{"id":193,"date":"2012-10-03T13:54:46","date_gmt":"2012-10-03T16:54:46","guid":{"rendered":"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/?p=193"},"modified":"2012-10-03T13:54:46","modified_gmt":"2012-10-03T16:54:46","slug":"biblia-e-ecologia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/gilvander.org.br\/site\/biblia-e-ecologia\/","title":{"rendered":"B\u00cdBLIA E ECOLOGIA"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: center;\"><strong><span style=\"font-size: large;\"><span style=\"color: #008000;\">B\u00cdBLIA E ECOLOGIA<\/span><\/span><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong><span style=\"color: #0000ff;\">Dourados, MS, 16 a 18 de setembro de 2012<\/span><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><span style=\"color: #0000ff;\">Frei Carlos Mesters<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>(Obs.:<\/strong> Esse artigo \u00e9 o 1\u00ba de uma s\u00e9rie de 10 artigos de frei Carlos Mesters que disponibilizaremos na internet, em <a href=\"http:\/\/www.gilvander.org.br\/\">www.gilvander.org.br<\/a> , em breve.)<\/p>\n<p>  <!--more-->  <\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong> <\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>INTRODU\u00c7\u00c3O<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Artigo de Leonardo Boff (Folha de SP julho 2012)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Entrando no assunto:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>OS DOIS LIVROS DE DEUS<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">1\u00ba LIVRO: a Cria\u00e7\u00e3o, a Vida<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">2\u00ba LIVRO: a B\u00edblia<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">1. Superar o fundamentalismo<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">2. Superar as imagens ultrapassadas de Deus<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">3. Ter presente as perguntas que a vida levanta.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>ANTIGO TESTAMENTO<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O olhar dos profetas sobre a Cria\u00e7\u00e3o de Deus<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os profetas Jeremias, Isa\u00edas, Elias<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>NOVO TESTAMENTO<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O olhar de Jesus sobre a Cria\u00e7\u00e3o de Deus<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O olhar dos crist\u00e3os sobre Jesus como centro do Cosmos<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O olhar de Jesus sobre a Cria\u00e7\u00e3o de Deus<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O olhar dos crist\u00e3os sobre Jesus como centro do Cosmos<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>OS SALMOS<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O olhar do povo orante sobre a Cria\u00e7\u00e3o de Deus<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">M\u00edstica C\u00f3smica: aprender a rezar os fen\u00f4menos da natureza<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>A LI\u00c7\u00c3O DOS \u00cdNDIOS<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>PAI NOSSO ECOL\u00d3GICO<\/strong><strong> <\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong> <\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong> <\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><span style=\"text-decoration: underline;\">INTRODU\u00c7\u00c3O<\/span><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>1. Artigo de Leonardo Boff (Folha de SP julho 2012)<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A crise atual n\u00e3o \u00e9 apenas de escassez crescente de recursos e de servi\u00e7os naturais. \u00c9 fundamentalmente a crise de um tipo de civiliza\u00e7\u00e3o que colocou o ser humano como \u201csenhor e dono\u201d da natureza (Descartes). Esta, para ele, \u00e9 sem esp\u00edrito e sem prop\u00f3sito e por isso pode fazer com ela o que quiser.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Segundo o fundador do paradigma moderno da tecno-ci\u00eancia, Francis Bacon, cabe ao ser humano tortur\u00e1-la, como o fazem os esbirros da Inquisi\u00e7\u00e3o, at\u00e9 que ela entregue todos os seus segredos. Desta atitude se derivou uma rela\u00e7\u00e3o de agress\u00e3o e de verdadeira guerra contra a natureza selvagem que devia ser dominada e \u201ccivilizada\u201d. Surgiu tamb\u00e9m a proje\u00e7\u00e3o arrogante do ser humano como o \u201cDeus\u201d que tudo domina e organiza.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Devemos reconhecer que o Cristianismo ajudou a legitimar e a refor\u00e7ar esta compreens\u00e3o. O G\u00eanesis diz claramente: \u201denchei a Terra e sujeitai-a e dominai sobre tudo o que vive e se move sobre ela\u201d(1,28). Depois se afirma que o ser humano foi feito \u201c\u00e0 imagem e semelhan\u00e7a de Deus\u201d(Gn 1,26). O sentido b\u00edblico desta express\u00e3o \u00e9: o ser humano \u00e9 lugar-tenente de Deus e como Este \u00e9 o senhor do universo, o ser humano \u00e9 senhor da Terra. Ele goza de uma dignidade que \u00e9 s\u00f3 dele, o de estar acima dos demais seres. Dai se gerou o antropocentrismo, uma das causas da crise ecol\u00f3gica. Por fim, o estrito monote\u00edsmo retirou o car\u00e1ter sagrado de todas as coisas e o concentrou s\u00f3 em Deus. O mundo, n\u00e3o possuindo nada de sagrado, n\u00e3o precisa ser respeitado. Podemos mold\u00e1-lo a nosso bel-prazer. A moderna civiliza\u00e7\u00e3o da tecnoci\u00eancia encheu todos os espa\u00e7os com seus aparatos e p\u00f4de penetrar no cora\u00e7\u00e3o da mat\u00e9ria, da vida e do universo. Tudo vinha envolto pela aura do \u201cprogresso\u201d, uma esp\u00e9cie de resgate do para\u00edso das del\u00edcias, outrora perdido, mas agora reconstru\u00eddo e oferecido a todos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Esta vis\u00e3o gloriosa come\u00e7ou a ruir no s\u00e9culo XX com as duas guerras mundiais e outras coloniais que vitimaram duzentos milh\u00f5es de pessoas. Quando se perpetrou o maior ato terrorista da hist\u00f3ria, as bombas at\u00f4micas lan\u00e7adas sobre o Jap\u00e3o pelo ex\u00e9rcito norte-americano, que matou milhares de pessoas e devastou a natureza, a humanidade levou um susto do qual n\u00e3o se refez at\u00e9 hoje. Com as armas at\u00f4micas, biol\u00f3gicas e qu\u00edmicas constru\u00eddas depois, nos demos conta de que n\u00e3o precisamos de Deus para concretizar o Apocalipse.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o somos Deus e querer ser \u201cDeus\u201d nos leva \u00e0 loucura. A id\u00e9ia do homem como \u201cDeus\u201d se transformou num pesadelo. Mas ele se esconde ainda atr\u00e1s do\u00a0 \u201ctina\u201d (<em>there is no alternative<\/em>) neoliberal:\u201dn\u00e3o h\u00e1 alternativa, este mundo \u00e9 definitivo.\u201d Rid\u00edculo. Demo-nos conta de que \u201co saber como poder\u201d (Bacon) quando feito sem consci\u00eancia e sem limites \u00e9ticos, pode nos autodestruir. Que poder temos sobre a natureza? Quem domina um tsunami? Quem controla o vulc\u00e3o chileno Puyehe? Quem freia a f\u00faria das enchentes nas cidades serranas do Rio? Quem impede o efeito letal das part\u00edculas at\u00f4micas do ur\u00e2nio, do c\u00e9sio e de outras liberadas, pelas cat\u00e1strofes de Chernobyl e de Fukushima? Como disse Heidegger em sua \u00faltima entrevista ao <em>Der Spiegel<\/em>: \u201ds\u00f3 um Deus nos poder\u00e1 salvar\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Temos que nos aceitar como simples criaturas junto com todas as demais da comunidade de vida. Temos a mesma origem comum: o p\u00f3 da Terra. N\u00e3o somos a coroa da cria\u00e7\u00e3o, mas um elo da corrente da vida, com uma diferen\u00e7a, a de sermos \u00a0conscientes e com a miss\u00e3o de \u201cguardar e de cuidar do jardim do \u00c9den\u201d (Gn 2,15), quer dizer, de manter a condi\u00e7\u00f5es de sustentabilidade de todos os ecossistemas que comp\u00f5em a Terra.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Se partimos da B\u00edblia para legitimar a domina\u00e7\u00e3o da Terra, temos que voltar a ela para aprender a respeit\u00e1-la e a cuid\u00e1-la. A Terra gerou a todos. Deus ordenou: \u201cQue a Terra produza seres vivos, segundo \u00a0sua esp\u00e9cie\u201d(Gn 1,24). Ela, portanto, n\u00e3o \u00e9 inerte, \u00e9 geradora e \u00e9 m\u00e3e. A alian\u00e7a de Deus n\u00e3o \u00e9 apenas com os seres humanos. Depois do tsunami do dil\u00favio, Deus refez a alian\u00e7a \u201ccom a nossa descend\u00eancia e com todos os seres vivos\u201d(Gn 9,10). Sem eles, somos uma familia desfalcada.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A hist\u00f3ria mostra que a arrog\u00e2ncia de \u201cser Deus\u201d, sem nunca poder s\u00ea-lo, s\u00f3 nos traz desgra\u00e7as. Baste-nos ser simples criaturas com a miss\u00e3o de cuidar e respeitar a M\u00e3e Terra.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>2. Entrando no assunto: <\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Devemos ter presente que houve uma ruptura na viv\u00eancia da f\u00e9. At\u00e9 o s\u00e9culo XVI, dentro dos crit\u00e9rios da cosmo-vis\u00e3o que eles tinham, o povo de Deus soube integrar a vis\u00e3o da Natureza (Cosmos), a viv\u00eancia da f\u00e9 e a celebra\u00e7\u00e3o lit\u00fargica. Basta ver os relatos b\u00edblicos e os Salmos, nos quais terra, sol, lua, estrelas, plantas e montanhas, seres humanos, hist\u00f3ria e cria\u00e7\u00e3o, tudo forma um conjunto vivo e harmonioso. A terra est\u00e1 no centro tendo o ser humano como o dono da casa que toma conta de tudo em nome de Deus (cf Sl 8).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Desde o s\u00e9culo XVII para c\u00e1, a ci\u00eancia progrediu e revelou uma vis\u00e3o totalmente nova do universo. A terra n\u00e3o \u00e9 o centro; o sol n\u00e3o passa de uma estrela de segunda categoria na periferia da Via L\u00e1ctea com seus bilh\u00f5es de estrelas. Como a Via L\u00e1ctea h\u00e1 mais outras cem bilh\u00f5es de gal\u00e1xias com outras tantas estrelas. Esta descoberta das ci\u00eancias trouxe um descr\u00e9dito com rela\u00e7\u00e3o \u00e0 cosmo-vis\u00e3o que transparece na B\u00edblia, na teologia e na viv\u00eancia lit\u00fargica. Rompeu-se a vis\u00e3o harmoniosa do cosmos. O ser humano j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 o centro do cosmos, a terra deixou de ser um santu\u00e1rio divino.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A terra n\u00e3o passa de um simples planeta entre milhares de outros planetas. Em vez de ser nossa casa recebida de Deus, ela tornou-se mercadoria. Ela j\u00e1 n\u00e3o nos fala de Deus, nem da nossa origem nem do nosso destino. N\u00f3s nos comportamos como donos para fazer o que bem entendermos com os recursos da natureza. A gan\u00e2ncia interesseira faz crescer em muitos a vontade de explorar os outros, impedindo que tenham acesso aos mesmos bens. E o resultado \u00e9 o desequil\u00edbrio total de tudo:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">* \u00e9 o caos da polui\u00e7\u00e3o amea\u00e7ando a vida no planeta que volta a ser \u201csem forma e vazio\u201d (Gn 1,2);<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">* \u00e9 o irm\u00e3o matando o irm\u00e3o, \u00e9 Caim matando Abel (Gn 4,1-16);<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">* \u00e9 a viol\u00eancia extrema e agressiva, pior do que a de Lameque (Gn 4,17-24);<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">* \u00e9 a manipula\u00e7\u00e3o da religi\u00e3o que desintegra tudo e d\u00e1 origem ao Dil\u00favio (Gn 6,1-7):<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">* \u00e9 uma na\u00e7\u00e3o querendo dominar as outras, criando a confus\u00e3o da Torre de Babel (Gn 11,1-9).