{"id":3127,"date":"2018-11-08T17:22:38","date_gmt":"2018-11-08T19:22:38","guid":{"rendered":"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/?p=3127"},"modified":"2018-11-08T17:30:54","modified_gmt":"2018-11-08T19:30:54","slug":"senso-comum-ciencia-e-tecnocracia-ambiguidades-e-contradicoes","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/gilvander.org.br\/site\/senso-comum-ciencia-e-tecnocracia-ambiguidades-e-contradicoes\/","title":{"rendered":"Senso comum, ci\u00eancia e tecnocracia: ambiguidades e contradi\u00e7\u00f5es."},"content":{"rendered":"<p><strong>Senso comum, ci\u00eancia e tecnocracia: ambiguidades e contradi\u00e7\u00f5es.\u00a0<\/strong>Por Gilvander Moreira<a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\"><sup>[1]<\/sup><\/a><\/p>\n<figure id=\"attachment_3128\" aria-describedby=\"caption-attachment-3128\" style=\"width: 300px\" class=\"wp-caption alignleft\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-3128 size-medium\" src=\"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2018\/11\/maria-vai-com-as-outras-300x224.jpg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"224\" srcset=\"https:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2018\/11\/maria-vai-com-as-outras-300x224.jpg 300w, https:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2018\/11\/maria-vai-com-as-outras.jpg 455w\" sizes=\"auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-3128\" class=\"wp-caption-text\">Reprodu\u00e7\u00e3o: <a href=\"http:\/\/filosofarna21.blogspot.com\/2013\/09\/senso-comum-x-conhecimento-cientifico.html\">http:\/\/filosofarna21.blogspot.com\/2013\/09\/senso-comum-x-conhecimento-cientifico.html<\/a><strong>\u00a0<\/strong><\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\">O que \u00e9 senso comum, as rela\u00e7\u00f5es entre senso comum e ci\u00eancia, a tecnocracia, que \u00e9 o governo dos t\u00e9cnicos, ou seja, daqueles que se entendem como cientistas. Em que medida essas quest\u00f5es \u2013 senso comum, ci\u00eancia e tecnocracia \u2013 afetam a luta pela terra e por direitos humanos fundamentais? Quais concep\u00e7\u00f5es de senso comum e ci\u00eancia contribuem para que a luta pela terra e por direitos sociais seja pedagogia de emancipa\u00e7\u00e3o humana?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u201cO senso comum, enquanto conceito filos\u00f3fico, surge no s\u00e9culo XVIII e representa o combate ideol\u00f3gico da burguesia emergente contra o irracionalismo do antigo regime\u201d (SANTOS, 1995, p. 39). A burguesia emergente considerava o senso comum como algo natural, razo\u00e1vel, prudente e pouco a pouco foi apresentando-o como universal. O senso comum n\u00e3o \u00e9 apol\u00edtico, mas est\u00e1 entranhado por rela\u00e7\u00f5es de poder. Para ascender ao poder, a burguesia mostrou a positividade do senso comum, mas para permanecer e se reproduzir no poder, a burguesia, ao se apropriar do saber cient\u00edfico, come\u00e7ou a menosprezar e ridicularizar o senso comum. \u201cA valoriza\u00e7\u00e3o filos\u00f3fica do senso comum esteve, pois, ligada ao projeto pol\u00edtico de ascens\u00e3o ao poder da burguesia, pelo que n\u00e3o surpreende que, uma vez ganho o poder, o conceito filos\u00f3fico de senso comum tenha sido correspondentemente desvalorizado como significando um conhecimento superficial e ilus\u00f3rio\u201d (SANTOS, 21995, p. 39).