblia com e sem Jesus, de Amy-Jill Levine e Marc Zvi Brettler, analisa as narrativas b\u00edblicas no seu contexto original. Compara interpreta\u00e7\u00f5es judaicas e crist\u00e3s, e explora ra\u00edzes compartilhadas com o Pr\u00f3ximo Oriente Antigo.<br>O que Escondem de Voc\u00ea, de Ben Yahmim Gavri\u2019el, aborda as ra\u00edzes judaicas e aramaicas da B\u00edblia. Discute o contexto da &#8220;lei&#8221; (Tor\u00e1) e a gra\u00e7a (Hessed) em contraste com vis\u00f5es ocidentais.<\/p>\n\n\n\n<p><br>Frei Betto \u00e9 autor de Um Homem chamado Jesus (Rocco), entre outros livros.<br>Livraria virtual: freibetto.org<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O IR\u00c3 COMO FONTE DE NOSSAS CREN\u00c7AS &#8211; Por Frei Betto Quando crian\u00e7a, acreditei que todos nasciam da cegonha e presentes de Natal provinham de Papai Noel\u2026 Assim, crescemos ouvindo mitos sem saber que tamb\u00e9m<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":15093,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[21,22,27,30,43,26],"tags":[],"class_list":["post-15092","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-artigo","category-cebs-comunidades-eclesiais-de-base","category-direitos-humanos","category-fe-e-politica","category-pedagogia-emancipatoria","category-teologia-da-libertacao"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/15092","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=15092"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/15092\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":15094,"href":"https:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/15092\/revisions\/15094"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media\/15093"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=15092"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=15092"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=15092"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}