{"id":183,"date":"2012-07-30T14:02:25","date_gmt":"2012-07-30T17:02:25","guid":{"rendered":"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/?p=183"},"modified":"2016-09-01T18:16:29","modified_gmt":"2016-09-01T21:16:29","slug":"profeta-amos-a-luta-contra-a-injustica-social-e-o-juizo-iminente","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/gilvander.org.br\/site\/profeta-amos-a-luta-contra-a-injustica-social-e-o-juizo-iminente\/","title":{"rendered":"Profeta Am\u00f3s, a luta contra a injusti\u00e7a social e o ju\u00edzo iminente."},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #008000;\"><span style=\"font-size: large;\"><strong>Profeta Am\u00f3s, luta contra a injusti\u00e7a social e ju\u00edzo iminente.<\/strong><\/span><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">Gilvander Lu\u00eds Moreira<a href=\"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/?p=3#_ftn1\">[1]<\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #ff0000;\"><strong>\u201c<em>Odeiem o mal e amem o bem: restabele\u00e7am no port\u00e3o a justi\u00e7a<\/em>!\u201d<\/strong> <\/span>(Am\u00f3s 5,15).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Provavelmente as composi\u00e7\u00f5es mais antigas do livro do profeta Am\u00f3s, na B\u00edblia obviamente (Am\u00f3s 1-6; 7-9) datam de meados do s\u00e9culo VIII a.C., e surgiram como literatura de protesto e resist\u00eancia.  <!--more-->  \u201cO acento principal da mensagem de Am\u00f3s est\u00e1 na cr\u00edtica social e no an\u00fancio de um ju\u00edzo iminente de Deus na hist\u00f3ria, bem como na t\u00eanue, mas clara exig\u00eancia do restabelecimento da justi\u00e7a como alicerce das rela\u00e7\u00f5es sociais\u201d<a href=\"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/?p=3#_ftn2\">[2]<\/a>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Am\u00f3s \u00e9 um profeta precursor, radical, exemplar e paradigm\u00e1tico. A profecia de Am\u00f3s \u00e9, em certo modo, um divisor de \u00e1guas na hist\u00f3ria da profecia no sentido de que instaura um novo jeito de ser profeta. O livro de Am\u00f3s est\u00e1 organizado em duas grandes unidades liter\u00e1rias: I) Am 1-6: Palavras e II) Am 7-9: Vis\u00f5es.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Am 4,4-13 nos ajuda a refletir sobre tr\u00eas aspectos fundamentais da \u00e9tica prof\u00e9tica, intimamente entrela\u00e7ados. Esses s\u00e3o: a) a concep\u00e7\u00e3o de pecado em rela\u00e7\u00e3o ao culto; b) em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 hist\u00f3ria; c) e os limites de uma poss\u00edvel reconcilia\u00e7\u00e3o com Deus. A pergunta que se coloca na base e no fim do estudo de Am 4,4-13<a href=\"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/?p=3#_ftn3\">[3]<\/a> \u00e9: Trata-se de um an\u00fancio de puni\u00e7\u00e3o <em>in extremis<\/em> diante da incapacidade de Israel de reagir, ou de uma velada promessa de perd\u00e3o? Ou existe uma outra interpreta\u00e7\u00e3o poss\u00edvel?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A declara\u00e7\u00e3o final de Jav\u00e9 \u2013 Deus solid\u00e1rio com os pisados e libertador dos oprimidos &#8211; ao ser humano que fecha a unidade Am 4,4-13 constitui-se quase como uma nova revela\u00e7\u00e3o do Sinai, que deve por fim ao conflito entre o ser humano e a divindade, em favor do ser humano. As puni\u00e7\u00f5es did\u00e1ticas de Jav\u00e9 deixam lugar a um esclarecimento que abre o cora\u00e7\u00e3o do ser humano para que veja o conjunto da sua hist\u00f3ria e possa render-se conta do seu processo de endurecimento.