{"id":199,"date":"2012-10-18T10:47:03","date_gmt":"2012-10-18T13:47:03","guid":{"rendered":"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/?p=199"},"modified":"2012-10-18T10:47:03","modified_gmt":"2012-10-18T13:47:03","slug":"amor-solidario-na-biblia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/gilvander.org.br\/site\/amor-solidario-na-biblia\/","title":{"rendered":"Amor Solid\u00e1rio na B\u00edblia."},"content":{"rendered":"<p align=\"center\"><strong><span style=\"font-size: large;\"><span style=\"color: #0000ff;\">Amor Solid\u00e1rio na B\u00edblia.<\/span><\/span><\/strong><\/p>\n<p align=\"center\">Curitiba, PR, 30 de janeiro a 4 de fevereiro de 2012.<\/p>\n<p align=\"center\">Frei Carlos Mesters, Carmelita<\/p>\n<p><strong> <\/strong><\/p>\n<p><strong>(Obs.:<\/strong> Esse artigo \u00e9 o 5\u00ba de uma s\u00e9rie de 10 artigos de frei Carlos Mesters que disponibilizaremos na internet, em <a href=\"http:\/\/www.gilvander.org.br\/\">www.gilvander.org.br<\/a> , em breve.)<\/p>\n<p>  <!--more-->  <\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p align=\"center\"><strong>1<\/strong><\/p>\n<p align=\"center\">Amor solid\u00e1rio gera solidariedade<\/p>\n<p align=\"center\">A hist\u00f3ria do Bom Samaritano<\/p>\n<p align=\"center\"><strong>2<\/strong><\/p>\n<p align=\"center\">Amor solid\u00e1rio se radicaliza \u00e9 na solid\u00e3o<\/p>\n<p align=\"center\">A hist\u00f3ria de Jeov\u00e1, marxista ateu<\/p>\n<p align=\"center\"><strong>3<\/strong><\/p>\n<p align=\"center\">Amor solid\u00e1rio, mesmo morrendo, renasce<\/p>\n<p align=\"center\">A hist\u00f3ria de uma reforma que esqueceu o amor<\/p>\n<p align=\"center\"><strong>4<\/strong><\/p>\n<p align=\"center\">Amor solid\u00e1rio se alimenta no amor maior de Deus<\/p>\n<p align=\"center\">A hist\u00f3ria do amor expressa nos Salmos 146 e 119<\/p>\n<p align=\"center\"><strong>5<\/strong><\/p>\n<p align=\"center\">Amor solid\u00e1rio irradia amor e gera testemunhos<\/p>\n<p align=\"center\">A Hist\u00f3ria de mulheres e homens de todos os tempos<\/p>\n<p align=\"center\"><strong>6<\/strong><\/p>\n<p align=\"center\">Amor solid\u00e1rio se revela em Jesus, o filho de Maria<\/p>\n<p align=\"center\">A hist\u00f3ria da encarna\u00e7\u00e3o das oito bem-aventuran\u00e7as em Jesus<\/p>\n<p align=\"center\"><strong>7<\/strong><\/p>\n<p align=\"center\">O Amor Solid\u00e1rio<\/p>\n<p align=\"center\">\u00e9 a maior poesia da humanidade<\/p>\n<p align=\"center\">\u00e9 a hist\u00f3ria do amor criador que realiza tudo que diz e canta<\/p>\n<p align=\"center\"><strong>1 &#8211; Amor solid\u00e1rio gera solidariedade.<\/strong><\/p>\n<p align=\"center\"><strong> <\/strong><\/p>\n<p align=\"center\"><strong>A Hist\u00f3ria do Bom Samaritano.<\/strong><\/p>\n<p><strong> <\/strong><\/p>\n<p><strong>O Texto da Par\u00e1bola do Bom Samaritano.<\/strong><\/p>\n<p><strong>Lucas 10,25-37<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Um doutor em leis se levantou, e, para tentar Jesus perguntou: &#8220;Mestre, o que devo fazer para receber em heran\u00e7a a vida eterna?&#8221;\u00a0 Jesus lhe disse: &#8220;O que \u00e9 que est\u00e1 escrito na Lei? Como voc\u00ea l\u00ea?&#8221;\u00a0 Ele ent\u00e3o respondeu: &#8220;Ame o Senhor, seu Deus, com todo o seu cora\u00e7\u00e3o, com toda a sua alma, com toda a sua for\u00e7a e com toda a sua mente; e ao seu pr\u00f3ximo como a si mesmo.&#8221;\u00a0 Jesus lhe disse: &#8220;Voc\u00ea respondeu certo. Fa\u00e7a isso, e viver\u00e1!&#8221;\u00a0 Mas o doutor em leis, querendo se justificar, disse a Jesus: &#8220;E quem \u00e9 o meu pr\u00f3ximo?&#8221;\u00a0 Jesus respondeu: <\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>&#8220;Um homem ia descendo de Jerusal\u00e9m para Jeric\u00f3, e caiu nas m\u00e3os de assaltantes, que lhe arrancaram tudo, e o espancaram. Depois foram embora, e o deixaram quase morto. Por acaso um sacerdote estava descendo por aquele caminho; quando viu o homem, passou adiante, pelo outro lado. O mesmo aconteceu com um levita: chegou ao lugar, viu, e passou adiante, pelo outro lado.\u00a0 Mas um samaritano, que estava viajando, chegou perto dele, viu, e teve compaix\u00e3o. Aproximou-se dele e fez curativos, derramando \u00f3leo e vinho nas feridas. Depois colocou o homem em seu pr\u00f3prio animal, e o levou a uma pens\u00e3o, onde cuidou dele.\u00a0 No dia seguinte, pegou duas moedas de prata, e as entregou ao dono da pens\u00e3o, recomendando: &#8216;Tome conta dele. Quando eu voltar, vou pagar o que ele tiver gasto a mais&#8217;.&#8221; <\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>E Jesus perguntou:\u00a0 &#8220;Em sua opini\u00e3o, qual dos tr\u00eas se tornou o pr\u00f3ximo do homem que caiu nas m\u00e3os dos assaltantes?&#8221;\u00a0 O doutor em leis respondeu: &#8220;Aquele que praticou miseric\u00f3rdia para com ele.&#8221; Ent\u00e3o Jesus lhe disse: &#8220;V\u00e1, e fa\u00e7a a mesma coisa.&#8221;<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Toda vez que Jesus tem uma coisa importante para comunicar, ele conta uma hist\u00f3ria, uma par\u00e1bola, para ajudar as pessoas a pensar na vida e descobrir dentro dela os apelos de Deus. Meditar uma par\u00e1bola \u00e9 como olhar num espelho para observar de perto nossa pr\u00f3pria maneira de viver. Na <strong><em>Par\u00e1bola do Bom Samaritano<\/em>,<\/strong> Jesus procura levar o Doutor (e todos n\u00f3s) a descobrir em que consiste o Amor Solid\u00e1rio.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"text-decoration: underline;\">Lucas 10,25-26<\/span>: <em>A pergunta do Doutor. <\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Um doutor, conhecedor da lei, quer provocar Jesus e pergun\u00adta: &#8220;O que devo <em>fazer<\/em> para <em>herdar<\/em> a vida <em>eterna<\/em>?&#8221; O doutor acha que deve <strong><em>fazer<\/em><\/strong> algo para poder <strong><em>herdar<\/em><\/strong>. Ele quer merecer e garantir sua heran\u00e7a. Mas uma <em>heran\u00e7a <\/em>n\u00e3o se merece. Heran\u00e7a, a gente a recebe, pelo fato de ser <em>filho<\/em> ou <em>filha<\/em>. Como filhos e filhas n\u00e3o podemos fazer nada para <em>merecer<\/em> a heran\u00e7a. Podemos \u00e9 perd\u00ea-la! Isto sim! A atitude do Doutor n\u00e3o \u00e9 a atitude de algu\u00e9m que quer sair de si mesmo para os outros. Pois ele s\u00f3 pensa em si e na conquista da sua heran\u00e7a de vida eterna. N\u00e3o \u00e9 uma atitude de amor aos outros, mas de amor a si mesmo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"text-decoration: underline;\">Lucas 10,27-28<\/span>: <em>A pergunta de Jesus e a resposta do doutor. <\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Jesus percebe a mal\u00edcia do Doutor. Em vez de responder, faz nova pergunta: <em>&#8220;O que diz a lei?&#8221;<\/em> Ele quer que o pr\u00f3prio Doutor d\u00ea a resposta citando a Lei de Deus. O doutor responde corretamente. Juntando duas frases da Lei, ele diz<em>: &#8220;Amar a Deus de todo o teu cora\u00e7\u00e3o, de toda a tua alma, com toda a tua for\u00e7a e com todo o teu entendimento e ao pr\u00f3ximo como a ti mesmo!&#8221; <\/em>A frase vem do Deuteron\u00f4mio (Dt 6,5) e do Lev\u00edtico (Lv 19,18). Jesus confirma a resposta e tira a conclus\u00e3o: <em>&#8220;Voc\u00ea respondeu certo. Fa\u00e7a isso, e viver\u00e1!&#8221;<\/em> (Lc 10,28). \u00c9 como se dissesse: \u201cPor que voc\u00ea pergunta uma coisa que j\u00e1 sabe? Quer viver sempre? Observe a lei, e pronto! Ame a Deus e ao pr\u00f3ximo, e esque\u00e7a o resto!. O importante, o principal, \u00e9 amar a Deus! Mas Deus vem at\u00e9 voc\u00ea no pr\u00f3ximo. O pr\u00f3ximo \u00e9 a revela\u00e7\u00e3o de Deus para voc\u00ea. Ele \u00e9 a porta para voc\u00ea chegar at\u00e9 Deus e viver sempre. N\u00e3o h\u00e1 outra porta!\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"text-decoration: underline;\">Lucas 10,29<\/span>: <em>A nova perguntado Doutor<\/em>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Diante da resposta de Jesus, o Doutor entra na defensiva e pergunta: <em>\u201cQuem \u00e9 o meu pr\u00f3ximo?\u201d<\/em> (Lc 10,29). Nesta pergunta transparece a mal\u00edcia. O Doutor conhece a lei, mas ele interpreta-a diferentemente de Jesus. Para o Doutor e seus colegas, se a lei manda amar o pr\u00f3ximo, ent\u00e3o a pessoa deve amar s\u00f3 o pr\u00f3ximo, os outros, n\u00e3o! Ajudar algu\u00e9m que n\u00e3o \u00e9 pr\u00f3ximo seria perder tempo, pois para alcan\u00e7ar a heran\u00e7a da vida eterna basta amar o pr\u00f3ximo. Ele quer saber: &#8220;Em que pr\u00f3ximo Deus vem at\u00e9 mim?&#8221; Ou seja, qual \u00e9 a pessoa humana pr\u00f3xima de mim que \u00e9 revela\u00e7\u00e3o de Deus para mim? Para os judeus, a express\u00e3o <em>pr\u00f3ximo<\/em> estava ligada ao cl\u00e3. Quem n\u00e3o era do cl\u00e3, n\u00e3o era pr\u00f3ximo (cf. Dt 15,2-3). A proximidade era baseada nos la\u00e7os de ra\u00e7a e de sangue. No fundo, o Doutor e seus colegas n\u00e3o estavam interessados em amar o pr\u00f3ximo. Eles estavam interessados s\u00f3 em si mesmos, em garantir para si a <strong>heran\u00e7a<\/strong> da vida eterna. O amor ao pr\u00f3ximo era apenas um meio para chegar ao c\u00e9u. Por\u00e9m, vendo como Jesus vivia e ensinava, o Doutor deve ter percebido que Jesus tinha outra id\u00e9ia de \u201cpr\u00f3ximo\u201d. Por isso perguntou: \u201cQuem \u00e9 o meu pr\u00f3ximo?\u201d De fato, Jesus tinha um modo bem diferente de ver o pr\u00f3ximo, e ele o exp\u00f4s de maneira bem clara na par\u00e1bola do Bom Samaritano (Lc 10,30-35).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"text-decoration: underline;\">Lucas 10,30-35<\/span>: <em>A Par\u00e1bola<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"text-decoration: underline;\">Lucas 10,30<\/span>:<span style=\"text-decoration: underline;\"> <\/span><em>O assalto na estrada de Jerusal\u00e9m para Jeric\u00f3. <\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Entre Jerusal\u00e9m e Jeric\u00f3 encontra-se o deserto de Jud\u00e1, ref\u00fagio de marginais e assaltantes. Jesus conta um caso real que deve ter acontecido muitas vezes. \u201cUm homem ia descendo de Jerusal\u00e9m para Jeric\u00f3, e caiu na m\u00e3o de assaltantes, que lhe arrancaram tudo, e o espancaram. Depois foram embora, e o deixaram quase morto\u201d. O mesmo acontece hoje in\u00fameras vezes e de muitas maneiras.