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Perdemos o contato com a natureza, com a nossa origem. J\u00e1 n\u00e3o sabemos quem somos. Dizemos que conhecemos a nossa hist\u00f3ria, mas conhecemos apenas uns poucos anos, n\u00e3o mais que uns 20 ou 30 s\u00e9culos. S\u00f3 o planeta Terra, nossa casa, j\u00e1 tem mais de 3 bilh\u00f5es de anos. A carteira de identidade indica nossa idade, diz o ano em que nascemos. Dificilmente algu\u00e9m passa dos 90 anos. Na realidade, como parte do universo, n\u00f3s seres humanos temos em torno de 14 bilh\u00f5es de anos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 urgente criar em n\u00f3s uma atitude totalmente nova frente \u00e0 natureza. Acolhendo os dados da ci\u00eancia e as quest\u00f5es levantadas pela devasta\u00e7\u00e3o do meio ambiente, devemos tentar chegar a uma nova integra\u00e7\u00e3o entre natureza e f\u00e9 que nos ajude a superar a vis\u00e3o utilitarista do cosmos divulgada pelo sistema neo-liberal. Em vista disso vale a pena refletir sobre \u201cOs dois Livros de Deus\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><span style=\"text-decoration: underline;\">OS DOIS LIVROS DE DEUS<\/span><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>1\u00ba LIVRO: a cria\u00e7\u00e3o, o cosmos, a natureza, o universo, a vida, o mundo, os fatos, a hist\u00f3ria<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O primeiro livro de Deus n\u00e3o \u00e9 a B\u00edblia, mas sim a natureza. \u00c9 atrav\u00e9s do <em>Livro da Natureza<\/em> ou <em>da Vida<\/em> que Deus quer falar conosco. De que maneira a natureza \u00e9 o Livro de Deus? Deus criou as coisas <strong><em>falando<\/em><\/strong>. Ele disse: \u201cLuz!\u201d E a luz come\u00e7ou a existir (Gn 1,3). Tudo que existe \u00e9 a express\u00e3o de uma palavra divina, como t\u00e3o bem verbaliza o salmo: <em>\u201cO c\u00e9u manifesta a gl\u00f3ria de Deus, e o firmamento proclama a obra de suas m\u00e3os. O dia passa a mensagem para outro dia, a noite a sussurra para a outra noite. Sem fala e sem palavras, sem que a sua voz seja ouvida, a toda a terra chega o seu eco, aos confins do mundo a sua linguagem\u201d<\/em> (Sl 19,2-5).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Cada ser humano \u00e9 uma palavra ambulante de Deus (Gn 1,27). As crian\u00e7as s\u00e3o palavra de Deus para os pais; os pais s\u00e3o palavra de Deus para as crian\u00e7as. Mas n\u00f3s j\u00e1 n\u00e3o nos damos conta de que estamos vivendo no meio do livro de Deus e que cada um de n\u00f3s \u00e9 uma p\u00e1gina viva deste livro divino. H\u00e1 algo que nos impede de reconhecer a presen\u00e7a da Palavra na vida, algo que \u201csufoca a verdade\u201d (Rom 1,18). O que nos impede?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Santo Agostinho diz que foi o pecado, i.\u00e9., esta nossa mania de querer dominar tudo, de tratar a natureza como mercadoria e de achar que somos donos de tudo. Por isso, as letras do <strong><em>Primeiro Livro<\/em><\/strong> de Deus se atrapalharam e j\u00e1 n\u00e3o conseguimos descobrir a fala de Deus no <em>Livro da Vida<\/em>. Perdemos o olhar da contempla\u00e7\u00e3o, a capacidade de admirar. Por isso, nasceu a B\u00edblia, o <strong><em>Segundo Livro <\/em><\/strong>de Deus.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>2\u00ba LIVRO: a B\u00edblia <\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A B\u00edblia foi escrita, n\u00e3o para substituir o Livro da Vida, mas sim para ajudar-nos a entend\u00ea-lo melhor e a descobrir nele os sinais da presen\u00e7a de Deus. O estudo e a leitura orante da B\u00edblia nos devolvem o olhar da contempla\u00e7\u00e3o. Ajudam a decifrar e a interpretar os acontecimentos, a natureza. Fazem com que o Universo se torne novamente uma revela\u00e7\u00e3o de Deus, e volte a ser o que deve ser <em>\u201cO Primeiro Livro de Deus\u201d<\/em>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O texto da B\u00edblia n\u00e3o caiu pronto do c\u00e9u. Nasceu aos poucos, fruto da a\u00e7\u00e3o do Esp\u00edrito de Deus e de um demorado processo de busca do ser humano. Impelido pelo desejo de encontrar Deus na vida, o povo foi descobrindo os sinais da sua presen\u00e7a e, dentro dos crit\u00e9rios da cultura da \u00e9poca, transmitia para os filhos as suas descobertas. Assim foi nascendo a Tradi\u00e7\u00e3o Viva do Povo de Deus, transmitida oralmente de gera\u00e7\u00e3o em gera\u00e7\u00e3o. No fim, escreveram tudo num livro. Este livro \u00e9 a B\u00edblia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A B\u00edblia traz o resultado da leitura que o povo hebreu conseguiu fazer da vida e da natureza para descobrir nelas a fala de Deus. Este <em>Segundo Livro de Deus<\/em> (a B\u00edblia), assim dizia Santo Agostinho, ajudou o povo a entender melhor o <em>Primeiro Livro<\/em> (a Vida, a Natureza). Com a orienta\u00e7\u00e3o da B\u00edblia devemos tamb\u00e9m n\u00f3s <em>\u201cescrever a nossa B\u00edblia\u201d, <\/em>isto \u00e9,<em> <\/em>devemos imitar o povo de Deus e, como eles, <strong><em>ler a nossa realidade para descobrir dentro dela os apelos de Deus e express\u00e1-los dentro dos crit\u00e9rios da nossa cultura<\/em><\/strong>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Muitos perguntam: mas o que fazer com a B\u00edblia e a sua cosmo-vis\u00e3o ultrapassada? Como ela pode nos ajudar a interpretar este universo imenso que a ci\u00eancia descortina diante de n\u00f3s? Aqui vale a pena retomar uma palavra de Clemente de Alexandria, um s\u00e1bio africano do s\u00e9culo IV da cidade de Alexandria no norte do Egito. Ele dizia: <em>\u201cDeus salvou os judeus judaicamente, os gregos, gregamente, os b\u00e1rbaros, barbaramente\u201d<\/em>. E podemos continuar: \u201cOs brasileiros, brasileiramente; os argentinos, argentinamente; os latinos, latinamente\u201d \u201d etc. Os judeus, os gregos e os b\u00e1rbaros, cada um no seu tempo e na sua cultura, atrav\u00e9s da teimosia da sua f\u00e9 e no meio das muitas crises das suas hist\u00f3rias, foram capazes de descobrir os sinais da presen\u00e7a amorosa de Deus em suas vidas. Assim tamb\u00e9m n\u00f3s estamos sendo desafiados a fazer hoje o mesmo que eles fizeram no seu tempo, a saber: descobrir a mesma presen\u00e7a divina dentro da nossa realidade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Isto implica em tr\u00eas tarefas: (1) superar o fundamentalismo; (2) superar as imagens ultrapassadas de Deus e (3) ter presente as perguntas que a vida levanta<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>1. Superar o fundamentalismo: limpar o livro com o uso da ci\u00eancia e do bom senso<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Uns dizem que a B\u00edblia \u00e9 um livro infantil, ultrapassado pelas descobertas da ci\u00eancia. Outros, em nome da B\u00edblia, negam as conclus\u00f5es da ci\u00eancia e dizem: \u201cPrefiro ser criatura de Deus a ser descendente de macaco!\u201d Os dois s\u00e3o fundamentalistas, ambos tomam a B\u00edblia ao p\u00e9 da letra. Nenhum dos dois foi capaz de descobrir a mensagem de vida encerrada na letra da B\u00edblia. Nos dois, a vis\u00e3o fundamentalista da letra bloqueou a comunica\u00e7\u00e3o correta com a B\u00edblia e matou neles a possibilidade de descobrir o sentido verdadeiro, escondido na letra. Dizia o ap\u00f3stolo Paulo: <em>\u201cA letra mata. \u00c9 o Esp\u00edrito que d\u00e1 vida \u00e0 letra\u201d<\/em> (2Cor 3,6). Por mais que invoquem ou neguem a ci\u00eancia, nenhum dos dois soube usar a ci\u00eancia que poderia ajud\u00e1-los a descobrir o sentido que existe dentro da letra. O fundamentalismo \u00e9 inimigo da verdade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Com a ajuda do bom senso e da ci\u00eancia (exegese) devemos estudar a letra, a linguagem, o estilo, a express\u00e3o liter\u00e1ria, o contexto hist\u00f3rico e procurar descobrir a inten\u00e7\u00e3o, o fio da meada, as convic\u00e7\u00f5es de f\u00e9 que nelas se expressam. Situando assim o texto da B\u00edblia no seu contexto humano de origem, quebramos o fundamentalismo, e limpamos e renovamos o livro.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>2. Superar as imagens ultrapassadas de Deus: limpar os olhos que l\u00eaem a B\u00edblia<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas n\u00e3o basta limpar o livro. Temos que limpar tamb\u00e9m os olhos que l\u00eaem o livro. O problema de fundo est\u00e1 no olhar com que lemos a B\u00edblia. <strong>Uma compara\u00e7\u00e3o<\/strong>: Na sala onde o povo estava reunido penduraram a foto de um homem muito severo que com o dedo em riste parecia agredir o p\u00fablico. O pessoal olhava e dizia: \u201cSujeito antip\u00e1tico! D\u00e1 at\u00e9 medo na gente!\u201d. Um outro dizia: \u201cCoitado da mulher dele!\u2019\u00a0 \u2013\u201c\u00c9 melhor ficar longe dele!\u201d A\u00ed entrou um rapaz, olhou a foto e disse: \u201c\u00c9 meu Pai!\u2019\u00a0 \u2013\u201cPai severo, hein!\u201d\u00a0 \u2013\u201cN\u00e3o! Nada disso! Meu pai \u00e9 advogado. Tirei a foto quando ele, diante do juiz, defendia um grupo de pobres que corriam perigo de perder suas casas constru\u00eddas num terreno baldio. Um rica\u00e7o queria despej\u00e1-los e construir a\u00ed um grande pr\u00e9dio para ganhar mais dinheiro. Meu pai os defendeu com for\u00e7a e ganhou a causa. Os pobres continuam em suas casas e at\u00e9 ganharam a escritura!\u201d Todos olharam a foto e disseram \u201cQue pessoa simp\u00e1tica!\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">De repente, tudo mudou! E mudou sem que mudasse coisa alguma. O que mudou? A foto continuou igual. O que mudou foram os olhos. Foi a experi\u00eancia do filho que entrou no cora\u00e7\u00e3o do pessoal e se colocou atr\u00e1s os olhos. No tempo de Jesus, o povo olhava a B\u00edblia e ficava com medo de Deus que parecia severo e amea\u00e7ava o povo com castigo. A\u00ed chegou Jesus, olhou a B\u00edblia e dizia: \u201c\u00c9 meu Pai!\u201d A\u00ed tudo mudou, sem mudar uma v\u00edrgula sequer! (Mt 5,18). O que mudou foram os olhos. Temos que criar em n\u00f3s a experi\u00eancia de Jesus, o Filho do Pai. A\u00ed os olhos se renovam, e o AT, sem mudar uma v\u00edrgula sequer, vira NT.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>3. T<\/strong><strong>er presente as perguntas que a vida levanta.<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Hoje, mais do que nunca, em cada nova gera\u00e7\u00e3o, as mesmas perguntas de sempre renascem e levantam a cabe\u00e7a em busca de uma resposta: Por que existimos? Quem nos fez? Quem \u00e9 Deus? Qual o sentido da nossa vida? Deus, onde est\u00e1s? Todas estas perguntas e contradi\u00e7\u00f5es fazem parte do <em>Primeiro Livro de Deus, <\/em>e elas pedem uma resposta urgente. Antigamente, pens\u00e1vamos de um jeito. Hoje, o bom senso e a ci\u00eancia nos fazem pensar de outro jeito.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A gente sabe que Deus est\u00e1 presente em tudo, mas n\u00e3o sabemos <em>como<\/em>, de que maneira. Pois as contradi\u00e7\u00f5es da vida e a pr\u00f3pria ci\u00eancia, \u00e0s vezes, nos levam a dizer o contr\u00e1rio. Como Deus podia estar no massacre de milh\u00f5es de judeus, ou no tr\u00e1fico dos escravos? Se Deus \u00e9 bom, como ele permite tantos males e sofrimento? Bento XVI, no campo de concentra\u00e7\u00e3o de Auschwitz, onde os nazistas mataram milh\u00f5es de judeus, ficou em sil\u00eancio e disse: <em>\u201cDeus, onde estavas Tu?\u201d<\/em> Castro Alves, diante do tr\u00e1fico de escravos que matou milh\u00f5es de negros, gritou: <em>\u201cDeus, onde est\u00e1s, que n\u00e3o respondes?\u201d<\/em> E como Deus est\u00e1 presente nos resultados da ci\u00eancia, na nova cosmo-vis\u00e3o?