{"id":2422,"date":"2018-07-25T10:21:27","date_gmt":"2018-07-25T13:21:27","guid":{"rendered":"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/?p=2422"},"modified":"2018-07-25T10:21:27","modified_gmt":"2018-07-25T13:21:27","slug":"resistencia-e-historia-indigena-nas-antigas-terras-de-vila-rica-minas-gerais","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/gilvander.org.br\/site\/resistencia-e-historia-indigena-nas-antigas-terras-de-vila-rica-minas-gerais\/","title":{"rendered":"Resist\u00eancia e Hist\u00f3ria Ind\u00edgena nas antigas terras de Vila Rica &#8211; Minas Gerais\u00a0"},"content":{"rendered":"<p><strong>Resist\u00eancia e Hist\u00f3ria Ind\u00edgena nas antigas terras de Vila Rica &#8211; Minas Gerais.\u00a0<\/strong>Por Alenice Baeta<a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\">[1]<\/a><\/p>\n<figure id=\"attachment_2423\" aria-describedby=\"caption-attachment-2423\" style=\"width: 300px\" class=\"wp-caption alignleft\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-2423 size-medium\" src=\"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2018\/07\/Slide1-1-300x225.jpg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"225\" srcset=\"https:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2018\/07\/Slide1-1-300x225.jpg 300w, https:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2018\/07\/Slide1-1-768x576.jpg 768w, https:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2018\/07\/Slide1-1.jpg 960w\" sizes=\"auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-2423\" class=\"wp-caption-text\">Imagem 01: \u00cdndios atravessando um riacho (Ca\u00e7ador de Escravos) 1820-1830 de Jean-Baptiste Debret (1972).<\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\">O territ\u00f3rio onde se encontra Ouro Preto, antiga Vila Rica, outrora fazia parte do \u201cSert\u00e3o dos Cataguases\u201d ou das \u201cMinas dos Cataguases\u201d, passando a ser denominado como pertencente a \u201cMinas Gerais\u201d a partir de 1710, ap\u00f3s a chegada e instala\u00e7\u00e3o dos primeiros exploradores do ouro. Segundo Barbosa (1979), o top\u00f4nimo \u201cMinas Gerais\u201d come\u00e7a a ser utilizado de forma gen\u00e9rica a partir de 1732, quando passa a ser oficialmente mencionado em cartas r\u00e9gias.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ind\u00edgenas Cataguases ou Catagu\u00e1s, tamb\u00e9m conhecidos como \u201cCatau\u00e1\u201d, eram habitantes de parte do centro, oeste e sul mineiro na \u00e9poca da chegada das primeiras expedi\u00e7\u00f5es e bandeiras. Segundo O. Jos\u00e9 foram realmente os Catagu\u00e1s os que mais sofreram com a a\u00e7\u00e3o escravizadora dos bandeirantes \u201c<em>quando esses, em busca das terras de rica forma\u00e7\u00e3o mineral ou das paragens em que abundariam os diamantes e as pedras coradas, passaram, juntamente com seus aliados, os ind\u00edgenas paulistas, pelas malocas dos Catagu\u00e1s<\/em>\u201d(1965:21). Esses exploradores no final do s\u00e9c. XVII por entre as gargantas do Emba\u00fa, vale do rio Para\u00edba, adentraram pela Mantiqueira as matas ao sul do Sert\u00e3o dos Cataguases atingindo as suas zonas mais centrais, onde foi descoberto ouro de aluvi\u00e3o nas proximidades dos rios S\u00e3o Francisco, Doce e Velhas. O Pico do Itacolomi<a href=\"#_ftn2\" name=\"_ftnref2\">[2]<\/a>, \u201c<em>como um polo magn\u00e9tico<\/em>\u201d conforme descri\u00e7\u00e3o de A. de Lima Jr. (1961:117), logo se tornou importante refer\u00eancia dos primeiros exploradores que se instalaram nos vale do Tripu\u00ed e adjac\u00eancias.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os ind\u00edgenas paulistas \u201caliados\u201d seriam, segundo J. Monteiro (1994), os \u201cCarij\u00f3s\u201d, designa\u00e7\u00e3o gen\u00e9rica dos cativos, cujas etnias de seus integrantes possivelmente teriam sido muito variadas. Estes tamb\u00e9m receberam outras designa\u00e7\u00f5es, tais como, \u201cnegros da terra\u201d ou \u201ccabras da terra\u201d, indicados em alguns documentos da \u00e9poca.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>\u201cAo longo do s\u00e9c. XVII colonos de S\u00e3o Paulo e de outras vilas circunvizinhas assaltaram centenas de aldeias ind\u00edgenas em v\u00e1rias regi\u00f5es, trazendo milhares de \u00edndios de diversas sociedades para as suas fazendas e s\u00edtios na condi\u00e7\u00e3o de servi\u00e7os obrigat\u00f3rios<\/em>\u201d (MONTEIRO, 1995:57).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Monteiro sugere que os Carij\u00f3s aprisionados no sul e sudoeste de S\u00e3o Paulo estariam associados, sobretudo, a povos de origem Guarani. Havia, a princ\u00edpio, duas localidades principais onde as incurs\u00f5es dos paulistas destinadas ao apresamento de ind\u00edgenas se faziam mais contundentes: os Sert\u00f5es dos Patos e dos Carij\u00f3s. No entanto, esclarece que a regi\u00e3o que abrangia os Sert\u00f5es dos Patos (atual interior do estado de Santa Catarina) \u201c<em>era habitada por grupos guarani, identificados, entre outras, pelas denomina\u00e7\u00f5es Carij\u00f3, Arax\u00e1 e Patos<\/em>\u201d (1995: 61).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O Sert\u00e3o de Carij\u00f3s atingia, por sua vez, os vales dos rios Paranapanema, Guair\u00e1, Piquiri e Tibagi. As incurs\u00f5es a essas localidades ocasionavam contato com v\u00e1rias etnias n\u00e3o-Guarani e Guarani. As principais v\u00edtimas dessas expedi\u00e7\u00f5es teriam sido ainda os Tememin\u00f3 e Tupina\u00e9. Todavia, quando havia queda nos plant\u00e9is paulistas de indiv\u00edduos guarani<a href=\"#_ftn3\" name=\"_ftnref3\">[3]<\/a>, os mais ambicionados pelas frentes de apreamento, buscava-se em substitui\u00e7\u00e3o a esses, capturar Guain\u00e1 e Guarulho ou Maromins (MONTEIRO, 1995:62\/82). Segundo KOK, \u201c<em>no limiar do s\u00e9c. XVII fervilhavam nos Campos de Piratininga guerras ind\u00edgenas tanto no sert\u00e3o como na vila, que significaram resist\u00eancia \u00e0 presen\u00e7a dos brancos, defesa de seus territ\u00f3rios e luta contra a escraviza\u00e7\u00e3o a que estavam sujeitos<\/em>\u201d (2009: 9).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c0 medida que os bandeirantes paulistas mais se afastavam de suas paragens, maior era a necessidade do apoio e alian\u00e7as com \u00edndios guerreiros no aprisionamento de outros nativos, visando abastecer as propriedades rurais com a for\u00e7a de trabalho dos \u201cnegros da terra\u201d. A rede de captura<a href=\"#_ftn4\" name=\"_ftnref4\">[4]<\/a> e escraviza\u00e7\u00e3o eram sustentadas pela explora\u00e7\u00e3o de inimizades e disputas tradicionais entre alguns povos ind\u00edgenas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201c(&#8230;), <em>as lideran\u00e7as ind\u00edgenas buscavam aliados portugueses para aumentar seu prest\u00edgio e seu poder de fogo em guerras contra outros grupos, que envolviam expedi\u00e7\u00f5es para capturar inimigos e perpetuar a vingan\u00e7a<\/em>\u201d (MONTEIRO, 2008: 18).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Pouco conhecedores dos sert\u00f5es alhures e com estrutura paramilitar prec\u00e1ria, apesar de aguerridos, fazia-se imprescind\u00edvel a participa\u00e7\u00e3o de guias aut\u00f3ctones e l\u00ednguas<a href=\"#_ftn5\" name=\"_ftnref5\">[5]<\/a> nessas \u201c<em>arma\u00e7\u00f5es<\/em>\u201d, nome mais utilizado na \u00e9poca para essas expedi\u00e7\u00f5es. Jovens colonos, visando enriquecimento, financiados por seus pais e sogros (os armadores), ambicionavam capturar \u201c<em>pe\u00e7as do gentio da terra<\/em>\u201d. Para tanto, carregavam em suas empreitadas, chumbo, p\u00f3lvora, correntes, sertanistas e \u00edndios, que formavam as tropas auxiliares (MONTEIRO, 1995: 86). O bom desempenho das empreitadas dependia em grande parte dos sertanistas, homens acostumados a incurs\u00f5es nas matas, tamb\u00e9m denominados \u201c<em>cabo da tropa<\/em>\u201d ou \u201c<em>capit\u00e3o do arraial<\/em>\u201d, que possu\u00edam poder sobre os demais participantes da viagem. No caso das grandes expedi\u00e7\u00f5es, estas ainda contavam com a presen\u00e7a de capel\u00e3o, escriv\u00e3o e alferes-mor, sendo que este \u00faltimo seria o respons\u00e1vel pela partilha dos \u00edndios capturados. Na condi\u00e7\u00e3o de escravas, mulheres \u00edndias, al\u00e9m das \u201c<em>Temeric\u00f3<\/em>\u201d (mesti\u00e7as) tamb\u00e9m tinham que acompanhar essas tropas. Os ind\u00edgenas transportavam parte da carga, sendo ainda respons\u00e1veis pela complementa\u00e7\u00e3o do card\u00e1pio alimentar, atuando como pescadores, ca\u00e7adores de animais, al\u00e9m de coletores de frutas, mel silvestre, pinh\u00e3o, coquinhos, ovos de jabuti, palmitos e paus de digest\u00e3o (grelos de samambaia). Os suprimentos mais usuais levados na viagem eram caba\u00e7as de sal e p\u00e3es de \u201c<em>farinha de guerra<\/em>\u201d, feitos de mandioca ou de milho, insuficientes para a dieta dos viajantes. Para matar a sede, na falta de \u00e1gua corrente, apelava-se para o consumo de umbuzeiro, mandacarus, cip\u00f3s, taquara\u00e7us e gravat\u00e1s. Dependendo das condi\u00e7\u00f5es clim\u00e1ticas e localiza\u00e7\u00e3o das tropas, a fome era companheira certeira. Como prova da supremacia dos bandeirantes e de seus comparsas, ro\u00e7as ind\u00edgenas de milho, feij\u00e3o e mandioca ainda eram saqueadas e posteriormente destru\u00eddas impiedosamente ao longo dos trajetos realizados (KOK, 2008: 22\/24).