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"text-decoration: underline;\">Lucas 10,31-32<\/span>: <em>Passa um sacerdote e passa um levita. <\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">S\u00e3o funcion\u00e1rios do Templo, gente da religi\u00e3o oficial. Os dois viram o assaltado, mas passaram adiante \u201cpelo outro lado\u201d. N\u00e3o fizeram nada. Por que n\u00e3o fizeram nada? Jesus n\u00e3o o diz. Ele deixa voc\u00ea supor ou se identificar. Deve ter acontecido muitas vezes, tanto no tempo de Jesus como no tempo de Lucas e no nosso tempo, uma pessoa de igreja passar perto de um pobre sem dar-lhe ajuda. Pode at\u00e9 ser que os dois tenham tido a justificativa: &#8220;Ele n\u00e3o \u00e9 meu pr\u00f3ximo!&#8221; ou: &#8220;Ele est\u00e1 impuro e, se eu tocar nele, ficarei impuro tamb\u00e9m!&#8221; Ou: \u201cSe \u00e9 castigo de Deus para ele, como \u00e9 que eu me atrevo a ajud\u00e1-lo?&#8221; Ou ainda: \u201cSe eu ajudar, perco a missa do domingo e fa\u00e7o pecado mortal!&#8221; Ou ainda: \u201cComo vou ajudar um \u201csem terra\u201d que \u00e9 \u2018invasor de terras\u2019? Como vou ajudar o desempregado, se ele \u00e9 um pregui\u00e7oso? Como vou apoiar um homossexual, se ele \u00e9 imoral? Como &#8230;. ?\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"text-decoration: underline;\">Lucas 10,33-35<\/span>: <em>Passa um samaritano. <\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Chega um samaritano que est\u00e1 \u201cem viagem\u201d. Ele v\u00ea, move-se de compaix\u00e3o, aproxima-se, cuida das chagas, coloca o homem no seu pr\u00f3prio animal, leva-o at\u00e9 a pens\u00e3o, cuida dele durante a noite e, no dia seguinte, d\u00e1 ao dono da pens\u00e3o duas moedas de prata, o sal\u00e1rio de dois dias, dizendo: &#8220;Cuida dele e o que gastares a mais no meu regresso te pago!&#8221; \u00c9 uma a\u00e7\u00e3o concreta, eficiente e eficaz. A\u00e7\u00e3o progressiva: chegar, ver, mover-se de compaix\u00e3o, aproximar-se, partir para a a\u00e7\u00e3o e envolver outra pessoa na din\u00e2mica da solidariedade e da miseric\u00f3rdia. <strong><em>Este \u00e9 o ideal do Amor solid\u00e1rio!<\/em><\/strong> O samaritano irradia solidariedade e leva os outros a comprometer-se com a mesma causa. De fato, ele conseguiu com que o pr\u00f3prio dono da pens\u00e3o assumisse gratuitamente a causa da ajuda ao assaltado. Gratuitamente, sim! Pois, o dono da pens\u00e3o n\u00e3o pediu dinheiro. Foi o samaritano que o ofereceu espontaneamente. \u00c9 partilha de quem assume o outro como irm\u00e3o, como parceiro na mesma causa.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"text-decoration: underline;\">Lucas 10,36-37<\/span>: <em>A pergunta final. <\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No in\u00edcio, o doutor tinha perguntado: &#8220;Quem \u00e9 o meu pr\u00f3ximo?&#8221; Por de tr\u00e1s da pergunta estava sua preocupa\u00e7\u00e3o em saber: &#8220;A quem Deus me manda amar, para que eu possa herdar (merecer) a vida eterna e ter minha consci\u00eancia em paz por ter feito tudo aquilo que Deus pede de mim!&#8221; Agora, no fim, depois de ter contado a par\u00e1bola do samaritano, Jesus vem com outra pergunta: <em>&#8220;Na sua opini\u00e3o, quem dos tr\u00eas se tornou o pr\u00f3ximo do homem assaltado?&#8221;<\/em> A contragosto o Doutor responde: \u201cAquele que praticou miseric\u00f3rdia com ele\u201d. De tanto desprezo que ele tinha pelo samaritano, nem disse o nome dele. E Jesus completa: <em>\u201cV\u00e1 e fa\u00e7a voc\u00ea a mesma coisa!\u201d<\/em> A condi\u00e7\u00e3o de <em>pr\u00f3ximo<\/em> n\u00e3o depende da ra\u00e7a, do parentesco, da simpatia, da vizinhan\u00e7a ou da religi\u00e3o. A humanidade n\u00e3o est\u00e1 dividida em <em>pr\u00f3ximos<\/em> e <em>n\u00e3o-pr\u00f3ximos. <\/em>Para voc\u00ea saber quem \u00e9 o seu pr\u00f3ximo, \u00e9 s\u00f3 voc\u00ea se aproximar, mover-se de compaix\u00e3o, e envolver outras pessoas na a\u00e7\u00e3o solid\u00e1ria da miseric\u00f3rdia. Se voc\u00ea se <em>aproximar<\/em>, o outro ser\u00e1 o seu <em>pr\u00f3ximo<\/em>. Depende de voc\u00ea e n\u00e3o do outro! Quem deve estar no centro das suas preocupa\u00e7\u00f5es n\u00e3o \u00e9 o seu ego com a sua vontade de herdar a vida eterna, mas sim o bem da pessoa do outro que sofre e precisa do seu amor. O caminho para a vida eterna passa pelo pr\u00f3ximo. N\u00e3o h\u00e1 outro caminho. V\u00e1, fa\u00e7a isso e voc\u00ea ter\u00e1 a vida garantida para sempre!\u201dJesus inverteu tudo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong> <\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>2. \u00a0Amor solid\u00e1rio se radicaliza \u00e9 na solid\u00e3o. A hist\u00f3ria de Jeov\u00e1, marxista ateu.<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Jeov\u00e1, nascido em Goi\u00e1s, se dizia marxista ateu. Tinha uma consci\u00eancia muito forte de solidariedade e de compromisso. Nos anos sessenta, na \u00e9poca da ditadura, diante da situa\u00e7\u00e3o de abandono e de explora\u00e7\u00e3o do povo, ele entrou num grupo de guerrilha. No fim dos anos sessenta, foi preso e barbaramente torturado. Mas durante a tortura, pendurado no pau de arara, ele dava risada na cara dos torturadores e dizia: \u201cVoc\u00eas s\u00e3o muito fracos! \u00c9 s\u00f3 assim que voc\u00eas pensam chegar a descobrir a verdade!\u201d De tanta raiva, os torturadores quebraram as duas pernas e um bra\u00e7o de Jeov\u00e1.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nesta situa\u00e7\u00e3o ele se encontrava na mesma cela com o padre Marcelo Carvalheira, que mais tarde ficou bispo de Guarabira e arcebispo de Jo\u00e3o Pessoa. Marcelo dizia para ele: \u201cMas Jeov\u00e1, por que voc\u00ea foi dizer essas coisas aos soldados. Eles podiam ter matado voc\u00ea!\u201d Jeov\u00e1 respondia: \u201cMas Marcelo, o sentido da vida da gente n\u00e3o \u00e9 para viver para os outros? N\u00e3o \u00e9 isto que voc\u00eas ensinam? A vida n\u00e3o \u00e9 lutar pela justi\u00e7a e a verdade?\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Num domingo, padre Marcelo teve licen\u00e7a para celebrar a missa para os presos pol\u00edticos. Um altar improvisado foi colocado no corredor. Jeov\u00e1 tamb\u00e9m p\u00f4de sair. Ficou perto do altar, n\u00e3o podia fugir mesmo com suas pernas engessadas. A missa foi seguindo o seu ritmo normal com muitas leituras, coment\u00e1rios e preces, que os presos pol\u00edticos gritavam uns para os outros \u00a0atrav\u00e9s das grades de suas celas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Quando chegou a hora da Comunh\u00e3o, Jeov\u00e1 disse baixinho para Marcelo: \u201cEu tamb\u00e9m quero!\u201d Marcelo contou que teve que fazer um racioc\u00ednio teol\u00f3gico r\u00e1pido, pois Jeov\u00e1 lhe tinha dito que era marxista ateu. Marcelo se perguntava: \u201cSer\u00e1 que posso dar a comunh\u00e3o a ele que diz n\u00e3o ter f\u00e9?\u201d A\u00ed Marcelo lembrou a frase de Jesus: \u201cProva de amor maior n\u00e3o h\u00e1 que doar a vida pelo irm\u00e3o!\u201d Ele tirou a conclus\u00e3o: \u201cPode, Sim!\u201d E deu a comunh\u00e3o para Jeov\u00e1.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Depois que recebeu a comunh\u00e3o, Jeov\u00e1 entrou num sil\u00eancio profundo. Recolheu-se para dentro de si numa estranha solid\u00e3o. Ficou assim um temp\u00e3o. Parecia esquecer-se de tudo. De volta na cela, continuou no seu sil\u00eancio. Depois de um certo tempo, ele disse para Marcelo: \u201cIsso foi bom! Muito bom! Tem que repetir!\u201d Foi a primeira vez que Jeov\u00e1 se deu conta da presen\u00e7a de Jesus em sua vida. Experimentou de perto, na pr\u00f3pria pele, como Jesus foi torturado na cruz e chegou a entregar sua vida pelos irm\u00e3os, inclusive por ele, Jeov\u00e1! Sentiu-se pr\u00f3ximo de Jesus, identificado com a sua causa em defesa dos pequenos e com a sua luta pela justi\u00e7a contra a prepot\u00eancia que explora o povo. Foi uma revolu\u00e7\u00e3o interior. \u201cMarcelo! Tem que repetir. Isso foi bom! Muito bom!\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A celebra\u00e7\u00e3o da mem\u00f3ria da paix\u00e3o, morte e ressurrei\u00e7\u00e3o de Jesus fez com que Jeov\u00e1 descobrisse um sentido mais profundo para a sua solidariedade. De repente, aquele breve momento de <strong>solid\u00e3o<\/strong> abriu uma dimens\u00e3o mais universal para a sua <strong>solidariedade<\/strong> e levou Jeov\u00e1 at\u00e9 \u00e0 raiz mais profunda do amor solid\u00e1rio. Radicalizou-se!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mais tarde, por ocasi\u00e3o do seq\u00fcestro do embaixador americano, Jeov\u00e1 foi um dos que foram libertados como exig\u00eancia para que o embaixador fosse solto. Jeov\u00e1 foi deportado para o exterior. Tempos depois, ele voltou clandestino para o Brasil e continuou sua atividade de conscientiza\u00e7\u00e3o e de resist\u00eancia contra a ditadura. Certo dia, num campo de futebol em Formosa de Goi\u00e1s, Jeov\u00e1 foi descoberto e abatido a tiros pela pol\u00edcia militar. A palavra de Jesus ilumina para n\u00f3s a vida de Jeov\u00e1: \u201cFelizes os que s\u00e3o perseguidos por causa da justi\u00e7a, porque dele \u00e9 o Reino do c\u00e9u\u201d (Mt 5,10).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong> <\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>3 &#8211; Amor solid\u00e1rio, mesmo morrendo, renasce. A hist\u00f3ria de uma reforma que esqueceu o amor<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cCom amor eterno eu te amei. Dei a minha vida por amor!\u201d Esta frase do nosso canto vem do livro do profeta Jeremias. Ela representa o in\u00edcio de uma curva importante na hist\u00f3ria do Povo de Deus. Atrav\u00e9s do profeta Deus dizia ao povo: <em>\u201cEu amei voc\u00ea com amor eterno; por isso conservei o meu amor por voc\u00ea\u201d<\/em> (Jr 31,3). Esta insist\u00eancia no amor aconteceu numa \u00e9poca em que tudo estava desintegrando. Nabucodonosor, rei da Babil\u00f4nia, j\u00e1 tinha feito uma primeira invas\u00e3o contra Jerusal\u00e9m em 598 aC. J\u00e1 tinha levado muita gente para o cativeiro (2Reis 24,10-17). Dentro da vis\u00e3o teol\u00f3gica oficial daquela \u00e9poca, n\u00e3o havia mais horizonte, estava tudo perdido. N\u00f3s perguntamos: Como e por que estava tudo perdido? E o que significa esta insist\u00eancia no amor <strong><em>eterno<\/em><\/strong>?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nas entrelinhas da frase de Jeremias, a gente sente e adivinha o seguinte. \u00c9 como se Deus, o namorado, dissesse ao povo, sua namorada: \u201cDepois de tudo que fez voc\u00ea j\u00e1 n\u00e3o mereceria ser amada. Mas meu amor por voc\u00ea n\u00e3o depende do que voc\u00ea fez por mim ou contra mim. Quando comecei a amar voc\u00ea, eu o fiz com um amor <strong><span style=\"text-decoration: underline;\">eterno<\/span><\/strong>. Por isso, apesar de tudo que voc\u00ea me fez, apesar de todos os seus defeitos, eu gosto de voc\u00ea, eu amo voc\u00ea para <strong>sempre<\/strong>! Pode confiar! <em>\u201cEu amei voc\u00ea com amor eterno; por isso conservei o meu amor por voc\u00ea\u201d <\/em>(Jr 31,3)<em>. <\/em>E a gente pergunta: \u201cEnt\u00e3o, o que houve para Deus falar assim? Qual foi a quebra que houve? E em que consiste esse amor eterno de Deus?