{"id":7134,"date":"2020-06-21T12:07:07","date_gmt":"2020-06-21T15:07:07","guid":{"rendered":"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/?p=7134"},"modified":"2020-06-21T12:09:12","modified_gmt":"2020-06-21T15:09:12","slug":"tende-medo-somente-do-medo-por-marcelo-barros","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/gilvander.org.br\/site\/tende-medo-somente-do-medo-por-marcelo-barros\/","title":{"rendered":"\u201cTende medo somente do medo\u201d. &#8220;N\u00e3o adianta querer cuidar das ovelhas sem enfrentar os lobos.&#8221; Por Marcelo Barros"},"content":{"rendered":"\n<p><strong>\u201cTende medo somente do medo\u201d. <\/strong> &#8220;<strong>N\u00e3o adianta querer cuidar das ovelhas sem enfrentar os lobos.&#8221;<\/strong> Por Marcelo Barros<a href=\"#_ftn1\">[1]<\/a><\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image is-resized\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/Latuff-Dois-projetos.jpeg\" alt=\"\" class=\"wp-image-7135\" width=\"520\" height=\"292\" srcset=\"https:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/Latuff-Dois-projetos.jpeg 640w, https:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/Latuff-Dois-projetos-300x169.jpeg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 520px) 100vw, 520px\" \/><\/figure>\n\n\n\n<p>O refr\u00e3o desta m\u00fasica pastoral do padre Zezinho, muito\ncantada no meu tempo de jovem, me vem \u00e0 mente quando releio o evangelho deste\n12\u00ba Domingo comum do ano (Mateus 10,26- 33), dia 21 de junho de 2020. \u00c9 a\ncontinua\u00e7\u00e3o do discurso que Mateus coloca na boca de Jesus como palavras de\nenvio dos disc\u00edpulos e disc\u00edpulas em miss\u00e3o. Em poucos versos, tr\u00eas vezes,\nJesus insiste em dizer: \u201c<em>N\u00e3o tenham medo<\/em>\u201d(v.26,\n28 e 31). Que import\u00e2ncia pode ter para n\u00f3s estas palavras exatamente neste\nmomento no qual estamos amea\u00e7ados\/as pela pandemia e temos raz\u00f5es s\u00e9rias para\nter medo?<\/p>\n\n\n\n<p>A primeira constata\u00e7\u00e3o \u00e9 que Jesus nos adverte de que\na miss\u00e3o implica em conflitos, sofrimentos e riscos para as pessoas que &nbsp;v\u00e3o testemunhar a boa not\u00edcia da vinda do projeto\ndivino no mundo. Jesus tinha mandado os disc\u00edpulos e disc\u00edpulas irem de dois em\ndois para cuidar das pessoas doentes, libert\u00e1-las das energias negativas e\ntestemunhar que o projeto original que Deus tem para este mundo est\u00e1 pronto\npara se realizar. &nbsp;Por que este tipo de\nmiss\u00e3o provocaria tanta oposi\u00e7\u00e3o e conflito? Na Am\u00e9rica Latina, nos \u00faltimos 60\nanos, temos convivido com o mart\u00edrio de muitos irm\u00e3os e irm\u00e3s (h\u00e1 quem calcule\nem 30 mil pessoas) que foram assassinados\/as por serem testemunhas do reino de Deus\nna caminhada das comunidades do campo e da cidade, na defesa da vida dos povos\nind\u00edgenas e da m\u00e3e Terra, na luta n\u00e3o violenta pelos direitos humanos e da\nnatureza.&nbsp; <\/p>\n\n\n\n<p>A comunidade de Mateus escreveu estas palavras de\nJesus nos anos 80, quando j\u00e1 tinha meditado sobre a viol\u00eancia sofrida por Jesus\nem sua paix\u00e3o. J\u00e1 tinham ocorrido as primeiras persegui\u00e7\u00f5es do Imp\u00e9rio contra\nos crist\u00e3os no tempo de Nero. O Juda\u00edsmo rab\u00ednico j\u00e1 tinha rompido com a Igreja\ncrist\u00e3. Ser disc\u00edpulo ou disc\u00edpula de Jesus era conflitivo e perigoso.<\/p>\n\n\n\n<p>Como diz Jesus: <em>eu\nvos envio como ovelhas para o meio de lobos.