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em algumas situa\u00e7\u00f5es, ind\u00edgenas e mesti\u00e7os, tamb\u00e9m chamados \u201c<em>curibocas<\/em>\u201d ou \u201c<em>cabor\u00e9s<\/em>\u201d (PARANHOS, 2005) eram despachados na frente da esquadra principal, visando instalar ro\u00e7as ao longo de caminhos que serviam para o abastecimento de expedi\u00e7\u00f5es na ida e em seu regresso. Muitos destes ranchos de apoio aos acampamentos e de reserva de suprimentos, inclusive, deram origem a arraiais em Minas Gerais, Goi\u00e1s e Mato Grosso. Foi o que aconteceu com a expedi\u00e7\u00e3o capitaneada por Fern\u00e3o Dias, que \u201c<em>mandara, com anteced\u00eancia, plantar ro\u00e7as de milho e reunir animais, de dist\u00e2ncia em dist\u00e2ncia, at\u00e9 o Serro do Frio, e expedira, como vanguardeiro da coluna, Matias Cardoso, que foi aguardar em ponto profundo da regi\u00e3o, onde deviam estar as ambicionadas esmeraldas<\/em>\u201d (LIMA JR. 1965: 28).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Alguns Carij\u00f3s, na circunst\u00e2ncia acima apresentada, participaram das principais bandeiras e expedi\u00e7\u00f5es a procura de ouro e pedras preciosas nas ermas terras onde hoje se constitui o estado de Minas Gerais.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">S\u00e3o v\u00e1rios os relatos sobre os inconvenientes que acossavam esses exploradores ao longo das viagens, tais como animais pe\u00e7onhentos e on\u00e7as que atacavam integrantes das tropas, al\u00e9m de insetos, formigas, carrapatos e bichos-de-p\u00e9. A topografia da regi\u00e3o de Vila Rica, em especial, dificultava o acesso de seus desbravadores, pois \u201c<em>a paisagem \u00e9 rude, com montanhas alcantiladas, vales estreitos e profundos\u201d<\/em> (BARBOSA, 1971:48). Mas certamente o maior temor desses homens seria o ataque dos \u201csilv\u00edcolas\u201d, que por sua vez, se sentiam amea\u00e7ados em seus territ\u00f3rios tradicionais, resistindo bravamente \u00e0s investidas de seus perseguidores.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Anteriormente, houve v\u00e1rias penetra\u00e7\u00f5es n\u00e3o oficiais de exploradores que partiam do Campo do Piratininga ou Taubat\u00e9 rumo a plagas do Guaipacar\u00e9 (atual Lorena) atingindo o Rio Grande com o intuito de capturar ind\u00edgenas, atividade lucrativa na primeira fase dos setecentos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201c<em>Devem ter sido numerosos os penetradores an\u00f4nimos que, por esses anos, andaram pelas terras de Minas \u00e0 ca\u00e7a de \u00edndios. Era o melhor neg\u00f3cio dos paulistas nessa \u00e9poca, e as regi\u00f5es do campo mineiro, de f\u00e1cil orienta\u00e7\u00e3o, por suas montanhas continuadas, cheia de picos, davam facilidades desconhecidas aos aventureiros, habituados \u00e0s feroc\u00edssimas matas do Sul e de Goi\u00e1s<\/em>\u201d (LIMA JR.,1965: 26).<\/p>\n<figure id=\"attachment_2423\" aria-describedby=\"caption-attachment-2423\" style=\"width: 300px\" class=\"wp-caption alignleft\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-2423 size-medium\" src=\"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2018\/07\/Slide1-1-300x225.jpg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"225\" srcset=\"https:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2018\/07\/Slide1-1-300x225.jpg 300w, https:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2018\/07\/Slide1-1-768x576.jpg 768w, https:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2018\/07\/Slide1-1.jpg 960w\" sizes=\"auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-2423\" class=\"wp-caption-text\">Imagem 01: \u00cdndios atravessando um riacho (Ca\u00e7ador de Escravos) 1820-1830 de Jean-Baptiste Debret (1972).<\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\">Muitos sertanistas, dessa maneira, j\u00e1 conheciam as terras mineiras quando das primeiras expedi\u00e7\u00f5es oficiais<a href=\"#_ftn6\" name=\"_ftnref6\">[6]<\/a>, como a j\u00e1 mencionada bandeira liderada por Fern\u00e3o Dias Pais \u201c<em>conhecedor velho destes Sert\u00f5es&#8230;<\/em>\u201d (LIMA JR., 1965: 26)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Segundo Resende (2007), as bandeiras sustentavam-se a partir do trip\u00e9: procura de riquezas minerais, anexa\u00e7\u00e3o de terras e preagem de \u00edndios, tendo devassado o territ\u00f3rio mineiro ao longo de todo o s\u00e9culo XVIII. Mas foi a partir de 1760, com a crise que se abateu sobre a atividade mineradora, que o avan\u00e7o das expedi\u00e7\u00f5es e das fronteiras colonialistas se deu em \u00e1reas de matas parcialmente intocadas, onde ainda v\u00e1rios grupos ind\u00edgenas viviam com um relativo distanciamento dos principais centros aur\u00edferos, arraiais e n\u00facleos de fazendas de gado.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os vales dos rios das Mortes, Grande, Sapuca\u00ed, Pomba e Para\u00edba do Sul correspondiam a territ\u00f3rios tradicionais de muitos ind\u00edgenas no per\u00edodo colonial, sendo que os etn\u00f4nimos mais comuns associados a essas bacias, al\u00e9m dos Catau\u00e1, j\u00e1 mencionados, eram Coroados<a href=\"#_ftn7\" name=\"_ftnref7\">[7]<\/a>, Tapanhunhos, Xopot\u00f3s, Crop\u00f3s, Puris e Arrepiados.\u00a0 Esses povos estariam atribu\u00eddos ao tronco lingu\u00edstico Macro-J\u00ea (ou \u201cTapuias\u201d), apesar de haver discord\u00e2ncias sobre a filia\u00e7\u00e3o lingu\u00edstica dos Catau\u00e1; indicando a hip\u00f3tese de possu\u00edrem ascend\u00eancia Tupi-Guarani (ABDALA, 1997). Saint-Hilaire tamb\u00e9m aponta a possibilidade dos Coroados terem algum tipo de parentesco com povos Goitacazes (1975:39). Ainda s\u00e3o mencionados os Osor\u00f3s, antigos habitantes do Sert\u00e3o do Macacu, margens do rio Para\u00edba. \u201c<em>Embora a maioria dos Osor\u00f3s tivesse fugido, \u00e0 vis\u00e3o de tantos homens armados, pouco a pouco voltaram para as suas terras, onde circulavam com os Puris e Xopot\u00f3s<\/em>\u201d (ANASTASIA, 2005: 97).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O governador Lu\u00eds Diogo Lobo da Silva outorgou in\u00fameras sesmarias, mas em fun\u00e7\u00e3o da resist\u00eancia de \u00edncolas, por designa\u00e7\u00e3o da Coroa, determinadas terras deveriam ser \u201c<em>evitadas<\/em>\u201d, onde tivesse sido antigo aldeamento ind\u00edgena. Mas, segundo Resende (2011), nem sempre os limites disponibilizados para a manuten\u00e7\u00e3o da economia ind\u00edgena teriam sido suficientes. Ademais, as rela\u00e7\u00f5es entre colonos e ind\u00edgenas sempre foram belicosas e muito conflituosas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na segunda metade do s\u00e9culo XVIII, foi fundado no vale do rio Pomba, por ordem do Governador Conde de Valadares, um aldeamento de \u00edndios Crop\u00f3s, Coroados e Puris. Posteriormente, esses ind\u00edgenas reclamam ao rei a paz perdida, alegando ter ficado sem terra para exercer suas atividades econ\u00f4micas e culturais, como ca\u00e7a, pesca, coleta e rituais (RESENDE, 2003).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nos arredores de Vila Rica h\u00e1 registros da presen\u00e7a de gentios ou \u00edndios \u201c<em>Aredez<\/em>\u201d, \u201c<em>Araraos<\/em>\u201d e \u201c<em>Taboyaras<\/em>\u201d na por\u00e7\u00e3o alta dos rios das Velhas e Paraopeba, mencionados em importante documento cartogr\u00e1fico e iconogr\u00e1fico setecentista do acervo da Biblioteca Nacional. H\u00e1 uma frase inscrita neste mapa que merece ser transcrita:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>\u201cAqui nestes sert\u00f5es se recolheram os restos dos gentios Aredez (Araraos) e Taboyaras que moravam no Rio das Velhas, sobre o Rio Paraopeba. S\u00e3o estes gentios que infestam as fazendas de gado dessa banda do Rio de S\u00e3o Francisco e todos os anos assaltam matando muita gente principalmente depois do descobrimento das minas que os paulistas n\u00e3o sertanejaram, no Rio Paracatu destru\u00edram bastantes fazendas\u201d.<\/em><\/p>\n<figure id=\"attachment_2424\" aria-describedby=\"caption-attachment-2424\" style=\"width: 300px\" class=\"wp-caption alignleft\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-2424 size-medium\" src=\"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2018\/07\/Slide2-1-300x225.jpg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"225\" srcset=\"https:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2018\/07\/Slide2-1-300x225.jpg 300w, https:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2018\/07\/Slide2-1-768x576.jpg 768w, https:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2018\/07\/Slide2-1.jpg 960w\" sizes=\"auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-2424\" class=\"wp-caption-text\">Imagem 02: Mapa \u201cDemonstra\u00e7\u00e3o do Rio S\u00e3o Francisco, em Minas Gerais\u201d\u2013 s\u00e9culo XVIII (Acervo da Biblioteca Nacional).<\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\">A cita\u00e7\u00e3o indica a exist\u00eancia de grupos ind\u00edgenas que tiveram contato direto com antigos exploradores e colonizadores da regi\u00e3o, reagindo e atacando fazendas de gado. O termo \u201cataque\u201d deve ser interpretado como \u201cresist\u00eancia e defesa\u201d em seus territ\u00f3rios hist\u00f3ricos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Segundo Resende (2003), incurs\u00f5es paulistas que se dirigiram \u00e0 regi\u00e3o do rio S\u00e3o Francisco, aprisionaram ainda grupos \u201c<em>Tememin\u00f3<\/em>\u201d e \u201c<em>Tobojara<\/em>\u201d. O \u00faltimo etn\u00f4nimo mencionado pode ser uma forma diferenciada de mencionar os \u201c<em>Taboyaras\u201d<\/em> indicados no antigo mapa. Ainda no vale do rio das Velhas, havia \u00edndios Goi\u00e1s, \u201c<em>gente ben\u00e9vola, que entretinha rela\u00e7\u00f5es mais ou menos frequentes com os povoados antigos da zona do Sumidouro<\/em>\u201d (VASCONCELOS, 1948: 39). H\u00e1 ainda indica\u00e7\u00f5es de ind\u00edgenas \u201cCandid\u00e9s\u201d no vale do rio Itapecerica, alto S\u00e3o Francisco (atualmente Divin\u00f3polis), nos arredores da Gruta de Itaber\u00e1 (LARA, 1987).