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Am 4,4-13 evoca, portanto, uma situa\u00e7\u00e3o na qual h\u00e1 certa semelhan\u00e7a com aquela do relato das pragas do Egito, mas n\u00e3o \u00e9 obviamente, a recorda\u00e7\u00e3o daqueles fatos. O discurso de Am\u00f3s menciona, talvez, um passado hist\u00f3rico n\u00e3o identific\u00e1vel nem pela forma e nem pelo conte\u00fado do texto. As pragas do tempo do \u00caxodo feriam o Egito, n\u00e3o Israel, e de uma maneira diferente da relatada no livro de Am\u00f3s cap\u00edtulo 4. Al\u00e9m do mais, as tais \u201cpragas\u201d eram no mundo antigo, e s\u00e3o ainda nas culturas r\u00fasticas, o resultado obrigado de situa\u00e7\u00f5es cr\u00edticas naturais ou pol\u00edticas: a fome \u00e9 o resultado de toda estiagem prolongada e peste nas planta\u00e7\u00f5es, assim como a morte dos jovens (Am 4,10) \u00e9 o efeito de toda batalha militar, no mundo antigo e moderno.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c0s pragas ou puni\u00e7\u00f5es descritas se re\u00fanem ainda a men\u00e7\u00e3o a Sodoma e Gomorra. O discurso de Am\u00f3s 4 quer, portanto, dar conta de toda a antiga hist\u00f3ria de Israel, tamb\u00e9m de Israel patriarcal, para aplic\u00e1-la a uma nova situa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Um ponto particular de rela\u00e7\u00e3o com o \u00caxodo \u00e9 a presen\u00e7a do refr\u00e3o \u201c<strong><em>mas n\u00e3o retornastes a mim<\/em><\/strong>\u201d que estrutura o texto de Am\u00f3s 4,4-13. Assim, como no relato das pragas o endurecimento do cora\u00e7\u00e3o do Fara\u00f3 \u00e9 o motivo estruturante que faz aumentar as pragas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No relato do \u00caxodo, um primeiro grupo de textos, atribu\u00eddos tradicionalmente \u00e0 fonte Javista (J), apresenta de fato Fara\u00f3 como respons\u00e1vel pelo seu pr\u00f3prio endurecimento, como havia predito Deus (Cf. Ex 7,14.22; 8,11.15.28; 9,7.34). O outro grupo de textos (os chamados \u201chelo\u00edstas\u201d) atribui a obstina\u00e7\u00e3o ora a Fara\u00f3 (Ex 9,35) ora a Deus mesmo (Ex 10,20.27). O relato sacerdotal (P) o atribui habitualmente a Jav\u00e9.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Esta diversidade de concep\u00e7\u00e3o no atribuir a responsabilidade pelo pecado aparece tamb\u00e9m em outros textos fora do \u00caxodo, com diferente vocabul\u00e1rio e problem\u00e1tica. Em 2\u00ba Samuel 24,1, Jav\u00e9 \u00e9 o respons\u00e1vel direto pelo pecado de Davi devido ao recenseamento. Segundo 1\u00ba Cr\u00f4nica 21,1 a responsabilidade \u00e9, ao inv\u00e9s, de Satan\u00e1s. O verbo hebraico usado \u00e9 o mesmo: <em>swt<\/em> (= incitar, seduzir).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Tanto em \u00caxodo como em Am 4,4-13 se coloca um grande problema exeg\u00e9tico e teol\u00f3gico: \u00c9 poss\u00edvel e leg\u00edtimo que Deus continue a aplicar puni\u00e7\u00f5es que levam a um endurecimento sempre crescente? N\u00e3o se comporta Jav\u00e9 assim como o pai que exagera, com sua puni\u00e7\u00e3o, ao seu filho e for\u00e7a-o a se rebelar (Cf. Ef\u00e9sios 6,4)?