{"id":2147,"date":"2018-06-12T17:15:11","date_gmt":"2018-06-12T20:15:11","guid":{"rendered":"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/?p=2147"},"modified":"2018-06-12T17:15:37","modified_gmt":"2018-06-12T20:15:37","slug":"sangue-no-campo-mas-a-resistencia-segue","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/gilvander.org.br\/site\/sangue-no-campo-mas-a-resistencia-segue\/","title":{"rendered":"Sangue no campo, mas a resist\u00eancia segue."},"content":{"rendered":"<p><strong>Sangue no campo, mas a resist\u00eancia segue. <\/strong>Por Gilvander Moreira<a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\"><sup>[1]<\/sup><\/a><\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-2148 alignleft\" src=\"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2018\/06\/pau-darco-750x410-300x164.jpg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"164\" srcset=\"https:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2018\/06\/pau-darco-750x410-300x164.jpg 300w, https:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2018\/06\/pau-darco-750x410.jpg 750w\" sizes=\"auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No Brasil, a expropria\u00e7\u00e3o da terra dos camponeses pelo capitalismo e pelos capitalistas que se apossam da terra para obter renda e fortalecer a acumula\u00e7\u00e3o de capital tem historicamente gerado assassinatos e massacres, mas tamb\u00e9m resist\u00eancia. Na contram\u00e3o do discurso naturalizador do latif\u00fandio e do agroneg\u00f3cio, inspirando-se tamb\u00e9m na experi\u00eancia da Diocese de Goi\u00e1s, de compromisso com o campesinato, desde 26 de novembro de 1967 \u2013 data em que Dom Tom\u00e1s Baldu\u00edno se tornou bispo -, atuando a partir de pesquisa participante e divulgando Boletins peri\u00f3dicos que revelavam a situa\u00e7\u00e3o dram\u00e1tica dos camponeses da regi\u00e3o, lideran\u00e7as da igreja de Goi\u00e1s, sob a coordena\u00e7\u00e3o do bispo Dom Tom\u00e1s Baldu\u00edno \u2013 de saudosa mem\u00f3ria -, por 31 anos (de 1967 a 2014), propunham a\u00e7\u00f5es concretas de luta em defesa dos direitos dos camponeses. A partir de centenas de agentes de pastorais que est\u00e3o espalhados em quase todo o territ\u00f3rio nacional, a Comiss\u00e3o Pastoral da Terra (CPT) publica anualmente, desde 1985, o livro <em>Conflitos no Campo Brasil<\/em>, que \u00e9 um diagn\u00f3stico refinado da viol\u00eancia perpetrada contra o campesinato no Pa\u00eds.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Segundo dados da CPT, em 32 anos, de 1985 a 2017, foram assassinados na luta pela terra no Brasil 1488 pessoas, uma m\u00e9dia de 49,6 por ano. Em 2017, foram assassinados 71 camponeses, o maior n\u00famero desde 2003, quando se computaram 73 v\u00edtimas e um total de 1639 conflitos. Igual a um assassinato a cada 22 conflitos. Mas o lado mais macabro dos assassinatos em 2017 s\u00e3o os massacres. O ano de 2017 ficar\u00e1 marcado na hist\u00f3ria pelos Massacres no Campo. Cinco massacres com 31 v\u00edtimas. 44% do total de assassinatos em conflitos no campo. No primeiro semestre de 2017, em pouco mais de um m\u00eas, ocorreram tr\u00eas massacres com 22 mortos: o de Colniza, no Mato Grosso, dia 19 de abril, com 9 posseiros assassinados por quatro pistoleiros, contratados por um empres\u00e1rio madeireiro; o de Vilhena, em Rond\u00f4nia, dia 29 de abril, com 3 camponeses mortos, e o de Pau D\u2019Arco, no Par\u00e1, dia 24 de maio, com 10 Sem Terra mortos pela pol\u00edcia militar do estado do Par\u00e1, alvejados a curta dist\u00e2ncia, com tiros no peito e na cabe\u00e7a, o que configura execu\u00e7\u00e3o. Houve outros dois massacres: o de Len\u00e7\u00f3is, na Bahia, dia 6 de agosto de 2017, na comunidade Quilombola de I\u00fana, com 6 quilombolas assassinados; e o de Canutama, no estado do Amazonas, dia 14 de dezembro de 2017, com 3 Sem Terra mortos e desaparecidos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Airton Pereira e Jos\u00e9 Batista Afonso, ambos integrantes da CPT, afirmam que o que assusta \u00e9 identificar o \u201cgrau de brutalidade e crueldade que os acompanharam. Cad\u00e1veres degolados, carbonizados, ensanguentados, desfigurados. Exemplos que dever\u00e3o ficar marcados para sempre na alma de homens, de mulheres, de jovens e crian\u00e7as. Uma pedagogia do terror\u201d. \u00a0Em 2017, as tentativas de assassinato passaram de 74 para 120 \u2013 um crescimento de 63% e um n\u00famero que corresponde a uma tentativa a cada tr\u00eas dias. As amea\u00e7as de morte aumentaram de 200 para 226. O n\u00famero de pessoas torturadas passou de 1 para 6. E o de presos foi de 228 para 263. Entre os 1488 assassinados, entre 1985 e 2017, est\u00e3o dois advogados populares: Jo\u00e3o Carlos Batista, assassinado dia 06 de dezembro de 1988, em Bel\u00e9m, no Par\u00e1<a href=\"#_ftn2\" name=\"_ftnref2\"><sup>[2]<\/sup><\/a>, e Paulo Fonteles, em Ananindeua, no Par\u00e1, dia 11 de junho de 1987.