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O bandeirante Arz\u00e3o Bartolomeu Bueno de Siqueira e sua comitiva tamb\u00e9m encontraram com gentios na regi\u00e3o de Vila de Pitangui, tendo guerreado com estes (RESENDE, 2003: 46).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201c<em>Em Vila do Carmo &#8211; atual cidade de Mariana- viveu-se situa\u00e7\u00e3o semelhante. Nela, a expans\u00e3o das atividades de minera\u00e7\u00e3o esbarrou com grupos ind\u00edgenas, sendo algumas das freguesias, como as de Guarapiranga, Barra Longa e Furquim, atacadas ou mesmo destru\u00eddas<\/em>\u201d (VEN\u00c2NCIO, 1997: 2007).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Chama ainda a aten\u00e7\u00e3o na topon\u00edmia da regi\u00e3o do ouro um arraial denominado \u2018Carij\u00f3s\u2019. Segundo Barbosa (1995), mineradores que lavravam nas adjac\u00eancias da Serra de Ouro Branco, possivelmente remanescentes da Bandeira de Borba Gato, se uniram a ind\u00edgenas Carij\u00f3s, considerados \u201cpac\u00edficos\u201d ou \u201cmansuetos\u201d, visando se defender dos ataques dos ind\u00edgenas \u201cferozes\u201d da regi\u00e3o.\u00a0 Os Carij\u00f3s, relacionados ao tronco lingu\u00edstico Tupi-Guarani, chegaram ao Planalto da Mantiqueira fugidos dos ataques de brancos no litoral fluminense.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>\u201cEstes desbravadores entraram em contato com os \u00edndios Carij\u00f3s, que anos antes fugiram da baixada do Rio de Janeiro e penetram no interior subindo pelo vale do Paraibuna e estabelecendo-se em Borda do Campo, em uma regi\u00e3o verdadeiramente estrat\u00e9gica: nos altos de um contraforte da Mantiqueira, de onde, com facilidade poderiam espraiar-se pelo vale do rio Doce, ou descer para o Paraopeba, ou mesmo tomar a dire\u00e7\u00e3o do Rio Grande\u201d (FERREIRA, 1958). <\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Estes Carij\u00f3s formaram um aldeamento que originou o primitivo arraial \u201cSenhora da Concei\u00e7\u00e3o do Campo Alegre de Carij\u00f3s\u201d ou \u201cArraial dos Carij\u00f3s\u201d, cujo territ\u00f3rio \u00e9 abrangido atualmente pelo munic\u00edpio Conselheiro Lafaiete, anteriormente, Queluz. A constru\u00e7\u00e3o da s\u00f3lida Igreja Matriz de Nossa Senhora da Concei\u00e7\u00e3o, bem como, de alguns edif\u00edcios desse arraial tem sido atribu\u00edda aos servi\u00e7os bra\u00e7ais dos Carij\u00f3s.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Muitos indiv\u00edduos ind\u00edgenas foram utilizados nos centros aur\u00edferos como m\u00e3o de obra nas lavras, como apontado na Instru\u00e7\u00e3o de Regimento de D. Rodrigo de Castelo Branco. Nesse documento s\u00e3o mencionados Carij\u00f3s como trabalhadores regulares nessa atividade. <em>\u201cAli\u00e1s, alguns testemunhos revelam, bem antes da ocupa\u00e7\u00e3o sistem\u00e1tica de Minas Gerais, a habilidade do gentio da terra na lide aur\u00edfera\u201d<\/em> (VEN\u00c2NCIO, 1997: 168).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Eram utilizados no transporte de mercadorias, v\u00edveres e ouro (substituindo os animais de carga) entre as lavras e os n\u00facleos urbanos por \u00edngremes caminhos, aberturas de estradas e implanta\u00e7\u00e3o de fazendas. Ind\u00edgenas, especialmente mulheres e crian\u00e7as, tamb\u00e9m participavam de atividades de ca\u00e7a, pesca e coleta, incluindo a agricultura.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201c<em>Os invent\u00e1rios registram a exist\u00eancia de lavoura de milho, produto essencial na antiga culin\u00e1ria paulista, consumindo em forma de farinha, canjica, cuscuz, biscoito, e utilizado como alimento de pequenos animais<\/em>\u201d (VEN\u00c2NCIO, 1997: 169).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Fi\u00e9is ou aliados em algumas situa\u00e7\u00f5es aos pr\u00f3prios senhores, Carij\u00f3s lutaram em grande n\u00famero na Guerra dos Emboabas, nos anos 1707 e 1709, respondendo ainda por um percentual de parte da escravaria e dos invent\u00e1rios de fam\u00edlias, tendo tido uma importante participa\u00e7\u00e3o na vida social e econ\u00f4mica na freguesia de Mariana.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201c<em>Em 1716, Ant\u00f4nia Leme herdou do marido importantes lavras e junto a elas 23 cativos, sendo 12 deles carij\u00f3s. O mesmo ocorreu com Ana Maria Borba que, apesar de ser filha de uma das mais ricas e influentes fam\u00edlias locais, manteve at\u00e9 a morte quatro carij\u00f3s em seu plantel de 15 escravos. Mesmo os senhores mais famosos de Mariana, aqueles que podiam recorrer ao mercado internacional, n\u00e3o deixavam de dispor de alguns \u00edndios remanescentes da primeira fase do povoamento<\/em>\u201d (VEN\u00c2NCIO, 1997: 168).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em 1710, os cativos carij\u00f3s representavam 16 a 23% da for\u00e7a de trabalho de Vila do Carmo, segundo raros invent\u00e1rios que resistiram \u00e0 umidade e parasitas levantados e identificados por Ven\u00e2ncio (1997: 168-169).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em uma meticulosa an\u00e1lise de documentos sobre a ocorr\u00eancia de escravos \u00edndios na Vila do Carmo (Mariana), focalizando as freguesias de Guarapiranga (atualmente, Piranga), Barra do Calhau, Inficionado, Brumado, Sumidouro, Bento Roiz e Gama, Ven\u00e2ncio (1997), constata o decr\u00e9scimo de indiv\u00edduos ind\u00edgenas em 1725, quando comparados ao ano de 1718.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>\u201cA partir de 1718, quem percorresse as lavras marianenses perceberia ano ap\u00f3s ano o desaparecimento do gentio da terra. Na d\u00e9cada de vinte, a escravid\u00e3o ind\u00edgena marianense entrara em franco decl\u00ednio. Os carij\u00f3s, de idade avan\u00e7ada e doentes, pouca serventia tinha, atingindo pre\u00e7os irris\u00f3rios que n\u00e3o se equiparam aos dos pequenos animais, ou representavam uma fra\u00e7\u00e3o m\u00ednima do valor referente aos negros africanos<\/em>\u201d (VEN\u00c2NCIO,1997: 172).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Analisando o \u00edndice de \u00f3bitos na freguesia de Guarapiranga, por exemplo, Ven\u00e2ncio ainda verificou o registro de falecimento de alguns carij\u00f3s, sendo que parte desses \u00f3bitos teria ocorrido sem sacramento, possivelmente, devido morte repentina. Baseando-se na obra \u201cEr\u00e1rio Mineral\u201d, de Lu\u00eds Gomes Ferreira, s\u00e3o indicadas as incid\u00eancias de v\u00e1rias doen\u00e7as que grassaram a regi\u00e3o de Mariana, ocasionando mortes s\u00fabitas, tais como, var\u00edola ou bexiga, mal\u00e1ria e impaludismo ainda denominados no documento supracitado como \u201c<em>fistulas, chagas, hidropsias e sezoens<\/em>\u201d (FERREIRA, <em>APUD<\/em> VEN\u00c2NCIO, 1997: 176). \u201c<em>Os \u00edndios faleciam em uma propor\u00e7\u00e3o tr\u00eas vezes mais elevada do que negros africanos e crioulos<\/em>\u201d (VEN\u00c2NCIO, 1997: 176).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A alimenta\u00e7\u00e3o ruim, a fome e as p\u00e9ssimas condi\u00e7\u00f5es de trabalho<a href=\"#_ftn8\" name=\"_ftnref8\">[8]<\/a> deveriam ter comprometido sensivelmente a sa\u00fade dos Carij\u00f3s. No come\u00e7o, o cativo fazia exclusivamente o transporte do cascalho, desde o rio ou dos montes, at\u00e9 o local de lavagem. Mais tarde foram introduzidos os animais de carga (ROMEIRO, 2006).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201c<em>A minera\u00e7\u00e3o exigia que os escravos permanecessem da cintura para baixo imersos nos g\u00e9lidos rios mineiros. Se lembrarmos que, al\u00e9m disso, na primeira fase do povoamento de Mariana, a fome foi uma realidade constante, n\u00e3o fica dif\u00edcil imaginar quanto a pneumonia e a tuberculose causaram sangrias nos contingentes populacionais ind\u00edgenas<\/em>\u201d (VEN\u00c2NCIO, 1997: 177).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Quando surgidas oportunidades, muitos ind\u00edgenas partiam em fuga para as matas do leste e sudeste de Minas Gerais, outros adoeciam ou envelheceram nos centros aur\u00edferos e fazendas, dando lugar a escravos africanos e seus descendentes. Alguns cativos ainda foram libertos, tornando-se \u201ccarij\u00f3s forros\u201d, ou partiram para quilombos, se unindo a escravos africanos e outros foragidos, tornando-se \u201c<em>homem fora da lei ou imerso no universo da pobreza<\/em>\u201d (VEN\u00c2NCIO, 1997: 178). Diogo de Vasconcelos em sua c\u00e9lebre obra \u201cHist\u00f3ria M\u00e9dia de Minas Gerais\u201d aponta a presen\u00e7a de homens brancos \u201cfac\u00ednoras\u201d ou foragidos da justi\u00e7a que, adaptando-se bem ao meio \u201cselvagino\u201d, afugentavam-se em aldeias estabelecendo alian\u00e7as com tribos. Organizavam, em algumas situa\u00e7\u00f5es, verdadeiros bandos que \u201c<em>passaram a inquietar povoados, as fazendas e arraiais<\/em>\u201d (1948: 15).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas como bem colocado por Ven\u00e2ncio, para os grupos n\u00e3o \u201c<em>domesticados<\/em>\u201d, o arraial de Guarapiranga encerrava na fase do ouro o limite aceit\u00e1vel da expans\u00e3o colonial, representados pelos rios Piranga, Calambau, Turvo e Bacalhau, onde \u201c<em>as incurs\u00f5es para al\u00e9m daquele limite eram ferozmente recha\u00e7adas (&#8230;)<\/em>\u201d (1997: 173\/174).