{"id":192,"date":"2012-10-01T16:49:08","date_gmt":"2012-10-01T19:49:08","guid":{"rendered":"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/?p=192"},"modified":"2012-10-01T16:49:08","modified_gmt":"2012-10-01T19:49:08","slug":"nova-casa-grande-e-novas-senzalas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/gilvander.org.br\/site\/nova-casa-grande-e-novas-senzalas\/","title":{"rendered":"Nova Casa Grande e novas Senzalas."},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: center;\"><strong><span style=\"color: #800080;\"><span style=\"font-size: large;\">Nova Casa Grande e novas Senzalas.<\/span><\/span><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong><em><span style=\"color: #800080;\">Cidade Grande, nova Casa Grande; Periferias, novas Senzalas.<\/span><\/em><\/strong><\/p>\n<p align=\"center\">Gilvander Lu\u00eds Moreira<a href=\"file:\/\/\/C:\/Users\/FREI%20GILVANDER\/Documents\/Grande%20Cidade%20-%20nova%20Casa%20Grande%20-%20e%20Periferia,%20novas%20Senzalas%20-%20por%20Gilvander%20-%2001%2010%202012.doc#_ftn1\">[1]<\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em 1933, Gilberto Freyre revelou a estrutura colonial da empresa Brasil: Casa Grande e Senzala, aquela vivendo \u00e0 custa dessa.<\/p>\n<p>  <!--more-->  <\/p>\n<p>Na e a partir da Casa Grande, o senhor de engenho manda. Na e a partir da Senzala muitos baixam a cabe\u00e7a e obedecem, e, assim, s\u00e3o escravizados, mas uma minoria, como Zumbi e Dandara, levantam a cabe\u00e7a, fogem e organiza quilombos como o de Palmares. Passa-se o tempo, mudam-se os r\u00f3tulos, mas a l\u00f3gica e a estrutura escravocrata continuam funcionando a todo vapor. Os em-pregados de hoje, quem ganha apenas sal\u00e1rio-m\u00ednimo s\u00e3o, na pr\u00e1tica, os escravos da atualidade. Sobrevivem nas periferias das regi\u00f5es metropolitanas, as chamadas \u201ccidades dormit\u00f3rios\u201d, mas, na realidade, s\u00e3o as novas Senzalas que movimentam a nova Casa Grande, a Cidade Grande.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Dia 30 de setembro de 2012, celebramos missa na Comunidade Santa Teresinha, em Justin\u00f3polis, Ribeir\u00e3o das Neves, regi\u00e3o metropolitana de Belo Horizonte, com a igreja lotada. Ap\u00f3s a missa, pedi que levantasse a m\u00e3o quem trabalhava em Belo Horizonte. 95% dos jovens e adultos levantaram a m\u00e3o. \u201c<em>A que hora voc\u00eas saem de casa para ir trabalhar?<\/em>\u201d, indaguei. \u201c<em>\u00c0s 4,5 horas<\/em>\u201d, uns gritaram. \u201c<em>\u00c0s 5 horas<\/em>\u201d, disse a maioria quase em coro. \u201c<em>A que horas voc\u00eas chegam de volta do trabalho?<\/em> \u201c<em>\u00c0s 20:00h<\/em>\u201d, disseram uns. \u201c<em>\u00c0s 20:30h<\/em>\u201d, outros. \u201c<em>Voc\u00eas v\u00e3o dormir a que hora?<\/em>\u201d \u201c<em>\u00c0s 11 da noite<\/em>.\u201d Outros: \u201c<em>\u00c0 meia noite<\/em>.\u201d \u201c<em>Como \u00e9 a viagem nos \u00f4nibus para ir trabalhar e para voltar?<\/em>\u201d \u201c<em>Os \u00f4nibus est\u00e3o sempre superlotados. As passagens s\u00e3o muito caras. Demora muito a viagem. Deveria ter mais \u00f4nibus. \u00c9 uma canseira danada ter que enfrentar a ida e a volta para trabalhar<\/em>\u201d, diziam todos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ribeir\u00e3o das Neves \u00e9 uma das 31 cidades da regi\u00e3o metropolitana de Belo Horizonte, cidade com 350 mil habitantes, a \u201ccidade das pris\u00f5es\u201d, pois h\u00e1 cerca de 6 mil presos em grandes complexos penitenci\u00e1rios. \u201c<em>Basta de construir pris\u00f5es aqui na nossa cidade!