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 necess\u00e1rio reconhecer que por tr\u00e1s dos textos b\u00edblicos de endurecimento h\u00e1 o mist\u00e9rio da liberdade humana e da \u201conipot\u00eancia\u201d divina. Em rela\u00e7\u00e3o a Deus, h\u00e1 uma consci\u00eancia prof\u00e9tica que as obras e a Palavra de Deus n\u00e3o podem permanecer sem efeito (Cf. Isa\u00edas 55,11), mas \u00e9 sempre eficaz (n\u00e3o eficiente). Se n\u00e3o produzem imediatamente a convers\u00e3o, devem amadurecer o sujeito para uma nova prova, o que, em \u00faltima an\u00e1lise, n\u00e3o exclui a possibilidade de convers\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 pessoa punida, h\u00e1 uma consci\u00eancia do fato que a exorta\u00e7\u00e3o \u00e0 convers\u00e3o, quando n\u00e3o ouvida, se torna uma condena\u00e7\u00e3o. Isto \u00e9, nada mais, nada menos, que a din\u00e2mica das rela\u00e7\u00f5es interpessoais. Quando duas pessoas percebem uma m\u00fatua exist\u00eancia come\u00e7a uma comunica\u00e7\u00e3o humana, que pode progredir, parar ou, eventualmente, morrer. Mas enquanto existe, cada a\u00e7\u00e3o e rea\u00e7\u00e3o levam \u00e0 evolu\u00e7\u00e3o ou diminui\u00e7\u00e3o daquela rela\u00e7\u00e3o. Todo ato (ou omiss\u00e3o) nas rela\u00e7\u00f5es interpessoais somam e cultivam a rela\u00e7\u00e3o ou a empobrece descultivando-a. Nenhuma atitude fica neutra.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">De modo semelhante, na rela\u00e7\u00e3o do ser humano com Deus, cada a\u00e7\u00e3o que n\u00e3o melhora a rela\u00e7\u00e3o, a piora, mas jamais a deixa igual. Se n\u00e3o se aceita um convite \u00e0 convers\u00e3o, como uma oferta de amizade, o recusa. Por um lado, esta recusa tornar\u00e1 mais dif\u00edcil que aconte\u00e7a um novo convite.<a href=\"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/?p=3#_ftn4\">[4]<\/a> E de outra parte quem recusou dificilmente voltar\u00e1 atr\u00e1s para aceitar uma nova oferta, o que implicaria em reconhecer o erro precedente, o que \u00e9 mais dif\u00edcil.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em rela\u00e7\u00e3o aos profetas e profetisas, este processo se explica na medita em que os\/as\u00a0 \u201cint\u00e9rpretes de Jav\u00e9\u201d sabem do paradoxo da miss\u00e3o deles\/as. Os profetas e profetisas sabem que a palavra prof\u00e9tica conduz, \u00e0s vezes, \u00e0 convers\u00e3o de alguns poucos, mas na maioria das vezes leva ao endurecimento de muitos. Os or\u00e1culos de condena\u00e7\u00e3o no futuro, pronunciados com absoluta seguran\u00e7a, implicam nos profetas a consci\u00eancia que a advert\u00eancia seria in\u00fatil.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A consci\u00eancia que os profetas e profetisas t\u00eam das tr\u00eas realidades descritas acima se apresenta, de modo muito claro, em Isa\u00edas 6,9-11: \u201c<em>Ent\u00e3o disse ele: Vai, e dize a este povo: Ouvis, de fato, e n\u00e3o entendeis, e vedes, em verdade, mas n\u00e3o percebeis. Engorda o cora\u00e7\u00e3o deste povo, e faze-lhe pesados os ouvidos, e fecha-lhe os olhos; para que ele n\u00e3o veja com os seus olhos, e n\u00e3o ou\u00e7a com os seus ouvidos, nem entenda com o seu cora\u00e7\u00e3o, nem se converta e seja sarado. Ent\u00e3o disse eu: At\u00e9 quando Senhor? E respondeu: At\u00e9 que sejam desoladas as cidades e fiquem sem habitantes, e as casas sem moradores, e a terra seja de todo assolada<\/em>\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em Am 