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No entanto, apesar da exist\u00eancia de milhares de ind\u00edgenas em Minas Gerais mesmo com a instaura\u00e7\u00e3o de uma pol\u00edtica de exterm\u00ednio e de apresamento, alguns documentos coloniais insistiam em atestar o aniquilamento total dos ind\u00edgenas, j\u00e1 no in\u00edcio dos setecentos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201c<em>O governador de S\u00e3o Paulo admite, em 1718, que todos os habitantes \u00edndios da regi\u00e3o das Minas haviam sido exterminados pelos paulistas, sem que a hist\u00f3ria ao menos registrasse seus nomes<\/em>\u201d (RIBEIRO, 1997: 61).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Por outro lado, tamb\u00e9m foram produzidas escritas que divulgavam que as \u201c<em>zonas proibidas<\/em><a href=\"#_ftn9\" name=\"_ftnref9\">[9]<\/a>\u201d estariam infestadas de \u00edndios \u201ccanibais\u201d e \u201cbestiais\u201d, o que poderia dificultar a transposi\u00e7\u00e3o de contrabandistas, salteadores, fugitivos, bandoleiros, desertores, \u201chomens de falcatruas\u201d e outros tipos de criminosos. O marqu\u00eas de Pombal visando cessar de vez estes \u201c<em>abomin\u00e1veis caminhos<\/em>\u201d<a href=\"#_ftn10\" name=\"_ftnref10\">[10]<\/a> mandava a junta redobrar a vigil\u00e2ncia nessas plagas. Ind\u00edgenas expostos \u00e0 pr\u00f3pria sorte combatiam ainda parte desses grupos, ou, em algumas situa\u00e7\u00f5es, negociavam com seus mandantes.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201c<em>O abandono do distrito da Mantiqueira pelas autoridades que o supunham, ou fingiam supor, povoado apenas pelas ferozes na\u00e7\u00f5es ind\u00edgenas Xopot\u00f3s, Puris e Osor\u00f3s, favoreceu a a\u00e7\u00e3o daqueles que eram e dos que foram considerados pelas autoridades os facinorosos das estradas<\/em>\u201d (ANASTASIA, 2005: 90). As terras da Cachoeira do Macacu, nos confins da Mantiqueira, foram apossadas na segunda metade do s\u00e9culo XVIII por garimpos clandestinos e contrabandistas, liderados, como exemplo, por \u201cM\u00e3o de Luva\u201d (OLIVEIRA, 2002). A quadrilha de \u201cM\u00e3o de Luva\u201d possu\u00eda, no entanto, \u201c<em>boas rela\u00e7\u00f5es com comerciantes, soldados e \u00edndios<\/em>\u201d (ANASTASIA, 2005: 90). Segundo Anastasia, em algumas localidades da Capitania de Minas Gerais, ocorreram de forma mais ami\u00fade viol\u00eancias e transgress\u00f5es<a href=\"#_ftn11\" name=\"_ftnref11\">[11]<\/a>, constituindo-se em \u201c<em>territ\u00f3rios de mando<\/em>\u201d onde se disseminou o \u201c<em>mandonismo bandoleiro<\/em>\u201d (2005: 22) argumenta\u00e7\u00e3o baseada no conceito de viol\u00eancia social, desenvolvido por S. Abranges (1994).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Resende utiliza o termo \u201c\u00edndios coloniais\u201d compreendidos \u201c<em>como os \u00edndios ou seus descendentes, que destribalizados por diversas raz\u00f5es, de v\u00e1rias origens \u00e9tnicas e ou proced\u00eancias geogr\u00e1ficas, muitos nascidos dentro da sociedade colonial, foram incorporados \u00e0 vida sociocultural nas vilas e lugarejos<\/em>\u201d (RESENDE, 2003: 222).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os \u201c\u00edndios coloniais\u201d constitu\u00edam os indiv\u00edduos comprados, raptados, barganhados, destribalizados, fugitivos de aldeamentos, desalojados ou expulsos de suas terras que passaram a viver nas vilas e arraiais sob a tutela dos seus \u201cadministrados\u201d (RESENDE, 2003: 227).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">V\u00e1rios subterf\u00fagios foram utilizados para burlar a proibi\u00e7\u00e3o de se escravizar ind\u00edgenas.\u00a0 A primeira delas seria ocultar a origem ind\u00edgena dos escravos, sob o estigma de \u201cmesti\u00e7os\u201d, \u201cpardos\u201d, \u201ccabocoulas\u201d ou ainda outras denomina\u00e7\u00f5es, como \u201ccabras\u201d, conforme j\u00e1 citado. Em 1755, foi proclamada a lei de liberdade aos \u00edndios, reeditada em 1760 pelo governador de Minas, Luiz Diogo Lobo da Silva, aprofundando ainda mais os impasses no que diz respeito aos direitos e emancipa\u00e7\u00e3o ind\u00edgena. Algumas a\u00e7\u00f5es de liberdade ocorreram quando fora negada por ind\u00edgenas a \u201c<em>pecha de mesti\u00e7os<\/em>\u201d. Quando n\u00e3o havia registros de batismos o procedimento usual era a descri\u00e7\u00e3o f\u00edsica do requerente ou a sua \u201c<em>inspe\u00e7\u00e3o ocular<\/em>\u201d por parte de um juiz, visando confirmar a sua condi\u00e7\u00e3o ind\u00edgena. No entanto, para os filhos de pais carij\u00f3s e m\u00e3es escravas negras, \u201c<em>a escravid\u00e3o era certa<\/em>\u201d (RESENDE, 2007: 231\/234).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201c<em>Se n\u00e3o bastasse a resist\u00eancia dos colonos de se desfazer dos pr\u00e9stimos dos seus administrados, a justi\u00e7a ainda andava a passos vagarosos. As amea\u00e7as seguidas de pris\u00f5es arbitr\u00e1rias serviam de intimida\u00e7\u00e3o para aqueles que arvorassem para si o direito \u00e0 liberdade<\/em>\u201d (RESENDE, 2007: 233).\u00a0 No entanto, muitos \u201c\u00edndios coloniais\u201d sob a \u00e9gide de \u201cforros\u201d, \u201cafilhados\u201d, \u201cbastardos\u201d ou mesmo \u201clivres\u201d, continuavam muitas das vezes, realizando obriga\u00e7\u00f5es ou servi\u00e7os compuls\u00f3rios.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O pr\u00f3prio governador da Capitania, em 1793, Luiz Ant\u00f4nio Furtado de Mendon\u00e7a, o visconde de Barbacena, promove festa de batismo de sua \u201cafilhada\u201d na capela do pal\u00e1cio. Tratava-se de Josefa, uma \u201cbastarda\u201d capturada nas matas do Cuiet\u00e9 (leste mineiro, vale do rio Doce); \u00edndia \u201cAmbur\u00e9\u201d (ou Aimor\u00e9) tamb\u00e9m conhecida como \u201cboticuda\u201d (ou botocuda) (RESENDE, 2003).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">H\u00e1 ainda documentos relativos aos \u201cp\u00e1rocos da freguesia\u201d no acervo do Arquivo Eclesi\u00e1stico da Arquidiocese de Mariana que indicam ordena\u00e7\u00e3o de \u00edndio croato, o Padre Pedro da Mota, que teria estudado no Semin\u00e1rio de Mariana, tendo sido ordenado em 1790 (B\u00d4AS, 1995: 49).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Al\u00e9m de escapar do cativeiro e abusos, alguns ind\u00edgenas, sobretudo os que habitavam vilas e arraiais relacionados aos principais centros aur\u00edferos tiveram de enfrentar as visitas diocesanas e pastorais, verdadeiras devassas inquisitoriais onde muitas pessoas foram severamente punidas ou \u201cescorra\u00e7adas\u201d. Foram 767 den\u00fancias ind\u00edgenas ao longo dos setecentos, revelando a sua significativa presen\u00e7a por paragens da regi\u00e3o. Segundo Resende (2007), os principais motivos indicados nas den\u00fancias ou dela\u00e7\u00f5es contra \u00edndios teriam sido motivadas por bebedeira, alcouce, trato il\u00edcito, meretr\u00edcio, curandeirismo ou feiti\u00e7aria, incesto e concubinato. Outras formas de persegui\u00e7\u00f5es e animosidades contra os ind\u00edgenas se instauravam no chamado s\u00e9culo do ouro mineiro.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No entanto, nos arredores dos principais centros aur\u00edferos muitos grupos ind\u00edgenas se postavam em guerra contra os colonizadores, barrando as frentes de expans\u00e3o e instala\u00e7\u00e3o de novas propriedades. Em algumas situa\u00e7\u00f5es, posicionavam-se refrat\u00e1rios ao contato com n\u00e3o-\u00edndios, sendo considerados \u201carredios\u201d. Eram v\u00e1rias as reclama\u00e7\u00f5es dos colonos contra os gentios que habitavam as matas e brenhas das cercanias. \u201c(&#8230;) <em>em 1746, os moradores de Guarapiranga, lamentando a \u2018opress\u00e3o\u2019 por causa dos ataques dos \u2018infi\u00e9is\u2019, solicitavam a concess\u00e3o da licen\u00e7a para poderem entrar naqueles sert\u00f5es com bandeiras e conquistar aquele gentio<\/em>\u201d. Anos antes, Domingos Dias Ribeiro, solicitou ao governador a permiss\u00e3o para armar uma expedi\u00e7\u00e3o em Vila Rica rumo \u00e0s cabeceiras da Guarapiranga e \u201c<em>conquistar o gentio que achar bravo\u201d<\/em> (RESENDE, 2007: 225).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">H\u00e1 muitas refer\u00eancias a grupos de \u201cBotocudos\u201d, em localidades da regi\u00e3o central das Minas Gerais. No entanto, trata-se de designa\u00e7\u00e3o gen\u00e9rica dada pelos colonizadores a partir do s\u00e9cuco XVIII em fun\u00e7\u00e3o dos adere\u00e7os auriculares e labiais, os \u201cimato\u201d, utilizados por alguns grupos ind\u00edgenas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Boa parte dos naturalistas e pesquisadores estrangeiros que viajaram pelas terras mineiras nos s\u00e9culos XVIII e XIX teve, inclusive, em sua comitiva indiv\u00edduos Botocudos que lhe serviram como int\u00e9rpretes, guias e informantes. Saint-Hilaire, teve o apoio do \u00edndio Firmiano em sua excurs\u00e3o no vale do rio das Mortes (1975: 70). Mas, certamente a parceria mais famosa ocorreu entre Maximiliano Wied-Neuwied (1940) e Joaquim Quack, que acabou sendo levado para a Europa por seu tutor ao final da expedi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Provavelmente, os Botocudos, s\u00e3o os mesmos \u201c<em>Aimor\u00e9s<\/em>\u201d ou \u201c<em>Aimur\u00e9s<\/em>\u201d indicados em \u00e9poca anterior como habitantes das densas matas da Bahia, Minas Gerais e Esp\u00edrito Santo. Dessa maneira, a associa\u00e7\u00e3o da \u00edndia afilhada \u201cBoticuda\u201d, moradora de Ouro Preto, a grupos ind\u00edgenas \u201cAmbur\u00e9\u201d, teria sentido.