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na raiz de tudo est\u00e1 a Alian\u00e7a que Deus fez com o povo depois da sa\u00edda do Egito. Libertando o povo, Deus lhe revelou seu amor e conquistou um t\u00edtulo de propriedade. \u00c9 como se dissesse: \u201cAgora voc\u00ea \u00e9 meu!\u201d (Is 43,1). Fez uma alian\u00e7a, uma esp\u00e9cie de contrato: \u201cAgora, voc\u00eas s\u00e3o o meu povo e eu sou o Deus de voc\u00eas\u201d (cf. Ex 19,4-6; 24,8). O sinal que os unia era a alian\u00e7a que selaram ao p\u00e9 do Monte Sinai. Deus, para expressar seu amor, libertou o povo da injusti\u00e7a e da opress\u00e3o do Fara\u00f3 e lhe indicou um caminho seguro para continuar a viver na liberdade e na justi\u00e7a. Este caminho s\u00e3o os Dez Mandamentos. E o povo para expressar seu amor a Deus, comprometeu-se solenemente a observar os Dez Mandamentos e, assim, manter-se dentro do rumo da justi\u00e7a e da liberdade (Ex 24,1-8).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Com outras palavras, na raiz de tudo est\u00e1 o amor gratuito de Deus, a livre escolha que Ele fez de amar <strong>sempre<\/strong> o seu povo, e est\u00e1 a resposta agradecida e amorosa do povo que se comprometeu a observar a Lei de Deus. Amor m\u00fatuo! A palavra <em>amor<\/em> em hebraico \u00e9 <strong>h\u00eased<\/strong>. A tradu\u00e7\u00e3o mais correta \u00e9 \u201camor fiel\u201d. Amor fiel da parte de Deus para com o povo, e amor fiel da parte do povo para com Deus. \u00c9 a express\u00e3o do compromisso m\u00fatuo que os dois assumiram de fidelidade \u00e0 Alian\u00e7a. O resultado desta alian\u00e7a de amor, fruto da observ\u00e2ncia da Lei de Deus, seria a conviv\u00eancia fraterna de partilha e de bem-estar numa harmonia total das pessoas entre si, com Deus e com a natureza. Numa palavra, seria vida em plenitude (Jo 10,10). Assim deveria ser. Assim seria o ideal.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na realidade, o povo n\u00e3o foi fiel em observar as cl\u00e1usulas da Alian\u00e7a. Os Reis manipulavam a Alian\u00e7a em favor dos seus pr\u00f3prios interesses. As conseq\u00fc\u00eancias desta infidelidade progressiva foram aparecendo na desarruma\u00e7\u00e3o e desintegra\u00e7\u00e3o da vida do povo. Apareceram o empobrecimento, a opress\u00e3o e a desumaniza\u00e7\u00e3o. Tudo desandou e em 722 aC, como resultado desta desintegra\u00e7\u00e3o, aconteceu a queda do Reino do Norte (Israel). O Estado de Israel e a sua capital Samaria foram destru\u00eddas pelos ass\u00edrios e seu \u00a0povo foi levado para o cativeiro.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A destrui\u00e7\u00e3o de Israel no Norte foi um aviso amea\u00e7ador para o povo de Jud\u00e1 no Sul: ou mudamos de vida, ou teremos o mesmo destino! Resolveram mudar de vida e proclamaram uma\u00a0 grande reforma. Foi a assim chamada Reforma Deuteronomista. Iniciada pelo rei Ezequias e assumida com for\u00e7a pelo rei Josias, esta reforma obrigava o povo a voltar \u00e0 observ\u00e2ncia da Lei. O acento ca\u00eda na observ\u00e2ncia, na responsa\u00adbilidade do povo, e n\u00e3o no amor.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A insist\u00eancia na observ\u00e2ncia era t\u00e3o forte que se chegou a dizer ao povo: Agora vai depender s\u00f3 de voc\u00eas. Diante de voc\u00eas est\u00e1 a op\u00e7\u00e3o de escolher entre a vida ou a morte, entre a b\u00ean\u00e7\u00e3o e a maldi\u00e7\u00e3o. Observando a Lei voc\u00eas ter\u00e3o a b\u00ean\u00e7\u00e3o e a vida. Transgredindo a Lei voc\u00eas atraem sobre si a maldi\u00e7\u00e3o e a morte. O cap\u00edtulo 28 de Deuteron\u00f4mio enumera as b\u00ean\u00e7\u00e3os como fruto da observ\u00e2ncia fiel (Dt 28,1-14) e os males como fruto das transgress\u00f5es e da infidelidade (Dt 28,15-68). Coisas terr\u00edveis e castigos inacredit\u00e1veis s\u00e3o enumerados para obrigar o povo a observar a lei e, assim, evitar o desastre da desintegra\u00e7\u00e3o, igual ao que aconteceu \u00e0 Israel. Prevaleceu o medo do castigo sobre a vontade de servir por amor.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Apesar de tudo isto, a reforma n\u00e3o teve \u00eaxito. Apesar de todos os avisos, eles n\u00e3o deram conta de observar a lei. Com a morte de Josias em 609 aC. morreu tamb\u00e9m a reforma. Onze anos depois, em 598 aC Nabucodonosor veio uma primeira vez. Outros onze anos depois, em 587 aC, na segunda vinda de Nabucodonosor, tudo foi destru\u00eddo, tudo! O templo, o rei, a terra, os pal\u00e1cios, o povo, os sacerdotes. Tudo que tinha sido sinal da presen\u00e7a de Deus desapareceu.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Quem semeia vento, colhe tempestade, diz o povo. Olhando esta situa\u00e7\u00e3o terr\u00edvel de destrui\u00e7\u00e3o e de abandono, o povo concluiu: colhemos o que plantamos; n\u00e3o adianta chorar leite derramado. Abrimos as comportas e a \u00e1gua invadiu e destruiu tudo. N\u00f3s quebramos o contrato da alian\u00e7a com Deus, e sobre n\u00f3s ca\u00edram as maldi\u00e7\u00f5es previstas no contrato (cf. Dt 28,15-68). N\u00f3s rompemos com Deus, e ele rompeu conosco. Acabou. Foi uma hist\u00f3ria bonita de 1300 anos, desde Abra\u00e3o e Sara, mas agora terminou. Copo quebrado em mil peda\u00e7os n\u00e3o tem conserto! Fim de linha.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Esta situa\u00e7\u00e3o de desespero e de desencanto est\u00e1 expressa, com todas as letras, na 3\u00aa Lamenta\u00e7\u00e3o. (Lam 3,1-18). Olhando assim a hist\u00f3ria, realmente, a conclus\u00e3o l\u00f3gica era esta: \u201cAcabou-se minha esperan\u00e7a que vinha de Jav\u00e9\u201d (Lam 3,17-18). A reforma deuteronomista, feita de cima para baixo e baseada s\u00f3 na observ\u00e2ncia, falhou e matou a esperan\u00e7a na alma do povo. Este sentimento de fracasso jogou o povo no mais fundo do po\u00e7o do desespero. Muita gente pulou fora do barco.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ora, foi a\u00ed, nesta situa\u00e7\u00e3o escura sem horizonte, que os profetas desenterraram a raiz do amor fiel, do amor solid\u00e1rio de Deus. Diz a mesma Lamenta\u00e7\u00e3o: <em>\u201cNo fundo da mem\u00f3ria tenho alguma coisa que me faz ter esperan\u00e7a!\u201d <\/em>(Lam 3,21). \u00c9 neste ambiente de desespero que aparece a frase de Jeremias como o in\u00edcio de uma curva importante na hist\u00f3ria do Povo de Deus: <em>\u201cEu amei voc\u00ea com amor eterno; por isso conservei o meu amor por voc\u00ea\u201d<\/em> (Jr 31,3). E esta outra afirma\u00e7\u00e3o de Isa\u00edas: <em>\u201cNum \u00edmpeto de ira, por um momento eu escondi de voc\u00ea o meu rosto; mas agora, com amor eterno, volto a me compadecer de voc\u00ea, diz Jav\u00e9, seu redentor\u201d<\/em> (Is 54,8). Foram os profetas, sobretudo Jeremias, Os\u00e9ias e Isa\u00edas, que souberam redescobrir esta dimens\u00e3o do amor gratuito de Deus e da sua promessa muito anterior \u00e0 observ\u00e2ncia (cf. Is 41,8-14; 49,15;Jr 31,31-37; Os 2,16). E ainda: <em>\u201c\u00c9 bom esperar em sil\u00eancio a salva\u00e7\u00e3o de Jav\u00e9. Embora castigue, ele se compadecer\u00e1 com grande amor\u201d<\/em> (Lm 3,26.32).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Foi a lembran\u00e7a do que Deus fez no passado que desenterrou do fundo da mem\u00f3ria do povo a esperan\u00e7a renovada no amor gratuito de Deus. Foi a\u00ed no cativeiro, no mais fundo do fundo do po\u00e7o, que recome\u00e7ou a releitura da hist\u00f3ria, n\u00e3o mais para provocar a observ\u00e2ncia da lei como tinha feito a reforma deuteronomista, mas para provocar no povo a certeza do amor maior de Deus que supera as falhas e d\u00e1 esperan\u00e7a. Descobriram que a hist\u00f3ria n\u00e3o come\u00e7ou com a imposi\u00e7\u00e3o de leis que pedem observ\u00e2ncia. Muito antes da lei eles tiveram a revela\u00e7\u00e3o do amor e da promessa de Deus que gera esperan\u00e7a e provoca a resposta de amor na observ\u00e2ncia dos Dez Mandamentos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Foi neste mesmo ambiente do cativeiro, que o povo redescobriu sua miss\u00e3o como Povo de Deus: n\u00e3o mais para ser um povo glorioso, colocado acima dos outros povos, mas sim para ser um povo servo, Servo Sofredor, cuja miss\u00e3o \u00e9 revelar o amor de Deus, irradiar a bondade de Deus, difundir a justi\u00e7a, n\u00e3o desanimar nunca e, assim, ser a Luz das Na\u00e7\u00f5es (Is 42,1-9; 49,1-6; 50,4-9; 52,13-53,12).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nasce a\u00ed uma nova experi\u00eancia de amor de Deus que pode ser definido como o AMOR SOLID\u00c1RIO DE DEUS para com seu povo. Foi a f\u00e9 no amor solid\u00e1rio de Deus que fez o povo renascer e ter esperan\u00e7a e que, como reflexo, produziu no povo atitudes e gestos de amor solid\u00e1rio. Renasce a alian\u00e7a, a experi\u00eancia do amor m\u00fatuo. \u00c9 o que est\u00e1 acontecendo hoje nas Comunidades Eclesiais de Base e aqui no Mosteiro do Servo Sofredor.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 sob este aspecto do amor solid\u00e1rio de Deus para com o seu povo que eles agora v\u00e3o reler toda a hist\u00f3ria, desde Abra\u00e3o at\u00e9 o tempo do cativeiro. \u00c9 sob este aspecto da promessa e da esperan\u00e7a, nascidas da experi\u00eancia do amor solid\u00e1rio de Deus, que vai ser articulada a reda\u00e7\u00e3o final do Antigo Testamento. O recado final, confirmado mais parte por Jesus, era este: <em>N\u00f3s podemos romper com Deus. Somos fracos. Ele, Deus, nunca rompe conosco. Seu amor \u00e9 eterno, nos d\u00e1 esperan\u00e7a e coragem para voltar.<\/em> \u00c9 o que est\u00e1 acontecendo aqui no Mosteiro.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 nesta perspectiva da f\u00e9, da esperan\u00e7a e do amor que devem ser lidas, relidas e meditadas as hist\u00f3rias da cria\u00e7\u00e3o, do para\u00edso, da alian\u00e7a com No\u00e9, da chamada de Abra\u00e3o, da caminhada de Abra\u00e3o, da liberta\u00e7\u00e3o da opress\u00e3o do Egito e da conclus\u00e3o da Alian\u00e7a com o compromisso da observ\u00e2ncia dos Dez mandamentos. Agora, eles observam a Lei n\u00e3o para merecer nem para escapar do medo do castigo, mas para expressar a gratid\u00e3o e o amor que a a\u00e7\u00e3o de Deus despertou no povo. Quem procura viver e conviver na intimidade deste Deus, necessariamente vai irradiar os gestos do amor solid\u00e1rio deste Deus. Como dizia Jesus: Quem v\u00ea a mim, v\u00ea o Pai. \u00c9 o que veremos na hist\u00f3ria do amor expressa nos salmos 146 e 119.