{"id":622,"date":"2017-11-01T08:58:53","date_gmt":"2017-11-01T10:58:53","guid":{"rendered":"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/?p=622"},"modified":"2017-11-01T08:58:53","modified_gmt":"2017-11-01T10:58:53","slug":"injustica-hidrica-e-clamor-por-agua-por-frei-gilvander-01112017","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/gilvander.org.br\/site\/injustica-hidrica-e-clamor-por-agua-por-frei-gilvander-01112017\/","title":{"rendered":"Injusti\u00e7a h\u00eddrica e clamor por \u00e1gua.\u00a0Por frei Gilvander. 01\/11\/2017."},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: center;\"><strong>Injusti\u00e7a h\u00eddrica e clamor por \u00e1gua.\u00a0<\/strong>Por frei Gilvander Moreira<a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\">[1]<\/a><\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-623 aligncenter\" src=\"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2017\/11\/Povo-sem-\u00e1gua-300x218.jpg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"218\" srcset=\"https:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2017\/11\/Povo-sem-\u00e1gua-300x218.jpg 300w, https:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2017\/11\/Povo-sem-\u00e1gua.jpg 620w\" sizes=\"auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/p>\n<p>Precedida por doze pr\u00e9-romarias, em doze cidades do noroeste, norte e centro-oeste de Minas, com a participa\u00e7\u00e3o de seis mil pessoas, a 20\u00aa Romaria das \u00c1guas e da Terra de Minas Gerais teve sua celebra\u00e7\u00e3o final em Una\u00ed, no noroeste de Minas, na Diocese de Paracatu, dia 23 de julho de 2017, com o tema: \u201cPovos da Cidade e do Sert\u00e3o Clamando por \u00c1gua, Terra e P\u00e3o\u201d; e com o lema: \u201cPovos, Rios, Veredas e Nascentes s\u00e3o Dons de Deus em Romaria e Resist\u00eancia\u201d.<\/p>\n<p>Percorrendo os 12 munic\u00edpios envolvidos diretamente na 20\u00aa Romaria, constatamos o alto grau de degrada\u00e7\u00e3o do Bioma Cerrado e do ecossistema que o envolve, em uma regi\u00e3o considerada \u201ccaixa d\u2019\u00e1gua\u201d de Minas: rios secos ou com baixo volume de \u00e1gua, devido ao uso abusivo de piv\u00f4s na irriga\u00e7\u00e3o de monoculturas de cana, soja, milho, capim, al\u00e9m de extensas planta\u00e7\u00f5es de eucalipto e minera\u00e7\u00e3o devastadora. A \u00eanfase no agroneg\u00f3cio, que engorda a conta banc\u00e1ria de empresas e de alguns privilegiados n\u00e3o esconde os malef\u00edcios advindos dessa pol\u00edtica predat\u00f3ria: contamina\u00e7\u00e3o do len\u00e7ol fre\u00e1tico e dos alimentos pelo uso de agrot\u00f3xicos; espantoso aumento da incid\u00eancia de c\u00e2ncer e de outras doen\u00e7as em toda a regi\u00e3o noroeste de MG; morte de animais, extin\u00e7\u00e3o de esp\u00e9cies vegetais, seca prolongada, desertifica\u00e7\u00e3o, desemprego (devido ao alto grau de mecaniza\u00e7\u00e3o nas grandes lavouras), conflitos agr\u00e1rios, viol\u00eancia no campo e nas cidades. Os rios Urucuia, Paracatu e Preto est\u00e3o \u00e0 m\u00edngua e o Rio S\u00e3o Francisco por um fio&#8230; \u00a0Essas mesmas pr\u00e1ticas acontecem em outras regi\u00f5es de Minas Gerais e do Brasil, com a cumplicidade do poder p\u00fablico\/\u00f3rg\u00e3os ambientais, afetando outros biomas, esgotando e poluindo as \u00e1guas, expulsando popula\u00e7\u00f5es ribeirinhas, ind\u00edgenas, quilombolas, geraizeiros, vazanteiros e pescadores, quebrando tradi\u00e7\u00f5es e conhecimentos seculares.