<\/p>\n<figure id=\"attachment_2425\" aria-describedby=\"caption-attachment-2425\" style=\"width: 300px\" class=\"wp-caption alignleft\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-2425 size-medium\" src=\"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2018\/07\/Slide3-300x225.jpg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"225\" srcset=\"https:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2018\/07\/Slide3-300x225.jpg 300w, https:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2018\/07\/Slide3-768x576.jpg 768w, https:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2018\/07\/Slide3.jpg 960w\" sizes=\"auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-2425\" class=\"wp-caption-text\"><strong>Imagem 03<\/strong>: Fam\u00edlia de Botocudos em Marcha &#8211; 1834, de Jean-Baptiste Debret (1972).<\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\">As bacias do rio Doce, Jequitinhonha e Mucuri, leste mineiro, eram habitadas na ocasi\u00e3o dos primeiros contatos com os colonizadores e expedi\u00e7\u00f5es, por grupos e subgrupos com etn\u00f4nimos variados, pertencentes ao tronco lingu\u00edstico Macro-J\u00ea. Os mais conhecidos, al\u00e9m dos Aimor\u00e9s, j\u00e1 mencionados, s\u00e3o os: Etwet, Gutkrak, Takrukkrak, Giporacs, Malalis, Camacans, Batatas, Gutkraks, Makuni e Monox\u00f3s (WIED-NEUWIED, 1989; SAINT- HILAIRE, 1975; NIMUENDAJU, 1987). Grens ou Guerens (BA\u00caTA, 1925) s\u00e3o outras refer\u00eancias a grupos da regi\u00e3o, al\u00e9m de \u201c<em>Patutus, Napurus, Craempe, Pijouriis, Coconhum, Brue-Brue<\/em>\u201d (LEITE, 1949). Franco (1989) indica a presen\u00e7a durante o s\u00e9culo XVII de \u201cPapudos\u201d no Vale do Jequitinhonha. G. Ferreira (1934: 24) menciona que, \u201c<em>os Machalis, os Nacnenucs, os Jiporocs, os Macun\u00e9s, os Aran\u00e1s, os Urucus, os Pojich\u00e1s, os Crisciumas, os Ta-monhecs, os Pot\u00e9s, os Patach\u00f3s, etc., se fixaram na faixa de terra que se encontra situada no vale do rio Mucuri, estendendo-se ao NE e N at\u00e9 alcan\u00e7ar o Jequitinhonha, at\u00e9 o Doce e Sua\u00e7u\u00ed Grande<\/em>.\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Considerados tamb\u00e9m \u201cBotocudos\u201d, Aran\u00e3s seriam origin\u00e1rios do vale do Urupuca, que abarca atualmente os arredores dos munic\u00edpios de Santa Maria do Sua\u00e7u\u00ed e Capelinha, tendo sido aldeados no s\u00e9culo XIX em Itambacuri. Trata-se de um grupo ind\u00edgena cujos descendentes vivem atualmente em Ara\u00e7ua\u00ed, no Vale do Jequitinhonha, al\u00e9m de outras localidades do estado de Minas Gerais, incluindo a Regi\u00e3o Metropolitana de Belo Horizonte (CEDEFES, 2009).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os Maxacalis, por sua vez, tamb\u00e9m s\u00e3o antigos habitantes da regi\u00e3o do Sua\u00e7u\u00ed Grande, tendo sido aldeados em uma paragem denominada \u201cCatequese\u201d no per\u00edodo imperial, atualmente pertencente ao munic\u00edpio de \u00c1gua Boa. Alguns Maxacali ainda serviram como canoeiros no Vale do Jequitinhonha, transportando mercadorias at\u00e9 o litoral. Refugiados e sobreviventes de aldeias no Jequitinhonha partiram para as cabeceiras dos rios Umburanas, no Vale do Mucuri. Este povo se autodenomina \u201c<em>Tikmu-um\u201d <\/em>e, segundo levantamentos etno-hist\u00f3ricos e antropol\u00f3gicos, teriam sido inimigos de grupos Botocudos (\u00c1LVARES, 1992). Essa inimizade teria sido bem utilizada pelos colonizadores no processo de escraviza\u00e7\u00e3o e aliciamento desses povos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Segundo S. Leite (1949), povos de origem Tupi-Guarani, os Paranaubis, ainda denominados \u201cMares Verdes\u201d, foram anteriormente levados do alto e m\u00e9dio rio Doce no s\u00e9culo XVII, por expedi\u00e7\u00f5es jesu\u00edtas, para o aldeamento Reis Magos, no Esp\u00edrito Santo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201c<em>Os padres Jo\u00e3o Martins e Antonio Bellavia, escoltados por \u00edndios, realizaram uma expedi\u00e7\u00e3o partindo da aldeia dos Reis Magos a cinco de junho de 1624, retornando a quatorze de setembro do mesmo ano ao ponto de partida, juntamente com quatrocentos e cinquenta \u00edndios Paranaubis. Esses \u00edndios, tamb\u00e9m chamados de Mares Verdes, seriam possivelmente o \u00faltimo registro hist\u00f3rico na regi\u00e3o<\/em> (LEITE, 1949 APUD PIL\u00d3, BAETA, LIMA, 2009: 29).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>Os<\/em> Caiap\u00f3s ou Kaiap\u00f3s, tamb\u00e9m denominados \u201cBilreiros\u201d, durante muitos anos impuseram resist\u00eancia \u00e0 nova ordem social colonialista, nas por\u00e7\u00f5es oeste e norte<a href=\"#_ftn12\" name=\"_ftnref12\">[12]<\/a> de Minas Gerais (BAETA, 2000). Estes eram temidos pelos bandeirantes, que juntamente com os Botocudos tinham fama de terem \u201ch\u00e1bitos cru\u00e9is\u201d e at\u00e9 mesmo \u201cantropof\u00e1gicos\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>\u201cA guerra contra os Caiap\u00f3s foi, pode-se afirmar, a mais terr\u00edvel e a mais prolongada luta travada contra ind\u00edgenas em toda a Am\u00e9rica. Os documentos nos falam da ferocidade dos ataques destes bilreiros, o que motivou a guerra referida. N\u00e3o se esque\u00e7a, por\u00e9m, que os Caiap\u00f3s se tornaram terrivelmente cru\u00e9is, depois dos sucessivos ataques que sofreram dos brancos e mamelucos<\/em>\u201d (BARBOSA, 1971: 128).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em 1736, o Conde de Sarzedas baixou uma portaria \u201c<em>ap\u00f3s muitas queixas de viandantes dos caminhos das minas dos Goiases e \u00e0 representa\u00e7\u00e3o que lhe haviam feito os roceiros, das hostilidades e estragos do gentio Caiap\u00f3, tanto das ro\u00e7as como a algumas tropas<\/em>\u201d, dando permiss\u00e3o aos peticion\u00e1rios para que castigassem os autores de tais insultos; quando foi concedida licen\u00e7a franca para \u201c<em>guerrear e aprisionar o gentio<\/em>\u201d, contanto que fosse levada a cabo \u201cos <em>direitos da coroa, a qual caberia um quinto dos \u00edndios aprisionados<\/em>\u201d (BARBOSA, 1971: 131).\u00a0 Meia pataca por cabe\u00e7a era oferecida pelo exterm\u00ednio de Kayap\u00f3 (VEN\u00c2NCIO, 2007). Fazendeiros ficavam enfurecidos \u201c<em>com a a\u00e7\u00e3o predat\u00f3ria dos nativos sobre o gado solto em seus antigos terrenos de ca\u00e7a<\/em>\u201d (DEAN, 2000: 172).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Segundo Para\u00edso (1990), o combate aos Botocudos durante o s\u00e9culo XVII e primeira metade do s\u00e9culo XVIII no leste mineiro parece ter tido um car\u00e1ter c\u00edclico devido os grupos se subdividirem em pequenos bandos que atingiam as zonas vizinhas de forma intermitente. Quando os ind\u00edgenas eram atacados por abastecedores de escravos os indiv\u00edduos que escapavam costumavam buscar outros lugares para se afugentar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201c<em>A provisoriedade dos locais de habita\u00e7\u00e3o indica uma intensa vida n\u00f4made por parte dos \u00edndios, caracterizando uma estrat\u00e9gia de sobreviv\u00eancia baseada no ocultamento no interior da floresta. Isso fez com que aparentasse constituir um n\u00famero muito maior do que se confirmou depois. Cada uma das tribos se identificava por um nome pr\u00f3prio e tendia a se subdividir em raz\u00e3o de conflitos internos. A quantidade pequena de membros acabava ajudando a se manterem ocultos nas matas<\/em>\u201d (ESP\u00cdNDOLA, 2005: 137).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Uma pr\u00e1tica infame e comum era o tr\u00e1fico de \u201cKurucas\u201d ou \u201cCurucas\u201d por parte dos colonos; crian\u00e7as ind\u00edgenas eram raptadas para venda e explora\u00e7\u00e3o em fazendas e arraiais. Acirravam-se assim \u201c<em>os conflitos e as oposi\u00e7\u00f5es entre v\u00e1rios grupos ind\u00edgenas, tornando-os irreconcili\u00e1veis e inviabilizando qualquer forma de alian\u00e7a<\/em>\u201d (PARA\u00cdSO, 2005). Outro \u201cescandaloso abuso\u201d era \u201c<em>pilhar as mulheres \u00edndias, praticando com elas as maiores deprava\u00e7\u00f5es<\/em>\u201d (DEAN, 2000: 169).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A partir da segunda metade do s\u00e9culo XVIII, com a queda da explota\u00e7\u00e3o do ouro nos centros aur\u00edferos, h\u00e1 uma mudan\u00e7a significativa na economia mineira indicando a necessidade de reordena\u00e7\u00e3o da defesa, reafirmando a necessidade de expans\u00e3o das fronteiras por parte da Coroa. As matas do leste, outrora denominadas \u201cZona Proibida\u201d, conforme apontado, deveriam ser desbravadas em sua totalidade. Foi assim implantado um sistema de quart\u00e9is, destacamentos militares e pres\u00eddios ao longo dos principais rios sendo que os m\u00e9todos usados junto \u00e0 popula\u00e7\u00e3o ind\u00edgena eram de extrema viol\u00eancia, conhecidos pela express\u00e3o \u201c<em>matar aldeia<\/em>\u201d. T. Ottoni definiu este modo de combate por emboscadas ou dizima\u00e7\u00e3o estrat\u00e9gica de tribos ind\u00edgenas como uma verdadeira \u201c<em>Hecatombe de Selvagens<\/em>\u201d, tamb\u00e9m denominada \u201c<em>Capivara<\/em>\u201d (SILVA, 2011).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A Carta R\u00e9gia de 1808 criou a \u201cJunta de Civiliza\u00e7\u00e3o e Conquista dos \u00cdndios e Navega\u00e7\u00e3o do Rio Doce\u201d ordenando guerra ofensiva aos ind\u00edgenas, instaurando o modelo do \u201c<em>conservadorismo imperial\u201d<\/em>, segundo Treece (2008).