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong> <\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>4 &#8211; Amor solid\u00e1rio se alimenta no amor maior de Deus. A hist\u00f3ria do amor expressa nos Salmos 146 e 119<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><span style=\"text-decoration: underline;\">O Salmo 145<\/span><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A viv\u00eancia do amor solid\u00e1rio se alimenta no amor maior e eterno do pr\u00f3prio Deus. Um retrato falado da hist\u00f3ria deste amor solid\u00e1rio de Deus est\u00e1 no salmo 146; \u00a0retrato que foi confirmado por Jesus.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O Salmo 146(145) convida a gente para louvar e agradecer a bondade de Deus. O salmista imagina o amor solid\u00e1rio de Deus a partir da bondade que ele via acontecer nas pessoas. As oito bem-aventuran\u00e7as de Deus, que aparecem neste salmo, eram como os oito aspectos do amor solid\u00e1rio que via acontecer nas pessoas. Pois Deus, ele mesmo, n\u00e3o pode ser visto. <em>\u201cNunca ningu\u00e9m viu a Deus\u201d<\/em>, diz S\u00e3o Jo\u00e3o (1Jo 4,12), nem \u00e9 poss\u00edvel v\u00ea-lo (\u00cax 33,10.23). <em>\u201cEle habita uma luz inacess\u00edvel\u201d<\/em> (1Tim 6,16). Mas, se n\u00f3s somos a imagem de Deus, ent\u00e3o a bondade de Deus deve ser como a bondade que aparece na vida de tanta gente boa no mundo inteiro. A bondade das pessoas em querer amar ajudar os outros e am\u00e1-los \u00e9 um dom que Deus colocou no cora\u00e7\u00e3o humano. \u00c9 algo do pr\u00f3prio Deus, pois Deus, assim diz a B\u00edblia, <em>\u201cnos fez \u00e0 sua imagem e semelhan\u00e7a\u201d<\/em> (Gn 1,26). O salmista fez o retrato do amor solid\u00e1rio de Deus do jeito que ele via acontecer nas pessoas que procuravam ter amor solid\u00e1rio com o pr\u00f3ximo. \u00c9 retrato falado de Deus. \u00c9 auto-retrato nosso.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Olhando no espelho do salmo 146 e vendo nele nossa pr\u00f3pria imagem, olhamos para Deus e descobrimos como Ele vive e pratica as oito bem-aventuran\u00e7as do amor solid\u00e1rio. Eis o texto do salmo 146:<\/p>\n<p>RETRATO FALADO DEUS<\/p>\n<p>Confirmado por Jesus<\/p>\n<p>Aleluia! Louve a Jav\u00e9, \u00f3 minha alma!<\/p>\n<p>Vou louvar a Jav\u00e9, enquanto eu viver.<\/p>\n<p>Vou tocar ao meu Deus, enquanto existir!<\/p>\n<p>N\u00e3o coloquem a seguran\u00e7a nos poderosos,<\/p>\n<p>num homem que n\u00e3o pode salvar!<\/p>\n<p>Exalam o esp\u00edrito e voltam ao p\u00f3,<\/p>\n<p>e no mesmo dia perecem seus planos!<\/p>\n<p>Feliz quem se ap\u00f3ia no Deus de Jac\u00f3,<\/p>\n<p>quem coloca sua esperan\u00e7a em Jav\u00e9 seu Deus.<\/p>\n<p>Foi ele quem fez o c\u00e9u e a terra,<\/p>\n<p>o mar e tudo o que nele existe.<\/p>\n<p>Ele mant\u00e9m sua fidelidade para sempre,<\/p>\n<p><em>faz justi\u00e7a aos oprimidos,<\/em><\/p>\n<p><em>d\u00e1 p\u00e3o aos famintos.<\/em><\/p>\n<p><em>liberta os prisioneiros.<\/em><\/p>\n<p><em>abre os olhos dos cegos.<\/em><\/p>\n<p><em>endireita os encurvados.<\/em><\/p>\n<p><em>ama os justos.<\/em><\/p>\n<p><em>protege os estrangeiros,<\/em><\/p>\n<p><em>sustenta o \u00f3rf\u00e3o e a vi\u00fava,<\/em><\/p>\n<p>mas transtorna o caminho dos injustos.<\/p>\n<p>Jav\u00e9 reina para sempre.<\/p>\n<p>O teu Deus, \u00f3 Si\u00e3o, reina de gera\u00e7\u00e3o em gera\u00e7\u00e3o!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Aleluia!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nos vers\u00edculos grifados (Sl 146,6b a 9), temos as oito bem-aventuran\u00e7as do Antigo Testamento que descrevem como o salmista imaginava o amor solid\u00e1rio de Deus para conosco. Deus (1) faz justi\u00e7a aos oprimidos, (2) d\u00e1 p\u00e3o aos famintos, (3) liberta os prisioneiros, (4) abre os olhos dos cegos, (5) endireita os encurvados, (6) ama os justos, (7) protege os estrangeiros, (8) sustenta o \u00f3rf\u00e3o e a vi\u00fava. Temos aqui o retrato falado do Amor Solid\u00e1rio de Deus. \u00c9 por meio deste amor que Deus \u201ctranstorna o caminho dos injustos\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Como manter em n\u00f3s a experi\u00eancia viva do Amor Solid\u00e1rio de Deus e n\u00e3o cair no legalismo da observ\u00e2ncia da lei que, no passado, jogou o povo no desespero? Como entender a Lei de Deus? O Salmo 119 \u00e9 uma resposta bonita a esta pergunta t\u00e3o atual.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><span style=\"text-decoration: underline;\">O Salmo 119<\/span><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Vimos que a insist\u00eancia exagerada na observ\u00e2ncia da Lei de Deus pode levar ao esquecimento e \u00e0 morte do amor e fazer com que as pessoas se desintegrem num desespero sem horizonte, amea\u00e7ados e condenados por um Deus severo que s\u00f3 olha a lei e a sua observ\u00e2ncia. As pessoas obedecem por medo e n\u00e3o por amor. Vimos como isto aconteceu na hist\u00f3ria da reforma que esqueceu o amor.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O Salmo 119(118) nos deixa perceber como eles faziam para impedir que a insist\u00eancia na observ\u00e2ncia da lei matasse novamente o amor solid\u00e1rio e tamb\u00e9m nos faz entender qual era o ambiente em que nasceu aquela afirma\u00e7\u00e3o t\u00e3o bonita de Jeremias: <em>\u201cEu amei voc\u00ea com amor eterno; por isso conservei o meu amor por voc\u00ea\u201d<\/em> (Jr 31,3).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Salmo 119(118) \u00e9 o salmo mais comprido da B\u00edblia. S\u00e3o 176 vers\u00edculos, e em cada um destes 176 vers\u00edculos o salmista usa 176 vezes a palavra <strong>LEI<\/strong> ou algum sin\u00f4nimo. Ele medita, reflete, ama, vive, observa, procura, divulga, rumina, busca, sem parar, a <em>Lei do Senhor<\/em>. A gente se pergunta: Em que ser\u00e1 que o salmista estava pensando quando usava e repetia a palavra \u201cLei do Senhor\u201d? Qual a imagem ou id\u00e9ia que ele se fazia da Lei? Ser\u00e1 que \u00e9 a mesma id\u00e9ia da reforma deuteronomista? Lei que amea\u00e7a, condena e exclui? Ser\u00e1 que \u00e9 a mesma imagem que n\u00f3s temos quando pensamos em Lei? A resposta a estas perguntas \u00e9 dada pelo pr\u00f3prio salmo, de duas maneiras: de maneira direta e de maneira indireta.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>A maneira direta<\/strong>. A maneira direta transparece nos sin\u00f4nimos que ele usa para indicar a Lei do Senhor. Eis alguns dos sin\u00f4nimos que aparecem nos 176 vers\u00edculos: Testemunho, Norma, Caminho, Preceito, Estatuto, Mandamento, Palavra, Promessa, Maravilha, Amor, Direito, Bem, Fidelidade e outros. O que predomina nestes sin\u00f4nimos n\u00e3o \u00e9 a id\u00e9ia de uma imposi\u00e7\u00e3o autorit\u00e1ria e jur\u00eddica de um legislador an\u00f4nimo, mas sim a preocupa\u00e7\u00e3o de um amigo ou de um pai amoroso que quer indicar um rumo para seus amigos, seus filhos, sua filhas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A maneira direta tamb\u00e9m transparece quando o salmo fala do objetivo que a observ\u00e2ncia da lei quer alcan\u00e7ar na vida das pessoas. Para o salmista, o objetivo \u00e9 a <strong><em>felicidade<\/em><\/strong>, pois logo nos primeiros dois vers\u00edculos ele exclama duas vezes em seguida: \u201cFelizes! Felizes!\u201d A medita\u00e7\u00e3o e a observ\u00e2ncia da Lei do Senhor s\u00e3o para ele o caminho para se atingir a felicidade; viver feliz, sentir-se bem diante de Deus, procurar Deus de todo o cora\u00e7\u00e3o, encher-se de amor. A sua maneira de olhar a observ\u00e2ncia da lei n\u00e3o tem nada de amea\u00e7a ou de legalismo. N\u00e3o provoca medo, mas sim vontade de amar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>A maneira indireta<\/strong>. \u00c0 primeira vista, o salmista se apresenta como um apaixonado pela lei de Deus, pois dela fala do come\u00e7o ao fim, em todos os vers\u00edculos, 176 vezes! Mas o curioso \u00e9 que ele nunca diz o que a lei pede. Nunca cita alguma norma ou decreto da lei. Nos primeiros tr\u00eas vers\u00edculos ele afirma que quer falar <em><span style=\"text-decoration: underline;\">sobre<\/span><\/em> a Lei de Jav\u00e9, mas j\u00e1 no vers\u00edculo 4 ele muda o discurso e come\u00e7a falar diretamente com Deus, o Autor da lei, e diz:<em> \u201cTu promulgaste os teus preceitos para serem observados \u00e0 risca\u201d<\/em> (Sl 119,4). E desde o vers\u00edculo 4 at\u00e9 o fim, (com exce\u00e7\u00e3o talvez do vers\u00edculo 115) ele n\u00e3o fala mais <span style=\"text-decoration: underline;\">sobre<\/span> a lei, mas fala diretamente com o pr\u00f3prio Autor da Lei, Deus. Assim, em vez de ser uma medita\u00e7\u00e3o sobre a Lei, o salmo se tornou uma conversa amorosa com Deus que nos deu a lei e que, at\u00e9 hoje, continua entregando-a a todos que o desejam. Em todos os vers\u00edculos, de 4 at\u00e9 176, o salmista fala na segunda pessoa do singular e se dirige ao TU de Deus. A paix\u00e3o dele n\u00e3o \u00e9 a lei. A paix\u00e3o dele \u00e9 o autor da lei, o pr\u00f3prio Deus, Jav\u00e9, Ele mesmo! Eis umas afirma\u00e7\u00f5es do salmista que aparecem constantemente ao longo dos 176 vers\u00edculos do salmo 119 e que confirmam esta paix\u00e3o por Deus, o autor da Lei: \u201cMinhas del\u00edcias s\u00e3o os teus mandamentos que eu amo tanto\u201d (Sl 119,47). Veja tamb\u00e9m: Sl 119, 97.113.119.127.132.140.159.163.165.167. Em outro lugar ele afirma: \u201cque teu amor seja a minha consola\u00e7\u00e3o conforme a promessa ao teu servo\u201d (Sl 119,76) Veja tamb\u00e9m: Sl 119,64.124.149. Em outro lugar ele fala da vida plana que a Lei lhe comunica: \u201cTua promessa me traz vida\u201d (Sl 119,50). Veja tamb\u00e9m: Sl 119, 25.37.40. 77. 93.116. Aqui sobra pouco espa\u00e7o para o medo de castigo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 aqui, neste amor pelo Autor da lei, que est\u00e1 tamb\u00e9m a chave principal para entendermos o sentido e o objetivo da Regra do Carmo quando ela pede para a gente <em>\u201cMeditar dia e noite na lei do Senhor\u201d<\/em>. O amor ao Autor da lei faz a gente olhar a lei com um olhar diferente e nos ajuda a entender como n\u00f3s carmelitas devemos \u201cMeditar dia e noite na Lei do Senhor\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong> <\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>5 &#8211; Amor solid\u00e1rio irradia amor e gera testemunhos. A Hist\u00f3ria de mulheres e homens de todos os tempos.