\u201d<\/em>, gritam os nevenses indignados.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Pedi para levantar a m\u00e3o quem tinha nascido na ro\u00e7a, no campo. 80% dos adultos levantaram a m\u00e3o. \u00c9 s\u00f3 fazer mem\u00f3ria das coisas boas da ro\u00e7a que todos brilham os olhos. Sinal de que o povo sai da ro\u00e7a, mas a ro\u00e7a n\u00e3o sai do povo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201c<em>Onde voc\u00eas trabalham em Belo  Horizonte e o que fazem?<\/em>\u201d, perguntei. Ouvi uma lista enorme de profiss\u00f5es e servi\u00e7os: dom\u00e9stica, cuidadora de idosos, servente de constru\u00e7\u00e3o, pedreiro, motorista, motoboy, vigia, secret\u00e1ria. \u201c<em>E o sal\u00e1rio?<\/em>\u201d Uns ganham sal\u00e1rio-m\u00ednimo; outros 1,5 sal\u00e1rio; No m\u00e1ximo, 2 sal\u00e1rios m\u00ednimos. \u201c<em>Voc\u00eas t\u00eam casa pr\u00f3pria?<\/em>\u201d Uma minoria disse que sim. A maioria sobrevive em favelas, ou na cruz do aluguel ou ainda na humilha\u00e7\u00e3o do sobreviver de favor em casa de parentes. Alguns disseram que trabalham em Belo Horizonte a semana toda, dormem nas ruas e voltam para casa na regi\u00e3o metropolitana somente nos finais de semana.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os pobres da cidade e do campo s\u00e3o os que constroem a cidade e o campo. O povo das ocupa\u00e7\u00f5es urbanas da capital mineira \u2013 Comunidades Camilo Torres, Dandara, Irm\u00e3 Dorothy, Zilah Sposito-Helena Greco e Eliana Silva \u2013 cerca de 1.900 fam\u00edlias, exceto os desempregados e os que est\u00e3o na economia informal, trabalha nas ind\u00fastrias, nas empresas, no com\u00e9rcio, nos \u00f3rg\u00e3os p\u00fablicos do Estado e nas resid\u00eancias das classes m\u00e9dia e alta, geralmente em trabalhos manuais, os considerados indignos para quem estudou. Eu conhe\u00e7o mulheres de ocupa\u00e7\u00f5es urbanas sendo: a) copeiras na UFMG; b) cuidadoras de idosos no Belvedere; c) dom\u00e9stica no bairro Mangabeiras \u2013 bairro mais enriquecido &#8211; em casa com 2 pessoas e 32 quartos; d) lavadeiras de \u00f4nibus; e) rejuntadora de piso de apartamentos; f) Pedreiros, inclusive, um que, com bra\u00e7o quebrado, estava na ocupa\u00e7\u00e3o Eliana Silva. Ele me disse: \u201c<em>H\u00e1 25 anos ajudo a construir casas e apartamentos para empresas e outras pessoas, mas n\u00e3o consegui ainda adquirir minha casa pr\u00f3pria<\/em>.\u201d; g) Serventes, como o que encontrei chorando na UPA<a href=\"file:\/\/\/C:\/Users\/FREI%20GILVANDER\/Documents\/Grande%20Cidade%20-%20nova%20Casa%20Grande%20-%20e%20Periferia,%20novas%20Senzalas%20-%20por%20Gilvander%20-%2001%2010%202012.doc#_ftn2\">[2]<\/a> de Venda Nova, em BH. Ele j\u00e1 caiu v\u00e1rias vezes de escadas, enquanto trabalhava em constru\u00e7\u00f5es, porque h\u00e1 3 anos est\u00e1 numa via sacra de hospital em hospital, de UPA em UPA, precisando fazer uma cirurgia do ouvido que d\u00f3i constantemente e est\u00e1 todo purulento. Por isso \u00e9 j\u00e1 est\u00e1 surdo de um ouvido e ouvindo pouco do outro.