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201c(&#8230;) <em>Deveis considerar como principiada contra estes \u00cdndios e Antropophagos, huma guerra ofenciva que continuareis sempre em todos os annos nas esta\u00e7\u00f5es secas e que n\u00e3o ter\u00e1 fim, sen\u00e3o quando tivereis a felicidade de vos senhorear de suas Habita\u00e7oens, e de os capacitar da superioridade da Minhas Reais Armas, de maneira tal, que movidos do justo terror das mesmas pess\u00e3o a Paz<\/em> (&#8230;)\u201d (APM SC 335, 1808: 2v).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A Junta do Rio Doce foi dividida, por sua vez, em seis distritos com seus respectivos comandantes, que deveria ainda explorar e mapear o rio Doce. Outra instru\u00e7\u00e3o era a de que deveria ser dada isen\u00e7\u00e3o para os terrenos cultivados, al\u00e9m de morat\u00f3ria para os devedores que para l\u00e1 se dirigissem.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Saint-Hilaire descreve dentro da atua\u00e7\u00e3o da 5\u00aa Divis\u00e3o Militar do Rio Doce, na regi\u00e3o de Pe\u00e7anha, um ataque a um aldeamento ind\u00edgena, onde \u201c<em>cercava-se por todos os lados o acampamentos dos selvagens; deixavam-nos passar a noite em completa seguran\u00e7a; e ao raiar do dia, viam-se cercados<\/em>\u201d (2000: 184).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Com o intuito de garantir o cumprimento das ordens e funcionamentos das Divis\u00f5es Militares do Rio Doce, inspe\u00e7\u00f5es regulares eram feitas por militares da tropa de linha da Capitania de Minas Gerais. Em 02 de dezembro de 1808, outra Carta R\u00e9gia ainda prev\u00ea a escolha de padres para atuarem na catequese, aldeamentos de \u00edndios e aproveitamento do seu trabalho, como contrapartida pelo \u201c<em>ensino e educa\u00e7\u00e3o<\/em>\u201d recebidos (SILVA e MOREIRA, 2006). Em 1814, j\u00e1 haviam sido instaladas 61 bases militares, sendo parte delas posteriormente comandadas pelo liberal franc\u00eas Guido Thomaz Marli\u00e8re<a href=\"#_ftn13\" name=\"_ftnref13\">[13]<\/a>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os grupos ind\u00edgenas que escolhessem o aldeamento ao inv\u00e9s do enfrentamento militar deveriam ser administrados a partir da\u00ed por m\u00e9todo de \u201c<em>brandura<\/em>\u201d, que permitisse a \u201c<em>pronta civiliza\u00e7\u00e3o<\/em>\u201d. Visando estimular a transforma\u00e7\u00e3o do prisioneiro em m\u00e3o de obra barata, o governo compensava particulares que estivessem dispostos a sustentar, vestir e \u201ceducar\u201d \u00edndios sob sua administra\u00e7\u00e3o (PARA\u00cdSO, 2005).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Freis Capuchinos por meio de miss\u00f5es religiosas participam da funda\u00e7\u00e3o e administra\u00e7\u00e3o de aldeamentos no rio Doce entre um per\u00edodo que se inicia em 1870 at\u00e9 a implanta\u00e7\u00e3o do Servi\u00e7o de Prote\u00e7\u00e3o dos \u00cdndios (SPI), em 1911.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Durante o per\u00edodo colonial e imperial, \u201c<em>\u00edndios eram, portanto, inimigos permanentes: quando mansos tra\u00edam, desertavam, voltavam-se contra os brancos se a alian\u00e7a com eles n\u00e3o mais interessasse. Se bravios, comiam gente, amea\u00e7avam os aldeamentos, pelos quais o mundo civilizado procurava domar os sert\u00f5es. Na documenta\u00e7\u00e3o oficial s\u00e3o os culpados de tudo (&#8230;)<\/em>\u201d (SOUZA, 1999: 33).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na esteira da tese da \u201cacultura\u00e7\u00e3o\u201d, desenvolvida pela antropologia cl\u00e1ssica, ficou preconizado que os sobreviventes ou remanescentes ind\u00edgenas nos s\u00e9culos seguintes estariam irreversivelmente fadados ao fim, onde as culturas e l\u00ednguas ind\u00edgenas seriam fatalmente dissipadas quando do contato cont\u00ednuo com a \u201c<em>sociedade nacional<\/em>\u201d ou quando \u201c<em>integrados \u00e0 comunh\u00e3o nacional<\/em>\u201d (ARRUDA, 1994: 78).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201c<em>As popula\u00e7\u00f5es ind\u00edgenas que sobreviveram ao longo do processo de genoc\u00eddio iniciado com a invas\u00e3o europeia na Am\u00e9rica, e mesmo os povos de contato mais recente, que superaram os choques dos primeiros anos de envolvimento com o mundo dos brancos t\u00eam apresentado nas \u00faltimas d\u00e9cadas uma taxa de crescimento maior do que as da popula\u00e7\u00e3o brasileira<\/em>\u201d (ARRUDA, 1994: 78).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Habitantes da antiga Vila de Pitangui, no vale do rio Par\u00e1, os ind\u00edgenas sob o etn\u00f4nimo Kaxix\u00f3, segundo relato do cacique Djalma, \u201c<em>eram proibidos de dizer que eram \u00edndios<\/em>\u201d, mas como dito por eles, \u201csempre estivemos por aqui\u201d&#8230; Talvez o fato de n\u00e3o se revelarem oficialmente enquanto \u00edndios para a sociedade nacional at\u00e9 final do s\u00e9culo XX tenha sido uma forma de controle social interno Kaxix\u00f3, dirimindo a press\u00e3o j\u00e1 sofrida relacionada a conflitos fundi\u00e1rios e sociais na regi\u00e3o (CEDEFES, 1992).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O foco do debate e das discuss\u00f5es te\u00f3ricas<a href=\"#_ftn14\" name=\"_ftnref14\">[14]<\/a> abordam a situa\u00e7\u00e3o da \u201cetnog\u00eanese\u201d (SIDER, 1976) dos povos ind\u00edgenas em oposi\u00e7\u00e3o ao fen\u00f4meno de \u201cetnoc\u00eddio\u201d quando s\u00e3o aplicados ainda os conceitos de \u201cemerg\u00eancia \u00e9tnica\u201d ou \u201cressurg\u00eancia \u00e9tnica\u201d. A cultura ind\u00edgena se (re)inventa, encontrando-se em constante transforma\u00e7\u00e3o, onde s\u00e3o produzidos novos significados identit\u00e1rios e formas variadas de representa\u00e7\u00e3o social e territorializa\u00e7\u00e3o. \u201c<em>Encarado dessa maneira, o acontecimento, ou seja, uma novidade exterior que venha incidir sobre uma estrutura, uma tradi\u00e7\u00e3o, n\u00e3o faz necessariamente que ela seja destru\u00edda: a l\u00f3gica que orquestra o conhecimento tradicional dos \u00edndios \u00e9 capaz de interpretar o novo, ajustando-o, adaptando-o, dando-lhe sentido, tornando-o intelig\u00edvel nos termos da l\u00f3gica nativa<\/em> (MISSAGIA DE MATTOS, 2000: 7).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Assim, contestando a ideia de \u201cperda\u201d, \u201cdesaparecimento\u201d ou \u201cfase terminal\u201d dos ind\u00edgenas e de sua cultura, que vigorou na literatura e historiografia at\u00e9 alguns dec\u00eanios atr\u00e1s, antrop\u00f3logos e historiadores, mas, sobretudo os pr\u00f3prios \u00edndios apresentam outra no\u00e7\u00e3o acerca da hist\u00f3ria, visibilidade e resist\u00eancia pol\u00edtica destes povos em Minas Gerais, como no restante do pa\u00eds.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Refer\u00eancias Bibliogr\u00e1ficas<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">ABDALA, M. C. <em>Guia da Hist\u00f3ria dos \u00cdndios de Minas Gerais (s\u00e9culo XIX),Universidade Federal de Uberl\u00e2ndia\/UFU, Uberl\u00e2ndia<\/em>, 1997.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">ABRANGES, S. A aliena\u00e7\u00e3o da autoridade: notas sobre a viol\u00eancia urbana e criminalidade. In: VELLOSO, J. P. dos R. (Org.) <em>Governabilidade, Sistema pol\u00edtico e Viol\u00eancia Urbana<\/em>. Rio de Janeiro: Ed Jos\u00e9 Olympio, 1994.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">ALVARES, M. M. <em>Y\u00e3miy , Os Esp\u00edritos do Canto \u2013 A constru\u00e7\u00e3o da Pessoa na Sociedade Maxacali.<\/em> Disserta\u00e7\u00e3o de Mestrado, UNICAMP, Campinas, 1992.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">ANASTASIA, C. M. J. <em>A Geografia do Crime-Viol\u00eancia nas Minas Setecentistas<\/em>. Belo Horizonte: Ed. UFMG, 2005.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">ARRUDA, R. Existem Realmente \u00cdndios no Brasil? In: <em>Em Perspectiva<\/em> 8(3), S\u00e3o Paulo, 1994.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">BA\u00caTA, W. A. \u201cManuscritos In\u00e9ditos (Vocabul\u00e1rio Botocudo)\u201d, Museu Nacional, Rio de Janeiro, 1925.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">BAETA, A. M. Aspectos sobre o processo de contato entre colonizadores e grupos ind\u00edgenas no Norte de Minas Gerais \u2013 Regi\u00e3o do Vale do Rio Perua\u00e7u. In:<em> O Carste<\/em>, Vol. 12, n\u00ba 1, Belo Horizonte, 2000.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">BAETA, A. &amp; PIL\u00d3 (Orgs.) <em>Marcas Hist\u00f3ricas &#8211; Miguel Burnier, Ouro Preto<\/em>. Artefactto Consultoria, Gerdau,\u00a0 Belo Horizonte: Ed. Rona, 2012.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">BARBOSA, W. de A. <em>A Decad\u00eancia das Minas e a Fuga da Minera\u00e7\u00e3o<\/em>. Edi\u00e7\u00e3o do Centro de Estudos Mineiros, Belo Horizonte, 1971.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">BARBOSA, W. de A.<em> Hist\u00f3ria de Minas Gerais<\/em> Ed. Comunica\u00e7\u00e3o, Belo Horizonte, 1979. V.1<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">BARBOSA, W. de A. <em>Dicion\u00e1rio Hist\u00f3rico e Geogr\u00e1fico de Minas Gerais.<\/em> Rio de Janeiro: Editora Itatiaia Limitada, 1995.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">BARTH, F. <em>Ethnic groups and boundaries: the social organization of cultural difference<\/em>. Bergen Olos: Universittets Forlaget\/Little Brown, 1969.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">B\u00d4AS, C. T. V. A Quest\u00e3o Ind\u00edgena em Minas Gerais: um Balan\u00e7o das Fontes e da Bibliografia. In: <em>Revista de Hist\u00f3ria<\/em>-LPH, n\u00ba 5, ICHS\/UFOP, Mariana, 1995.