{"id":182,"date":"2012-07-24T03:02:37","date_gmt":"2012-07-24T06:02:37","guid":{"rendered":"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/?p=182"},"modified":"2016-09-01T18:16:29","modified_gmt":"2016-09-01T21:16:29","slug":"teologia-da-libertacao-e-socialismo-etica-e-espirito-a-servico-da-vida","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/gilvander.org.br\/site\/teologia-da-libertacao-e-socialismo-etica-e-espirito-a-servico-da-vida\/","title":{"rendered":"Teologia da Liberta\u00e7\u00e3o e Socialismo: \u00e9tica e esp\u00edrito a servi\u00e7o da vida."},"content":{"rendered":"<p><span style=\"color: #800080;\"><span style=\"font-size: large;\"><strong>Teologia da Liberta\u00e7\u00e3o e Socialismo: <\/strong><span style=\"font-size: medium;\"><strong>\u00e9tica e esp\u00edrito a servi\u00e7o da vida.<\/strong><\/span><\/span><\/span><\/p>\n<p align=\"center\">Gilvander Lu\u00eds Moreira<a href=\"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/?p=3#_ftn1\">[1]<\/a><\/p>\n<p><strong> <\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Antonio Julio de Menezes Neto, prof. Dr. da FAE<a href=\"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/?p=3#_ftn2\">[2]<\/a>\/UFMG me enviou os manuscritos do livro dele <em>A \u00c9tica da Teologia da Liberta\u00e7\u00e3o e o Esp\u00edrito do Socialismo no MST<\/em> (Ed. UFMG, Belo Horizonte, 2012).  <!--more-->  Junto veio um bilhete que dizia: \u201cGilvander, sabendo que tem muito de voc\u00ea no livro,\u00a0 convido-lhe para apresentar esse novo livro nosso.\u201d Li os manuscritos com carinho e aten\u00e7\u00e3o. E fiz a apresenta\u00e7\u00e3o que segue, abaixo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Primeiro, o livro acordou em mim minha hist\u00f3ria pessoal, pois \u00e9 um alento a quem sofreu (ou sofre) e muitas vezes n\u00e3o sabe porque sofre. Sou o que sou e fa\u00e7o o que fa\u00e7o, em grande parte, porque nasci em uma fam\u00edlia sem-terra. Na minha inf\u00e2ncia senti o que \u00e9 pertencer \u00e0 classe dos camponeses empobrecidos. Comecei a sentir injusti\u00e7a quando, junto com minha fam\u00edlia, ao tocar ro\u00e7a \u00e0 meia, via o patr\u00e3o-fazendeiro levar 50% da nossa safra e quase a outra metade tamb\u00e9m para pagar a d\u00edvida que t\u00ednhamos acumulado do plantio \u00e0 colheita. Dentro de mim gritava: \u201cisso n\u00e3o \u00e9 justo. Deus n\u00e3o quer isso.\u201d O fazendeiro ficar com quase toda nossa produ\u00e7\u00e3o s\u00f3 porque dizia ser o dono da terra?! O suor derramado era muito para ficar s\u00f3 com um pouquinho da produ\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A indigna\u00e7\u00e3o diante da injusti\u00e7a social me levou a entrar para o semin\u00e1rio, querendo ser padre. O curso de filosofia na UFPR<a href=\"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/?p=3#_ftn3\">[3]<\/a>, com forte cunho marxista, fortaleceu minha voca\u00e7\u00e3o. O fil\u00f3sofo Karl Marx me ajudou a compreender porque os pobres sofrem tanto e a descobrir pistas de lutas para supera\u00e7\u00e3o da pobreza. A\u00ed passei a ser disc\u00edpulo do campon\u00eas Jesus de Nazar\u00e9 e do intelectual org\u00e2nico Karl Marx. O ensinamento e pr\u00e1xis do Galileu aquece meu cora\u00e7\u00e3o com uma utopia: lutar para construir o reino de Deus a partir dos pobres, aqui e agora. A filosofia de Marx \u00e9 \u00f3culos e col\u00edrio que me fazem ver de forma cr\u00edtica a opress\u00e3o que recai sobre os pobres na sociedade capitalista. Por cora\u00e7\u00e3o (paix\u00e3o), sou crist\u00e3o; por cabe\u00e7a (raz\u00e3o), sou marxista. Ideal crist\u00e3o e marxista: a conviv\u00eancia social deve ser justa e solid\u00e1ria. Ningu\u00e9m pode ser exclu\u00eddo e nem marginalizado.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Marx disse: \u201cA religi\u00e3o \u00e9 \u00f3pio do povo\u201d. Interpretoses sobre esta afirma\u00e7\u00e3o tem distanciado e gerado uma montanha de preconceitos m\u00fatuos entre crist\u00e3os e socialistas. O livro de Antonio Julio ajuda muito na supera\u00e7\u00e3o de tais preconceitos. Convem recordar que a afirma\u00e7\u00e3o de Marx n\u00e3o tem valor ontol\u00f3gico como se Marx quisesse dizer \u201ctoda e qualquer religi\u00e3o, independentemente do seu perfil, \u00e9 intrinsecamente alienadora.