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Alberto Einstein dizia: <em>\u201cO mais bonito e o mais profundo que o ser humano pode experimentar \u00e9 sentir algo do mist\u00e9rio. \u00c9 isso que est\u00e1 na origem da religi\u00e3o e de toda a aspira\u00e7\u00e3o mais alta expressa na arte e na ci\u00eancia. Quem nunca experimentou isto, me parece ser, n\u00e3o digo como um morto, mas como um cego\u201d. <\/em>De fato, existe nos povos e em todos n\u00f3s uma intui\u00e7\u00e3o teimosa, m\u00edstica, anterior aos dogmas e doutrinas, tanto da ci\u00eancia como da religi\u00e3o. Em certos momentos, esta intui\u00e7\u00e3o se faz sentir tamb\u00e9m em cada um de n\u00f3s. Voz silenciosa, fr\u00e1gil, sem palavras, que sobe do fundo do inconsciente coletivo da humanida\u00adde e nos diz: <em>\u201cDeus existe, ele est\u00e1 conosco, ele nos ouve; dele dependemos, nele vivemos, nos movemos e existimos. Somos da ra\u00e7a do pr\u00f3prio Deus\u201d<\/em> (cf. At 17,28). E o cora\u00e7\u00e3o humano responde murmurando: <em>\u201cSim, Tu nos fizeste para ti, e o nosso cora\u00e7\u00e3o estar\u00e1 irrequieto at\u00e9 que n\u00e3o descanse em Ti!\u201d<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na estrada de Ema\u00fas, a primeira coisa que Jesus fez n\u00e3o foi ensinar verdades, mas sim escutar os problemas: aproximar-se, caminhar junto com os disc\u00edpulos, escutar, perguntar, perguntar de novo, at\u00e9 saber qual era o problema que os incomodava (Lc 24,13-35).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Temos hoje dois grandes desafios: (1) temos que preservar o meio ambiente, para que as gera\u00e7\u00f5es futuras possam ter uma vida garantida, e (2) temos que criar em n\u00f3s uma nova maneira de olhar o universo e redescobrir nossa miss\u00e3o como humanidade neste universo. Estas duas preocupa\u00e7\u00f5es devem encontrar uma express\u00e3o concreta nas nossas atitudes pessoais, no relacionamento familiar e comunit\u00e1rio, na busca de Deus, na viv\u00eancia da nossa espiritualidade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Antigo Testamento<\/strong>: \u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 O olhar dos profetas sobre a Cria\u00e7\u00e3o de Deus. Os dois Livros de Deus. Os profetas Jeremias, Isa\u00edas, Elias e a busca de Deus.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Novo Testamento<\/strong>: \u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 O olhar de Jesus sobre a Cria\u00e7\u00e3o de Deus. O olhar dos primeiros crist\u00e3os sobre Jesus como centro do Cosmos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Os salmos<\/strong>. \u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 O olhar do povo orante sobre a Cria\u00e7\u00e3o de Deus. M\u00edstica C\u00f3smica; aprender a rezar os fen\u00f4menos da natureza.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><span style=\"text-decoration: underline;\"> <\/span><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><span style=\"text-decoration: underline;\">ANTIGO TESTAMENTO<\/span><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>O olhar dos profetas sobre a Cria\u00e7\u00e3o de Deus<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Os profetas Jeremias, Isa\u00edas, Elias<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>O problema da imagem de Deus em n\u00f3s<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Uma compara\u00e7\u00e3o:<\/strong> Jo\u00e3o teve que ir \u00e0 rodovi\u00e1ria para receber a irm\u00e3 do tio do pai. Visto que ele n\u00e3o conhecia a pessoa, deram a ele uma foto. Quando chegou o \u00f4nibus, Jo\u00e3o foi conferindo as pessoas, fotografia na m\u00e3o. S\u00f3 um pequeno detalhe. A foto era de 45 anos atr\u00e1s. No fim, por \u00faltimo, sai do \u00f4nibus uma senhora j\u00e1 de idade. Jo\u00e3o pergunta, mostrando a foto: \u201cPor acaso, a senhora viu se esta pessoa estava no \u00f4nibus?\u201d Ela olhou, sorriu e disse: \u201cSou eu!\u201d Jo\u00e3o olhou a pessoa conferiu com a foto e disse: \u201cA senhora pode enganar os outros, mas n\u00e3o a mim!\u201d Deixou a dona na rodovi\u00e1ria, voltou para casa e disse: \u201cPai, ela n\u00e3o chegou n\u00e3o. Acho que perdeu o \u00f4nibus!\u201d. Foi a foto antiquada que impediu a Jo\u00e3o de reconhecer a tia na rodovi\u00e1ria.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00f3s temos muitas fotos antiquadas de Deus na cabe\u00e7a que bloqueiam tudo e nos impedem de reconhecer a presen\u00e7a de Deus na rodovi\u00e1ria da vida. H\u00e1 pessoas que identificam Deus com a imagem que dele t\u00eam na cabe\u00e7a e no cora\u00e7\u00e3o. N\u00e3o permitem que algu\u00e9m a coloque em d\u00favida, pois \u00e9 a sua seguran\u00e7a.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O que mais dificulta a descoberta da presen\u00e7a divina na vida \u00e9 a imagem de Deus que nos orienta e determina nosso olhar. Todos temos, dentro de n\u00f3s, uma imagem de Deus. Mesmo sem falar de Deus, dele somos um reflexo. Algo se comunica. Dizia um ex-drogado: \u201cFui criado na religi\u00e3o cat\u00f3lica. Hoje n\u00e3o participo mais. Meus pais eram muito praticantes e queriam que n\u00f3s, os filhos, f\u00f4ssemos como eles. A gente era obrigado a ir \u00e0 igreja sempre, todos os domingos e festas. E quando n\u00e3o ia, eles diziam: &#8220;Deus castiga!\u201d Eu ia a contragosto, e quando fiquei adulto, deixei de ir. Fui deixando aos poucos. Eu n\u00e3o gostava do Deus dos meus pais. N\u00e3o conseguia entender como \u00e9 que Deus, criador do mundo, ficava em cima de mim, menino da ro\u00e7a, amea\u00e7ando com castigo e inferno. Eu gostava do Deus do meu tio que n\u00e3o pisava na igreja, mas que, todos os dias sem falta, comprava o dobro de p\u00e3o, de que ele mesmo precisava, para dar para os pobres!&#8221;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>O CONTEXTO de crise que fez nascer uma nova imagem de Deus e da cria\u00e7\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Uma crise de f\u00e9 \u00e9 como o cupim que vai entrando nas vigas do telhado. Bem devagar! O dono da casa n\u00e3o se d\u00e1 conta, nem presta aten\u00e7\u00e3o. Vai vivendo despreocupado; a tudo desatento. De repente, um temporal cai sobre a casa e o telhado desaba. Desaba <em>de repente<\/em>, sim, mas \u00e9 por causa da falta de cuidado do dono da casa que j\u00e1 vinha de longe. E o dono deu a culpa ao carpinteiro: \u201cMau servi\u00e7o!\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Assim aconteceu com o povo de Deus. Desatento de tudo, permitiu que o cupim de uma falsa imagem de Deus fosse comendo por dentro a viga da sua f\u00e9. Ao longo dos 400 anos da monarquia (de 1000 a 600 aC), Jav\u00e9, o Deus libertador do \u00caxodo, foi sendo reduzido \u00e0 imagem de um Deus-Quebra-Galho, em tudo identificado com os interesses da monarquia. Os profetas alertavam sobre o perigo, mas ningu\u00e9m lhes dava aten\u00e7\u00e3o, pois havia muitos falsos profetas que diziam o contr\u00e1rio (Jr 28,1-11; Ez 34,1-10). O cupim foi avan\u00ad\u00e7ando e, de repente, veio a tempestade e tudo desabou! Deram a culpa ao Criador: \u201cMau servi\u00e7o!\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No m\u00eas de agosto de 587 aC, Nabucodonosor, rei da Babil\u00f4nia, invadiu a Palestina e destruiu a Cidade de Jerusal\u00e9m (2Rs 25,8-12; Jr 52,12-16). Perderam tudo que, at\u00e9 \u00e0quele momento, havia sido a express\u00e3o eter\u00adna, vis\u00edvel da presen\u00e7a de Deus: O <strong><em>Templo<\/em><\/strong>, morada <em>perp\u00e9tua<\/em> de Deus (1Rs 9,3), foi incendiado (2Rs 25,9). A <strong><em>Monarquia<\/em><\/strong><em>,<\/em> fundada para durar sempre (2Sam 7,16), j\u00e1 n\u00e3o existia (2Rs 25,7). A <strong><em>Terra<\/em><\/strong>, cuja posse tinha sido garantida para <em>sempre<\/em> (Gn 13,15), passou a ser a propriedade dos inimigos, (2Rs 25,12; Jr 39,10; 52,16). Os sinais (sacramentos, imagens) tradicionais da presen\u00e7a de Deus foram destru\u00eddos como copo de vidro que se quebra em mil peda\u00e7os (Jr 18,1-10). Deus parecia estar longe e j\u00e1 n\u00e3o lhes mostrava mais o seu rosto (Sl 10,1; Sl 12,2-4; 27,9; 30,8; 69,18; 80,4). De certa forma foi uma total \u201cseculariza\u00e7\u00e3o\u201d da vida.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>A terr\u00edvel imagem de Deus que falsificou a leitura do primeiro Livro de Deus. <\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Muita gente colocava a culpa em Deus. A falsa imagem do Deus-quebra-galho os impedia de opinar corretamente sobre a situa\u00e7\u00e3o. Eles eram incapazes de descobrir a mentira que os impedia de enxergar (cf Is 44,20; Jr 6,15). A terceira Lamenta\u00e7\u00e3o retrata bem o estado de desespero do povo. A terr\u00edvel imagem de Deus que transparece nas entrelinhas deste lamento \u00e9 a de um deus vingativo que s\u00f3 quer castigar:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>\u201cEu sou o homem que conheceu a dor de perto, sob o chicote da sua ira. Ele (Deus) me conduziu e me fez andar nas trevas e n\u00e3o na luz. Ele volve e revolve contra mim a sua m\u00e3o, o dia todo. Consumiu minha carne e minha pele, e quebrou os meus ossos. Ao meu redor, armou um cerco de veneno e amargura, me fez morar nas trevas como os defuntos, enterrados h\u00e1 muito tempo. Cercou-me qual muro sem sa\u00edda, e acorrentado, me prendeu. Clamar ou gritar de nada vale, ele est\u00e1 surdo \u00e0 minha s\u00faplica. Com pedra cercou a minha estrada, distorceu o meu caminho. Ele foi para mim como urso de tocaia, um le\u00e3o de emboscada. Desviou-me do caminho, me despeda\u00e7ou e deixou inerte. Disparou seu arco, fez de mim o alvo de suas flechas. Em meus rins ele cravou suas flechas, tiradas de sua aljava. Eu me tornei uma piada para todos os povos, a goza\u00e7\u00e3o de todo o dia. Encheu meu est\u00f4mago de amargura, embriagou-me de fel. Fez-me dar com os dentes numa pedra, estendeu-me na poeira. Fugiu a paz do meu esp\u00edrito, a felicidade acabou. Eu digo: &#8220;Acabaram minhas for\u00e7as e minha esperan\u00e7a em Jav\u00e9&#8221;. (Lam 3,1-18).<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Quem tem esta imagem de Deus na cabe\u00e7a e no cora\u00e7\u00e3o, sente-se rejeitado para sempre. Se ele for esperar por Deus na rodovi\u00e1ria da vida com esta foto de Deus na m\u00e3o, nunca ir\u00e1 encontr\u00e1-lo. Pois este Deus n\u00e3o existe! Era a falsa imagem de Deus que se instalou na cabe\u00e7a do povo, fruto da trag\u00e9dia do cativeiro e dos 400 anos de desvio da ideologia da monarquia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>As quatro tend\u00eancias da reconstru\u00e7\u00e3o <\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A desintegra\u00e7\u00e3o das institui\u00e7\u00f5es (templo, monarquia e posse da terra) e a dureza do cativeiro levaram a uma busca sem precedentes para reconstruir em novas bases sua identidade como povo de Deus. Apareceram quatro tend\u00eancias misturadas entre si, mais ou menos contempor\u00e2neas:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">a) <em>A maioria silenciosa<\/em>, que adotou os deuses do imp\u00e9rio. Por isso, o que mais transparece nos escritos daquela \u00e9poca \u00e9 a den\u00fancia do perigo dos \u00eddolos (Is 44,9-20; Bar 6,1-72; Sl 115,4-8).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">b) <em>O grupo de Zorobabel e Josu\u00e9<\/em>, que queria restaurar o passado. Eles consideravam a \u00e9poca dos Reis como modelo. Foram eles que logo voltaram para a Palestina, quando Ciro permitiu o retorno (Esd 2,2; 3,2).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">c) <em>Os disc\u00edpulos de Isa\u00edas<\/em>, que reliam o passado em busca de uma luz para descobrir a presen\u00e7a de Deus naquela terr\u00edvel aus\u00eancia do cativeiro (cf. Is 40,6-11.27-31; 41,8-14; 43,1-5; etc) e se perguntavam: \u201cO que ser\u00e1 que Deus nos quer ensinar por meio desta trag\u00e9dia?\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">d) <em>O grupo de Neemias e Esdras<\/em>, que achava que se devia aceitar o dom\u00ednio do rei estrangeiro, colaborar com ele (Br 2,21.24; Jr 27,6-8.12.17; 42,10-11) e, ao mesmo tempo, manter a consci\u00eancia de ser o povo eleito de Deus, separado dos outros povos. Por isso, insistiam na observ\u00e2ncia da lei de Deus (Esd 7,26; Ne 8,1-6; 10,29-30) e na pureza da ra\u00e7a (Esd 9,1-2).