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O grau m\u00e1ximo dessa viol\u00eancia se d\u00e1 quando n\u00e3o se reconhece a humanidade do outro. Mais al\u00e9m: O projeto dominante de cidade, hoje, busca alargar cada vez mais os espa\u00e7os privados e, por isso, reduz os espa\u00e7os p\u00fablicos. Exemplos disso n\u00e3o faltam. No Mangabeiras, um dos bairros nobres de Belo Horizonte, em 1 Km2 vivem folgadamente mil pessoas, enquanto no bairro, ao lado, na Serra, onde h\u00e1 o Complexo das favelas da Serra, em 1 Km2 sobrevivem arrochadas cerca de 40 mil pessoas, isso segundo dados do IBGE.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nesse contexto de nova Casa Grande e novas Senzalas, enquanto o prefeito de BH, o governador de Minas e a presidenta Dilma Rousseff n\u00e3o constru\u00edram nenhuma casa pelo Programa Minha Casa Minha Vida para fam\u00edlias de zero a tr\u00eas sal\u00e1rios m\u00ednimos na capital mineira, sob a lideran\u00e7a de movimentos sociais populares \u2013 como as Brigadas Populares<a href=\"file:\/\/\/C:\/Users\/FREI%20GILVANDER\/Documents\/Grande%20Cidade%20-%20nova%20Casa%20Grande%20-%20e%20Periferia,%20novas%20Senzalas%20-%20por%20Gilvander%20-%2001%2010%202012.doc#_ftn3\">[3]<\/a> e o MLB<a href=\"file:\/\/\/C:\/Users\/FREI%20GILVANDER\/Documents\/Grande%20Cidade%20-%20nova%20Casa%20Grande%20-%20e%20Periferia,%20novas%20Senzalas%20-%20por%20Gilvander%20-%2001%2010%202012.doc#_ftn4\">[4]<\/a> &#8211; que empoderam os pobres, o povo das Ocupa\u00e7\u00f5es urbanas de Belo Horizonte est\u00e1 construindo mais de 2.400 casas de alvenaria. Isso em cinco anos de luta. A Comunidade Camilo Torres, j\u00e1 construiu (ou est\u00e1 em constru\u00e7\u00e3o) 142 casas; Dandara, mil casas; Irm\u00e3 Dorothy, 137 casas; Zilah Sposito-Helena Greco, 140 casas; Novo Lagedo, cerca de 1.000 casas. Total: 2.419 casas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E mais: n\u00e3o tem sido s\u00f3 a constru\u00e7\u00e3o de casas, mas a constru\u00e7\u00e3o de pessoas, de valores que contrap\u00f5em os valores da sociedade capitalista, como a colabora\u00e7\u00e3o, a solidariedade, o reaproveitamento, o trabalho coletivo e em mutir\u00e3o, a produ\u00e7\u00e3o de alimentos sem agrot\u00f3xicos, a troca, a amizade e o cuidado.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 luta por direitos humanos para sair da cruz do aluguel e do sobreviver de favor. Essas conquistas se tornam poss\u00edveis gra\u00e7as \u00e0 conjuga\u00e7\u00e3o de muitas for\u00e7as vivas da sociedade, tais como: a) A constru\u00e7\u00e3o de movimentos sociais populares id\u00f4neos e realmente comprometidos com a luta dos injusti\u00e7ados; b) Organiza\u00e7\u00e3o dos pobres; c) Constitui\u00e7\u00e3o de uma Rede de Apoio externo que aglutina as melhores for\u00e7as vivas da sociedade; d) Busca incessante de conhecimento cr\u00edtico; e) Clareza sobre o projeto de cidade e de campo que queremos; f) Cultivo de m\u00edsticas libertadoras; g) Solidariedade m\u00fatua; h) Trabalho coletivo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Assim, como resist\u00eancia \u00e0 viol\u00eancia da nova Casa Grande, a Cidade Grande, novos \u201cQuilombos\u201d est\u00e3o sendo constru\u00eddos. Lutamos por uma cidade que caiba todos, numa conviv\u00eancia multicultural. Buscamos conviver respeitando e aprendendo a admirar e amar o outro, mas de forma diferente. Se aliando ao outro que est\u00e1 