\u201d Marx jamais quis afirmar isso. Ele teve a coragem de denunciar as religi\u00f5es hist\u00f3ricas que andam de bra\u00e7os dados com os poderes opressores.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Antonio Julio, corretamente, pondera: \u201cMarx realiza uma cr\u00edtica concreta, baseada em estudos acerca de rela\u00e7\u00f5es sociais e econ\u00f4micas hist\u00f3ricas e, n\u00e3o, uma cr\u00edtica abstrata da religi\u00e3o.\u201d<strong> <\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Um cozinheiro dos frades carmelitas em Houston, Texas, nos Estados Unidos, me disse, em agosto de 1997: \u201c<em>Sou latino-americano, mas participei da guerra do Vitn\u00e3 defendendo os Estados Unidos e Deus.\u201d <\/em>Ele retirou do bolso uma nota de d\u00f3lar, me mostrou e disse:<em> \u201cest\u00e1 escrito aqui \u201cwe trust in God\u201d (\u201cn\u00f3s acreditamos em Deus\u201d). L\u00e1 no Viatn\u00e3 era a guerra entre o mundo ateu e o mundo crente, a guerra entre Deus e o dem\u00f4nio. Est\u00e1vamos l\u00e1 defendendo n\u00e3o apenas os Estados Unidos, mas Deus. Quer\u00edamos evitar que os ateus comunistas e o mal tomassem conta do mundo<\/em>.\u201d Ao ouvir isso, boqueaberto, entendi que ao se declarar teoricamente ateu o \u201csocialismo real\u201d traiu Karl Marx, pois entregou um argumento de ouro aos capitalistas que, ateus na pr\u00e1tica, se sentem defensores de Deus na terra, mas na realidade s\u00e3o arautos de um \u00eddolo: o deus capital\/mercado. O livro de Antonio J\u00falio <em>A \u00c9tica da Teologia da Liberta\u00e7\u00e3o e o Esp\u00edrito do Socialismo no MST<\/em> que sugiro a leitura ajuda a evitar que massacres em nome de Deus, como a Guerra do Viatn\u00e3, se repitam.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O livro pressup\u00f5e \u00c9tica como uma categoria an\u00e1loga, que n\u00e3o tem conceito \u00fanico. Entende \u00e9tica como um jeito de conviver que encarna a regra de ouro: \u201cN\u00e3o fa\u00e7a aos outros aquilo que n\u00e3o quer que lhe seja feito\u201d (Mateus 7,12). Quatro pontos, vivenciados pelas CEBs e pelo MST, s\u00e3o imprescind\u00edveis para um agir \u00e9tico segundo a Teologia da Liberta\u00e7\u00e3o e o esp\u00edrito do socialismo: Pensar e agir: a partir do empobrecido, de forma coletiva e participativa, a partir de toda a biodiversidade, superarando assim o antropocentrismo, e a partir de um modelo econ\u00f4mico justo e sustent\u00e1vel ecologicamente.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Karl Marx dizia que \u201co lugar social determina o lugar epistemol\u00f3gico\u201d, ou seja, nossos olhos, em \u00faltima inst\u00e2ncia, n\u00e3o est\u00e3o no nosso rosto, mas nos nossos p\u00e9s. Pensar e agir a partir do empobrecido \u2013 pobre, mulher, negro, ind\u00edgena, crian\u00e7a, idoso, deficiente f\u00edsico e\/ou mental, homossexual, governado, divorciada, m\u00e3e Terra, irm\u00e3 \u00e1gua, biodiversidade, outra religi\u00e3o\/igreja etc &#8211; do enfraquecido, do pequeno &#8211;\u00a0 \u00e9 encarnar a regra de ouro.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O livro recorda Paulo Freire, Francisco Juli\u00e3o, Mari\u00e1tegui, padre Camilo Torres e tantos outros que entenderam a \u00edntima rela\u00e7\u00e3o que h\u00e1 entre Cristianismo e Socialismo, como Rosa Luxemburgo, que, ao analisar a religi\u00e3o dos primeiros crist\u00e3os, conclui: \u201cna pr\u00e1tica os primeiros ap\u00f3stolos crist\u00e3os eram fervorosos \u201ccomunistas\u201d.