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">BOHRER, A. F. Ouro Preto: Um novo olhar S\u00e3o Paulo: Ed. Scortecci, 2011.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">CARDOSO DE OLIVEIRA, R. <em>O \u00cdndio e o Mundo dos Brancos. A situa\u00e7\u00e3o dos Tikuna no Alto Solim\u00f5es<\/em>. S\u00e3o Paulo: DIFEL, 1964.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">CARDOSO DE OLIVEIRA, R. <em>Urbaniza\u00e7\u00e3o e tribalismo. A integra\u00e7\u00e3o dos \u00edndios terena em uma sociedade de classes.<\/em> Rio de Janeiro: Zahar Editor, 1968.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">CEDEFES <em>Kaxix\u00f3, que \u00e9 este povo? <\/em>(Relat\u00f3rio T\u00e9cnico) CALDEIRA, V.;BAETA, A. M.; MISS\u00c1GIA DE MATOS, I.; SAMPAIO, J. A. L. CEDEFES\/ANAI, CESE, Contagem, 1992.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">CEDEFES Ind\u00edgenas na Regi\u00e3o Metropolitana de Belo Horizonte-RMBH: identifica\u00e7\u00e3o e subs\u00eddios para sua organiza\u00e7\u00e3o. CEDEFES\/Governo da Est\u00edria\/KMB. Belo Horizonte, 2009.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">DEAN, W.\u00a0 <em>A Ferro e Fogo \u2013 A Hist\u00f3ria da Devasta\u00e7\u00e3o da Mata Atl\u00e2ntica Brasileira.<\/em> S\u00e3o Paulo: Cia das Letras, 1996.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">DEBRET, J. B. <em>Viagem Pitoresca e Hist\u00f3rica ao Brasil.<\/em> S\u00e3o Paulo: Ed. Martins, 1972.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0ESPINDOLA, H. S. Sert\u00e3o do Rio Doce. Bauru: EDUSC, 2005.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">FERREIRA, Godofredo. <em>Os Bandeirantes Modernos &#8211; desbravamento e a coloniza\u00e7\u00e3o das matas do vale do rio Mucuri em Minas Gerais<\/em>. s\/n, 1934.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>FERREIRA, J. P (ORG.) Enciclop\u00e9dia dos munic\u00edpios brasileiros &#8211; <\/em>Instituto Brasileiro de Geografia e Estat\u00edstica (IBGE), <em>Volume XXIV,\u00a0 Ano 1958<\/em>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">FONSECA, C. D. <em>Arraias e Vilas D\u2019 El Rei: Espa\u00e7o e poder nas minas setecentistas<\/em>. Humanitas, Belo Horizonte: Ed. UFMG, 2011.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">FRANCO, F. de A. <em>Dicion\u00e1rio de Bandeirantes e Sertanistas do Brasil<\/em>. Belo Horizonte:Itatiaia;S\u00e3o Paulo:Edusp, 1989.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">KOK, G.\u00a0 Descal\u00e7os, Violentos e Famintos In: <em>Revista de Hist\u00f3ria da Biblioteca Nacional<\/em>, Ano 3, n \u00ba34, Rio de Janeiro, julho de 2008.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">KOK, G. Peregrina\u00e7\u00f5es, conflitos e identidades ind\u00edgenas nas aldeias quinhentistas de S\u00e3o Paulo. In: <em>Atas do XXV Simp\u00f3sio Nacional de Hist\u00f3ria\/<\/em> UFC, Fortaleza, 2009.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">HORTA DUARTE, R.\u00a0 &#8220;Conquista e civiliza\u00e7\u00e3o na Minas oitocentista&#8221;, <em>in<\/em> Te\u00f3filo Otoni, <em>Not\u00edcias sobre os selvagens do Mucuri<\/em>, Belo Horizonte: Editora da UFMC, 2002.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">JOS\u00c9, O. <em>Ind\u00edgenas de Minas Gerais-aspectos sociais, pol\u00edticos e etnol\u00f3gicos<\/em>. Belo Horizonte: Edi\u00e7\u00f5es Movimento Perspectiva, 1965.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">LEITE, S.\u00a0 <em>Hist\u00f3ria da Companhia de Jesus<\/em>, Tomo III, 1949.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">LIMA JR., A. de <em>A Capitania das Minas Gerais (origens e forma\u00e7\u00e3o)<\/em>. Belo Horizonte: Edi\u00e7\u00e3o do Instituto de Hist\u00f3ria, Letras e Artes. 3\u00aa Edi\u00e7\u00e3o,\u00a0 1965.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">MISSAGIA DE MATTOS, I. <em>\u00a0<\/em>Temas para o Estudo da Hist\u00f3ria Ind\u00edgena em Minas Gerai<em>s<\/em> In: <em>Cadernos de Hist\u00f3ria<\/em>, v.5,n.6, PUC- Minas, Belo Horizonte, 2005.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">MONTEIRO, J. M. <em>Negros da Terra: \u00edndios e bandeirantes na origem de S\u00e3o Paulo<\/em>. S\u00e3o Paulo:Cia das Letras, 1994.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">MONTEIRO, J. M. Bandeiras Mesti\u00e7as In: <em>Revista de Hist\u00f3ria da Biblioteca Nacional<\/em>, Ano 3, n\u00ba 34, Rio de Janeiro, julho de 2008.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">NIMUENDAJU, C. <em>Mapa Etnohist\u00f3rico de Curt Nimuendaju.<\/em> IBGE \/ Pr\u00f3Mem\u00f3ria, Rio de Janeiro, 1987.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">OLIVEIRA, J. P. A Viagem de Volta: reelabora\u00e7\u00e3o cultural e horizonte pol\u00edtico dos povos ind\u00edgenas do Nordeste<em>. In: Atlas das Terras Ind\u00edgenas,<\/em> PETI, UFRJ, Rio de Janeiro, 1994.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">OLIVEIRA, J. P. (Org.) <em>A Viagem de Volta &#8211; etnicidade, pol\u00edtica e reelabora\u00e7\u00e3o cultural no Nordeste Ind\u00edgena.<\/em> Contra Capa Livraria, Rio de Janeiro, 1999.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">OLIVEIRA, J. P. de Uma etnologia dos \u00edndios misturados? Situa\u00e7\u00e3o Colonial, territorializa\u00e7\u00e3o e fluxos culturais. In: <em>Mana, <\/em>estudos de antropologia social. 4\/1, PPGAS-MN-UFRJ, Rio de Janeiro, 1998.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">OLIVEIRA, R. L. de S. <em>Viol\u00eancia nos Sert\u00f5es Mineiros: A Quadrilha da Mantiqueira e a quest\u00e3o dos homens pobres livres.<\/em> (Monografia de Bacharelado) Departamento de Hist\u00f3ria-ICHS, UFOP, Mariana, 2002.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">PARANHOS, P. Primeiros n\u00facleos populacionais no Sul das Minas Gerais. In: <em>Hist\u00f3rica (Revista eletr\u00f4nica do Arquivo do Estado), <\/em>\u00a0n\u00ba 7, dezembro de 2005.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">PARA\u00cdSO, M. H. B.\u00a0 Os Botocudos em Bahia, Minas Gerais e Esp\u00edrito Santo, In: <em>D\u00e9dalo<\/em>, n. 28, S\u00e3o Paulo, 1990.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">PARA\u00cdSO, M. H. B. Guido Pokrane: o Imperador do Rio Doce. In: XXIII Simp\u00f3sio Nacional de Hist\u00f3ria: Hist\u00f3ria: Guerra e Paz, 2005, Londrina &#8211; Paran\u00e1. Anais do XXIII Simp\u00f3sio Nacional de Hist\u00f3ria: Hist\u00f3ria: Guerra e Paz, 2005. v. 1.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">PIL\u00d3, H.;BAETA, A. &amp; LIMA, M. A. As primeiras entradas nos sert\u00f5es do rio Doce: do sec. XVI ao s\u00e9c. XIX. IN: <em>Era Tudo Mata<\/em> (Org. REZENDE, M. &amp; ALVARES, R.) Belo Horizonte: Edi\u00e7\u00e3o CHA, 2009.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">RESENDE, M. L. C. <em>Gentios Bras\u00edlicos: \u00edndios coloniais nas Minas Gerais Setecentistas <\/em>(Tese de Doutorado) IFCH\/Universidade de Campinas, Campinas, 2003.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">RESENDE, M. L. C. de Minas das Cataguases- Entradas e Bandeiras nos sert\u00f5es do Eldorado In: <em>Varia Hist\u00f3ria<\/em>, n\u00ba 33, 2004.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">RESENDE, M. L. C. de\u00a0 Brasis Coloniais: \u00edndios e mesti\u00e7os nas Minas Gerais Setecentistas. In: <em>As Minas Setecentistas<\/em> (Org. RESENDE, M. E. L. de &amp; VILLALTA, L. C.) vol. 1. Aut\u00eantica; Cia do Tempo, Belo Horizonte, 2007.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">ROMEIRO, A. A Febre do Ouro. In: <em>Nossa Hist\u00f3ria<\/em>, Ano 3, n\u00ba 36, Ed. Vera Cruz, S\u00e3o Paulo, outubro de 2006.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">RIBAS, A. Matan\u00e7a em Pindorama In: <em>Revista Desvendando a Hist\u00f3ria<\/em>, Ano 4, n\u00ba 20, S\u00e3o Paulo, 2008.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">RIBEIRO, B. O <em>\u00cdndio na Hist\u00f3ria do Brasil<\/em>. S\u00e3o Paulo:Ed. Global, 1997.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">RUGENDAS, J. A. Viagem Pitoresca atrav\u00e9s do Brasil. S\u00e3o Paulo:Ed. Martins, 1967.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">SAINT-HILAIRE, A. <em>Viagem pelas Prov\u00edncias de Rio de Janeiro e Minas Gerais<\/em>. Belo Horizonte: Itatiaia; Belo Horizonte:Itatiaia: S\u00e3o Paulo:EDUSP, 1975.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">SIDER, G. M. Lumbre Indian Cultural\u00a0 nationalism and ethnogenesis. In: <em>Dialectical Anthropology<\/em>, 1, 1976.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">SILVA, W. F. da\u00a0 Empreendimentos comerciais e a quest\u00e3o ind\u00edgena nos sert\u00f5es de Minas Gerais (1847-1860) <em>Em Tempo<\/em> UNB PPG, n\u00ba 18, Bras\u00edlia, 2011.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">SILVA, T. G. da &amp; MOREIRA, V. M. L. Junta de Civiliza\u00e7\u00e3o e Conquista dos \u00edndios e Navega\u00e7\u00e3o do Rio Doce. In: <em>Revista \u00c1gora<\/em>, Vit\u00f3ria, n\u00ba 4, 2006.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">SOUZA, L. de M. e <em>Norma e Conflito \u2013 Aspectos da Hist\u00f3ria de Minas no S\u00e9culo XVIII<\/em> Belo Horizonte :Ed. UFMG, Humanitas, 1999.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">TORRES, J. C. de O. <em>Hist\u00f3ria de Minas Gerais<\/em>. Vol. 1. Difus\u00e3o Pan-Americana, Belo Horizonte, 1961.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">TREECE, D. Exilados, Aliados, Rebeldes: o movimento indianista, a pol\u00edtica indigenista e o estado-na\u00e7\u00e3o imperial. S\u00e3o Paulo, EDUSP\/ Nankin,\u00a0 2008.