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A repress\u00e3o militar, sob o comando dos generais no poder, a partir de 31 de mar\u00e7o de 1964, \u201cabrira as portas para a a\u00e7\u00e3o violenta dos grandes propriet\u00e1rios de terra, por meio de seus capatazes e pistoleiros, em centenas de pontos no pa\u00eds inteiro, na certeza de que eram impunes e, al\u00e9m disso, aliados da repress\u00e3o na manuten\u00e7\u00e3o da ordem\u201d (MARTINS, 1999, p. 83). Repetindo-se como trag\u00e9dia a hist\u00f3ria, a partir de 31 de agosto de 2016, com a consuma\u00e7\u00e3o do golpe parlamentar, jur\u00eddico e midi\u00e1tico que derrubou a presidenta Dilma Roussef \u2013 o 7\u00ba na hist\u00f3ria brasileira -, os latifundi\u00e1rios e empres\u00e1rios do agroneg\u00f3cio escancararam as porteiras da viol\u00eancia no campo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Enfim, no Brasil, desde 22 de abril de 1500, os camponeses v\u00eam sendo expropriados de suas terras e assassinados, mas a resist\u00eancia continua. Nunca \u00e9 em v\u00e3o o sangue dos m\u00e1rtires. Quando um membro do campesinato \u00e9 assassinado, ele n\u00e3o \u00e9 sepultado, mas semeado na terra e faz brotar e multiplicar a resist\u00eancia. Do sangue de Margarida, Margaridas aos milhares seguem na luta pela terra, de cabe\u00e7a erguida. Ao disseminarem o terror, a desertifica\u00e7\u00e3o, o envenenamento da comida com uso indiscriminado de agrot\u00f3xico, a expropria\u00e7\u00e3o dos camponeses e mandar assassinar, o latif\u00fandio e o agroneg\u00f3cio n\u00e3o ter\u00e3o a \u00faltima palavra. Assim como n\u00e3o teve a \u00faltima palavra os podres poderes que mandaram executar Jesus Cristo, Che Guevara, Martin Luther King e Gandhi. Com vida em abund\u00e2ncia para todas e todos, uma terra sem males est\u00e1 sendo constru\u00edda a partir das Comunidades Camponesas, com camponeses e camponesas desenvolvendo a Agricultura Familiar alicer\u00e7ada em uma rela\u00e7\u00e3o harmoniosa com o meio ambiente, \u00a0dos nossos parentes ind\u00edgenas, quilombolas e povos tradicionais, verdadeiros guardi\u00e3es da m\u00e3e terra, da irm\u00e3 \u00e1gua e de toda a biodiversidade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Um soldado que estava diante de Jesus crucificado, fitando-lhe os olhos, olho no olho, exclamou: \u201cVerdadeiramente este homem era o filho de Deus!\u201d (Evangelho de Marcos 15,39). \u00c9 duro ver tantas vidas ceifadas e tanto sangue derramado na luta pela terra, mas somente tendo a coragem de olhar nos olhos dos\/as crucificados\/as no altar do \u00eddolo mercado adquirimos a luz e a for\u00e7a necess\u00e1ria para construirmos domingos de ressurrei\u00e7\u00e3o com terra para quem nela trabalha, terra partilhada e socializada.<\/p>\n<p><strong>Refer\u00eancia <\/strong><\/p>\n<p>MARTINS, Jos\u00e9 de Souza. O poder do atraso: ensaios de Sociologia da Hist\u00f3ria Lenta. 2\u00aa edi\u00e7\u00e3o. S\u00e3o Paulo: HUCITEC, 1999.<\/p>\n<p>Imagem:\u00a0Chacina de Pau D\u2019Arco \u2013 Foto: Dinho Santos<\/p>\n<p>Belo Horizonte, MG, 12\/6\/2018.<\/p>\n<p><strong>Obs<\/strong>.: Os v\u00eddeos, abaixo, ilustram o texto, acima.<\/p>\n<ul>\n<li><strong>Viol\u00eancia do latif\u00fandio aumenta no norte de Minas Gerais\/Audi\u00eancia P\u00fablica\/ALMG\/Toninho do MST. 25\/4\/2018.