\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">As entrevistas realizadas para o livro de Antonio Julio revelam a complexidade das rela\u00e7\u00f5es entre cristianismo e socialismo. Demonstram tamb\u00e9m que ainda persistem preconceitos de ambos os lados: tanto entre militantes socialistas do MST quanto entre crist\u00e3os com sensibilidade social. Se tivesse sido entrevistado camponesas\/ses da base do MST \u00e9 prov\u00e1vel que seria verificada uma insid\u00eancia maior da f\u00e9 crist\u00e3, segundo a Teologia da Liberta\u00e7\u00e3o, como motivadora de engajamento nas lutas propostas pelo MST. Intuo que entre os militantes do MST predomina o esp\u00edrito socialista, mas entre as camponesas\/es da base do MST ainda predomina a f\u00e9 crist\u00e3 e uma \u00e9tica inspirada na B\u00edblia, interpretada de um jeito popular, militante e transformador.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Arrisco dizer que se as necessidades materiais s\u00e3o o que d\u00e1 mais liga para a coes\u00e3o entre os Sem Terra em uma ocupa\u00e7\u00e3o at\u00e9 a conquista da terra, o cultivo dos valores de uma f\u00e9 libertadora, segundo a Teologia da Liberta\u00e7\u00e3o, t\u00eam mais f\u00f4lego para sustentar a perseveran\u00e7a em um projeto socialista. Motiva\u00e7\u00f5es filos\u00f3ficas e sociol\u00f3gicas na linha do marxismo s\u00e3o imprescind\u00edveis, mas insuficientes. Ainda em 1968, um comunista disse \u201cno Brasil e na Am\u00e9rica Latina, com um povo eminentemente religioso \u00e9 imposs\u00edvel fazer revolu\u00e7\u00e3o socialista sem a B\u00edblia.\u201d Acrescento, hoje: sem uma f\u00e9 libertadora no Deus da vida, que combina a fina flor da filosofia de Marx com a fina flor de uma Teologia da Liberta\u00e7\u00e3o atualizada.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">De fato, a f\u00e9, em si mesma, \u00e9 algo amb\u00edguo, pode libertar ou oprimir. No fundo n\u00e3o basta ter f\u00e9. Depende que tipo de f\u00e9 se cultiva. A quest\u00e3o central n\u00e3o \u00e9 ter ou n\u00e3o ter f\u00e9, mas que tipo de f\u00e9 ter? Importa incorporar uma f\u00e9 libertadora como instrumento que\u00a0pode\u00a0levar \u00e0 conscientiza\u00e7\u00e3o do valor da vida, a n\u00e3o submiss\u00e3o \u00e0s condi\u00e7\u00f5es de opress\u00e3o. Trata-se de ter a f\u00e9 de Jesus de Nazar\u00e9 e n\u00e3o apenas ter f\u00e9 em Jesus.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em seis cap\u00edtulos bem encadeados, partindo da f\u00e9 crist\u00e3, no livro est\u00e1 uma retrospectiva da Teologia da Liberta\u00e7\u00e3o e dos principais tra\u00e7os do socialismo. Passa pelo nascimento e atua\u00e7\u00e3o da Comissao Pastoral da Terra, at\u00e9 desaguar na cria\u00e7\u00e3o e evolu\u00e7\u00e3o do MST, com uma bibliografia invej\u00e1vel, Antonio Julio reflete com destreza, em uma linguagem acess\u00edvel, as rela\u00e7\u00f5es existentes entre \u00e9tica da Teologia da Liberta\u00e7ao e esp\u00edrito do socialismo no MST.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Enfim, trata-se de um livro que demonstra como uma f\u00e9 libertadora, segundo a Teologia da Liberta\u00e7\u00e3o, pode impulsionar lutas sociais transformadoras que necessariamente deve levar \u00e0 supera\u00e7\u00e3o do capitalismo e \u00e0 constru\u00e7\u00e3o de um socialismo segundo Marx e as especificidades hist\u00f3ricas nossas. A quem tiver acesso ao livro, boa leitura.<\/p>\n<p>Belo Horizonte, MG, Brasil, 23 de julho de 2012.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<hr width=\"33%\" size=\"1\" \/>\n<p><a href=\"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/?p=3#_ftnref1\">[1]<\/a> Frei e padre Carmelita, mestre em Exegese B\u00edblica, professor de Teologia B\u00edblica, assessor da CPT, CEBs, CEBI, SAB e Via Campesina; e-mail: <a href=\"mailto:gilvander@igrejadocarmo.com.br\">gilvander@igrejadocarmo.com.br<\/a> &#8211; <a href=\"http:\/\/www.gilvander.org.br\/\">www.gilvander.org.br<\/a> \u2013 facebook: Gilvander Moreira<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/?p=3#_ftnref2\">[2]<\/a> Faculdade de Educa\u00e7\u00e3o da UFMG.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/?p=3#_ftnref3\">[3]<\/a> Universidade Federal do Paran\u00e1.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Teologia da Liberta\u00e7\u00e3o e Socialismo: \u00e9tica e esp\u00edrito a servi\u00e7o da vida. 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