<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Foi a partir da f\u00e9 no amor solid\u00e1rio de Deus, que nasceu o povo do Deus. Se o fruto \u00e9 igual \u00e0 sua semente, ent\u00e3o os membros deste povo ser\u00e3o necessariamente uma revela\u00e7\u00e3o e um reflexo vivo deste amor solid\u00e1rio. Tal pai, tal filho! A cara do pai! Jesus dizia: \u201cQuem v\u00ea a mim v\u00ea o Pai!\u201d (Jo 14,9). \u201cAssim como o Pai me amou, assim tamb\u00e9m eu amei voc\u00eas. Permane\u00e7am no meu amor\u201d (Jo 15,9). A B\u00edblia descreve as hist\u00f3rias dos membros do povo de Deus. S\u00e3o muitos! Uma multid\u00e3o imensa. Homens e mulheres, velhos e crian\u00e7as, rapazes e mo\u00e7as, casados e solteiros, santos e safados, grandes e pequenos, vindos de quase todas as ra\u00e7as e regi\u00f5es da terra. A B\u00edblia \u00e9 o \u00e1lbum que traz o retrato deles. <strong> <\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O conjunto destas hist\u00f3rias narradas na B\u00edblia \u00e9 como o panorama majestoso de uma serra bonita, vista de longe. Voc\u00ea admira os altos picos de muitos e variados tamanhos, destacados contra o fundo luminoso do c\u00e9u. Chegando mais perto, os picos desaparecem da vista e voc\u00ea v\u00ea o ch\u00e3o, a base, que sustenta os picos e que voc\u00ea n\u00e3o enxergava de longe. Mas sem a base, os picos n\u00e3o existiriam.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O povo de Deus tem as suas figuras de destaque, seus picos: os grandes profetas, os santos, as santas, as lideran\u00e7as que aparecem. Mas na raiz dos picos est\u00e1 a base. O ch\u00e3o da vida, que n\u00e3o tem destaque e n\u00e3o aparece de longe. Se Jeremias foi um grande profeta, \u00e9 porque teve pai e m\u00e3e, teve uma comunidade, teve uma tradi\u00e7\u00e3o que o gerou e sustentou. Jesus teve m\u00e3e e pai, teve parentes, fam\u00edlia, teve comunidade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Antes de falar dos picos e descrever os galhos bonitos das \u00e1rvores, vamos lembrar a base, a raiz que n\u00e3o aparece, mas sem a qual n\u00e3o haveria \u00e1rvore nem galho bonito. O amor solid\u00e1rio dos grandes profetas vem desta raiz escondida dos pequenos. Lembramos s\u00f3 alguns deles. Doze! A multid\u00e3o delas, s\u00f3 Deus a conhece.<\/p>\n<p><strong>O Amor Solid\u00e1rio dos pequenos que quase n\u00e3o aparece nos jornais<\/strong><\/p>\n<p>1. As parteiras (\u00caxodo\u00a0 1,15-22)<\/p>\n<p>2. A m\u00e3e e a irm\u00e3 de Mois\u00e9s (\u00caxodo 2,1-10)<\/p>\n<p>3. O sogro de Mois\u00e9s (\u00caxodo 4,18; 18,1-27)<\/p>\n<p>4. Raab, a prostituta (Josu\u00e9 2,1-24)<\/p>\n<p>5. A filha de Jefte (Ju\u00edzes 11,29-40)<\/p>\n<p>6. Rute, a estrangeira (Rute 1-4)<\/p>\n<p>7. Ana, m\u00e3e de Samuel (1Samuel 1,1 a 2,10)<\/p>\n<p>8. A namorada de Jeremias (Jeremias 12,7)<\/p>\n<p>9. A m\u00e3e dos Macabeus (2Macabeus 7,1-42)<\/p>\n<p>10. O velho Eleazar (2Macabeus 6,18-31).<\/p>\n<p>11. A mulher an\u00f4nima do perfume car\u00edssimo (Marcos 14,3-9)<\/p>\n<p>12. As m\u00e3es das Comunidades (2Tim\u00f3teo 1,3-5)<\/p>\n<p><strong>Amor solid\u00e1rio que aparece nos frutos do povo an\u00f4nimo<\/strong><\/p>\n<p>1. O pai Abra\u00e3o<\/p>\n<p>2. O levita Mois\u00e9s<\/p>\n<p>3. O profeta Elias<\/p>\n<p>4. O casal prof\u00e9tico Os\u00e9ias e Gomer<\/p>\n<p>5. O profeta Jeremias<\/p>\n<p>6. Jo\u00e3o Batista, o maior do Antigo Testamento<\/p>\n<p>7. Barnab\u00e9, o quebra-galho amigo e generoso<\/p>\n<p>8. Paulo de Tarso, o ap\u00f3stolo dos gentios<\/p>\n<p>9. Estev\u00e3o, o primeiro m\u00e1rtir<\/p>\n<p>10. Maria Madalena, a grande amiga de Jesus<\/p>\n<p>11. Jos\u00e9, o carpinteiro<\/p>\n<p>12. Maria, a M\u00e3e de Jesus<\/p>\n<p><strong> <\/strong><\/p>\n<p><strong> <\/strong><\/p>\n<p><strong>6 &#8211; Amor solid\u00e1rio se revela em Jesus, o filho de Maria. A hist\u00f3ria da encarna\u00e7\u00e3o das oito bem-aventuran\u00e7as em Jesus.<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Jesus irradiava o Amor Solid\u00e1rio de Deus para com os pobres, com os que choram, com os mansos, com os que t\u00eam fome e sede de Justi\u00e7a, com os misericordiosos, como os puros de cora\u00e7\u00e3o, como os que lutam pela paz e com os que s\u00e3o perseguidos por causa da justi\u00e7a: Jesus era a encarna\u00e7\u00e3o revista e aumentada das oito bem-aventuran\u00e7as do Salmo 146.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>O Amor Solid\u00e1rio de Jesus para com os pobres em esp\u00edrito<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Jesus via como os doutores da lei ensinavam aos pobres a tradi\u00e7\u00e3o dos antigos (Mc 7,1-5). Eles explicavam tudo direitinho conforme a letra da lei, mas a muitos deles faltava o <strong><em>esp\u00edrito<\/em><\/strong> da lei. Em nome da fidelidade \u00e0 letra, querendo ou n\u00e3o, eles marginalizavam muita gente: os pobres, os doentes, os deficientes f\u00edsicos, as mulheres, os impuros, as crian\u00e7as, os pobres. Diziam que a pobreza, o sofrimento, os males da vida e as defici\u00eancias eram castigos de Deus. Em vez de ensinar a lei de Deus como express\u00e3o do rosto carinhoso do Pai, eles escondiam a imagem do Pai atr\u00e1s de uma m\u00e1scara de normas e obriga\u00e7\u00f5es que tornavam imposs\u00edvel a observ\u00e2ncia da lei para os pobres (Mc 7,6-13).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Jesus experimentava Deus de maneira diferente. Sentia Deus como Pai, como M\u00e3e. Ele tinha um outro <strong><em>esp\u00edrito<\/em><\/strong>, que o fazia meditar a letra da lei com um novo olhar e o levava a escutar os pobres com muita ternura. Jesus tamb\u00e9m era pobre. Vivia no meio dos pobres da sua terra, igual a eles.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Por\u00e9m, para Jesus, nascer pobre e ser pobre n\u00e3o eram uma fatalidade nem um castigo de Deus, mas sim a express\u00e3o de um apelo de Deus. Jesus n\u00e3o era um pobre revoltado com inveja daqueles ricos que acumulavam toda a riqueza para si. Na sua pobreza Jesus tinha uma riqueza maior: <em>Deus estava com ele<\/em>. O Reino de Deus vivia nele e o <strong><em>esp\u00edrito<\/em><\/strong> do Reino o levava a lutar para que a injusti\u00e7a fosse eliminada e os bens da terra fossem partilhados e se tornassem fonte de fraterni\u00addade para todos. Esta riqueza do Reino de Deus e da fraternidade, Jesus a irradiava no meio dos pobres e queria que todos a descobrissem.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Jesus e seus disc\u00edpulos viviam misturados com os pobres e os exclu\u00eddos (Mc 2,16; 1,41; Lc 7,37). Jesus reconhecia a riqueza e o valor dos pobres (Mt 11,25-26; Lc 21,1-4), e proclamava-os felizes (Lc 6,20; Mt 5,3). N\u00e3o possu\u00eda nada para si, nem mesmo uma pedra para reclinar a cabe\u00e7a (Lc 9,58). E a quem desejava segui-lo para conviver com ele, mandava escolher: ou Deus, ou o dinheiro! (Mt 6,24). Mandava fazer op\u00e7\u00e3o pelos pobres (Mc 10,21). A pobreza, que caracterizava a vida de Jesus, caracterizava tamb\u00e9m a sua miss\u00e3o. Ao contr\u00e1rio dos outros mission\u00e1rios (Mt 23,15), os disc\u00edpulos e as disc\u00edpulas de Jesus n\u00e3o podiam levar nada, nem ouro, nem prata, nem duas t\u00fanicas, nem sacola, nem sand\u00e1lias, mas somente a Paz! (Mt 10,9-10; Lc 10,4-5). Eram pobres em esp\u00edrito, pois iam <em>animados pelo mesmo esp\u00edrito de Jesus.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Jesus anunciava o Reino para todos, para pobres e ricos. N\u00e3o exclu\u00eda ningu\u00e9m. Mas o anunciava a partir dos pobres e exclu\u00eddos: <em>prostitutas<\/em> eram preferidas aos fariseus (Mt 21,31\u201332; Lc 7,37-50); <em>publicanos<\/em><strong> <\/strong>tinham preced\u00eancia sobre os escribas (Lc 18,9-14; 19,1-10); <em>leprosos<\/em><strong> <\/strong>eram acolhidos e limpos (Mc 1,44; Mt 8,2-3; 11,5; Lc 17,12-14); <em>doentes<\/em><strong> <\/strong>eram curados em dia de s\u00e1bado (Mc 3,1-5; Lc 14,1-6; 13,10-13); <em>mulheres<\/em><strong> <\/strong>faziam parte do grupo que acompanhava Jesus (Lc 8,1-3; 23,49.55; Mc 15,40-41); <em>crian\u00e7as<\/em><strong> <\/strong>eram apresentadas como professores de adultos (Mt 18,1-4; 19,13-15; Lc 9,47-48); <em>samaritanos<\/em><strong> <\/strong>eram apresentados como modelo para os judeus (Lc 10,33; 17,16); <em>famintos<\/em><strong> <\/strong>eram acolhidos como rebanho sem pastor (Mc 6,34; Mt 9,36; 15,32; Jo 6, 5-11); <em>cegos <\/em>recebiam a vis\u00e3o (Mc 8,22-26; Mc 10,46-52; Jo 9,6-7) e os fariseus eram declarados cegos (Mt 23,16); <em>possessos<\/em><strong> <\/strong>eram libertados do poder do mal (Lc 11,14-20); a mulher <em>ad\u00faltera<\/em><strong> <\/strong>era acolhida e defendida contra os que a condenavam em nome da lei de Deus (Jo 8,2-11); <em>estrangeiros<\/em><strong> <\/strong>eram acolhidos e atendidos (Lc 7,2-10; Mc 7,24-30; Mt 15,22). Os pobres perceberam a novidade e acolheram Jesus dizendo: <em>\u201cUm novo ensina\u00admento dado com autoridade!\u201d<\/em> (Mc 1,27), diferente dos escribas e dos fariseus (Mc 1,22). Todo este carinho de Jesus na conviv\u00eancia com os pobres era a maneira de ele revelar a prefer\u00eancia do amor solid\u00e1rio do Pai para com eles.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>O Amor Solid\u00e1rio de Jesus para com os que choram<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o existe pessoa neste mundo que nunca chorou. Nem Jesus escapa. Nascemos chorando. Uns choram mais que os outros. O choro pode ter muitas causas: choro de raiva e de \u00f3dio, choro de amor e de compaix\u00e3o. Choro alegre e choro triste. Jesus chorou v\u00e1rias vezes. Chorou sobre Jerusal\u00e9m, a capital do seu povo, porque ela n\u00e3o soube perceber o dia da visita do Senhor (Lc 19,41-44). Jesus se comovia diante do povo faminto que o procurava (Mc 6,34). O evangelho de Mateus diz que, diante da tristeza de tanta gente, causada pela pobreza e opress\u00e3o, Jesus imitava o Servo de Jav\u00e9 anunciado por Isa\u00edas: &#8220;Ele tomou sobre si as nossas enfermidades e carregou as nossas doen\u00e7as&#8221; (Mt 8,17).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Jesus deve ter enxugado muitas l\u00e1grimas e devolvido a alegria a muita gente. Ele imitava Deus que, como diz Isaias, \u201cenxugar\u00e1 as l\u00e1grimas de todas as faces, e eliminar\u00e1 da terra inteira a vergonha do seu povo\u201d (Is 25,8). Como devem ficado alegres a vi\u00fava de Na\u00edm, cujo filho \u00fanico ele ressuscitou (Lc 7,11-17); a Canan\u00e9ia, cuja filha curou (Mc 7,24-30); a mulher de hemorragia irregular que se curou gra\u00e7as a sua f\u00e9 em Jesus (Mc 5,25-34); o cego Bartimeu (Mc 10,46-52), o velho Zaqueu (Lc 19,1-10), a Samaritana (Jo 4,7-42), a mulher ad\u00faltera (Jo 8,1-11), a mulher curvada (Lc 13,11), Madalena (Lc 8,2; Jo 20,11-18), Marta e Maria, irm\u00e3s de L\u00e1zaro (Jo 11,17-44), tantos e tantas! N\u00e3o d\u00e1 para enumerar todos os casos de afli\u00e7\u00e3o que se converteram em consolo e alegria gra\u00e7as \u00e0 bondade de Jesus.