7,14, o profeta Am\u00f3s se recusa a ser considerado profeta, nos termos do sacerdote Amasias, c\u00famplice de um poder pol\u00edtico opressor. Am\u00f3s se define como \u201cvaqueiro\u201d e cultivador de sic\u00f4moros. Em Am 7,15, Am\u00f3s parece ser um pastor que cuida do rebanho mi\u00fado (ovelhas e cabras), mas n\u00e3o um vaqueiro. Em Am 7,10-17<a href=\"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/?p=3#_ftn5\">[5]<\/a> n\u00e3o h\u00e1 a inten\u00e7\u00e3o primeira de descrever pessoalmente a profiss\u00e3o do profeta, mas enfatiza o fato de que Am\u00f3s foi retirado da sua vida precedente, do seu mundo, das preocupa\u00e7\u00f5es dom\u00e9sticas para proclamar a Palavra de Deus.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Am 7,10-17 quer legitimar o conte\u00fado da profecia de Am\u00f3s e ajudar a comunidade superar todos os preconceitos que possam existir contra o profeta por causa da sua origem humilde, como se fosse um \u201cnordestino\u201d, um sem-terra, um sem-casa, um menor de rua, um portador de HIV, um homossexual etc. O relato de Am 7,10-17 quer nos dizer que a profecia vem da margem, da periferia, do meio dos marginalizados e exclu\u00eddos. S\u00e3o estes, por excel\u00eancia, os \u201cint\u00e9rpretes de Jav\u00e9\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na B\u00edblia este \u201cg\u00eanero\u201d \u00e9 utilizado para descrever de maneira diferente as voca\u00e7\u00f5es de Mois\u00e9s, Gede\u00e3o, Eliseu e Saul. Mas uma estreita rela\u00e7\u00e3o se encontra em 2\u00ba Samuel 7,8. Nat\u00e3 transmite a Davi a mensagem de Jav\u00e9: \u201c<em>Eu te tirei das pastagens, pastoreavas as ovelhas<\/em>\u201d. O elemento que caracteriza estas situa\u00e7\u00f5es n\u00e3o \u00e9 o fato do convocado pertencer a um grupo, mas, ao contr\u00e1rio, o fato dele ser um \u201cde fora\u201d, um exclu\u00eddo. Assim Am 7,14 quer exprimir a dist\u00e2ncia de Am\u00f3s das formas institucionais da profecia e dos profetas \u201cda corte\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O relato do confronto entre o sacerdote Amasias e Am\u00f3s (com a implicada presen\u00e7a do rei) oferece a justifica\u00e7\u00e3o da decis\u00e3o de Jav\u00e9. O povo n\u00e3o somente n\u00e3o ouviu as diversas palavras transmitidas pelo profeta Am\u00f3s, mas decidiu silenci\u00e1-lo, expulsando-o para sua terra. J\u00e1 n\u00e3o h\u00e1 nada mais a esperar sen\u00e3o o fim definitivo, e diante desse resta somente a lamenta\u00e7\u00e3o. O profeta anuncia a necessidade de convers\u00e3o; pede perd\u00e3o a Deus pelo povo; pede para parar a puni\u00e7\u00e3o. O rei (e a monarquia) e o Templo expulsam o profeta, silenciando-o. O povo sofrer\u00e1 muito mais. Ai de um povo que n\u00e3o escuta seus profetas e profetisas, e pior ainda, que os persegue, expulsa e os silencia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A per\u00edcope de Am 7,10-17 revela a interpreta\u00e7\u00e3o que setores da classe dominante tinham do conte\u00fado da profecia de Am\u00f3s. Aos olhos da elite, o profeta \u00e9 um \u201cconspirador\u201d, interessado em \u201cgolpe de estado\u201d. Para Jav\u00e9 e o povo empobrecido Am\u00f3s \u00e9 um profeta, porta voz do Deus da vida para todos e tudo. Para a elite ele \u00e9 um \u201csubversivo\u201d, um agitador.