<\/p>\n<p>Guimar\u00e3es Rosa dizia: \u201cMeu rio de amor \u00e9 o Urucuia\u201d. Assim como os rios Preto, Paracatu e S\u00e3o Miguel, no noroeste de Minas Gerais, o rio Urucuia est\u00e1 na UTI, pois est\u00e1 sofrendo com o processo de assoreamento por parte do agroneg\u00f3cio e do hidroneg\u00f3cio. A capta\u00e7\u00e3o de \u00e1gua no rio Urucuia para irrigar monoculturas do agroneg\u00f3cio \u00e9 muito maior do que o que a COPASA capta para abastecer a popula\u00e7\u00e3o da cidade de Buritis. Seu leito est\u00e1 secando devido \u00e0 constru\u00e7\u00e3o de barragens e piv\u00f4s ao longo de seus afluentes, prejudicando o rio e a popula\u00e7\u00e3o que necessita da sua \u00e1gua para trabalhar, beber e viver. Mas o rio n\u00e3o est\u00e1 sozinho: \u201c<em>Na luta por liberdade \/ Voc\u00ea n\u00e3o est\u00e1 sozinho \/ S\u00e3o milhares de pessoas \/ Que te t\u00eam muito carinho<\/em>\u201d. Nas palavras de Jorge Augusto Xavier de Almeida, o Jorj\u00e3o Sem Terra, preso pol\u00edtico em Una\u00ed, MG, referindo-se t\u00e3o carinhosamente, ao c\u00f3rrego Barriguda. Imposs\u00edvel n\u00e3o associar a todas as fontes de \u00e1gua doce do nosso pa\u00eds.<\/p>\n<p>Durante a Caravana Cultural da 20\u00aa Romaria das \u00c1guas e da Terra de Minas Gerais, com sete shows \u201cEco-l\u00f3gico\u201d, dos cantores Carlos Farias e Wilson Dias, em sete cidades do noroeste de MG, v\u00e1rias vezes, o violeiro Wilson Dias fez refer\u00eancia a uma met\u00e1fora muito eloquente. Dizia ele: \u201cN\u00e3o sei se voc\u00eas j\u00e1 viram um ro\u00e7ado pegando fogo. Quando o ro\u00e7ado pega fogo, os p\u00e1ssaros, em alvoro\u00e7o, cantam e gritam muito para alertar que algo muito perigoso est\u00e1 acontecendo. Sem o ro\u00e7ado, os p\u00e1ssaros sabem que n\u00e3o ter\u00e3o futuro. Com tanta devasta\u00e7\u00e3o ambiental, n\u00f3s violeiros juntamos nossas vozes para cantar e convocar todo mundo para salvarmos o ro\u00e7ado que est\u00e1 pegando fogo. Nosso ro\u00e7ado \u00e9 Minas Gerais, \u00e9 o Brasil, \u00e9 o mundo. Os rios onde nad\u00e1vamos na nossa inf\u00e2ncia j\u00e1 foram secados. Com urg\u00eancia, precisamos frear os processos de devasta\u00e7\u00e3o. Basta de monoculturas, de agroneg\u00f3cio, de hidroneg\u00f3cio. Cuidar dos olhos de \u00e1gua se tornou necess\u00e1rio e vital para o futuro das pr\u00f3ximas gera\u00e7\u00f5es.\u201d<\/p>\n<p>As fam\u00edlias de agricultores familiares dos 77 Assentamentos de reforma agr\u00e1ria do noroeste de Minas est\u00e3o encurraladas por grandes fazendas industriais mecanizadas, em agricultura do agroneg\u00f3cio e do hidroneg\u00f3cio. Muitos desses assentamentos est\u00e3o precisando de caminh\u00e3o pipa para o fornecimento de \u00e1gua. Os munic\u00edpios de Una\u00ed e Paracatu se tornaram os campe\u00f5es do Brasil em n\u00famero de piv\u00f4s de irriga\u00e7\u00e3o e em \u00e1rea irrigada, mais de 120.903 mil hectares (Dados da ANA, 2014). Em Una\u00ed, em 2104, havia 663 piv\u00f4s irrigando 61.151 hectares de lavouras. Em Paracatu, em 2014, havia 882 piv\u00f4s irrigando 59.752 hectares de lavoura. O exagero de agrot\u00f3xico jogado na agricultura empresarial tem causado uma \u201cepidemia\u201d de c\u00e2ncer, alzheimer e outras doen\u00e7as.