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ele combateu os males que faziam o povo sofrer e chorar: combateu a <em>fome<\/em>, pois alimentou os famintos (Mc 6,30-44; 8,1-10); combateu a <em>doen\u00e7a<\/em>, pois curou os enfermos (Mt 4, 24; 8,16-17); combateu os <em>males da natureza<\/em>, pois acalmou as tempestades (Mt 14,32; 8,23-27); expulsou os <em>maus esp\u00edritos<\/em> e os proibia de falar (Mc 1,23-27.34; Lc 4,13); combateu a <em>ignor\u00e2ncia<\/em>, pois ensinava o povo (Mt 9, 35; Mc 1,22); combateu o <em>abandono<\/em> <em>e a solid\u00e3o<\/em>, pois acolhia as pessoas e n\u00e3o as marginalizava (Mt 9,36; 11,28-30); combateu <em>as leis<\/em> <em>que<\/em> <em>oprimiam<\/em>, pois colocou o ser humano como objetivo de todas as leis (Mt 12,1-5; 23,13-15; Mc 2,23-28); combateu a <em>opress\u00e3o<\/em>, pois acolhia o povo oprimido (Mt 11,28-30; Lc 22,25); combateu o <em>medo<\/em>, pois dizia sempre: \u201cN\u00e3o tenham medo!\u201d (Mt 28,10; Mc 6,50).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Consolando assim os tristes e irradiando alegria do Reino, Jesus revelava o amor solid\u00e1rio do Pai. Ele mesmo se alegrava vendo a alegria dos pequenos: <em>&#8220;Eu te louvo, Pai, Senhor do c\u00e9u e da terra, porque escondeste essas coisas aos s\u00e1bios e inteligentes, e as revelaste aos pequeninos. Sim, Pai, porque assim foi do teu agrado\u201d<\/em> (Lc 11,21; Mt 11,25-26).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>O Amor Solid\u00e1rio de Jesus para com os mansos<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Jesus disse: \u201cVenham a mim todos voc\u00eas que est\u00e3o cansados de carregar o peso do seu fardo, e eu lhes darei descanso. Carreguem a minha carga e aprendam de mim, porque sou manso e humilde de cora\u00e7\u00e3o.&#8221; (Mt 11,28-30). A mansid\u00e3o a que Jesus se refere n\u00e3o \u00e9 a de uma pessoa sem fibra, sem vontade pr\u00f3pria, que aprova tudo e concorda com tudo, pois Jesus n\u00e3o era assim. A mansid\u00e3o a que ele se refere \u00e9 a mansid\u00e3o resistente do Servo de Jav\u00e9, anunciado pelo profeta Isa\u00edas: \u201cEle n\u00e3o grita, nem levanta a voz, n\u00e3o solta berros pelas ruas, n\u00e3o quebra a planta machucada, nem apaga o pavio que ainda solta fuma\u00e7a. Com fidelidade promove o direito sem desanimar nem desfalecer, at\u00e9 estabelecer o direito sobre a terra\u201d (Is 42,2-4).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Assim era a mansid\u00e3o de Jesus. Isa\u00edas completa a descri\u00e7\u00e3o da mansid\u00e3o dizendo que ela consiste em \u201csaber dizer uma palavra de conforto a quem est\u00e1 desanimado\u201d (Is 50,4). E o pr\u00f3prio Servo acrescenta: \u201cO Senhor me abriu os ouvidos e eu n\u00e3o resisti, nem voltei atr\u00e1s. Ofereci minhas costas aos que me batiam e o queixo aos que me arrancavam a barba. N\u00e3o escondi o rosto para evitar insultos e escarros. O Senhor \u00e9 a minha ajuda! Por isso, estas ofensas n\u00e3o me desmoralizam. Fa\u00e7o cara dura como pedra, sabendo que n\u00e3o vou ser um fracassado\u201d (Is 50,5-7).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A mansid\u00e3o de Jesus \u00e9 a resist\u00eancia que nasce da certeza de f\u00e9 de que a vit\u00f3ria final n\u00e3o ser\u00e1 dos violentos, dos corruptos, dos prepotentes, mas sim dos que tem a mansid\u00e3o do Servo. Jesus era uma amostra viva desta mansid\u00e3o resistente. Para ele, tudo se resumia em  imitar Deus: &#8220;Voc\u00eas ouviram o que foi dito: Ame o seu pr\u00f3ximo, e odeie o seu inimigo. Eu, por\u00e9m, lhes digo: amem os seus inimigos, e rezem por aqueles que perseguem voc\u00eas! Assim voc\u00eas se tornar\u00e3o filhos do Pai que est\u00e1 no c\u00e9u, porque ele faz o sol nascer sobre maus e bons, e a chuva cair sobre justos e injustos. Portanto, sejam perfeitos como \u00e9 perfeito o Pai de voc\u00eas que est\u00e1 no c\u00e9u&#8221; (Mt 5,43-45 e 48; cf Lc 6,36).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Jesus imitou o Pai e revelou o seu amor. Cada gesto, cada palavra de Jesus, desde o nascimento at\u00e9 \u00e0 morte na cruz foi um crescendo cont\u00ednuo. A manifesta\u00e7\u00e3o plena desta mansid\u00e3o foi quando na Cruz ofereceu o perd\u00e3o ao soldado que o torturava e matava. O soldado, empregado do imp\u00e9rio, prendeu o pulso de Jesus no bra\u00e7o da cruz, colocou um prego e come\u00e7ou a bater. Deu v\u00e1rias pancadas. O sangue espirrava. O corpo de Jesus se contorcia de dor. O soldado bruto e ignorante, alheio ao que estava fazendo e ao que estava acontecendo ao redor, continuava batendo como se fosse um prego na parede da sua casa para pendurar um quadro. Neste momento Jesus dirige ao Pai esta prece: <em>\u201cPai, perdoa! Eles n\u00e3o sabem o que est\u00e3o fazendo!\u201d<\/em> (Lc 23,34) Olhando aquele soldado ignorante e bruto, Jesus teve d\u00f3 do rapaz e rezou por ele e por todos n\u00f3s: <em>\u201cPai, perdoa!\u201d<\/em> E ainda arrumou uma desculpa: \u201cS\u00e3o ignorantes. N\u00e3o sabem o que est\u00e3o fazendo!\u201d Diante do Pai, Jesus se fez solid\u00e1rio com aqueles que o torturavam e maltratavam. Era como o irm\u00e3o que vem com seus irm\u00e3os assassinos diante do juiz e ele, v\u00edtima dos pr\u00f3prios irm\u00e3os, diz ao juiz: \u201cS\u00e3o meus irm\u00e3os, sabe! S\u00e3o uns ignorantes. Perdoa. Eles v\u00e3o melhorar!\u201d Era como se Jesus estivesse com medo que o m\u00ednimo de raiva contra o rapaz que o matava pudesse apagar nele o \u00faltimo restinho de humanidade que ainda sobrava nele. Este gesto incr\u00edvel de humanidade e de mansid\u00e3o foi a maior revela\u00e7\u00e3o do amor de Deus. Jesus podia morrer: \u201cEst\u00e1 tudo consumado!\u201d (Jo 19,30). Sua vida foi uma revela\u00e7\u00e3o do amor solid\u00e1rio do Pai.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>O Amor Solid\u00e1rio de Jesus para com os que t\u00eam fome e sede de justi\u00e7a<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No tempo de Jesus, muitos escribas e fariseus ensinavam que a <em>justi\u00e7a<\/em> s\u00f3 se alcan\u00e7aria observando a lei at\u00e9 nos seus m\u00ednimos detalhes. Era aquela mesma vis\u00e3o da reforma deuteronomista e do Doutor da par\u00e1bola do Bom samaritano. O relacionamento com Deus se tornava comercial: Eu ofere\u00e7o algo a Deus, para que Ele me pague. Se eu observar bem toda a lei, posso exigir que Ele me d\u00ea a heran\u00e7a prometida da vida eterna. No ensino deles o acento ca\u00eda na observ\u00e2ncia, no merecer. N\u00e3o deixavam espa\u00e7o para a gratuidade do amor e a miseric\u00f3rdia (cf Mt 9,13). Jesus n\u00e3o concordava com esta justi\u00e7a e dizia: \u201cSe a justi\u00e7a de voc\u00eas n\u00e3o for maior que a justi\u00e7a dos fariseus e escribas, voc\u00eas n\u00e3o v\u00e3o poder entrar no Reino dos c\u00e9us\u201d (Mt 5,20).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na raiz desta falsa justi\u00e7a estava a injusti\u00e7a maior da falsa imagem de Deus que a religi\u00e3o comunicava ao povo. Por causa da insist\u00eancia na observ\u00e2ncia da Lei, Deus aparecia como um juiz severo que amea\u00e7a com castigo, provoca medo e condena, e n\u00e3o como um pai que acolhe e perdoa. Esta tremenda injusti\u00e7a para com Deus se manifestava nas coisas mais comuns do dia-a-dia e transformava a vida de muitas pessoas num inferno. Por exemplo, eles n\u00e3o podiam comer sem lavar as m\u00e3os (Mc 7,3); n\u00e3o podiam sentar \u00e0 mesa com quem era de outra ra\u00e7a ou de outra religi\u00e3o (Mc 2,16); n\u00e3o podiam entrar na casa de um pag\u00e3o (At 10,28); n\u00e3o podiam arrancar espigas em dia de s\u00e1bado para matar a fome (Mt 12,1-2); n\u00e3o podiam curar um doente em dia de s\u00e1bado (Mc 3,1-2). E assim havia muitas outras normas, observ\u00e2ncias e costumes. A impureza que a lei assim exigia amea\u00e7ava o povo de todos os lados: \u201cPecado! Proibido! N\u00e3o Pode!\u201d O \u201cpecado\u201d estava em toda parte! O povo, em vez de sentir-se em paz diante de Deus e feliz com a perspectiva do Reino, tinha a consci\u00eancia pesada, pois n\u00e3o conseguia observar a Lei, nem alcan\u00e7ar a justi\u00e7a (cf. Rom 7,15.19).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Jesus n\u00e3o pensava assim. Ele tinha fome e sede de uma outra justi\u00e7a. Tinha outra imagem de Deus no cora\u00e7\u00e3o. O amor de Deus por n\u00f3s n\u00e3o \u00e9 fruto das nossas observ\u00e2ncias, mas \u00e9 um dom que recebemos de Deus. A m\u00e3e ama a crian\u00e7a n\u00e3o porque a crian\u00e7a \u00e9 boa e lhe obedece em tudo, mas porque ela mesma \u00e9 m\u00e3e. M\u00e3e \u00e9 M\u00e3e! Amor de m\u00e3e n\u00e3o se compra, nem se merece, mas se recebe de gra\u00e7a pelo simples fato de nascer. <em>\u201cQuisesse algu\u00e9m dar tudo o que tem para comprar o amor, seria tratado com desprezo\u201d<\/em> (Ct 8,7). Temos que observar a lei de Deus, sim, sempre, mas n\u00e3o para merecer ou comprar o c\u00e9u. Observamos a lei para retribuir e agradecer a imensa bondade com que Deus nos acolhe e \u201cnos amou primeiro\u201d, sem m\u00e9rito algum da nossa parte (1Jo 4,19). Aqui est\u00e1 a raiz do Amor Solid\u00e1rio!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Esta vis\u00e3o da justi\u00e7a cresceu em Jesus, desde pequeno, convivendo em casa com sua m\u00e3e que lhe falava do amor e da miseric\u00f3rdia de Deus (cf Lc 1,54-55) e lembrava as hist\u00f3rias de Jeremias, Os\u00e9ias e Isa\u00edas e tantas outras pessoas. Ele descobria o amor de Deus Pai no amor que recebia de Maria, sua m\u00e3e, de Ana, sua av\u00f3, e de Jos\u00e9, seu pai, que era um homem <em>justo<\/em> (Mt 1,19). Jesus, por sua vez, traduzia este amor naqueles gestos t\u00e3o simples de ternura com que recebia e acolhia as pessoas, desde as criancinhas at\u00e9 os velhos: Zaqueu (Lc 19,1-10), Bartimeu (Mc 10,46-52), Talita (Mc 5,41), Nicodemos (Jo 3,1-15), Madalena (Lc 8,2; Jo 20,11-18), Levi (Mc 2,13-17), a mulher ad\u00faltera (Jo 8,1-11), a mo\u00e7a do perfume (Lc 7,36-50), a Samaritana (Jo 4,7-26), a Canan\u00e9ia (Mt 15,21-28), as m\u00e3es com crian\u00e7as pequenas nos bra\u00e7os (Mc 10,13-16). Irradiando esta sua fome e sede de justi\u00e7a, Jesus irradiava o Amor Solid\u00e1rio de Deus.