na horizontalidade, mas lutando para retirar as armas do outro que est\u00e1 na verticalidade, em uma posi\u00e7\u00e3o opressora. Na verticalidade, em luta de classe, est\u00e3o latifundi\u00e1rio X sem-terra, empresas especuladoras na cidade X sem-casa, pol\u00edticos profissionais X eleitores etc. Na horizontalidade est\u00e3o os sem-terra, os sem-casa, os ind\u00edgenas, os homossexuais, os idosos, os portadores de direitos e necessidades especiais, os trabalhadores informais e os que trabalham nas associa\u00e7\u00f5es e cooperativas e o meio ambiente, dentre outras for\u00e7as vivas que est\u00e3o construindo uma nova sociedade de baixo para cima e de dentro para fora, a partir do povo trabalhador, os empobrecidos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0<\/p>\n<p>Belo Horizonte, MG, Brasil, 01 de outubro de 2012, dia de Santa Teresinha do Menino Jesus.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<hr width=\"33%\" size=\"1\" \/>\n<p><a href=\"file:\/\/\/C:\/Users\/FREI%20GILVANDER\/Documents\/Grande%20Cidade%20-%20nova%20Casa%20Grande%20-%20e%20Periferia,%20novas%20Senzalas%20-%20por%20Gilvander%20-%2001%2010%202012.doc#_ftnref1\">[1]<\/a> Frei e padre da Ordem dos Carmelitas, licenciado e bacharel em Filosofia pela UFPR, bacharel em Teologia pelo Instituto Teol\u00f3gico S\u00e3o Paulo, mestre em Exegese B\u00edblica pelo Pontif\u00edcio Instituto B\u00edblico de Roma, It\u00e1lia; assessor do CEBI, SAB, CEBs, CPT e Via Campesina. Cf. <a href=\"http:\/\/www.gilvander.org.br\/\">www.gilvander.org.br<\/a> No facebook: Gilvander Moreira<\/p>\n<p><a href=\"file:\/\/\/C:\/Users\/FREI%20GILVANDER\/Documents\/Grande%20Cidade%20-%20nova%20Casa%20Grande%20-%20e%20Periferia,%20novas%20Senzalas%20-%20por%20Gilvander%20-%2001%2010%202012.doc#_ftnref2\">[2]<\/a> Unidade de Pronto Atendimento.<\/p>\n<p><a href=\"file:\/\/\/C:\/Users\/FREI%20GILVANDER\/Documents\/Grande%20Cidade%20-%20nova%20Casa%20Grande%20-%20e%20Periferia,%20novas%20Senzalas%20-%20por%20Gilvander%20-%2001%2010%202012.doc#_ftnref3\">[3]<\/a> <a href=\"http:\/\/www.brigadaspopulares.org\/\">www.brigadaspopulares.org<\/a><\/p>\n<p><a href=\"file:\/\/\/C:\/Users\/FREI%20GILVANDER\/Documents\/Grande%20Cidade%20-%20nova%20Casa%20Grande%20-%20e%20Periferia,%20novas%20Senzalas%20-%20por%20Gilvander%20-%2001%2010%202012.doc#_ftnref4\">[4]<\/a> [4] Movimento de Luta nos Bairros, Vilas e Favelas. Cf. <a href=\"http:\/\/www.ocupacaoelianasilva.blogspot.com\/\">WWW.ocupacaoelianasilva.blogspot.com<\/a><\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nova Casa Grande e novas Senzalas. Cidade Grande, nova Casa Grande; Periferias, novas Senzalas. Gilvander Lu\u00eds Moreira[1] Em 1933, Gilberto Freyre revelou a estrutura colonial da empresa Brasil: Casa Grande e Senzala, aquela vivendo \u00e0<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[1],"tags":[],"class_list":["post-192","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-sem-categoria"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/192","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=192"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/192\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=192"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=192"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=192"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}