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em Am 4,1-3 temos a seguinte profecia:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201c<em>OUVI esta palavra, <strong>vacas de Bas\u00e3<\/strong>, que estais sobre o monte de Samaria, que oprimis os fracos, que esmagais os exclu\u00eddos, que dizeis aos vossos senhores: \u201cTrazei-nos o que beber!\u201d. O\u00a0 Senhor Jav\u00e9 jurou, pela sua santidade: sim, dias vir\u00e3o sobre v\u00f3s, em que vos carregar\u00e3o com ganchos e a vossos descendentes com arp\u00f5es (de pesca). E sa\u00edreis pelas brechas que cada uma tem diante de si, e sereis empurradas em dire\u00e7\u00e3o ao Hermon, or\u00e1culo de Jav\u00e9<\/em>\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Segundo uma interpreta\u00e7\u00e3o tradicional, Am 4,1-3 seria uma investida do profeta Am\u00f3s contra as mulheres ricas de Samaria, designadas como \u201cvacas de Bas\u00e3\u201d, mulheres de personagens importantes, que ocupam o tempo em luxuosos banquetes, e ao mesmo tempo s\u00e3o respons\u00e1veis pela opress\u00e3o e explora\u00e7\u00e3o dos empobrecidos. A imagem de um banquete s\u00f3 de madames \u00e9, no m\u00ednimo, algo curioso em uma sociedade reconhecidamente machista e patriarcal, assim como atribuir \u00e0s mulheres a responsabilidade pela opress\u00e3o e pela injusti\u00e7a.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A regi\u00e3o de Bas\u00e3, como o L\u00edbano e o Carmelo, \u00e9 famosa pela fertilidade do solo. A tristeza causada pela puni\u00e7\u00e3o divina se manifesta na debilidade do L\u00edbano, do Bas\u00e3, do Carmelo e do Saron (Cf. Isa\u00edas 33,9). Ao contr\u00e1rio, a generosidade divina se expressa no nutrimento do povo com a \u201c<em>manteiga das ovelhas e dos touros de Bas\u00e3<\/em>\u201d (Cf. Deuteron\u00f4mio 32,14). O an\u00fancio messi\u00e2nico, com o qual se conclui o livro de Miqu\u00e9ias, inclui a promessa de um pasto abundante \u201cem Bas\u00e3 e em Galaad, como nos dias antigos (Cf. Miqu\u00e9ias 7,14). No ambiente de louvor do Salmo 68 o \u201cBas\u00e3\u201d s\u00e3o os montes (Sl 68,16) que testemunham, junto com o Sinai e a natureza, a grandeza das obras de Jav\u00e9. Logo integrar \u201cBas\u00e3\u201d em uma imagem depreciativa \u00e9 algo estranho ao uso corrente de \u201cBas\u00e3\u201d na B\u00edblia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">De \u201cvaca de Bas\u00e3\u201d n\u00e3o se fala em nenhum outro lugar no Primeiro Testamento da B\u00edblia. As montanhas de Bas\u00e3 s\u00e3o famosas pelos seus touros, cabritos e carneiros (mas n\u00e3o vacas; cf. Dt 32,14). Por isso os touros de Bas\u00e3 podem ser imagens dos inimigos poderosos (cf. Salmo 22,13 e, sobretudo, Ezequiel 39,18).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A express\u00e3o \u201cvacas de Bas\u00e3\u201d adquire um sentido mais verdadeiro dentro da cultura b\u00edblica se o termo \u201cvacas\u201d n\u00e3o for utilizado em rela\u00e7\u00e3o a mulheres, mas a homens, aqueles que quiseram ser como os touros de Bas\u00e3, pela for\u00e7a deles, autoridade e dignidade se tornaram \u201cvacas\u201d, com as conota\u00e7\u00f5es depreciativas que as formas femininas podem ter no Primeiro Testamento.