<\/p>\n<p>Antigamente, esperava-se chegar a chuva para plantar, mas agora os empres\u00e1rios do agroneg\u00f3cio plantam v\u00e1rias vezes por ano lavouras irrigadas, captando \u00e1gua das lagoas, dos c\u00f3rregos, dos rios e do len\u00e7ol fre\u00e1tico via po\u00e7os artesianos. S\u00f3 que a capta\u00e7\u00e3o est\u00e1 beneficiando apenas alguns propriet\u00e1rios empres\u00e1rios e deixando milhares de fam\u00edlias camponesas na dificuldade. Assim, a mis\u00e9ria est\u00e1 se alastrando no campo e na cidade no noroeste de Minas.<\/p>\n<p>O que acontece no noroeste mineiro \u00e9 que os grandes fazendeiros praticantes da agricultura empresarial t\u00eam avan\u00e7ado na consolida\u00e7\u00e3o de seus projetos de irriga\u00e7\u00e3o, de forma abusiva. Ocorre que se tornou rotina na regi\u00e3o a constru\u00e7\u00e3o de barragens nas cabeceiras dos principais c\u00f3rregos, em nascentes e lagoas, com o objetivo de captar \u00e1gua para a irriga\u00e7\u00e3o. Isso funciona com uma quantidade enorme de \u00e1gua sem que eles sejam autorizados ou licenciados pelos \u00f3rg\u00e3os ambientais. E esses c\u00f3rregos s\u00e3o respons\u00e1veis pelo abastecimento dos rios Urucuia, Preto, Paracatu e outros afluentes do rio S\u00e3o Francisco. O poder p\u00fablico\/Estado e os \u00f3rg\u00e3os ambientais est\u00e3o sendo c\u00famplices dessa devasta\u00e7\u00e3o socioambiental. N\u00e3o fiscalizam e concedem licen\u00e7as ambientais que na pr\u00e1tica s\u00e3o usadas para se captar muito mais \u00e1gua do que o permitido legalmente. A 20\u00aa Romaria das \u00c1guas e da Terra de Minas denunciou isso e anuncia que o caminho justo e ecologicamente sustent\u00e1vel \u00e9 reforma agr\u00e1ria, agricultura familiar agroecol\u00f3gica em comunh\u00e3o com preserva\u00e7\u00e3o ambiental. Isso precisa ser garantido atrav\u00e9s de lutas coletivas em nome da nossa responsabilidade socioambiental e geracional.<\/p>\n<p>A ONU reconheceu a \u00e1gua como um direito humano. \u201cO esp\u00edrito de Deus est\u00e1 nas \u00e1guas\u201d (G\u00eanesis 1,2). Logo, matar as nascentes de \u00e1gua ou contaminar a \u00e1gua \u00e9 matar o esp\u00edrito vivificador. \u00c1gua \u00e9 fonte de vida, alertava a Campanha da Fraternidade de 2004. \u00c1gua \u00e9 o sangue da terra. A terra sem \u00e1gua \u00e9 um corpo sem vida. Os c\u00f3rregos e rios s\u00e3o as art\u00e9rias do grande corpo que \u00e9 a Terra, Gaia. Por amor \u00e0 vida, \u00e0 \u00e1gua, aos povos, a todos os organismos vivos e \u00e0s pr\u00f3ximas gera\u00e7\u00f5es, \u00e9 urgente o compromisso de todos para frear a imensa injusti\u00e7a h\u00eddrica que est\u00e1 em curso. A guerra pela \u00e1gua j\u00e1 iniciou. Feliz quem se comprometer coletivamente com a revitaliza\u00e7\u00e3o de todas as nascentes e das bacias hidrogr\u00e1ficas! A luta pela \u00e1gua implica luta pela terra, luta pela redu\u00e7\u00e3o do agroneg\u00f3cio e das monoculturas dizimadoras das \u00e1guas. Implica tamb\u00e9m luta pela supera\u00e7\u00e3o do modelo de Estado que temos: Estado c\u00famplice do sistema do capital, com uma classe pol\u00edtica profissional que faz o servi\u00e7o sujo da classe dominante.