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O grupo da maioria silenciosa desapareceu. O grupo da restaura\u00e7\u00e3o n\u00e3o conseguiu realizar o seu intento. O grupo de Neemias e Esdras tornou-se hegem\u00f4nico. Os disc\u00edpulos de Isa\u00edas sobreviveram como um movimento sem poder, animando o povo na f\u00e9 de que Deus continuava presente no meio deles. \u00c9 deste \u00faltimo grupo que vem as reflex\u00f5es que seguem.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>O olhar dos profetas sobre a cria\u00e7\u00e3o de Deus<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Jeremias: um novo olhar sobre a presen\u00e7a de Deus na cria\u00e7\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Diante daquele desespero generalizado causado pela destrui\u00e7\u00e3o do Templo por Nabucodonosor, Jeremias dizia: \u201cde tudo isto, temos muito motivo de esperan\u00e7a!\u201d\u00a0 -\u201cQual?\u201d\u00a0 &#8211; \u201cO sol vai nascer amanh\u00e3!\u201d Jeremias redescobriu a presen\u00e7a de Deus na natureza. Nabucodonosor pode ser forte, mas ele n\u00e3o pode im\u00adpedir o nascimento do sol! A certeza do nascer do sol n\u00e3o depende dos poderes deste mundo, nem depende da nossa observ\u00e2ncia da lei, mas est\u00e1 impressa na l\u00f3gica da cria\u00e7\u00e3o. \u00c9 pura gratuidade, express\u00e3o do bem-querer do Criador. \u00c9 promessa que n\u00e3o falha. N\u00f3s podemos romper com Deus, mas Deus n\u00e3o rompe conosco, pois cada manh\u00e3, atrav\u00e9s da seq\u00fc\u00eancia dos dias e das noites, ele nos fala ao cora\u00e7\u00e3o e diz: \u201cComo \u00e9 certo que eu criei o dia e a noite e estabeleci as leis do c\u00e9u e da terra, tamb\u00e9m \u00e9 certo que n\u00e3o rejeitarei a descend\u00eancia de Jav\u00e9 e de meu servo Davi. Quando essas leis falharem diante de mim &#8211; or\u00e1culo de Jav\u00e9 &#8211; ent\u00e3o o povo de Israel tamb\u00e9m deixar\u00e1 de ser diante de mim uma na\u00e7\u00e3o para sempre\u201d (Jr 33,25-26; 31,36).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Esta nova maneira de olhar a natureza modificou os olhos e abriu um novo horizonte. A certeza da presen\u00e7a amorosa de Deus para al\u00e9m do poder de Nabucodonosor e do fracasso da observ\u00e2ncia provocou uma busca renovada dos sinais de Deus na natureza que nos envolve: as chuvas, as plantas, as fases da lua, o sol, as esta\u00e7\u00f5es do ano, as sementes, os animais, etc. Tudo tornou-se sinal da presen\u00e7a gratuita de Deus. Com esta luz nos olhos come\u00e7am a reler a hist\u00f3ria e a Natureza. (cf. 2\u00aa Oficina).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O resultado desta nova maneira de olhar a natureza vai aparecer nas atitudes dos disc\u00edpulos de Isa\u00edas e na releitura das historias do profeta Elias. Vai transparecer nas atitudes de Jesus e dos primeiros crist\u00e3os frente \u00e0 natureza (2\u00aa Oficina), nos Salmos (3\u00aa Oficina) e nos M\u00edsticos e M\u00edsticas do Carmelo (4\u00aa Oficina).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Os Disc\u00edpulos e disc\u00edpulas de Isa\u00edas: o Deus da fam\u00edlia, perto de n\u00f3s, na comunidade<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os disc\u00edpulos e as disc\u00edpulas de Isa\u00edas estavam junto do povo no cativeiro. A desintegra\u00e7\u00e3o dos valores da \u00e9poca da monarquia criou uma conjuntura totalmente nova, diferente. No cativeiro, o \u00fanico espa\u00e7o de uma relativa autonomia e liberdade que ainda sobrava para o povo era o espa\u00e7o familiar: o pai, a m\u00e3e, o marido, a esposa, um irm\u00e3o ou irm\u00e3, o mundo pequeno da fam\u00edlia, a \u201ccasa\u201d. Os valores que antes faziam parte da vida j\u00e1 n\u00e3o existiam: a posse da terra, o templo, as peregrina\u00e7\u00f5es, o culto, o sacrif\u00edcio, o sacerd\u00f3cio, a monarquia, o rei. Nada disse tinha sobrado. Por isso, eles se perguntavam: \u201cO que ser\u00e1 que Deus nos quer ensinar por meio desta trag\u00e9dia?\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ora, foi neste pequeno espa\u00e7o da fam\u00edlia, da comunidade, da <em>\u201ccasa\u201d<\/em>, que renasceu nos disc\u00edpulos de Isa\u00edas uma nova experi\u00eancia de Deus. A imagem de Deus, transmitida por eles, reflete este ambiente familiar da <strong><em>Casa<\/em><\/strong>. Deus \u00e9 <strong><em>Pai<\/em> <\/strong>(Is 63,16; 64,7), \u00e9 <strong><em>M\u00e3e<\/em><\/strong> (Is 46,3; 49,15-16; 66,12-13), <strong><em>Marido<\/em><\/strong> (Is 54,4-5; 62,5), como parente pr\u00f3ximo (<em>go\u00eal<\/em> ou <strong><em>irm\u00e3o mais velho<\/em><\/strong>) (Is 41,14; 43,1). Jav\u00e9, o Deus que antes estava ligado ao Templo, ao culto oficial, ao sacerd\u00f3cio, ao clero, \u00e0 monarquia, agora est\u00e1 perto deles, \u201cem casa\u201d; casa pequena, quebrada e, humanamente falando, sem futuro, mas <strong><em><span style=\"text-decoration: underline;\">Casa<\/span>,<\/em><\/strong> e n\u00e3o <em>Templo<\/em>. N\u00e3o insistiram nas imagens religiosas tradicionais, mas usaram imagens novas tiradas da vida familiar e comunit\u00e1ria. Eles <em>humanizaram a imagem de Deus e sacralizaram a vida, a fam\u00edlia, a pequena comunidade, como o espa\u00e7o do reencontro com Deus<\/em>. E redescobriram que a miss\u00e3o do povo de Deus n\u00e3o consiste em ser chefe e senhor dos povos, mas sim em ser servo e disc\u00edpulo (Is 42,1-9; 49,1-6; 50,4-9; 52,13-53,12).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os escritos dos disc\u00edpulos e disc\u00edpulas de Isa\u00edas foram conservados nos cap\u00edtulos 40 a 66 do livro do profeta Isa\u00edas. Eles formam um ponto alto na hist\u00f3ria do povo do Antigo Testamento. Foi na medita\u00e7\u00e3o destes escritos de Isa\u00edas que Jesus achou as palavras para expressar sua miss\u00e3o (Lc 4,18-19 e Is 61,1-2).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>A releitura da hist\u00f3ria de Elias: a brisa leve (1 Reis 19,1-21)<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O profeta Elias viveu no s\u00e9culo IX aC, no tempo do rei Acab e da rainha Jezabel. Inicialmente, as hist\u00f3rias de Elias eram transmitidas oralmente nas reuni\u00f5es do povo. Foi no s\u00e9culo VI, \u00e9poca do cativeiro, sob o impulso do novo olhar recebido de Jeremias e dos disc\u00edpulos de Isa\u00edas, que o povo come\u00e7ou a reler e a redigir estas tradi\u00e7\u00f5es orais sobre o profeta Elias.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Recordar e reler as hist\u00f3rias do profeta Elias era como olhar no espelho, reconhecer-se a si mesmo e descobrir o engano da fotografia antiquada que os impedia de perceber a presen\u00e7a de Deus no cativeiro. O estado de depress\u00e3o em que Elias ficou ao fugir diante da amea\u00e7a da rainha Jezabel era um s\u00edmbolo da situa\u00e7\u00e3o do povo no cativeiro e tamb\u00e9m de muitos de n\u00f3s hoje:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>\u201cElias sentou-se debaixo de uma \u00e1rvore e desejou a morte, dizendo: &#8220;Chega, Jav\u00e9! Tira a minha vida, porque n\u00e3o sou melhor que meus pais&#8221;. Deitou-se debaixo da \u00e1rvore e dormiu. Ent\u00e3o um anjo o tocou e lhe disse: &#8220;Levante-se e coma&#8221;. Elias abriu os olhos e viu bem perto da cabe\u00e7a um p\u00e3o assado sobre pedras quentes, e uma jarra de \u00e1gua. Comeu, bebeu e deitou-se outra vez\u201d. <\/em>(1Rs 19,2-6)<em> <\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Elias s\u00f3 queria comer, beber e dormir. Como muitos dos exilados na Babil\u00f4nia, como muitos de hoje, ele tinha perdido o sentido da vida. N\u00e3o \u00e9 que tivesse perdido a f\u00e9, mas, como n\u00f3s hoje diante das novidades da ci\u00eancia, ele j\u00e1 n\u00e3o sabia como enfrentar a realidade nova com a f\u00e9 antiga. Estava meio perdido.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O anjo voltou uma segunda vez e, finalmente, Elias despertou, reencontrou a for\u00e7a e caminhou, 40 dias e 40 noites, at\u00e9 chegar ao Monte Horeb (1Rs 19,4-8), onde, s\u00e9culos antes, naquele mesmo lugar, havia nascido o povo de Deus (cf. Ex 19,1-8). Elias voltou \u00e0s ra\u00edzes, \u00e0s origens do povo! Era esta a caminhada que o povo do cativeiro devia fazer: voltar \u00e0s ra\u00edzes e refazer a hist\u00f3ria para poder reencontrar Deus na vida.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No Monte Horeb, Deus o interpela: <em>\u201cElias, que fazes aqui?\u201d<\/em> Ele responde: <em>\u201cEu me consumo de zelo pela causa do Senhor, pois os filhos de Israel abandonaram a alian\u00e7a, derru\u00adbaram os altares e mataram os profetas. Fiquei s\u00f3 eu e at\u00e9 a mim eles querem matar!\u201d<\/em> (1Rs 19,10.14). Existe uma contradi\u00e7\u00e3o entre o discurso e a pr\u00e1tica. Conforme o discurso Elias pensa ser o \u00fanico que sobrou para defender a Deus; mas na pr\u00e1tica havia sete mil que n\u00e3o tinham dobrado o joelho diante de Baal (1Rs 19,18). Conforme o discurso, Elias est\u00e1 cheio de zelo; mas a pr\u00e1tica mostra um homem medroso que foge (1Rs 19,3). O olhar de Elias estava perturbado por algum defeito que o impedia de avaliar a situa\u00e7\u00e3o com objetividade. Ele n\u00e3o conseguia perceber a presen\u00e7a de Deus naquela situa\u00e7\u00e3o em que se encontrava. O povo n\u00e3o conseguia perceber a presen\u00e7a de Deus no cativeiro da Babil\u00f4nia. Como Elias, n\u00f3s hoje, muitas vezes, n\u00e3o percebemos a presen\u00e7a de Deus, nem na natureza, nem na vida secularizada.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>A surpresa do reencontro com Deus<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Elias recebe a ordem: <em>\u201cSaia e fique no alto da montanha, diante de Jav\u00e9, pois Jav\u00e9 vai passar!<\/em>\u201d (1Rs 19,11). Elias sai da gruta e se prepara para o encontro com Deus. Ele est\u00e1 na rodovi\u00e1ria da vida. O \u00f4nibus de Deus est\u00e1 chegando. O pessoal do cativeiro se prepara para encontrar a resposta. Fotografia na m\u00e3o para conferir. N\u00f3s tamb\u00e9m! Momento solene!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No passado, naquela mesma Montanha, Deus manifestara sua presen\u00e7a no furac\u00e3o, no terremoto e no fogo (Ex 19,16). Estes sinais tradicionais da presen\u00e7a de Deus eram os crit\u00e9rios que orientavam Elias na sua busca. Esta era a foto que ele tinha na m\u00e3o. Mas acontece o inesperado. Parece at\u00e9 um refr\u00e3o que chama a aten\u00e7\u00e3o: <em>\u201cJav\u00e9 n\u00e3o estava no furac\u00e3o!\u201d \u2013 \u201cJav\u00e9 n\u00e3o estava no terremoto!\u201d \u2013 \u201cJav\u00e9 n\u00e3o estava no fogo!\u201d<\/em> (1Rs 19,11-12) Os sinais tradicionais da presen\u00e7a de Deus (templo, rei e posse da terra) eram l\u00e2mpadas apagadas. Bonitas para ver, mas sem luz! Deixaram Elias no escuro! A imagem que ele tinha de Deus quebrou em mil peda\u00e7os. \u00c9 o sil\u00eancio de Deus! A Noite Escura! Elias vivia no passado! Deus j\u00e1 n\u00e3o era como ele, Elias, e tantos outros no cativeiro o imaginavam e desejavam. As tr\u00eas fotografias de Deus que o orientavam na busca n\u00e3o deram certo. Eram como as fotografias de 40 anos atr\u00e1s! Parecia a desintegra\u00e7\u00e3o do mundo de Elias: espelho da desintegra\u00e7\u00e3o da vida do povo no cativeiro e da vida de muitos hoje.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em vez do furac\u00e3o, do terremoto e do fogo, apareceu \u201co murm\u00fario de uma brisa leve\u201d (1Rs 19,12). Em vez da jovem tia da foto de quarenta anos atr\u00e1s, apareceu uma senhora de idade! Jo\u00e3o negou a senhora e ficou com a jovem da foto. Elias fez o contr\u00e1rio: cobriu o rosto com o manto (1Rs 19,13). Sinal de que intuiu a presen\u00e7a de Deus. Negou a foto antiquada e ficou com a brisa leve. Converteu-se!