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Neste contexto, os \u201cseus senhores\u201d (Am 4,1b, com sufixo masculino) se referem provavelmente n\u00e3o aos \u201cmaridos\u201d, como prop\u00f5em algumas tradu\u00e7\u00f5es, um uso pelo qual n\u00e3o se tem nenhuma outra ocorr\u00eancia, mas refere-se a uma pessoa de mais autoridade (pol\u00edtica). \u201cSenhor\u201d, al\u00e9m do freq\u00fcente uso como t\u00edtulo divino, se refere a Acab (2 Reis 10,2.3.6), ao Fara\u00f3 (G\u00eanesis 40,1), ao Rei da Babil\u00f4nia (Jeremias 27,4), e em casos isolados a v\u00e1rias pessoas: \u201coutros senhores&#8230;\u201d (Isa\u00edas 26,13).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na profecia de Am\u00f3s est\u00e1 \u201cuma cr\u00edtica veemente e contundente aos agentes e mecanismos de explora\u00e7\u00e3o e opress\u00e3o dos camponeses empobrecidos sob o governo expansionista do rei Jerobo\u00e3o II e sob as condi\u00e7\u00f5es de um incremento de rela\u00e7\u00f5es de empr\u00e9stimos e d\u00edvidas entre pessoas do pr\u00f3prio povo no s\u00e9culo VIII a.C.\u201d<a href=\"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/?p=3#_ftn6\">[6]<\/a>. Em outros termos, o profeta Am\u00f3s n\u00e3o apenas critica <em>pessoas corruptas<\/em>, mas questiona tamb\u00e9m de modo muito forte o <em>sistema<\/em> gerador de pessoas corruptas. N\u00e3o somente as mazelas pessoais est\u00e3o na mira do \u201ccampon\u00eas\u201d que entrou para a hist\u00f3ria como um grande profeta. Am\u00f3s tem consci\u00eancia de que o problema fundamental da injusti\u00e7a reinante na sociedade n\u00e3o \u00e9 fruto somente de fraquezas e ambig\u00fcidades pessoais, mas tem como causa motriz estruturas s\u00f3cio-econ\u00f4mico-pol\u00edtico-cultural e religiosas que engrenam uma m\u00e1quina de moer pessoas. Na mira do profeta Am\u00f3s tamb\u00e9m est\u00e3o rela\u00e7\u00f5es comerciais que causam endividamento, aprisionam pessoas e escravizam, retirando a liberdade de ser pessoa humana.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Al\u00e9m das den\u00fancias sociais, a profecia de Am\u00f3s destaca-se com o an\u00fancio de um ju\u00edzo iminente de Jav\u00e9 na hist\u00f3ria do seu povo. Am\u00f3s inverte as expectativas quanto a um t\u00e3o sonhado \u201cdia de Jav\u00e9\u201d (Am 5,18-20). Este n\u00e3o ser\u00e1 mais uma \u201cideologia de seguran\u00e7a pol\u00edtico-religiosa\u201d pelos fortes de Israel. A pervers\u00e3o da justi\u00e7a para os pobres, a opress\u00e3o dos empobrecidos e a explora\u00e7\u00e3o das pessoas mais enfraquecidas clama pelo ju\u00edzo divino. O \u201cdia de Jav\u00e9\u201d ser\u00e1 um \u201cdia mau\u201d sobre os fortes de Israel, sobre o estado tribut\u00e1rio, suas institui\u00e7\u00f5es e seus agentes.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Am\u00f3s critica com coragem a \u201ccorrida armamentista\u201d de Israel. Ele anuncia que ser\u00e3o desmanteladas as for\u00e7as militares dos estados vizinhos (Am\u00f3s 1,5.8b.14b; 2,2b) e sobretudo de Israel (Am\u00f3s 2,13-16; 3,11b; 5,2-3; 6,13-14).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O profeta Am\u00f3s denuncia duramente tamb\u00e9m as institui\u00e7\u00f5es religiosas que est\u00e3o justificando o processo de extors\u00e3o de tributos da popula\u00e7\u00e3o camponesa (Am 4,4-5; 5,21-23). Pelo conluio com a opress\u00e3o econ\u00f4mica a religi\u00e3o oficial tamb\u00e9m ser\u00e1 dizimada (templos) e seus agentes (Am 5,27; 7,9; 9,1).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201c<em>Odeiem o mal e amem o bem: restabele\u00e7am no port\u00e3o a justi\u00e7a<\/em>!