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>O Amor Solid\u00e1rio de Jesus para com os misericordiosos<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Jesus era a miseric\u00f3rdia em pessoa. Como o samaritano da par\u00e1bola, tinha o cora\u00e7\u00e3o na mis\u00e9ria dos outros. Ele conhecia de perto a mis\u00e9ria e o sofrimento do seu povo. Nas par\u00e1bolas ele menciona a ang\u00fastia dos trabalhadores desempregados que viviam \u00e0 espera de um biscate e nem sempre o conseguiam (Mt 20,1-6); a situa\u00e7\u00e3o do povo cheio de d\u00edvida e amea\u00e7ado de ser escravizado (Mt 18,23-26); o desespero que chegava a levar o pobre a explorar seu pr\u00f3prio companheiro (Mt 18,27-30; Mt 24,48-50); a extravag\u00e2ncia dos ricos que ofendia os pobres (Lc 16,19-21); a luta da vi\u00fava pobre pelos seus direitos (Lc 18,1-8). Jesus sabia o que se passava no seu pa\u00eds. A mis\u00e9ria do povo o rodeava e enchia o seu cora\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O que Jesus mais fazia era atender \u00e0s pessoas que o procuravam em busca de alguma ajuda ou al\u00edvio. Ele fazia isto desde pequeno. L\u00e1 em Nazar\u00e9, como todo mundo, ele trabalhava na ro\u00e7a e, al\u00e9m disso, ajudava o povo como <em>carpinteiro<\/em>. Carpinteiro<em> <\/em>era aquela pessoa bem pr\u00e1tica do povoado a quem todos recorriam para resolver seus pequenos problemas dom\u00e9sticos: mesa quebrada, telha estragada, arado desregulado, etc. Este seu jeito natural de servir aos outros, Jesus o deve ter aprendido de sua m\u00e3e que chegou a viajar mais de 100 quil\u00f4metros s\u00f3 para ajudar sua prima idosa Isabel, no primeiro parto (Lc 1,36-39.56-57). Jesus dizia de si mesmo, resumindo o sentido da sua vida: \u201cEu n\u00e3o vim para ser servido, mas para servir\u201d (Mc 10,45).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Sim, Jesus era a miseric\u00f3rdia em pessoa. Certa vez, ele queria descansar um pouco e foi de barco para o outro lado do lago (Mc 6,31). O povo soube e foi a p\u00e9 na frente dele e ficou esperando por ele na praia (Mc 6,33). Vendo o povo, Jesus esqueceu o descanso e dizia: \u201cTenho d\u00f3 desse povo. S\u00e3o como ovelhas sem pastor\u201d (Mc 6,34). Outra vez, em Cafarnaum, terminado o s\u00e1bado, no momento de aparecer a primeira estrela no c\u00e9u, o povo levou a ele todos os doentes da cidade, e ele curou a todos (Mc 1,32-34). Era tanta gente que o procurava, que nem sobrava tempo para ele comer (Mc 3,20; Mt 6,31). O evangelho conta muitos epis\u00f3dios desta aten\u00e7\u00e3o misericordiosa de Jesus para com as pessoas: com a mulher ad\u00faltera (Jo 8,11), com o paral\u00edtico (Mc 2,9), a mo\u00e7a pecadora (Lc 7,47), o bom ladr\u00e3o (Lc 23,34). Perdoou at\u00e9 o soldado que o estava matando (Lc 23,34).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Pedro, ouvindo Jesus falar tanto em miseric\u00f3rdia e perd\u00e3o, perguntou: \u201cQuantas vezes devo perdoar, se meu irm\u00e3o pecar contra mim? At\u00e9 sete vezes?&#8221; (Mt 18,21) O n\u00famero sete significava a totalidade. No fundo, Pedro pergunta: \u201cEnt\u00e3o devo perdoar sempre?\u201d E Jesus responde: &#8220;N\u00e3o lhe digo que at\u00e9 sete vezes, Pedro, mas at\u00e9 setenta vezes sete\u201d. Ou seja: \u201cN\u00e3o lhe digo at\u00e9 sempre, mas at\u00e9 setenta vezes sempre!\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O evangelho conta tamb\u00e9m as brigas e discuss\u00f5es que Jesus sustentava para defender os sofredores contra as agress\u00f5es injustas das autoridades religiosas. Defendeu a mulher que vivia curvada h\u00e1 18 anos e que foi agredida pelo coordenador da sinagoga (Lc 13,10-17). Defendeu a mo\u00e7a que foi agredida como pecadora na casa de um fariseu (Lc 7,36-50). Defendeu as m\u00e3es que queriam uma b\u00ean\u00e7\u00e3o para suas crian\u00e7as, contra a m\u00e1 vontade dos disc\u00edpulos (Mt 19,13-15). Defendeu os disc\u00edpulos quando criticados por arrancarem espigas em dia de s\u00e1bado (Mt 12,1-8). Defendeu a mulher acusada de adult\u00e9rio por alguns fariseus (Jo 8,1-11). Defendeu e curou o rapaz com m\u00e3o seca dentro da sinagoga em dia de s\u00e1bado (Mc 3,1-6). Acolhia os leprosos, os doentes, os cegos, os coxos, todos e todas que o procuravam. E ele explicou o motivo que o levava a ter esse seu comportamento. Ele disse: \u201cQuero <em>miseric\u00f3rdia<\/em> e n\u00e3o sacrif\u00edcio\u201d (Mt 9,13; 12,7; 23,23). Agindo assim, Jesus irradiava para os outros o amor solid\u00e1rio que ele mesmo recebia do Pai. Colocava em pr\u00e1tica o que ensinava aos outros: \u201cSede misericordiosos como o Pai de voc\u00eas \u00e9 misericordioso\u201d (Lc 6,36).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>O Amor Solid\u00e1rio de Jesus para com os puros de cora\u00e7\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Fazia parte do programa de Jesus \u201cabrir os olhos dos cegos\u201d (Lc 4,18). Ele dizia aos disc\u00edpulos: \u201cA l\u00e2mpada do corpo \u00e9 o olhar. Quando o olhar \u00e9 sadio, o corpo inteiro tamb\u00e9m fica iluminado. Mas, se o olhar est\u00e1 doente, o corpo tamb\u00e9m fica na escurid\u00e3o. Portanto, veja bem se a luz que est\u00e1 em voc\u00ea n\u00e3o \u00e9 escurid\u00e3o\u201d (Lc 11,34-35). Quem tem um olhar de inveja, n\u00e3o enxerga corretamente as pessoas e n\u00e3o percebe a presen\u00e7a de Deus nos outros. Quem tem um olhar de orgulho, de raiva ou de vingan\u00e7a, n\u00e3o consegue apreciar direito os fatos da vida. Tais pessoas s\u00e3o cegas. Jesus dizia que alguns fariseus eram cegos, porque n\u00e3o enxergavam direito nem a vida nem as coisas de Deus (cf. Mt 15,14; 23,16-17; Jo 9,40-41). Mas quem tem um olhar puro, esse consegue perceber os apelos de Deus na vida.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Jesus, ele tinha um olhar limpo, puro, e o mantinha puro por meio da ora\u00e7\u00e3o, tendo sempre presente a vontade do Pai (Jo 4,34; 5,19). Ele s\u00f3 fazia aquilo que o Pai lhe mostrava que era para fazer (Jo 5,19). Ele falava s\u00f3 aquilo que ouvia do Pai (Jo 5,30).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Jesus procurava ajudar os disc\u00edpulos a limpar o olhar: \u201cCuidado com o fermento dos fariseus e de Herodes!\u201d (Mc 8,15-16). A mentalidade do \u201cfermento de Herodes e dos fariseus\u201d (Mc 8,15) tinha ra\u00edzes profundas na vida daquele povo. Tamb\u00e9m hoje, o &#8220;fermento do consumismo&#8221; tem ra\u00edzes profundas na nossa vida e exige uma vigil\u00e2ncia constante. Jesus procurava atingir essas ra\u00edzes para poder arrancar o \u201cfermento\u201d que os impedia de perceber a presen\u00e7a de Deus na vida. \u00c9 bonito ver como Jesus, atrav\u00e9s do di\u00e1logo, ia ajudando as pessoas a enxergar melhor. O evangelho de Jo\u00e3o \u00e9 que d\u00e1 uma aten\u00e7\u00e3o especial a esta preocupa\u00e7\u00e3o de Jesus: a conversa de Jesus com a Samaritana (Jo 4,7-26), com Nicodemos (Jo 3,1-15), com Marta (Jo 11,21-27), com o cego que foi curado (Jo 9,35-39). Jesus ajudava at\u00e9 mesmo as pessoas que resistiam contra ele: alguns judeus (Jo 8,31-59) e Pilatos (Jo 18,33-38).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Vale a pena ver de perto como ele fazia para purificar os olhos dos disc\u00edpulos e como combatia os v\u00e1rios tipos desse falso fermento, dessa falsa mentalidade, que at\u00e9 hoje impedem a vis\u00e3o correta das coisas: Certa vez, algu\u00e9m, que n\u00e3o era da comunidade, usava o nome de Jesus para expulsar os dem\u00f4nios. Jo\u00e3o viu e proibiu, pois, assim ele dizia, aquela pessoa n\u00e3o fazia parte do grupo (Mc 9,38). Era o falso fermento da <em>mentalidade de grupo fechado<\/em>.\u00a0 Jesus responde: &#8220;N\u00e3o impe\u00e7am! Quem n\u00e3o \u00e9 contra \u00e9 a favor!&#8221; (Lc 9,39-40). Outra vez, os disc\u00edpulos brigavam entre si pelo primeiro lugar (Mc 9,33-34). Era o falso fermento da <em>mentalidade de competi\u00e7\u00e3o e de prest\u00edgio<\/em>. Jesus reage: &#8220;O primeiro seja o \u00faltimo&#8221; (Mc 9,35). \u201cN\u00e3o vim para ser servido, mas para servir\u201d (Mc 10,45; Mt 20,28; Jo 13,1-16). Outro dia, m\u00e3es com crian\u00e7as queriam chegar perto de Jesus. Os disc\u00edpulos as afastavam. Era o falso fermento da <em>mentalidade de quem marginaliza o pequeno.<\/em> Jesus os repreende: \u201dDeixem vir a mim as crian\u00e7as!\u201d (Mc 10,14). \u201cQuem n\u00e3o receber o Reino como uma crian\u00e7a, n\u00e3o pode entrar nele\u201d (Lc 18,17). Outro dia ainda, vendo um cego os disc\u00edpulos perguntavam: &#8220;Quem pecou, ele ou seus pais, para que nascesse cego?&#8221; (Jo 9,2). Era o falso fermento da <em>mentalidade de quem segue a opini\u00e3o da ideologia dominante.<\/em> Jesus responde: \u201cNem ele, nem os pais dele, mas para que nele se manifestem as obras de Deus\u201d (cf Jo 9,3).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em todas estas atitudes Jesus se esfor\u00e7ava para que as pessoas modificassem seu olhar sobre o pr\u00f3ximo. Por exemplo, ele dizia: \u201cTudo que voc\u00eas fizerem a um destes meus irm\u00e3os mais pequeninos \u00e9 a mim que o fizeram\u201d (Mt 25,40). Ele se identifica com os pequenos: \u201cEra eu!\u201d (Mt 25,40.45). Ele levava as pessoas a perceber a presen\u00e7a dele at\u00e9 nas coisas mais simples da vida como dar um copo de \u00e1gua (Mt 10,42; Mc 9,41).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>O Amor Solid\u00e1rio de Jesus para com os que lutam pela Paz<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A constru\u00e7\u00e3o da Paz come\u00e7a nas coisas mi\u00fadas como desejar um \u201cBom Dia!\u201d, e s\u00f3 terminar\u00e1 quando o mundo estiver reconstru\u00eddo: sem guerra, sem fome, sem doen\u00e7as, sem injusti\u00e7a, sem opress\u00e3o, todos vivendo como irm\u00e3os e irm\u00e3s, uns dos outros. Este \u00e9 o objetivo da constru\u00e7\u00e3o da Paz, da Paz completa. <strong>SHAL\u00d4M<\/strong>. A Paz \u00e9 como uma casa para morar: ela \u00e9 constru\u00edda tijolo por tijolo. Quem n\u00e3o cuida do tijolo, nunca ter\u00e1 casa para morar. Qual \u00e9 o tijolo que serve para construir a casa da Paz?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A vida de Jesus \u00e9 uma amostra de como ser construtor de paz. Onde havia \u00f3dio, levava o amor; onde havia ofensa, levava o perd\u00e3o; onde havia disc\u00f3rdia, levava a uni\u00e3o; onde havia d\u00favida, levava a f\u00e9; onde havia erro, levava a verdade; onde havia desespero, leva a esperan\u00e7a; onde havia ofensa, levava o perd\u00e3o; onde havia tristeza, levava a alegria; onde havia injusti\u00e7a, levava a justi\u00e7a e o direito; onde havia trevas, levava a luz.