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cA ci\u00eancia \u00e9 uma especializa\u00e7\u00e3o, um refinamento de potenciais comuns a todos\u201d (ALVES, 1981, p. 9). Importa recordar que est\u00e1 no imagin\u00e1rio coletivo e social que \u201ccientista tem autoridade, sabe sobre o que est\u00e1 falando e os outros devem ouvi-lo e obedec\u00ea-lo\u201d (ALVES, 1981, p. 7). Nesse diapas\u00e3o, apregoam os adeptos da tecnocracia, aqueles que entendem a t\u00e9cnica como fruto da ci\u00eancia, enquanto algo superior a quem n\u00e3o \u00e9 perito no assunto, e concebe a ci\u00eancia como sendo superior a todo e qualquer senso comum e, por isso, alegam que quem n\u00e3o \u00e9 cientista deve obedecer aos cientistas. Mas \u201c\u00e9 necess\u00e1rio acabar com o mito de que o cientista \u00e9 uma pessoa que pensa melhor do que as outras\u201d (ALVES, 1981, p. 8), que ci\u00eancia \u00e9 neutra, imparcial e absoluta, pois \u201ccientistas s\u00e3o como pianistas que resolveram especializar-se numa t\u00e9cnica s\u00f3\u201d (ALVES, 1981, p. 8). Podem ter autoridade na t\u00e9cnica na qual se especializaram, mas a vida social \u00e9 uma sinfonia que para ser tocada exige a intera\u00e7\u00e3o de uma variedade de t\u00e9cnicas e saberes. Ci\u00eancia \u00e9 importante, mas muitas vezes a ci\u00eancia esquarteja a realidade, que \u00e9 algo din\u00e2mico e complexo. Um princ\u00edpio que rege muitos cientistas \u00e9 saber cada vez mais sobre o menos. O predominante no meio cient\u00edfico \u00e9 que \u201cf\u00edsicos n\u00e3o entendem os soci\u00f3logos, que n\u00e3o sabem traduzir as afirma\u00e7\u00f5es dos bi\u00f3logos, que por sua vez n\u00e3o compreendem a linguagem da economia, e assim por diante\u201d (ALVES, 1981, p. 8).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o podemos aceitar o dualismo e nem o manique\u00edsmo que compreende o que \u00e9 cient\u00edfico como verdadeiro e o senso comum como algo falso. Conv\u00e9m recordar que \u201ca express\u00e3o \u2018senso comum\u2019 foi criada por pessoas que se julgam acima do senso comum, como uma forma de se diferenciarem das pessoas que, segundo seu crit\u00e9rio, s\u00e3o intelectualmente inferiores\u201d (ALVES, 1981, p. 9). A ci\u00eancia nasceu e se construiu contra o senso comum, mas toda ci\u00eancia irrompe, evolui e tamb\u00e9m caduca, pois, como algo relativo, \u201caquilo que outros homens, em outras \u00e9pocas, consideraram como ci\u00eancia, sempre parece rid\u00edculo, s\u00e9culos depois\u201d (ALVES, 1981, p. 12). Para a ci\u00eancia evoluir e os cientistas serem respeitados tiveram que caracterizar o senso comum como ilus\u00e3o, falsidade, conservadorismo, superficialidade, enviesamento.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 necess\u00e1rio tamb\u00e9m prestarmos aten\u00e7\u00e3o \u00e0 pondera\u00e7\u00e3o que Rubem Alves faz ao analisar a rela\u00e7\u00e3o entre senso comum e ci\u00eancia. Diz ele: \u201cO senso comum e a ci\u00eancia s\u00e3o express\u00f5es da mesma necessidade b\u00e1sica, a necessidade de compreender o mundo, a fim de viver melhor e sobreviver. E para aqueles que teriam a tend\u00eancia de achar que o senso comum \u00e9 inferior \u00e0 ci\u00eancia, eu s\u00f3 gostaria de lembrar que, por dezenas de milhares de anos, os homens sobreviveram sem coisa alguma que se assemelhasse \u00e0 nossa ci\u00eancia. A ci\u00eancia, curiosamente, depois de cerca de quatro s\u00e9culos, desde que ela surgiu com seus fundadores, est\u00e1 colocando s\u00e9rias amea\u00e7as \u00e0 nossa sobreviv\u00eancia\u201d (ALVES, 1981, p. 16).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O senso comum se constr\u00f3i tomando por base o que aparece \u00e0 primeira vista, busca reconciliar a consci\u00eancia social com o que existe, melhor dizendo, com o que \u00e9 percebido e assimilado como existindo. \u201cO senso comum \u00e9 um conhecimento evidente que pensa o que existe tal como existe e cuja fun\u00e7\u00e3o \u00e9 reconciliar a todo custo a consci\u00eancia comum consigo pr\u00f3pria\u201d (SANTOS, 1995, p. 34). Diferentemente do senso comum, a ci\u00eancia se rege pelo princ\u00edpio do primado das rela\u00e7\u00f5es sociais, que \u201cestabelece que os fatos sociais se explicam por outros fatos sociais e n\u00e3o por fatos individuais (psicol\u00f3gicos) ou naturais (da natureza humana ou outra\u201d (SANTOS, 1995, p. 34). No s\u00e9culo XIX, as ci\u00eancias sociais nasceram das ci\u00eancias naturais e em oposi\u00e7\u00e3o ao senso comum, \u201cmas ao contr\u00e1rio das ci\u00eancias