\u201d (Am 5,15). \u201cAqui est\u00e1 a exig\u00eancia positiva por excel\u00eancia na profecia de Am\u00f3s. Os israelitas s\u00e3o conclamados a reconstruir as rela\u00e7\u00f5es sociais baseadas na justi\u00e7a e no direito (<em>mishpat<\/em> \/ <em>sedaqah \u2013 <\/em>em hebraico). S\u00f3 assim ser\u00e1 poss\u00edvel escapar do ju\u00edzo vindouro anunciado. O futuro de um \u201cresto\u201d passa pela pr\u00e1tica de Justi\u00e7a\u201d<a href=\"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/?p=3#_ftn7\">[7]<\/a>. O ju\u00edzo abre caminho para a justi\u00e7a. A presen\u00e7a dos profetas e profetizas no meio do povo deixa Jav\u00e9 livre de qualquer responsabilidade diante da puni\u00e7\u00e3o que o povo merece.\u00a0 N\u00e3o precisa nem explicitar a atualidade da profecia de Am\u00f3s. Que cada leitor\/a fa\u00e7a as atualiza\u00e7\u00f5es necess\u00e1rias.<\/p>\n<p>Belo Horizonte, MG, Brasil, 30 de julho de 2012.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<hr width=\"33%\" size=\"1\" \/>\n<p><a href=\"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/?p=3#_ftnref1\">[1]<\/a> Frei e padre Carmelita, mestre em Exegese B\u00edblica, professor de Teologia B\u00edblica, assessor da CPT, CEBs, CEBI, SAB e Via Campesina; e-mail: <a href=\"mailto:gilvander@igrejadocarmo.com.br\">gilvander@igrejadocarmo.com.br<\/a> &#8211; <a href=\"http:\/\/www.gilvander.org.br\/\">www.gilvander.org.br<\/a> \u2013 facebook: Gilvander Moreira\u00a0 &#8211; <a href=\"http:\/\/www.twitter.com\/gilvanderluis\">www.twitter.com\/gilvanderluis<\/a><\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/?p=3#_ftnref2\">[2]<\/a> HAROLDO REIMER, \u201cAm\u00f3s \u2013 profeta de ju\u00edzo e justi\u00e7a\u201d, em <em>Os livros prof\u00e9ticos: a voz dos profetas e suas releituras<\/em>, RIBLA 35-36, Ed. Vozes, Petr\u00f3polis e Ed. Sinodal, S\u00e3o Leopoldo, 2000, p. 171.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/?p=3#_ftnref3\">[3]<\/a> Para melhor compreens\u00e3o sugiro ler na B\u00edblia Am 4,4-13 (cap\u00edtulo 4, vers\u00edculos de 4 a 13) antes de prosseguir a leitura do nosso texto.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/?p=3#_ftnref4\">[4]<\/a> Gato escaldado com \u00e1gua quente tem medo at\u00e9 de \u00e1gua fria, diz a sabedoria popular.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/?p=3#_ftnref5\">[5]<\/a> Sugiro ler na B\u00edblia Am 7,1-17 antes de prosseguir a leitura do nosso texto.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/?p=3#_ftnref6\">[6]<\/a> HAROLDO REIMER, \u201cAm\u00f3s \u2013 profeta de ju\u00edzo e justi\u00e7a\u201d, em <em>Os livros prof\u00e9ticos: a voz dos profetas e suas releituras<\/em>, RIBLA 35-36, Ed. Vozes, Petr\u00f3polis e Ed. Sinodal, S\u00e3o Leopoldo, 2000, p. 188.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/?p=3#_ftnref7\">[7]<\/a> HAROLDO REIMER, \u201cAm\u00f3s \u2013 profeta de ju\u00edzo e justi\u00e7a\u201d, em <em>Os livros prof\u00e9ticos: a voz dos profetas e suas releituras<\/em>, RIBLA 35-36, Ed. Vozes, Petr\u00f3polis e Ed. Sinodal, S\u00e3o Leopoldo, 2000, p. 189.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Profeta Am\u00f3s, luta contra a injusti\u00e7a social e ju\u00edzo iminente. Gilvander Lu\u00eds Moreira[1] \u201cOdeiem o mal e amem o bem: restabele\u00e7am no port\u00e3o a justi\u00e7a!\u201d (Am\u00f3s 5,15). 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