<\/strong><\/li>\n<\/ul>\n<div class=\"epyt-video-wrapper\"><iframe loading=\"lazy\"  id=\"_ytid_28054\"  width=\"810\" height=\"456\"  data-origwidth=\"810\" data-origheight=\"456\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/QLEZ1zgwvcI?enablejsapi=1&#038;autoplay=0&#038;cc_load_policy=0&#038;cc_lang_pref=&#038;iv_load_policy=1&#038;loop=0&#038;rel=1&#038;fs=1&#038;playsinline=0&#038;autohide=2&#038;theme=dark&#038;color=red&#038;controls=1&#038;disablekb=0&#038;\" class=\"__youtube_prefs__  epyt-is-override  no-lazyload\" title=\"YouTube player\"  allow=\"fullscreen; accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen data-no-lazy=\"1\" data-skipgform_ajax_framebjll=\"\"><\/iframe><\/div>\n<ul>\n<li><strong>O clamor das Comunidades Pesqueiras\/Vazanteiras de Minas Gerais por justi\u00e7a. 3\u00aa Parte. BH\/MG. 13\/11\/2017<\/strong><\/li>\n<\/ul>\n<div class=\"epyt-video-wrapper\"><iframe loading=\"lazy\"  id=\"_ytid_20145\"  width=\"810\" height=\"456\"  data-origwidth=\"810\" data-origheight=\"456\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/oEOQu6tLOnI?enablejsapi=1&#038;autoplay=0&#038;cc_load_policy=0&#038;cc_lang_pref=&#038;iv_load_policy=1&#038;loop=0&#038;rel=1&#038;fs=1&#038;playsinline=0&#038;autohide=2&#038;theme=dark&#038;color=red&#038;controls=1&#038;disablekb=0&#038;\" class=\"__youtube_prefs__  epyt-is-override  no-lazyload\" title=\"YouTube player\"  allow=\"fullscreen; accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen data-no-lazy=\"1\" data-skipgform_ajax_framebjll=\"\"><\/iframe><\/div>\n<ul>\n<li><strong>PM de MG despejando c\/ trucul\u00eancia MST da Ariadn\u00f3polis, em Campo do Meio\/MG: Injusti\u00e7a! 20\/05\/16<\/strong><\/li>\n<\/ul>\n<div class=\"epyt-video-wrapper\"><iframe loading=\"lazy\"  id=\"_ytid_10819\"  width=\"810\" height=\"456\"  data-origwidth=\"810\" data-origheight=\"456\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/Iz1E3OiYVTU?enablejsapi=1&#038;autoplay=0&#038;cc_load_policy=0&#038;cc_lang_pref=&#038;iv_load_policy=1&#038;loop=0&#038;rel=1&#038;fs=1&#038;playsinline=0&#038;autohide=2&#038;theme=dark&#038;color=red&#038;controls=1&#038;disablekb=0&#038;\" class=\"__youtube_prefs__  epyt-is-override  no-lazyload\" title=\"YouTube player\"  allow=\"fullscreen; accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen data-no-lazy=\"1\" data-skipgform_ajax_framebjll=\"\"><\/iframe><\/div>\n<p><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\">[1]<\/a> Frei e padre da Ordem dos carmelitas; doutor em Educa\u00e7\u00e3o pela FAE\/UFMG; licenciado e bacharel em Filosofia pela UFPR; bacharel em Teologia pelo ITESP<strong>\/<\/strong>SP; mestre em Exegese B\u00edblica pelo Pontif\u00edcio Instituto B\u00edblico de Roma, It\u00e1lia; assessor da CPT, CEBI, SAB e Ocupa\u00e7\u00f5es Urbanas; prof. de \u201cMovimentos Sociais Populares e Direitos Humanos\u201d no IDH, em Belo Horizonte, MG.<\/p>\n<p>E-mail: <a href=\"mailto:gilvanderlm@gmail.com\">gilvanderlm@gmail.com<\/a> \u2013 <a href=\"http:\/\/www.gilvander.org.br\">www.gilvander.org.br<\/a> &#8211; <a href=\"http:\/\/www.freigilvander.blogspot.com.br\">www.freigilvander.blogspot.com.br<\/a>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 \u2013<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/www.twitter.com\/gilvanderluis\">www.twitter.com\/gilvanderluis<\/a>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 \u2013\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Facebook: Gilvander Moreira III<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref2\" name=\"_ftn2\">[2]<\/a> Cf. BATISTA, Pedro C\u00e9sar. <strong>Jo\u00e3o Batista: m\u00e1rtir da luta pela reforma agr\u00e1ria \u2013 viol\u00eancia e impunidade no Par\u00e1.<\/strong> 3\u00aa edi\u00e7\u00e3o. S\u00e3o Paulo: Express\u00e3o Popular, 2007.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Sangue no campo, mas a resist\u00eancia segue. Por Gilvander Moreira[1] No Brasil, a expropria\u00e7\u00e3o da terra dos camponeses pelo capitalismo e pelos capitalistas que se apossam da terra para obter renda e fortalecer a acumula\u00e7\u00e3o<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":2148,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[21,27,25,29,32,18],"tags":[],"class_list":["post-2147","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-artigo","category-direitos-humanos","category-luta-pela-terra-e-reforma-agraria","category-movimentos-sociais-populares","category-videos","category-videos-de-frei-gilvander"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2147","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=2147"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2147\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":2150,"href":"https:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2147\/revisions\/2150"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media\/2148"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=2147"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=2147"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=2147"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}