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na l\u00edngua hebraica, se diz literalmente: \u201cvoz de calmaria suave\u201d, (q\u00f4l demam\u00e1h daqq\u00e1h). As tradu\u00e7\u00f5es costumam dizer: \u201cMurm\u00fario de uma brisa suave\u201d A palavra hebraica, usada para indicar a brisa suave, vem da raiz <strong>DMH,<\/strong> que significa <em>parar<\/em>, <em>ficar im\u00f3vel<\/em>, <em>emudecer<\/em>. O \u201cmurm\u00fario de uma <strong>brisa suave\u201d<\/strong>, que veio depois do furac\u00e3o, terremoto e fogo, indica uma experi\u00eancia, que, como um choque inesperado, faz a pessoa ficar calada, cria nela um vazio e assim a disp\u00f5e para escutar. \u00c9 um pux\u00e3o de orelha que desperta, quebra a ilus\u00e3o e faz a pessoa colocar o p\u00e9 no ch\u00e3o. Faz cair a ficha! Ag\u00f3\u00f3\u00f3ra entendi!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">De repente, a situa\u00e7\u00e3o de derrota, de morte e de seculariza\u00e7\u00e3o do cativeiro \u00e9 percebida por Elias como sendo o momento e o lugar onde Deus o atinge. A <strong>brisa suave<\/strong> de Deus \u00e9 o cativeiro! A escurid\u00e3o iluminou-se por dentro e a noite ficou mais clara que o dia (Sl 139,12). Deus se fez presente na aus\u00eancia para al\u00e9m de todas as representa\u00e7\u00f5es e imagens! Escurid\u00e3o luminosa! N\u00e3o \u00e9 a luz no fim do t\u00fanel, mas sim a luz diferente que j\u00e1 existia na escurid\u00e3o do pr\u00f3prio t\u00fanel e que Elias n\u00e3o enxergava.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Hoje acontece a mesma coisa. Quem olha o mundo de hoje com os olhos do passado, dir\u00e1: \u201cEst\u00e1 tudo errado! As igrejas est\u00e3o ficando cada vez mais vazias. S\u00f3 ficaram os velhos! A juventude est\u00e1 perdida!\u201d. Mas quem \u00e9 que est\u00e1 nas passeatas em defesa do meio ambiente, em protestos contra a corrup\u00e7\u00e3o? Quem luta pela justi\u00e7a? Fa\u00e7a a ficha cair! Lembre a frase de Jesus: Era eu! Era eu! Era eu!\u00a0 (Mt 25, 31-46)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A experi\u00eancia de Deus na <strong>Brisa Leve<\/strong> produz uma mudan\u00e7a radical. D\u00e1 olhos novos. Elias descobre que n\u00e3o \u00e9 ele, Elias, que defende a Deus, mas \u00e9 Deus quem defende a Elias. <em>\u00c9 a sua convers\u00e3o <\/em>e<em> liberta\u00e7\u00e3o! <\/em>Reencontrando-se com Deus, encontrou-se consigo mesmo e com a sua miss\u00e3o. Descobriu sua <strong>voca\u00e7\u00e3o<\/strong> l\u00e1, onde pensava que Deus n\u00e3o tivesse nada a dizer-lhe! Imediatamente, ele parte para cumprir as ordens de Deus. Uma delas \u00e9 ungir Eliseu como profeta em seu lugar (1Rs 19,16). Renasce a profecia! A luta pela justi\u00e7a renasce da experi\u00eancia da gratuidade do amor de Deus que acolhe o pobre Elias.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong> <\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><span style=\"text-decoration: underline;\"> <\/span><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><span style=\"text-decoration: underline;\">NOVO TESTAMENTO<\/span><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>O olhar de Jesus sobre a Cria\u00e7\u00e3o de Deus<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>O olhar dos crist\u00e3os sobre Jesus como centro do Cosmos<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os disc\u00edpulos conviveram tr\u00eas anos com Jesus. Tr\u00eas anos \u00e9 muito pouco. Mas foi uma experi\u00eancia t\u00e3o forte, que os marcou pelo resto da vida. Foram necess\u00e1rios anos de reflex\u00e3o para eles poderem vivenciar e assimilar toda a riqueza daqueles tr\u00eas anos com Jesus. Este longo processo de reflex\u00e3o levou-os a aprofundar o mist\u00e9rio divino da pessoa de Jesus, o seu jeito de colocar-se diante da Cria\u00e7\u00e3o de Deus e a sua posi\u00e7\u00e3o como centro da cria\u00e7\u00e3o de Deus.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A fonte, onde os primeiros crist\u00e3os buscavam a luz para as suas reflex\u00f5es eram (1) a lembran\u00e7a dos gestos e palavras do pr\u00f3prio Jesus, (2) a experi\u00eancia da vida em comunidade, marcada pela presen\u00e7a do Esp\u00edrito de Jesus, e (3) a B\u00edblia, o Antigo Testamento.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nesta oficina vamos tentar fazer o mesmo processo de reflex\u00e3o dos primeiros crist\u00e3os. Vamos ver de perto duas coisas: 1) O olhar do pr\u00f3prio Jesus sobre a Cria\u00e7\u00e3o de Deus e as ra\u00edzes deste olhar que se espalham por todo o Antigo Testamento. 2) O olhar dos primeiros crist\u00e3os sobre Jesus como centro do Cosmos e as ra\u00edzes deste olhar que tamb\u00e9m se encontram no Antigo Testamento.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>1. O olhar de Jesus sobre a Cria\u00e7\u00e3o de Deus<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Alguns textos do evangelho que revelam o olhar de Jesus sobre a natureza<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Vou lembrar dois textos do evangelho de Mateus. Tente sentir neles o jeito de Jesus se relacionar com a natureza, a li\u00e7\u00e3o que ele tirava da observa\u00e7\u00e3o das criaturas e como a natureza lhe falava de Deus e da vida. Tente encontrar outros textos que revelam o olhar de Jesus sobre a cria\u00e7\u00e3o de Deus.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Mateus 5,43-48: <\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><span style=\"text-decoration: underline;\">43<\/span><\/strong> &#8220;Voc\u00eas ouviram o que foi dito: &#8216;Ame o seu pr\u00f3ximo, e odeie o seu inimigo! &#8216; <strong><span style=\"text-decoration: underline;\">44<\/span><\/strong> Eu, por\u00e9m, lhes digo: amem os seus inimigos, e rezem por aqueles que perseguem voc\u00eas! <strong><span style=\"text-decoration: underline;\">45<\/span><\/strong> Assim voc\u00eas se tornar\u00e3o filhos do Pai que est\u00e1 no c\u00e9u, porque ele faz o sol nascer sobre maus e bons, e a chuva cair sobre justos e injustos. <strong><span style=\"text-decoration: underline;\">46<\/span><\/strong> Pois, se voc\u00eas amam somente aqueles que os amam, que recompensa voc\u00eas ter\u00e3o? Os cobradores de impostos n\u00e3o fazem a mesma coisa? <strong><span style=\"text-decoration: underline;\">47<\/span><\/strong> E se voc\u00eas cumprimentam somente seus irm\u00e3os, o que \u00e9 que voc\u00eas fazem de extraordin\u00e1rio? Os pag\u00e3os n\u00e3o fazem a mesma coisa? <strong><span style=\"text-decoration: underline;\">48<\/span><\/strong> Portanto, sejam perfeitos como \u00e9 perfeito o Pai de voc\u00eas que est\u00e1 no c\u00e9u.&#8221;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Mateus 6,25-34: <\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><span style=\"text-decoration: underline;\">25<\/span><\/strong> &#8220;Por isso \u00e9 que eu lhes digo: n\u00e3o fiquem preocupados com a vida, com o que comer; nem com o corpo, com o que vestir. Afinal, a vida n\u00e3o vale mais do que a comida? E o corpo n\u00e3o vale mais do que a roupa?\u00a0 <strong><span style=\"text-decoration: underline;\">26<\/span><\/strong> Olhem os p\u00e1ssaros do c\u00e9u: eles n\u00e3o semeiam, n\u00e3o colhem, nem ajuntam em armaz\u00e9ns. No entanto, o Pai que est\u00e1 no c\u00e9u os alimenta. Ser\u00e1 que voc\u00eas n\u00e3o valem mais do que os p\u00e1ssaros? <strong><span style=\"text-decoration: underline;\">27<\/span><\/strong> Quem de voc\u00eas pode crescer um s\u00f3 cent\u00edmetro, \u00e0 custa de se preocupar com isso? <strong><span style=\"text-decoration: underline;\">28<\/span><\/strong> E por que voc\u00eas ficam preocupados com a roupa? Olhem como crescem os l\u00edrios do campo: eles n\u00e3o trabalham nem fiam. <strong><span style=\"text-decoration: underline;\">29<\/span><\/strong> Eu, por\u00e9m, lhes digo: nem o rei Salom\u00e3o, em toda a sua gl\u00f3ria, jamais se vestiu como um deles.\u00a0 <strong><span style=\"text-decoration: underline;\">30<\/span><\/strong> Ora, se Deus assim veste a erva do campo, que hoje existe e amanh\u00e3 \u00e9 queimada no forno, muito mais ele far\u00e1 por voc\u00eas, gente de pouca f\u00e9! <strong><span style=\"text-decoration: underline;\">31<\/span><\/strong> Portanto, n\u00e3o fiquem preocupados, dizendo: O que vamos comer? O que vamos beber? O que vamos vestir? <strong><span style=\"text-decoration: underline;\">32<\/span><\/strong> Os pag\u00e3os \u00e9 que ficam procurando essas coisas. O Pai de voc\u00eas, que est\u00e1 no c\u00e9u, sabe que voc\u00eas precisam de tudo isso.\u00a0\u00a0 <strong><span style=\"text-decoration: underline;\">33<\/span><\/strong> Pelo contr\u00e1rio, em primeiro lugar busquem o Reino de Deus e a sua justi\u00e7a, e Deus dar\u00e1 a voc\u00eas, em acr\u00e9scimo, todas essas coisas.\u00a0 <strong><span style=\"text-decoration: underline;\">34<\/span><\/strong> Portanto, n\u00e3o se preocupem com o dia de amanh\u00e3, pois o dia de amanh\u00e3 ter\u00e1 suas preocupa\u00e7\u00f5es. Basta a cada dia sua pr\u00f3pria dificuldade\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Reflex\u00e3o:<\/strong> O que Jesus, olhando a natureza, aprendeu sobre Deus? Destaque tr\u00eas caracter\u00edsticas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>A origem do olhar de Jesus sobre a Cria\u00e7\u00e3o de Deus<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O olhar de Jesus sobre a Cria\u00e7\u00e3o de Deus tem suas ra\u00edzes na hist\u00f3ria do povo de Deus, descrita no Antigo Testamento, sobretudo na atitude dos profetas do cativeiro da Babil\u00f4nia. A partir de Jeremias nasceu toda uma maneira nova de olhar a cria\u00e7\u00e3o de Deus que culminou nas atitudes de Jesus frente aos fen\u00f4menos da natureza.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>A nova maneira de Jeremias olhar a natureza<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Diante do desespero generalizado do cativeiro, Jeremias dizia: \u201cApesar de toda essa desgra\u00e7a, temos muito motivo de esperan\u00e7a!\u201d\u00a0 -\u201cQual?\u201d\u00a0 &#8211; \u201cO sol vai nascer amanh\u00e3!\u201d Jeremias descobre a presen\u00e7a de Deus na natureza. Nabucodonosor pode ser forte, mas ele n\u00e3o pode impedir o nascimento do sol! A certeza do nascer do sol n\u00e3o depende dos poderes deste mundo, nem da nossa observ\u00e2ncia da lei, mas est\u00e1 impressa na l\u00f3gica da cria\u00e7\u00e3o. \u00c9 pura gratuidade, express\u00e3o do bem-querer do Criador. \u00c9 promessa que n\u00e3o falha. N\u00f3s podemos romper com Deus, mas Deus n\u00e3o rompe conosco, pois cada manh\u00e3, atrav\u00e9s da seq\u00fc\u00eancia dos dias e das noites, ele nos fala ao cora\u00e7\u00e3o e diz: \u201cComo \u00e9 certo que eu criei o dia e a noite e estabeleci as leis do c\u00e9u e da terra, tamb\u00e9m \u00e9 certo que n\u00e3o rejeitarei a descend\u00eancia de Jav\u00e9 e de meu servo Davi. Quando essas leis falharem diante de mim &#8211; or\u00e1culo de Jav\u00e9 &#8211; ent\u00e3o o povo de Israel tamb\u00e9m deixar\u00e1 de ser diante de mim uma na\u00e7\u00e3o para sempre\u201d (Jr 33,25-26; 31,36).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Esta nova maneira de olhar a natureza modificou os olhos e abriu um novo horizonte. A certeza da presen\u00e7a amorosa de Deus provocou uma busca renovada dos sinais de Deus na natureza: chuvas, plantas, as fases da lua, o sol, as esta\u00e7\u00f5es do ano, as sementes, etc. Tudo tornou-se sinal da presen\u00e7a gratuita de Deus.