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">VEN\u00c2NCIO, R. P. Os \u00faltimos carij\u00f3s: escravid\u00e3o ind\u00edgena em Minas Gerais colonial. In:<em> Revista Brasileira de Hist\u00f3ria<\/em>, v. 17, n\u00ba 34, S\u00e3o Paulo, 1997.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">WIED NEUWIED, M. <em>Viagem ao Brasil (1782-1867). <\/em>Belo Horizonte: Ed. Itatiaia, S\u00e3o Paulo: EDUSP, 1989.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Arquivo P\u00fablico Mineiro-APM<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Carta do Marqu\u00eas de Pombal \u00e0 Junta de Administra\u00e7\u00e3o da Real Fazenda da Capitania de Minas Gerais de 10 de novembro de 1773. APM.SC.SG c\u00f3dice 192 fls.248\/249.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Carta R\u00e9gia do Pr\u00edncipe D. Jo\u00e3o ao Governador da Capitania de Minas Gerais Pedro Maria Xavier de Atha\u00edde e Melo, Visconde de Condeixa de 13 de maio\u00a0 de 1808. APM-SC C\u00f3dice 335 fls. 2-4.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Carta R\u00e9gia do Pr\u00edncipe D. Jo\u00e3o ao Governador da Capitania de Minas Gerais Pedro Maria Xavier de Atha\u00edde e Melo, Visconde de Condeixa de 04 de agosto de 1808. APM -SC C\u00f3dice 335 fls. 4-5.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Carta R\u00e9gia do Pr\u00edncipe D. Jo\u00e3o ao Governador da Capitania de Minas Gerais Pedro Maria Xavier de Atha\u00edde e Melo, Visconde de Condeixa de 02 de dezembro de 1808. APM-SC C\u00f3dice 335 fls. 5-7.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Biblioteca Nacional<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mapa de Demonstra\u00e7\u00e3o do Rio S\u00e3o Francisco em Minas Gerais-s\u00e9c. XVIII<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\">[1]<\/a>\u00a0Doutora em Arqueologia pelo MAE\/USP; P\u00f3s-Doutorado em Arqueologia\/Antropologia-FAFICH\/UFMG; Mestre em Educa\u00e7\u00e3o pela FAE\/UFMG; Historiadora e Membro do CEDEFES (Centro de Documenta\u00e7\u00e3o Eloy Ferreira da Silva) &#8211; e-mail: <a href=\"mailto:alenicebaeta@yahoo.com.br\">alenicebaeta@yahoo.com.br<\/a>\u00a0\u00a0 Este artigo foi publicado em formato de cap\u00edtulo no livro: \u201cMarcas Hist\u00f3ricas-Ouro Preto\u201d pp. 40-57 (BAETA, A. &amp; PIL\u00d3, 2012).\u00a0<a href=\"#_ftnref2\" name=\"_ftn2\"><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">[2] Na l\u00edngua Tupi-Guarani, quer dizer \u201cMenino de Pedra\u201d ou ainda \u201cFilho da Montanha\u201d.\u00a0\u00a0 Etimologicamente: Ita (Pedra) e Kunumim (Menino).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref3\" name=\"_ftn3\">[3]<\/a> As expedi\u00e7\u00f5es de apreamento destinavam-se em especial aos grupos guarani, tendo em vista que os paulistas tinham grandes dificuldades em falar l\u00ednguas n\u00e3o-Tupis. Segundo Kok, os Guain\u00e1s (J\u00eas) eram considerados \u201c<em>l\u00edngua travada<\/em>\u201d, devido sua l\u00edngua nativa (2009:02).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref4\" name=\"_ftn4\">[4]<\/a>Segundo RIBAS (2008) nesta \u00e9poca parte dos \u00edndios capturados iam diretamente para fazendas, mas a maioria ainda era entregue aos aldeamentos administrados pelos jesu\u00edtas. Enquanto eram evangelizados, tinham sua m\u00e3o-de-obra alugada pelo restante dos paulistas. A Carta R\u00e9gia de 21 de abril de 1702 determinava que o cativeiro de ind\u00edgena estivesse proibido, no entanto, era admitido que se trouxesse \u201cpacificamente\u201d ind\u00edgenas do mato.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref5\" name=\"_ftn5\">[5]<\/a> Os \u2018l\u00ednguas\u2019 normalmente eram Guarani (Carij\u00f3s) escravos ou ainda mesti\u00e7os, descendentes de pai branco ou m\u00e3e \u00edndia, que trabalhavam como int\u00e9rpretes, pois falavam a \u2018l\u00edngua geral\u2019 (Tupi). Cabe lembrar, que em meados do s\u00e9c. XVII 83% da popula\u00e7\u00e3o da Vila de S\u00e3o Paulo era formada por ind\u00edgenas (KOK, 2008:23).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref6\" name=\"_ftn6\">[6]<\/a> Os bandeirantes gozavam de autoriza\u00e7\u00f5es legais, quando recebiam carta autografada do El-Rei e promessas de h\u00e1bito de Cristo. As bandeiras possu\u00edam assim car\u00e1ter oficial (TORRES, 1961:114).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref7\" name=\"_ftn7\">[7]<\/a> O nome Coroado, segundo Saint-Hilaire \u201c<em>\u00e9 um apelido tirado da l\u00edngua portuguesa<\/em>\u201d. Sugere que os Coroados de Valen\u00e7a seriam compostos por quatro tribos: \u201c<em>Puris, Araris, Pitas e Chumetos<\/em>\u201d (1975:36).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref8\" name=\"_ftn8\">[8]<\/a> Em Ouro Preto, no in\u00edcio do s\u00e9c. XIX, as doen\u00e7as respirat\u00f3rias eram a principal causa de morte dos escravos (COSTA, 1979 APUD VEN\u00c2NCIO, 1997: 181). Em per\u00edodos de fome, garimpeiros em busca de comida se dirigiam a localidades nas cercanias de Vila Rica que produziam alimentos como Cachoeira do Campo e Amarantina. Segundo alguns, o \u201cCampo da Caveira\u201d (atual distrito de Rodrigo Silva) teria sido localidade onde homens famintos acabavam por padecer em decorr\u00eancia da inani\u00e7\u00e3o (BOHRER, 2011: 23). Nessas localidades se desenvolve atividades voltadas a economia de subsist\u00eancia surgindo uma rede de pequenos lavradores, os roceiros, que se dedicavam ainda a comercializa\u00e7\u00e3o do excedente agr\u00edcola (VEN\u00c2NCIO, 2007).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref9\" name=\"_ftn9\">[9]<\/a>O governo metropolitano com a inten\u00e7\u00e3o de coibir o contrabando do ouro e a exist\u00eancia de lavras clandestinas mandou que se fechassem quaisquer trilhas e logradouros existentes nas imedia\u00e7\u00f5es das \u00e1reas de minera\u00e7\u00e3o, as considerando &#8220;zonas ou \u00e1reas proibidas&#8221; \u00e0 ocupa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref10\" name=\"_ftn10\">[10]<\/a> APM.SC. SG C\u00f3dice 192 fls.248\/249.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref11\" name=\"_ftn11\">[11]<\/a>A omiss\u00e3o ou a in\u00e9pcia das autoridades locais faziam dos sert\u00f5es \u201cterras de ningu\u00e9m\u201d, onde reinava o imp\u00e9rio da viol\u00eancia, redutos de transgressores que nestas paragens quase intoc\u00e1veis se acoitavam. Resultado em parte de conflitos de jurisdi\u00e7\u00e3o, litigantes e da iniquidade da a\u00e7\u00e3o p\u00fablica, tornando-se zonas de \u201c<em>non-droit<\/em>\u201d (ANASTASIA, 2005: 56).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref12\" name=\"_ftn12\">[12]<\/a>Havia aldeamentos Caiap\u00f3s em diversas localidades do rio S\u00e3o Francisco, no norte mineiro. Entre os rios das Velhas e Quebra Anzol foram ainda encontrados povos Arax\u00e1 ou Araxu\u00e9s (RESENDE, 2003). Na regi\u00e3o de Brejo do Salgado (atual Janu\u00e1ria) foram atacadas e destru\u00eddas as aldeias Gua\u00edbas e Tapira\u00e7abas atribu\u00eddas a Caiap\u00f3s pelo Mestre de Campo Janu\u00e1rio Cardoso e Manoel Pires de Maciel, fugitivo das justi\u00e7as do norte (VASCONCELOS, 1948: 39). Segundo Saint Hilaire, grupos que habitavam esta regi\u00e3o foram posteriormente denominados Chacriab\u00e1s ou Xicriab\u00e1s (1975: 340).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref13\" name=\"_ftn13\">[13]<\/a> Militar franc\u00eas designado em 1813 para verificar irregularidades e abusos cometidos pelos diretores de \u00edndios das aldeias dos Puris, Coroados e Corop\u00f3s. Em 1818 foi indicado como Diretor Geral dos \u00cdndios de Minas Gerais. Buscou romper com a pol\u00edtica agressiva impetrada nas Cartas R\u00e9gias de 1808, retomando um \u201cmodelo de civiliza\u00e7\u00e3o\u201d nos moldes do Marqu\u00eas de Pombal.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref14\" name=\"_ftn14\">[14]<\/a> Instrumentos te\u00f3ricos foram desenvolvidos no sentido de estabelecer di\u00e1logos referentes ao fen\u00f4meno do contato inter\u00e9tnico, tais como a no\u00e7\u00e3o de \u201csitua\u00e7\u00e3o inter\u00e9tnica\u201d e \u201c tribalismo\u201d por R. Cardoso de Oliveira (1964 e 1968) e F. Barth (1969); bem como, \u201csitua\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica\u201d e \u201cviagem de volta\u201d por J. P. de Oliveira (1988 e 1994), dentre outras abordagens. \u00a0A tend\u00eancia das an\u00e1lises \u00e9 discutir \u201c\u00edndios misturados\u201d e \u201cetnologia das perdas\u201d como fabrica\u00e7\u00e3o ideol\u00f3gica e distorcida da hist\u00f3ria ind\u00edgena (OLIVEIRA, 1999: 17).<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Resist\u00eancia e Hist\u00f3ria Ind\u00edgena nas antigas terras de Vila Rica &#8211; Minas Gerais.\u00a0Por Alenice Baeta[1] O territ\u00f3rio onde se encontra Ouro Preto, antiga Vila Rica, outrora fazia parte do \u201cSert\u00e3o dos Cataguases\u201d ou das \u201cMinas<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[17],"tags":[],"class_list":["post-2422","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-destaque"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2422","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=2422"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2422\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":2426,"href":"https:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2422\/revisions\/2426"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=2422"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=2422"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=2422"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}