naturais, que sempre recusaram frontalmente o senso comum sobre a natureza, as ci\u00eancias sociais t\u00eam tido com ele uma rela\u00e7\u00e3o muito complexa e amb\u00edgua\u201d (SANTOS, 1995, p. 40). H\u00e1 ci\u00eancias sociais que reconhecem aspectos positivos no senso comum e outras, n\u00e3o. As ci\u00eancias sociais reconhecem <em>sensos comuns<\/em> e n\u00e3o apenas senso comum. Podendo apresentar uma voca\u00e7\u00e3o solidarista e\u00a0 transclassista, o senso comum apresenta, muitas vezes, um tom conservador e preconceituoso, conforme alerta Santos: \u201cSe o senso comum \u00e9 o menor denominador comum daquilo em que um grupo ou um povo coletivamente acredita, ele tem, por isso, uma voca\u00e7\u00e3o solidarista e transclassista. Numa sociedade de classes, como \u00e9 em geral a sociedade conformada pela ci\u00eancia moderna, tal voca\u00e7\u00e3o n\u00e3o pode deixar de assumir um vi\u00e9s conservador e preconceituoso, que reconcilia a consci\u00eancia com a injusti\u00e7a, naturaliza as desigualdades e mistifica o desejo de transforma\u00e7\u00e3o\u201d (SANTOS, 1995, p. 40).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Refer\u00eancias.<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">ALVES, RUBEM. <strong>Filosofia da ci\u00eancia: introdu\u00e7\u00e3o ao jogo e suas regras<\/strong>. S\u00e3o Paulo: Brasiliense, 1981.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">SANTOS, Boaventura de Souza. <strong>Um Discurso sobre as Ci\u00eancias<\/strong>. 7\u00aa edi\u00e7\u00e3o. Porto: Edi\u00e7\u00f5es Afrontamento, 1995.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Belo Horizonte, MG, 06\/11\/2018.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\">[1]<\/a> Frei e padre da Ordem dos carmelitas; doutor em Educa\u00e7\u00e3o pela FAE\/UFMG; licenciado e bacharel em Filosofia pela UFPR; bacharel em Teologia pelo ITESP<strong>\/<\/strong>SP; mestre em Ci\u00eancias B\u00edblicas; assessor da CPT, CEBI, SAB e Ocupa\u00e7\u00f5es Urbanas; prof. de \u201cMovimentos Sociais Populares e Direitos Humanos\u201d no IDH, em Belo Horizonte, MG.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E-mail: <a href=\"mailto:gilvanderlm@gmail.com\">gilvanderlm@gmail.com<\/a> \u2013 <a href=\"http:\/\/www.gilvander.org.br\">www.gilvander.org.br<\/a> &#8211; <a href=\"http:\/\/www.freigilvander.blogspot.com.br\">www.freigilvander.blogspot.com.br<\/a>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 \u2013<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"http:\/\/www.twitter.com\/gilvanderluis\">www.twitter.com\/gilvanderluis<\/a>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 \u2013\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Facebook: Gilvander Moreira III<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Senso comum, ci\u00eancia e tecnocracia: ambiguidades e contradi\u00e7\u00f5es.\u00a0Por Gilvander Moreira[1] O que \u00e9 senso comum, as rela\u00e7\u00f5es entre senso comum e ci\u00eancia, a tecnocracia, que \u00e9 o governo dos t\u00e9cnicos, ou seja, daqueles que se<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":3128,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[21,27,43],"tags":[],"class_list":["post-3127","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-artigo","category-direitos-humanos","category-pedagogia-emancipatoria"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3127","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=3127"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3127\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":3130,"href":"https:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3127\/revisions\/3130"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media\/3128"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=3127"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=3127"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=3127"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}