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>As Dez Palavras da Alian\u00e7a e as Dez Palavras da Cria\u00e7\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Com esta luz nos olhos, o povo, l\u00e1 na desgra\u00e7a do cativeiro, come\u00e7a a observar a Natureza. Ao lado das <em>Dez Palavras<\/em> (Dez Mandamentos) que est\u00e3o na origem da Alian\u00e7a, eles come\u00e7am a dar aten\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m \u00e0s Palavras Divinas que est\u00e3o na origem das criaturas. O autor que fez a reda\u00e7\u00e3o da narrativa da Cria\u00e7\u00e3o (Gn 1,1-2,4\u00aa) teve a preocupa\u00e7\u00e3o em descrever toda a a\u00e7\u00e3o criadora de Deus por meio de exatamente <em>Dez Palavras<\/em>. Ele repete dez vezes a express\u00e3o <strong>\u201ce<em> <\/em>Deus disse\u201d<\/strong>:<\/p>\n<table style=\"width: 612px; text-align: justify;\" border=\"1\" cellspacing=\"0\" cellpadding=\"0\">\n<tbody>\n<tr>\n<td width=\"451\" valign=\"top\">\n<p>1. Gn 1,3\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 E Deus disse: haja luz<\/p>\n<p>2. Gn 1,6\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 E Deus disse: haja firmamento<\/p>\n<p>3. Gn 1,9\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 E Deus disse: as \u00e1guas se juntem e   apare\u00e7a o continente<\/p>\n<p>4. Gn 1,11\u00a0\u00a0 E Deus disse: a terra produz verde<\/p>\n<p>5. Gn 1,14\u00a0\u00a0 E Deus disse: haja luzeiros<\/p>\n<p>6. Gn 1,20\u00a0\u00a0 E Deus disse: as \u00e1guas produzam seres vivos<\/p>\n<p>7. Gn 1,24\u00a0\u00a0 E Deus disse: que a terra produz seres   vivos<\/p>\n<p>8. Gn 1,26\u00a0\u00a0 E Deus disse: fa\u00e7amos o ser humano<\/p>\n<p>9. Gn 1,28\u00a0\u00a0 E Deus disse: sejam fecundos<\/p>\n<p>10. Gn 1,29 E Deus disse: dou as ervas para voc\u00eas comer.<\/p>\n<\/td>\n<td width=\"161\" valign=\"top\">\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><strong>E   Deus disse<\/strong><\/p>\n<p>~yhi\u00aal{a\/ rm,aYO\u00e6w:<\/p>\n<\/td>\n<\/tr>\n<\/tbody>\n<\/table>\n<p style=\"text-align: justify;\">A Lei de Deus entregue ao povo no Monte Sinai tinha no seu centro as <strong><em>Dez Palavras<\/em><\/strong> divinas da alian\u00e7a (Ex 20,1-17; Dt 5,6-22). Da mesma maneira, a narrativa da Cria\u00e7\u00e3o tem no seu centro <strong><em>Dez Palavras<\/em><\/strong> divinas. Ao lado da Lei da Alian\u00e7a, descobrem a Lei da Cria\u00e7\u00e3o. Como fez para o seu povo, Deus faz para as criaturas: fixou para elas<em> \u201cuma lei que jamais passar\u00e1\u201d<\/em> (Sl 148,6). Dez vezes Deus falou e dez vezes as coisas come\u00e7aram a existir. Falou: <em>Luz!, <\/em>e a luz come\u00e7ou a existir. Falou: <em>Terra!,<\/em> e a terra apareceu. Gritou os nomes das estrelas, e elas come\u00e7aram o seu percurso no firmamento. <em>\u201cEle diz e a coisa acontece, ele ordena e ela se afirma\u201d<\/em> (Sl 33,9). <em>\u201cDeu-lhes uma lei que jamais passar\u00e1\u201d<\/em> (Sl 148,6) Pela for\u00e7a da Palavra o Criador enfrentou a desordem do caos e fez nascer a harmonia do cosmos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A harmonia do Cosmos que enfrenta e vence a amea\u00e7a do caos \u00e9 fruto da obedi\u00eancia das criaturas aos Dez Mandamentos da Cria\u00e7\u00e3o. O povo n\u00e3o tinha observado a Lei da Alian\u00e7a. Por isso veio a desordem do cativeiro. As criaturas, ao contr\u00e1rio, sempre observam a Lei da Cria\u00e7\u00e3o. Por isso existe a harmonia do cosmos. No <em>Pai-Nosso<\/em> Jesus dir\u00e1: \u201cSeja feita a vossa vontade na terra assim como \u00e9 feita no c\u00e9u\u201d. Jesus pede que n\u00f3s possamos observar a Lei da Alian\u00e7a com a mesma perfei\u00e7\u00e3o com que o sol e as estrelas do c\u00e9u observam a Lei da Cria\u00e7\u00e3o. Na harmonia do universo descobrimos como realizar nossa miss\u00e3o. O Dec\u00e1logo da Cria\u00e7\u00e3o descreve a a\u00e7\u00e3o de Deus em nosso favor, o Dec\u00e1logo da Alian\u00e7a descreve como deve ser a resposta do ser homem.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A total gratuidade da presen\u00e7a universal de Deus Criador encheu de esperan\u00e7a o povo desanimado do cativeiro e lhe deu coragem para recome\u00e7ar com garra a busca da justi\u00e7a, a observ\u00e2ncia da lei de Deus. Agora, eles observam a lei da alian\u00e7a, n\u00e3o mais para poder <em>merecer<\/em> a salva\u00e7\u00e3o, e sim para poder <em>agradecer<\/em> e retribuir a imensa bondade com que Deus os amou primeiro e cujo amor n\u00e3o depende da observ\u00e2ncia da lei. Eles sabem que nada nem mesmo o fracasso pode separ\u00e1-los do amor de Deus (Is 40,1-2\u00aa; 41,9-10.13-14; 43,1-5; 44,2; 46,3-4; 49,13-16; 54,7-8; etc; cf. Rom 8,35-39)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A f\u00e9 no Deus Criador abriu um horizonte, cujo alcance para a vida s\u00f3 se compara com o horizonte que a ressurrei\u00e7\u00e3o de Jesus abriu para os disc\u00edpulos confrontados com a barreira intranspon\u00edvel da morte. A f\u00e9 na gratuidade da presen\u00e7a universal de Deus torna-se a infra-estrutura da observ\u00e2ncia dos dez mandamentos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>O olhar dos crist\u00e3os sobre Jesus como centro do Cosmos<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Textos que revelam este olhar dos primeiros crist\u00e3os<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Seguem quatro textos sobre (1). como os primeiros crist\u00e3os olhavam para a natureza e (2) como chegaram a ver em Jesus o centro do cosmos e o primog\u00eanito de todas as criaturas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Romanos 8,18-23:<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201c<strong><span style=\"text-decoration: underline;\">18<\/span><\/strong> Penso que os sofrimentos do momento presente n\u00e3o se comparam com a gl\u00f3ria futura que dever\u00e1 ser revelada em n\u00f3s. <strong><span style=\"text-decoration: underline;\">19<\/span><\/strong> A pr\u00f3pria cria\u00e7\u00e3o espera com impaci\u00eancia a manifesta\u00e7\u00e3o dos filhos de Deus. 20 Entregue ao poder do nada &#8211; n\u00e3o por sua pr\u00f3pria vontade, mas por vontade daquele que a submeteu -, a cria\u00e7\u00e3o abriga a esperan\u00e7a, <strong><span style=\"text-decoration: underline;\">21<\/span><\/strong> pois ela tamb\u00e9m ser\u00e1 liberta da escravid\u00e3o da corrup\u00e7\u00e3o, para participar da liberdade e da gl\u00f3ria dos filhos de Deus.\u00a0 <strong><span style=\"text-decoration: underline;\">22<\/span><\/strong> Sabemos que a cria\u00e7\u00e3o toda geme e sofre dores de parto at\u00e9 agora. <strong><span style=\"text-decoration: underline;\">23<\/span><\/strong> E n\u00e3o somente ela, mas tamb\u00e9m n\u00f3s, que possu\u00edmos os primeiros frutos do Esp\u00edrito, gememos no \u00edntimo, esperando a ado\u00e7\u00e3o, a liberta\u00e7\u00e3o para o nosso corpo\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Colossenses 1,13-20:<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201c<strong><span style=\"text-decoration: underline;\">13<\/span><\/strong> Deus Pai nos arrancou do poder das trevas e nos transferiu para o Reino do seu Filho amado, <strong><span style=\"text-decoration: underline;\">14<\/span><\/strong> no qual temos a reden\u00e7\u00e3o, a remiss\u00e3o dos pecados. <strong><span style=\"text-decoration: underline;\">15<\/span><\/strong> Ele \u00e9 a imagem do Deus invis\u00edvel, o Primog\u00eanito, anterior a qualquer criatura; <strong><span style=\"text-decoration: underline;\">16<\/span><\/strong> porque nele foram criadas todas as coisas, tanto as celestes como as terrestres, as vis\u00edveis como as invis\u00edveis: tronos, soberanias, principados e autoridades. Tudo foi criado por meio dele e para ele. <strong><span style=\"text-decoration: underline;\">17<\/span><\/strong> Ele existe antes de todas as coisas, e tudo nele subsiste. <strong><span style=\"text-decoration: underline;\">18<\/span><\/strong> Ele \u00e9 tamb\u00e9m a Cabe\u00e7a do corpo, que \u00e9 a Igreja. Ele \u00e9 o Princ\u00edpio, o primeiro daqueles que ressuscitam dos mortos, para em tudo ter a prima\u00adzia. <strong><span style=\"text-decoration: underline;\">19<\/span><\/strong> Porque Deus, a Plenitude total, quis nele habitar, <strong><span style=\"text-decoration: underline;\">20<\/span><\/strong> para, por meio dele, reconciliar consigo todas as coisas, tanto as terrestres como as celestes, estabelecendo a paz pelo seu sangue derramado na cruz\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Ef\u00e9sios 1,9-12:<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201c<strong><span style=\"text-decoration: underline;\">9<\/span><\/strong> Ele (Deus) nos fez conhecer o mist\u00e9rio da sua vontade, a livre decis\u00e3o que havia tomado outrora\u00a0 <strong><span style=\"text-decoration: underline;\">10<\/span><\/strong> de levar a hist\u00f3ria \u00e0 sua plenitude, reunindo o universo inteiro, tanto as coisas celestes como as terrestres, sob uma s\u00f3 Cabe\u00e7a, Cristo. <strong><span style=\"text-decoration: underline;\">11<\/span><\/strong> Em Cristo recebemos nossa parte na heran\u00e7a, conforme o projeto daquele que tudo conduz segundo a sua vontade: fomos predestinados\u00a0 <strong><span style=\"text-decoration: underline;\">12<\/span><\/strong> a ser o louvor da sua gl\u00f3ria, n\u00f3s, que j\u00e1 antes esper\u00e1vamos em Cristo.\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Hebreus 1,1-5<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201c<strong><span style=\"text-decoration: underline;\">1<\/span><\/strong> Nos tempos antigos, muitas vezes e de muitos modos Deus falou aos antepassados por meio dos profetas. <strong><span style=\"text-decoration: underline;\">2<\/span><\/strong> No per\u00edodo final em que estamos, falou a n\u00f3s por meio do Filho. Deus o constituiu herdeiro de todas as coisas e, por meio dele, tamb\u00e9m criou os mundos. <strong><span style=\"text-decoration: underline;\">3<\/span><\/strong> O Filho \u00e9 a irradia\u00e7\u00e3o da sua gl\u00f3ria e nele Deus se expressou tal como \u00e9 em si mesmo. O Filho, por sua palavra poderosa, \u00e9 aquele que mant\u00e9m o universo. Depois de realizar a purifica\u00e7\u00e3o dos pecados, sentou-se \u00e0 direita da Majestade de Deus nas alturas. <strong><span style=\"text-decoration: underline;\">4<\/span><\/strong> Ele est\u00e1 acima dos anjos, da mesma forma que herdou um nome muito superior ao deles. <strong><span style=\"text-decoration: underline;\">5<\/span><\/strong> De fato, a qual dos anjos Deus disse alguma vez: &#8220;Voc\u00ea \u00e9 o meu Filho, eu hoje o gerei?&#8221; Ou ainda: &#8220;Eu serei seu Pai, e ele ser\u00e1 meu Filho?&#8221;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Reflex\u00e3o: <\/strong>O que eles, atrav\u00e9s da observa\u00e7\u00e3o da natureza, aprenderam sobre o mist\u00e9rio divino em Jesus? Destaque tr\u00eas caracter\u00edsticas do olhar dos primeiros crist\u00e3o sobre a natureza e sobre Jesus.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>A origem do olhar dos Crist\u00e3os sobre Jesus como centro do cosmos<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Jesus \u00e9 visto por eles como o centro da cria\u00e7\u00e3o, como o primog\u00eanito de todas as criaturas. Aqui tamb\u00e9m, a fonte, onde eles buscavam luz e inspira\u00e7\u00e3o para suas reflex\u00f5es eram (1) a lembran\u00e7a do pr\u00f3prio Jesus, (2) a experi\u00eancia do Esp\u00edrito de Jesus na vida em comunidade e, sobretudo, (3) alguns textos do Antigo Testamento que os orientavam na sua reflex\u00e3o sobre o mist\u00e9rio divino em Jesus.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ao ler estes textos do AT pense em Jesus e tenha presente que, para os primeiros crist\u00e3os, a chave principal de leitura do AT era a convic\u00e7\u00e3o de que em Jesus se realizavam todas as promessas do AT.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong> <\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Prov\u00e9rbios 8,22-31<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201c<strong><span style=\"text-decoration: underline;\">22<\/span><\/strong> Jav\u00e9 me produziu como primeiro fruto de sua obra, no come\u00e7o de seus feitos mais antigos.\u00a0 <strong><span style=\"text-decoration: underline;\">23<\/span><\/strong> Fui estabelecida desde a eternidade, desde o princ\u00edpio, antes que a terra come\u00e7asse a existir.