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Aos disc\u00edpulos amedrontados dizia: \u201cA paz esteja com voc\u00eas!\u201d Soprou sobre eles dizendo: \u201cRecebam o Esp\u00edrito Santo!\u201d, e deu a eles e a todos n\u00f3s o poder de perdoar e de reconciliar (Jo 20,21-23). E quando os enviou em miss\u00e3o, n\u00e3o permitia levar nada, a n\u00e3o ser uma \u00fanica coisa: a Paz. E quando chegavam em algum lugar, eles deviam dizer: \u201cA Paz esteja nesta casa!\u201d (Lc 10,5). Assim come\u00e7ou e recome\u00e7a o processo da Paz que reverte o processo do \u00f3dio, da confus\u00e3o, da disc\u00f3rdia, da ofensa, da destrui\u00e7\u00e3o, iniciado com Ad\u00e3o e Eva (Gn 2,1-7), com Caim e Lamec, (Gn 4,8.24), com o Dil\u00favio (Gn 6,13-17) e a Torre de Babel (Gn 11,1-9). Assim recome\u00e7a sempre a reconstru\u00e7\u00e3o do Para\u00edso Terrestre da Paz.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o se come\u00e7a a constru\u00e7\u00e3o da casa pelo telhado, mas pelo alicerce. Qual o alicerce da casa da Paz? \u00c9 a reconstru\u00e7\u00e3o do relacionamento humano entre as pessoas, bem na base, para que possa nascer e renascer a vida em comunidade. No tempo de Jesus, o povo esperava que o profeta Elias voltasse \u201cpara reconduzir o cora\u00e7\u00e3o dos pais para os filhos e o cora\u00e7\u00e3o dos filhos para os pais\u201d (Ml 3,23-24). Eles esperavam que fosse refeito o tecido b\u00e1sico da conviv\u00eancia humana, pois sem este alicerce, o resto n\u00e3o teria consist\u00eancia. Seria construir a casa em cima da areia (cf Mt 7,26).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O que Jesus mais fez foi exatamente isto: refazer a vida comunit\u00e1ria nos povoados da Galil\u00e9ia. Conforme o Evangelho de Marcos, a primeira coisa que Jesus fez foi chamar disc\u00edpulos para formar comunidade com eles (Mc 1,16-20; 3,14). Ao redor dele nascia a nova fraternidade, express\u00e3o do amor solid\u00e1rio de Deus, fundamento na constru\u00e7\u00e3o da Paz. Ele acolhia as pessoas, dava lugar aos que n\u00e3o tinham lugar, era irm\u00e3o para os que viviam isolados, denunciava as divis\u00f5es que impediam a constru\u00e7\u00e3o da paz: divis\u00e3o entre pr\u00f3ximo e n\u00e3o-pr\u00f3ximo (Lc 10,29-37); entre pag\u00e3o e judeu (Mt 15,28; cf. Lc 7,6); entre puro e impuro (Mt 23,23-24; Mc 7,13-23); entre pobres e exploradores (Lc 20,46\u201347; 22,25). Quando curava uma pessoa ou perdoava um pecador, dizia: \u201cVai em paz!\u201d (Lc 7,50; 8,48; Mc 5,34). Quando, depois da ressurrei\u00e7\u00e3o, aparecia aos disc\u00edpulos, ele dizia: \u201cA Paz esteja com voc\u00eas!\u201d (Lc 24,30; Jo 20,19.26). Ele trouxe a paz que s\u00f3 Deus nos pode dar (Jo 14,27). \u00c9 a paz fruto da justi\u00e7a, fruto de longa luta e de muito sofrimento. Por isso disse em outro lugar que n\u00e3o veio trazer a paz, mas sim a espada e a divis\u00e3o (Mt 10,34; Lc 12,51).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Jesus refor\u00e7ava a vida em comunidade que \u00e9 o fundamento da Paz, o lugar da reconstru\u00e7\u00e3o da Alian\u00e7a. A Paz existe quando todos e todas s\u00e3o acolhidos como irm\u00e3os e irm\u00e3s, uns dos outros, todos sendo filhos e filhas do mesmo Pai. Jesus procurava reintegrar as pessoas marginalizadas na conviv\u00eancia humana (Mc 1,40-45). A Comunidade deve ser como o rosto de Deus, transformado em Boa Nova para o povo. Jesus era ecum\u00eanico e universal. Acolhia a todos: judeus, romanos, samaritanos, a mulher Canan\u00e9ia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>O Amor Solid\u00e1rio de Jesus para com os perseguidos por causa da justi\u00e7a<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Como dissemos anteriormente, a maior injusti\u00e7a na \u00e9poca de Jesus era a falsa imagem de Deus que a religi\u00e3o oficial comunicava ao povo: um Deus severo, juiz que amea\u00e7ava com castigo e condenava. Por causa desta falsa imagem de Deus, a pr\u00f3pria vida humana era falsificada e aparecia de um jeito que j\u00e1 n\u00e3o correspondia mais ao projeto de Deus. Em vez de abrir a porta do Reino, a religi\u00e3o parecia querer fech\u00e1-la. Jesus dizia: \u201cVoc\u00eas fecham o Reino do C\u00e9u para os homens. Nem voc\u00eas entram, nem deixam entrar aqueles que o desejam\u201d (Mt 25,13).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Jesus n\u00e3o ag\u00fcentava esse tipo de religi\u00e3o que, em nome da lei de Deus mal interpretada, matava na alma do povo a alegria de viver. Ele n\u00e3o veio para condenar o mundo, mas sim para salv\u00e1-lo (Jo 12,47). Jesus anunciava a Boa Not\u00edcia de um Deus amoroso e solid\u00e1rio que acolhe e salva e n\u00e3o a not\u00edcia triste de um Deus severo que condena e castiga. Ele dizia: <em>&#8220;Deus enviou o seu Filho ao mundo, n\u00e3o para condenar o mundo, e sim para que o mundo seja salvo por meio dele\u201d <\/em>(Jo 3,17). Jesus irradiava este amor solid\u00e1rio em atitudes bem concretas para com os pobres, os mansos, os aflitos, os que tinham fome e sede de justi\u00e7a, os que buscavam ter miseric\u00f3rdia com os miser\u00e1veis, os que buscavam ver e experimentar a presen\u00e7a de Deus na vida, os que lutavam pela paz.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Por causa deste seu amor \u00e0 justi\u00e7a, Jesus foi criticado e perseguido. Quando perdoou o paral\u00edtico, foi criticado (Mc 2,6-7). Quando foi jantar na casa do publicano Levi, foi reprovado (Mc 2,16). Quando num s\u00e1bado curou o cego de nascimento, foi denunciado (Jo 5,16). Quando comia sem lavar as m\u00e3os, era ridicularizado (Mt 15,2). Tentaram desmoraliz\u00e1-lo dizendo que ele era um possesso (Mc 3,22), um comil\u00e3o e beberr\u00e3o (Mt 11,19), um louco (Mc 3,21), um pecador (Jo 9,24), um blasfemo (Mc 14,64). Quando Jesus desafiou as autoridades e dizia que a maneira de elas interpretarem a Lei de Deus era contr\u00e1ria \u00e0 vontade de Deus, elas decidiram mat\u00e1-lo (Mc 3,6).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Jesus sabia que n\u00e3o conseguiria mudar a cabe\u00e7a dos l\u00edderes do povo. Sabia que a sua fidelidade ao Deus amoroso que acolhe a todos como filhos e filhas seria interpretada como heresia e que o seu destino seria pris\u00e3o, tortura e morte de cruz. As profecias sobre o Servo de Jav\u00e9 n\u00e3o deixavam d\u00favida a este respeito (cf. Is 50,6; 53,3-10). Se quisesse, Jesus poderia ter escapado da morte. Mas Jesus n\u00e3o quis escapar. \u201cPai, n\u00e3o se fa\u00e7a a minha, mas a tua vontade!\u201d (Lc 22,42). At\u00e9 o \u00faltimo respiro da sua vida, ele continuou revelando a face do Deus amor aos exclu\u00eddos. Era esta sua obedi\u00eancia radical ao Pai, que o levava a desobedecer \u00e0s autoridades religiosas do seu tempo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Por este seu jeito de ser e pelo testemunho de sua vida, Jesus encarnava o amor de Deus e o revelava ao povo e aos disc\u00edpulos (Mc 6,31; Mt 10,30; Lc 15,11-32). Revelando o Pai em gestos bem concretos, Jesus revelava ao mesmo tempo a podrid\u00e3o do sistema. Por isso era perseguido, mas mesmo perseguido, Jesus estava em paz. Esta atitude de paz frente \u00e0 persegui\u00e7\u00e3o era o Reino Deus presente em Jesus. Ele queria que todos os perseguidos pudessem ter esta mesma experi\u00eancia do Reino. Por isso dizia: <strong><em>\u201cBem-aventurados os perseguidos por causa da justi\u00e7a, porque deles \u00e9 o Reino do c\u00e9u!\u201d <\/em><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Foi esta a Boa Nova do amor solid\u00e1rio de Deus que Jesus viveu e irradiou durante os tr\u00eas anos que andou pela Galil\u00e9ia anunciando o Reino de Deus. Sua mensagem desagradou aos poderosos e eles o prenderam, condenaram e mataram na cruz. Mas Deus o ressuscitou, confirmando-o diante dos disc\u00edpulos por meio de muitas apari\u00e7\u00f5es (1Cor 15,3-8). O resumo s\u00e3o as oito bem-aventuran\u00e7as.<\/p>\n<p align=\"center\"><strong>As oito bem-aventuran\u00e7as.<\/strong><\/p>\n<p align=\"center\"><strong>Resumo do amor solid\u00e1rio<\/strong><\/p>\n<p align=\"center\">Bem-aventurados<\/p>\n<p align=\"center\">os pobres em esp\u00edrito,<\/p>\n<p align=\"center\">porque deles \u00e9 o Reino do C\u00e9u.<\/p>\n<p align=\"center\">\u00a0<\/p>\n<p align=\"center\">Bem-aventurados<\/p>\n<p align=\"center\">os que choram,<\/p>\n<p align=\"center\">porque ser\u00e3o consolados.<\/p>\n<p align=\"center\">\u00a0<\/p>\n<p align=\"center\">Bem-aventurados<\/p>\n<p align=\"center\">os mansos,<\/p>\n<p align=\"center\">porque possuir\u00e3o a terra.<\/p>\n<p align=\"center\">\u00a0<\/p>\n<p align=\"center\">Bem-aventurados<\/p>\n<p align=\"center\">os que t\u00eam fome e sede de justi\u00e7a,<\/p>\n<p align=\"center\">porque ser\u00e3o saciados.<\/p>\n<p align=\"center\">\u00a0<\/p>\n<p align=\"center\">Bem-aventurados<\/p>\n<p align=\"center\">os que s\u00e3o misericordiosos,<\/p>\n<p align=\"center\">porque encontrar\u00e3o miseric\u00f3rdia.<\/p>\n<p align=\"center\">\u00a0<\/p>\n<p align=\"center\">Bem-aventurados<\/p>\n<p align=\"center\">os puros de cora\u00e7\u00e3o,<\/p>\n<p align=\"center\">porque ver\u00e3o a Deus.<\/p>\n<p align=\"center\">\u00a0<\/p>\n<p align=\"center\">Bem-aventurados<\/p>\n<p align=\"center\">os que promovem a paz,<\/p>\n<p align=\"center\">porque ser\u00e3o chamados filhos de Deus.<\/p>\n<p align=\"center\">\u00a0<\/p>\n<p align=\"center\">Bem-aventurados<\/p>\n<p align=\"center\">os perseguidos por causa da justi\u00e7a,<\/p>\n<p align=\"center\">porque deles \u00e9 o Reino do C\u00e9u\u201d.<\/p>\n<p align=\"center\"><strong>Amor Solid\u00e1rio<\/strong><\/p>\n<p align=\"center\"><strong>\u00e9 a maior poesia da hist\u00f3ria humana<\/strong><\/p>\n<p align=\"center\"><strong>\u00e9 a hist\u00f3ria do amor criador que realiza tudo que diz e canta<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Amor Solid\u00e1rio na B\u00edblia. Curitiba, PR, 30 de janeiro a 4 de fevereiro de 2012. Frei Carlos Mesters, Carmelita (Obs.: Esse artigo \u00e9 o 5\u00ba de uma s\u00e9rie de 10 artigos de frei Carlos Mesters<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[1],"tags":[],"class_list":["post-199","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-sem-categoria"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/199","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=199"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/199\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=199"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=199"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=199"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}