<\/p>\n<p>Belo Horizonte, MG, 31\/10\/2017.<\/p>\n<p><strong>Obs<\/strong>.: Confira v\u00eddeo ilustrativo da Injusti\u00e7a h\u00eddrica e do clamor por \u00e1gua no link,\u00a0 abaixo.<\/p>\n<figure class=\"wp-block-embed wp-block-embed-youtube is-type-video is-provider-youtube epyt-figure\"><div class=\"wp-block-embed__wrapper\"><div class=\"epyt-video-wrapper\"><iframe loading=\"lazy\"  id=\"_ytid_15681\"  width=\"810\" height=\"456\"  data-origwidth=\"810\" data-origheight=\"456\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/4SSzzrbnn20?enablejsapi=1&autoplay=0&cc_load_policy=0&cc_lang_pref=&iv_load_policy=1&loop=0&rel=1&fs=1&playsinline=0&autohide=2&theme=dark&color=red&controls=1&disablekb=0&\" class=\"__youtube_prefs__  no-lazyload\" title=\"YouTube player\"  allow=\"fullscreen; accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen data-no-lazy=\"1\" data-skipgform_ajax_framebjll=\"\"><\/iframe><\/div><\/div><\/figure>\n<p><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\">[1]<\/a> Padre da Ordem dos carmelitas; licenciado e bacharel em Filosofia pela UFPR; bacharel em Teologia pelo ITESP\/SP; mestre em Ci\u00eancias B\u00edblicas pelo Pontif\u00edcio Instituto B\u00edblico de Roma, It\u00e1lia; doutor em Educa\u00e7\u00e3o pela FAE\/UFMG; assessor da CPT, CEBI, CEBs, SAB e Ocupa\u00e7\u00f5es Urbanas; professor de \u201cDireitos Humanos e Movimentos Populares\u201d em curso de p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o do IDH, em Belo Horizonte, MG. e-mail:\u00a0gilvanderlm@gmail.com\u00a0\u2013 <a href=\"http:\/\/www.freigilvander.blogspot.com.br\">www.freigilvander.blogspot.com.br<\/a> &#8211; \u00a0<a href=\"http:\/\/www.gilvander.org.br\">www.gilvander.org.br<\/a> \u00a0\u2013\u00a0<a href=\"http:\/\/www.twitter.com\/gilvanderluis\">www.twitter.com\/gilvanderluis<\/a> \u00a0\u2013 Facebook: Gilvander Moreira III<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Injusti\u00e7a h\u00eddrica e clamor por \u00e1gua.\u00a0Por frei Gilvander Moreira[1] Precedida por doze pr\u00e9-romarias, em doze cidades do noroeste, norte e centro-oeste de Minas, com a participa\u00e7\u00e3o de seis mil pessoas, a 20\u00aa Romaria das \u00c1guas<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":623,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[17],"tags":[],"class_list":["post-622","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-destaque"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/622","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=622"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/622\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":624,"href":"https:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/622\/revisions\/624"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media\/623"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=622"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=622"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=622"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}