\u00a0 <strong><span style=\"text-decoration: underline;\">24<\/span><\/strong> Fui gerada quando o oceano ainda n\u00e3o existia, e antes que existissem as fontes de \u00e1gua. <strong><span style=\"text-decoration: underline;\">25<\/span><\/strong> Fui gerada antes que as montanhas e colinas fossem implantadas, <strong><span style=\"text-decoration: underline;\">26<\/span><\/strong> quando Jav\u00e9 ainda n\u00e3o tinha feito a terra e a erva, nem os primeiros elementos do mundo. <strong><span style=\"text-decoration: underline;\">27<\/span><\/strong> Quando ele fixava o c\u00e9u e tra\u00e7ava a ab\u00f3bada sobre o oceano, eu a\u00ed estava. <strong><span style=\"text-decoration: underline;\">28<\/span><\/strong> Eu me achava presente quando ele condensava as nuvens no alto e fixava as fontes do oceano;\u00a0\u00a0 29 quando punha um limite para o mar, de modo que as \u00e1guas n\u00e3o ultrapassassem a praia; e tamb\u00e9m quando assentava os fundamentos da terra. <strong><span style=\"text-decoration: underline;\">30<\/span><\/strong> Eu estava junto com ele, como mestre-de-obras. Eu era o seu encanto todos os dias, e brincava o tempo todo em sua presen\u00e7a; \u00a0<strong><span style=\"text-decoration: underline;\">31<\/span><\/strong> brincava na superf\u00edcie da terra, e me deliciava com a humanidade\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Eclesi\u00e1stico 24,1-12:<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><span style=\"text-decoration: underline;\">1<\/span><\/strong> A Sabedoria louva a si mesma e se gloria no meio do seu povo. <strong><span style=\"text-decoration: underline;\">2<\/span><\/strong> Ela abre a boca na assembl\u00e9ia do Alt\u00edssimo e se glorifica diante do poder dele: <strong><span style=\"text-decoration: underline;\">3<\/span><\/strong> &#8220;Eu sa\u00ed da boca do Alt\u00edssimo e recobri a terra como n\u00e9voa.\u00a0 <strong><span style=\"text-decoration: underline;\">4<\/span><\/strong> Armei a minha tenda nas alturas, e o meu trono ficava sobre uma coluna de nuvens. <strong><span style=\"text-decoration: underline;\">5<\/span><\/strong> Percorri sozinha a ab\u00f3bada do c\u00e9u e passei pelas profundezas dos abismos. <strong><span style=\"text-decoration: underline;\">6<\/span><\/strong> Estendi o meu poder sobre as ondas do mar, sobre a terra inteira e sobre todos os povos e na\u00e7\u00f5es. <strong><span style=\"text-decoration: underline;\">7<\/span><\/strong> Em todos eles procurei um lugar para repousar e uma propriedade onde pudesse me estabelecer. <strong><span style=\"text-decoration: underline;\">8<\/span><\/strong> Ent\u00e3o o Criador do universo me deu uma ordem. Aquele que me criou armou a minha tenda, e disse: &#8216;Instale-se em Jac\u00f3 e tome Israel como heran\u00e7a&#8217;.<strong><span style=\"text-decoration: underline;\">9<\/span><\/strong> Ele me criou desde o princ\u00edpio, antes dos s\u00e9culos, e eu nunca deixarei de existir. <strong><span style=\"text-decoration: underline;\">10<\/span><\/strong> Oficiei na Tenda santa, na presen\u00e7a dele, e desse modo me estabeleci em Si\u00e3o. <strong><span style=\"text-decoration: underline;\">11<\/span><\/strong> Ele me fez habitar na cidade amada, e em Jerusal\u00e9m exer\u00e7o o meu poder. <strong><span style=\"text-decoration: underline;\">12<\/span><\/strong> Coloquei ra\u00edzes no meio de um povo glorioso, na por\u00e7\u00e3o do Senhor, seu patrim\u00f4nio\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Sabedoria 7,22-8,1: <\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201c<strong><span style=\"text-decoration: underline;\">22<\/span><\/strong> Na sabedoria h\u00e1 um esp\u00edrito inteligente, santo, \u00fanico, m\u00faltiplo, sutil, m\u00f3vel, penetrante, imaculado, l\u00facido, invulner\u00e1vel, amigo do bem, agudo, <strong><span style=\"text-decoration: underline;\">23<\/span><\/strong> livre, ben\u00e9fico, amigo dos homens, est\u00e1vel, seguro, sereno, que tudo pode e tudo abrange, que penetra todos os esp\u00edritos inteligentes, puros e sutil\u00edssimos. <strong><span style=\"text-decoration: underline;\">24<\/span><\/strong> A sabedoria \u00e9 mais \u00e1gil que qualquer movimento, atravessando e penetrando tudo por causa da sua pureza. <strong><span style=\"text-decoration: underline;\">25<\/span><\/strong> A sabedo\u00adria \u00e9 exala\u00e7\u00e3o do poder de Deus, emana\u00e7\u00e3o pur\u00edssima da gl\u00f3ria do Onipotente e, por isso, nada de contami\u00adnado nela se infiltra. <strong><span style=\"text-decoration: underline;\">26<\/span><\/strong> Ela \u00e9 reflexo da luz eterna, espelho n\u00edtido da atividade de Deus e imagem da sua bondade. <strong><span style=\"text-decoration: underline;\">27<\/span><\/strong> Embora seja \u00fanica, ela tudo pode. Permanece sempre a mesma, mas renova tudo, e entrando nas almas santas, atrav\u00e9s das gera\u00e7\u00f5es, forma os amigos de Deus e os profetas.\u00a0 <strong><span style=\"text-decoration: underline;\">28<\/span><\/strong> De fato, Deus ama somente aqueles que convivem com a sabedoria. <strong><span style=\"text-decoration: underline;\">29<\/span><\/strong> Ela \u00e9 mais bela que o sol e supera todas as constela\u00e7\u00f5es de astros. Comparada \u00e0 luz do dia, ela sai ganhando,\u00a0 <strong><span style=\"text-decoration: underline;\">30<\/span><\/strong> pois a luz cede lugar \u00e0 noite, mas contra a sabedoria o mal n\u00e3o prevalece. <strong><span style=\"text-decoration: underline;\">8,1<\/span><\/strong> Ela se estende vigorosamente de um extremo a outro, e governa retamente o universo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong> <\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><span style=\"text-decoration: underline;\"> <\/span><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><span style=\"text-decoration: underline;\">OS SALMOS<\/span><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>O olhar do povo orante sobre a Cria\u00e7\u00e3o de Deus<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>M\u00edstica C\u00f3smica: aprender a rezar os fen\u00f4menos da natureza<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O livro dos Salmos \u00e9 o maior dos livros da B\u00edblia. Tem 150 cap\u00edtulos! Mesmo assim s\u00f3 uma parte dos salmos est\u00e1 no Livro dos Salmos. A outra parte est\u00e1 espalhada pela B\u00edblia, em quase todos os seus livros, tanto do AT como do NT. Os Salmos s\u00e3o o lado orante da hist\u00f3ria do povo de Deus. Neles voc\u00ea encontra a Lei, a Hist\u00f3ria, a Sabedoria, a Profecia. T\u00eam de tudo!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A ora\u00e7\u00e3o dos salmos \u00e9 como a \u00e1gua do rio que percorre e fertiliza a hist\u00f3ria e a vida do povo de Deus, do come\u00e7o ao fim (cf Sl 46,5).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>1. <span style=\"text-decoration: underline;\">A Nascente<\/span>: a raiz dos Salmos<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A nascente \u00e9 o lugar onde a \u00e1gua est\u00e1 dentro do ch\u00e3o, nas cabeceiras do rio. A nascente do rio dos salmos \u00e9 a experi\u00eancia de Deus nas contradi\u00e7\u00f5es da vida; \u00e9 a convic\u00e7\u00e3o de que Jav\u00e9, Deus vivo e libertador, est\u00e1 presente na vida. Ele nos ouve quando o invocamos. A raiz dos salmos \u00e9 a certeza de que Deus escuta o nosso clamor.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Se voc\u00eas quiserem aprofundar esta dimens\u00e3o dos salmos, seguem aqui algumas refer\u00eancias: Salmo <strong>3<\/strong>,5; <strong>4<\/strong>,2.4; <strong>5<\/strong>,2-3.4; <strong>6<\/strong>,9-10; <strong>9<\/strong>,13; <strong>10<\/strong>,17; <strong>12<\/strong>,6; <strong>13<\/strong>,4; <strong>17<\/strong>,1.6; <strong>18<\/strong>,7;\u00a0 <strong>20<\/strong>,2.10; <strong>21<\/strong>,3.5; <strong>22<\/strong>,2-3.6.25; <strong>25<\/strong>,2-3; <strong>27<\/strong>,7; <strong>28<\/strong>,1-2.6; <strong>30<\/strong>,3.9; <strong>31<\/strong>,23; <strong>34<\/strong>,5.7.16.18; <strong>39<\/strong>,14; <strong>40<\/strong>,2; <strong>54<\/strong>,4; <strong>55<\/strong>,22.18.20; <strong>56<\/strong>,10; <strong>57<\/strong>,3-4; <strong>61<\/strong>,2; <strong>64<\/strong>,2; <strong>65<\/strong>,3; <strong>66<\/strong>,17-18; <strong>69<\/strong>,4.14.17.34; <strong>71<\/strong>,2; <strong>72<\/strong>,12; <strong>77<\/strong>,2; <strong>79<\/strong>,11; <strong>80<\/strong>,2; <strong>81<\/strong>,8; <strong>84<\/strong>,9; <strong>86<\/strong>,1.6.7; <strong>88<\/strong>,2-3.14; <strong>99<\/strong>,6.8; <strong>102<\/strong>,2-3.21; <strong>106<\/strong>,44; <strong>107<\/strong>,6.13.19.28; <strong>116<\/strong>,1-2.4; <strong>118<\/strong>,5.21; <strong>119<\/strong>,145-149.169-170; <strong>120<\/strong>,1; <strong>130<\/strong>,1-2; <strong>138<\/strong>,3; <strong>140<\/strong>,7; <strong>141<\/strong>,1; <strong>142<\/strong>,2-3.6-7; <strong>143<\/strong>,1-2.6-7; <strong>145<\/strong>,18-19. Pesquisando voc\u00eas completam a lista.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>2. <span style=\"text-decoration: underline;\">As Fontes<\/span>: os motivos eu levam a rezar<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">As fontes s\u00e3o os lugares onde a \u00e1gua sai do ch\u00e3o e come\u00e7a a correr sobre a terra. As fontes do rio dos salmos s\u00e3o os motivos que levam o po\u00advo a rezar. Cada salmo tem o seu motivo. Alguns motivos aparecem com maior freq\u00fc\u00eancia. At\u00e9 hoje, os mesmos motivos est\u00e3o na origem das nos\u00adsas ora\u00e7\u00f5es e revelam, assim, a afinidade dos sal\u00admos com a nossa vida. Eis alguns destes motivos:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">1. <span style=\"text-decoration: underline;\">A hist\u00f3ria<\/span>. O passado \u00e9 lembrado para cantar as maravilhas de Deus (Sl 105); animar as pessoas (Sl 107); lev\u00e1-las \u00e0 convers\u00e3o (Sl 106); para agradecer: &#8220;Eterno \u00e9 seu amor!&#8221; (Sl 136).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">2. <span style=\"text-decoration: underline;\">O conflito entre f\u00e9 e realidade<\/span>. Provoca a crise de f\u00e9. O presente \u00e9 t\u00e3o diferente do passado! Deus mudou? (Sl 77,11). O mal venceu? (Sl 14 e 53): &#8220;Vou seguir o exemplo deles!&#8221; (Sl 73,15).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">3. <span style=\"text-decoration: underline;\">O sofrimento<\/span>. O sofrimento gerou o maior n\u00famero de salmos: persegui\u00e7\u00e3o (Sl 3), solid\u00e3o (Sl 142), doen\u00e7a (Sl 41), escurid\u00e3o (Sl 88), etc. O sofrimento provoca desejos de vingan\u00e7a (Sl 109).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">4. <span style=\"text-decoration: underline;\">A lei de Deus<\/span>. &#8220;Felizes os \u00edntegros que andam na Lei do Senhor&#8221; (Sl 119,1). Alguns salmos revelam a m\u00edstica profunda a que o povo chegou observando a Lei de Deus (Sl 19 e 119).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">5. <span style=\"text-decoration: underline;\">As festas do povo<\/span>. Muitas festas! Da semeadura \u00e0 colheita! As tr\u00eas grandes fes\u00adtas do ano (Ex 23,14) com suas romarias ao Templo marcavam o ritmo da vida orante do povo (Sl 120 a 134).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">6. <span style=\"text-decoration: underline;\">A busca da presen\u00e7a de Deus<\/span>. &#8220;Senhor, h\u00e1 muito que te procuro!&#8221; (Sl 63,1): no Templo (Sl 23,6; 27,4; 84,1-5; 122,1); em todos os momentos da vida (Sl 139); na presen\u00e7a dele, para sempre!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">8. <span style=\"text-decoration: underline;\">A penit\u00eancia<\/span>. A hist\u00f3ria ensina que o perd\u00e3o de Deus \u00e9 maior que o pecado (Sl 106) e que sem Deus n\u00e3o h\u00e1 sa\u00edda (Sl 30,7-8). Por isso pede perd\u00e3o (Sl 51). A confiss\u00e3o liberta (Sl 32,5-8).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">9. <span style=\"text-decoration: underline;\">A esperan\u00e7a<\/span>. \u00c9 a \u00faltima que morre! Eles esperam pela liberta\u00e7\u00e3o e pedem para que Deus realize suas promessas (Sl 2; 72). &#8220;Espero ver a bondade do Senhor na terra dos vivos!&#8221; (Sl 27,13).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">10. <span style=\"text-decoration: underline;\">A natureza<\/span>. \u00c9 o tema muito freq\u00fcente que nos interessa particularmente nesta 3\u00aa Oficina. &#8220;A Tua presen\u00e7a irrompe por toda a terra!&#8221; (Sl 8,2). Na harmonia do Universo, descobrem a for\u00e7a da Palavra de Deus que os conduz (Sl 33,4-12; 19,2-7; 104; 29,3-9).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Se voc\u00eas quiserem aprofundar esta dimens\u00e3o dos salmos, seguem aqui algumas refer\u00eancias: Sl <strong>1<\/strong>,3-4; <strong>8<\/strong>,2.4.10; <strong>18<\/strong>,8-16; <strong>19<\/strong>,2-7; <strong>24<\/strong>,1-2; <strong>29<\/strong>,3-10; <strong>33<\/strong>,4-12;36,6-8; <strong>42<\/strong>,2; <strong>46<\/strong>,2-4; <strong>48,<\/strong>8; <strong>50<\/strong>,3; <strong>65<\/strong>,6-14; <strong>68<\/strong>,9-10; <strong>72<\/strong>,5-8; <strong>74<\/strong>,12-17; <strong>77<\/strong>,17-21; <strong>78<\/strong>,69; <strong>89<\/strong>,10-13.37-38; <strong>90<\/strong>,5-6; <strong>93<\/strong>,1-4;\u00a0 <strong>95<\/strong>,4-5; <strong>96<\/strong>,9-13;\u00a0 <strong>97<\/strong>,1-6;\u00a0 <strong>98<\/strong>,4-9;104,1-35; \u00a0<strong>114<\/strong>,1-8;\u00a0 <strong>119<\/strong>,89-91;\u00a0 <strong>125<\/strong>,1-2;\u00a0 <strong>135<\/strong>,6-7;\u00a0 <strong>136,<\/strong>5-9; <strong>144<\/strong>,5-7; <strong>147<\/strong>.7-9.14-18; <strong>148<\/strong>,1-10; <strong>150<\/strong>,1.2.6. Pesquisando voc\u00eas completam a lista.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><span style=\"text-decoration: underline;\"><br \/> <\/span><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><span style=\"text-decoration: underline;\">A LI\u00c7\u00c3O DOS \u00cdNDIOS<\/span><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Uma reflex\u00e3o de Leonardo Boff sobre as li\u00e7\u00f5es que podemos receber dos \u00edndios:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os \u00edndios sentem e v\u00eaem a natureza como parte de sua sociedade e cultura, como prolongamento de seu corpo pessoal e social. Para eles a natureza \u00e9 um sujeito vivo e carregado de intencionalidades. N\u00e3o \u00e9 como para n\u00f3s modernos, um objeto mudo e sem esp\u00edrito. A natureza fala e o ind\u00edgena entende sua voz e mensagem. Por isso ele est\u00e1 sempre auscultando a natureza e se adequando a ela num jogo complexo de inter-rela\u00e7\u00f5es. H\u00e1 s\u00e1bias li\u00e7\u00f5es que precisamos aprender deles face \u00e0s atuais amea\u00e7as ambientais. Importa entender a Terra, n\u00e3o como algo inerte, com recursos ilimitados, dispon\u00edveis ao nosso bel prazer. Mas como algo vivo, a M\u00e3e do \u00edndio a ser respeitada em sua integridade. Se uma \u00e1rvore \u00e9 derrubada, faz-se um rito de desculpa para resgatar a alian\u00e7a de amizade. Precisamos de uma rela\u00e7\u00e3o sinf\u00f4nica com a comunidade de vida, pois como foi comprovado, Gaia (terra) j\u00e1 ultrapassou seu limite de suportabilidade. Se deixarmos as coisas correrem e n\u00e3o fizermos nada as amea\u00e7as se tornar\u00e3o devastadora realidade. (Leonardo Boff, O desafio Amaz\u00f4nico, 19.02 2007).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Dois exemplos da li\u00e7\u00e3o de \u00edndios que n\u00e3o perderam o contato com a natureza: o primeiro \u00e9 de um \u00edndio do Xingu, Brasil, contado pelo indigenista Orlando Villas B\u00f4as; o segundo, de um \u00edndio da Am\u00e9rica do Norte.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Orlando Villas B\u00f4as conviveu com os \u00edndios e estudou os costumes deles. Ele conta o seguinte:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;De todas as hist\u00f3rias contadas pelos \u00edndios, a mais surpreendente foi nascida de uma conversa com Arru, um de meia-idade que, embora n\u00e3o fosse um grande paj\u00e9, era, sem d\u00favida, o mais versado nos conhecimentos que transcendem o saber comum, principalmente no campo do sobrenatural. Arru chegara do mato cansado da caminhada e, encontrando-nos na aldeia, sentou-se a meu lado. N\u00e3o havia muita coisa a conversar. Seu mundo mon\u00f3tono, nesse aspecto, valia pelo que j\u00e1 havia acontecido. Foi por isso que ele, olhando para os lados, para o ch\u00e3o e depois para o c\u00e9u, disse: -\u201cL\u00e1 \u00e9 o c\u00e9u.\u00a0 \u2013\u201cEu j\u00e1 sabia\u201d, respondi. \u2013\u201cL\u00e1 \u00e9 a aldeia dos que morrem\u201d. \u2013\u201cEu j\u00e1 sabia\u201d. Depois de um breve intervalo, e de olhar bastante elevado para o c\u00e9u, falou: -\u201cL\u00e1 no c\u00e9u do c\u00e9u&#8230; ela est\u00e1 l\u00e1\u201d. Fui tomado de surpresa. C\u00e9u do c\u00e9u&#8230; O que viria a ser isso? Ela est\u00e1 l\u00e1? Ela, quem? A figura de um \u00edndio velho? Da\u00ed perguntei: -\u201cQuem? Um \u00edndio velho que sabe tudo? \u2013\u201cN\u00e3o! (pronunciado com veem\u00eancia), somente uma sabedoria!\u201d\u00a0 E com um gesto largo abrangendo o sol e o c\u00e9u deu-me a id\u00e9ia de que l\u00e1 havia somente uma sabedoria, que, tal qual a concep\u00e7\u00e3o das seitas tibetanas, mant\u00e9m a harmonia do universo.\u201d (O Villas B\u00f4as, A Arte dos Paj\u00e9s, Impress\u00f5es sobre o universo espiritual do indio xinguaano,Editoria Globo,2000, p.89-90) .<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em 1852, o governo dos Estados Unidos prop\u00f4s comprar as terras dos \u00edndios. O cacique Seattle estranhou a proposta e exp\u00f4s a sua preocupa\u00e7\u00e3o numa carta ao Presidente. Segue aqui um trecho da carta:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;O presidente em Washington informa que deseja comprar nossa terra. Mas como \u00e9 poss\u00edvel comprar ou vender o c\u00e9u ou a terra? A id\u00e9ia nos \u00e9 estranha. Se n\u00f3s n\u00e3o possu\u00edmos o frescor do ar e a vivacidade da \u00e1gua, como voc\u00eas poder\u00e3o compr\u00e1-los? Cada parte desta terra \u00e9 sagrada para meu povo. &#8230; Somos parte da terra e ela \u00e9 parte de n\u00f3s. As flores perfumadas s\u00e3o nossas irm\u00e3s. O urso e a \u00e1guia s\u00e3o nossos irm\u00e3os. O topo das montanhas, o h\u00famus das campinas, o calor do corpo do cavalo, o ser humano, pertencem todos \u00e0 mesma fam\u00edlia. A \u00e1gua brilhante que se move nos rios e riachos n\u00e3o \u00e9 apenas \u00e1gua, mas \u00e9 o sangue de nossos ancestrais. Se lhes vendermos nossa terra, lembrem-se de que o ar \u00e9 precioso para n\u00f3s, o ar partilha seu esp\u00edrito com toda a vida que ampara. Uma coisa sabemos: nosso Deus \u00e9 tamb\u00e9m o seu deus. A terra \u00e9 preciosa para ele. Esta terra \u00e9 preciosa para n\u00f3s, tamb\u00e9m \u00e9 preciosa para voc\u00eas. Uma coisa sabemos: existe apenas um Deus. Nenhum ser humano, vermelho ou branco, pode viver \u00e0 parte. Afinal, somos irm\u00e3os!&#8221; (Joseph Campbell, O Poder do Mito, Editora Palas Athena, 14\u00aa edi\u00e7\u00e3o, S\u00e3o Paulo, 1996, pp.34 e 36)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">S\u00e3o duas maneiras diferentes de relacionar-se com a terra. Para Seattle, o chefe ind\u00edgena, a terra \u00e9 dom de Deus e fonte de identidade. Para o Presidente dos Estados Unidos a terra \u00e9 apenas uma mercadoria, um objeto de troca. Para Arru, o \u00edndio do Xingu, a terra, o ch\u00e3o, o passado, o c\u00e9u, tudo faz parte de uma <em>sabedoria<\/em> universal que nos envolve e da qual n\u00f3s somos apenas uma parte. N\u00e3o somos os donos do mundo; tomamos conta, e temos que prestar conta. Dizia um descendente dos \u00edndios l\u00e1 do Cear\u00e1: \u201cEu n\u00e3o sou pessoa. Sou peda\u00e7o de pessoa. A pessoa \u00e9 a comunidade. Vivendo em comunidade me torno pessoa\u201d. S\u00e3o duas mentalidades distintas: a dos \u00edndios e a nossa. Temos muito a aprender deles. Nos \u00faltimos tr\u00eas ou quatro s\u00e9culos, uma ci\u00eancia utilitarista que s\u00f3 busca seu pr\u00f3prio proveito, privou-nos desse contato com a natureza e, por conseguinte, da sabedoria que nasce do contato com a m\u00e3e terra, Pachamama.<\/p>\n<p align=\"center\"><strong> <\/strong><\/p>\n<p align=\"center\"><strong><span style=\"text-decoration: underline;\">PAI NOSSO ECOL\u00d3GICO<\/span><\/strong><\/p>\n<p align=\"right\">Por Edward Neves M. B. Guimar\u00e3es<\/p>\n<p>Pai e M\u00e3e de todos n\u00f3s,<\/p>\n<p>Esp\u00edrito-de-Amor, Comunh\u00e3o-Infinita, Deus-Criador&#8230;<\/p>\n<p>Tu transcendes todo tempo e lugar, mas nos permites encontrar-te t\u00e3o pr\u00f3ximo:<\/p>\n<p>No olhar l\u00edmpido e meigo das crian\u00e7as,<\/p>\n<p>Na for\u00e7a prof\u00e9tica e contagiante dos sonhos da juventude,<\/p>\n<p>No porto seguro do seio da m\u00e3e,<\/p>\n<p>No aconchego afetuoso dos bra\u00e7os do pai,<\/p>\n<p>No encontro festivo e irradiante de familiares e amigos,<\/p>\n<p>Na teimosia do povo em luta pela vida plena,<\/p>\n<p>No caminhar tateante e sereno dos idosos.<\/p>\n<p>Na singeleza do perfume das flores,<\/p>\n<p>No sabor inebriante e suculento dos frutos,<\/p>\n<p>Na fecundidade das sementes lan\u00e7adas na terra,<\/p>\n<p>Na diversidade incont\u00e1vel das cores e esp\u00e9cies vegetais,<\/p>\n<p>Na vitalidade escondida das ra\u00edzes dedicadas a possibilitar a vida,<\/p>\n<p>No mist\u00e9rio da renova\u00e7\u00e3o impulsionada pelas esta\u00e7\u00f5es do ano.<\/p>\n<p>Na leveza do v\u00f4o dos p\u00e1ssaros,<\/p>\n<p>Na delicadeza das formas dos insetos,<\/p>\n<p>Na complexidade crescente dos peixes, r\u00e9pteis e mam\u00edferos,<\/p>\n<p>No desejo ardente pela vida, encarnada em cada esp\u00e9cie animal.<\/p>\n<p>Na aurora esperan\u00e7ada do nascente,<\/p>\n<p>No \u00eaxtase interiorizante do p\u00f4r do sol,<\/p>\n<p>Na beleza prateada da noite enluarada,<\/p>\n<p>Na imensid\u00e3o desbordante do c\u00e9u estrelado,<\/p>\n<p>Nas \u00e1guas cristalinas da nascente,<\/p>\n<p>No ritmado som da cachoeira,<\/p>\n<p>Na beleza incomensur\u00e1vel da cria\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Tu habitas a interioridade de cada ser.<\/p>\n<p>Interpelas-nos no rosto desfigurado dos empobrecidos.<\/p>\n<p>E alegras o cora\u00e7\u00e3o do ser humano que se disp\u00f5e a servir.<\/p>\n<p>Por tudo isso santificado, por todas as culturas e religi\u00f5es, sejas o teu nome.<\/p>\n<p>Nele encontramos fonte de igualdade, dignidade e valor.<\/p>\n<p>Venha a n\u00f3s, atrav\u00e9s de tua gra\u00e7a e de nossas atitudes cotidianas, o teu Reino de amor, justi\u00e7a e paz.<\/p>\n<p>Seja feita, entre n\u00f3s, a tua vontade de revelar-nos o teu amor incondicional e universal.<\/p>\n<p>Vontade manifestada, de modo singular, nos gestos e ensinamentos de Jesus de Nazar\u00e9, teu Filho amado:<\/p>\n<p>\u201c<em>Que todos tenham vida e vida em abund\u00e2ncia<\/em>\u201d, em todo tempo e em cada lugar.<\/p>\n<p>O P\u00e3o nosso e a \u00c1gua nossa de cada dia nos dai hoje, Pai.<\/p>\n<p>Perdoai nossas ofensas \u00e0 m\u00e3e natureza e aos nossos irm\u00e3os e irm\u00e3s,<\/p>\n<p>Que tamb\u00e9m n\u00f3s busquemos perdoar a quem nos ofendeu, como Tu nos perdoas sempre.<\/p>\n<p>Alimentai a nossa fome de justi\u00e7a, fraternidade, di\u00e1logo, toler\u00e2ncia e paz.<\/p>\n<p>Ensinai-nos a ser mais ecol\u00f3gicos, conscientes e coerentes.<\/p>\n<p>Ensinai-nos a amar mais a vida encarnada em cada ser.<\/p>\n<p>Fortalecei nossa capacidade de sonhar, de lutar por um outro mundo poss\u00edvel e, sobretudo, de ser livres,<\/p>\n<p>Mas de ser livres para a pratica da justi\u00e7a, da simplicidade e do amor.<\/p>\n<p>N\u00e3o nos deixeis cair na tenta\u00e7\u00e3o economicista e consumista da vida,<\/p>\n<p>Livrai-nos do mal do ego\u00edsmo, da indiferen\u00e7a e da exclus\u00e3o.<\/p>\n<p>Assim seja!<\/p>\n<p>Am\u00e9m!<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>B\u00cdBLIA E ECOLOGIA Dourados, MS, 16 a 18 de setembro de 2012 Frei Carlos Mesters (Obs.: Esse artigo \u00e9 o 1\u00ba de uma s\u00e9rie de 10 artigos de frei Carlos Mesters que disponibilizaremos na 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