<\/em> Parece loucura um pastor mandar\novelhas para o meio de lobos. De fato, muitos sacerdotes, intelectuais (doutores\nda lei), governadores e reis \u2013 que deveriam ser&nbsp;\npastores \u2013 na realidade, se comportam como lobos que perseguem e devoram\nos enviados do reino, assim como perseguem e devoram as ovelhas. Naquela \u00e9poca,\ncrist\u00e3os\/\u00e3s s\u00f3 entravam nas sedes do poder religioso (sinagogas) e pol\u00edtico,\narrastados como r\u00e9us. Hoje, n\u00e3o \u00e9 mais assim. H\u00e1 religiosos que em nome de\nJesus v\u00e3o ao planalto fazer barganhas. <\/p>\n\n\n\n<p>A proposta de Jesus aos disc\u00edpulos \u00e9 que resistam \u00e0s\npersegui\u00e7\u00f5es; principalmente n\u00e3o deixem de ser ovelhas. Nunca se comportem como\nlobos.<\/p>\n\n\n\n<p>Como resistir?&nbsp;\nNada de barganha com o poder pol\u00edtico para conseguir dinheiro para seus\nprojetos religiosos. (o que, desde os tempos da col\u00f4nia, aqui na Am\u00e9rica\nLatina, n\u00e3o poucos bispos, padres e pastores sempre fizeram. Quem n\u00e3o lembra de\nbispos, padres e pastores que colaboraram com a coloniza\u00e7\u00e3o? Nos tempos de\nditaduras militares, colaboravam com a repress\u00e3o. Agora s\u00e3o favor\u00e1veis ao\ndesgoverno que promove a destrui\u00e7\u00e3o e a morte. &nbsp;Aos disc\u00edpulos e disc\u00edpulas que v\u00e3o em miss\u00e3o,\nJesus pede resist\u00eancia e oposi\u00e7\u00e3o n\u00e3o violenta. Devem ter a sabedoria da\nserpente (No mito de Ad\u00e3o e Eva, a serpente \u00e9 considerada o mais astuto dos\nanimais da terra, capaz de seduzir o homem e a mulher que, ing\u00eanuos, se\ndeixaram enganar. &nbsp;(Gn 3,1). Para\nenfrentar os lobos \u00e9 preciso ser mais s\u00e1bios do que eles. Precisamos conhecer o\nbem e o mal, sem nos deixar corromper, contaminar pelo poder que esta sabedoria\nd\u00e1. A\u00ed a simplicidade e integridade das pombas \u00e9 importante. Essas duas\nqualidades (capacidade de discernir e simplicidade) s\u00e3o fundamentais para testemunhar\no projeto divino no mundo. A miss\u00e3o deve ser isso: \u00e0s ovelhas, testemunhar o\nreino da paz e da justi\u00e7a; aos que s\u00e3o lobos, enfrent\u00e1-los corajosamente com a\nfor\u00e7a do testemunho. N\u00e3o se consegue fazer uma coisa sem a outra e a for\u00e7a vem\ndo Esp\u00edrito Santo. Algu\u00e9m tem de avisar a muitos que se dizem pastores: <strong>N\u00e3o adianta querer cuidar das ovelhas sem\nenfrentar os lobos. <\/strong>Isso foi assim desde os tempos do \u00caxodo. Mois\u00e9s\nprecisou conduzir o povo para a liberdade e, ao mesmo tempo, enfrentar o fara\u00f3.\nEste foi o problema da religi\u00e3o judaica depois do cativeiro da Babil\u00f4nia: aceitar\ncooperar com os imp\u00e9rios opressores para ter liberdade de culto? Mas, a\u00ed s\u00f3 tinham\nsacerdotes. O salmo lamenta: \u201c<em>N\u00e3o h\u00e1 mais\nprofetas e ningu\u00e9m sabe at\u00e9 quando\u201d<\/em> (Sl 74, 9). No discurso da montanha,\nJesus tinha proclamado: <em>\u201cFelizes as pessoas perseguidas por causa da\njusti\u00e7a, porque delas \u00e9 o reino dos c\u00e9us. Felizes sois quando vos insultarem e\nperseguirem e, mentindo, disserem todo mal contra v\u00f3s, por minha causa.\nAlegrai-vos e exultai, porque grande \u00e9 a vossa recompensa nos c\u00e9us. Assim, com\nefeito, perseguiram os profetas que vieram antes de v\u00f3s\u201d.<\/em> (5,10-12).<\/p>\n\n\n\n<p>As Igrejas precisam aprofundar\na dimens\u00e3o pol\u00edtica da sua espiritualidade e teologia. Sem isso, s\u00f3 resta a\nreligi\u00e3o tradicional e cultual que Jesus denunciou. \u00c9 preciso a coragem de testemunhar\no reinado divino no mundo. Jesus adverte de que este enfrentamento provocar\u00e1\ndivis\u00f5es at\u00e9 dentro de casa, oposi\u00e7\u00f5es dentro das pr\u00f3prias fam\u00edlias. Quem de\nn\u00f3s n\u00e3o est\u00e1 vendo isso acontecer no Brasil? Irm\u00e3o contra irm\u00e3o, pai contra\nfilhos, filhos e filhas contra pai e m\u00e3e&#8230; A casa, que deveria ser lugar da\npaz, acaba virando lugar do \u00f3dio. E isso ser\u00e1 assim at\u00e9 o fim dos tempos. A\n\u00faltima palavra deste evangelho pode ser mal interpretada. Jesus diz: <em>quem der testemunho de mim diante dos\npoderosos, eu tamb\u00e9m darei testemunho dele ou dela diante do Pai e quem me\nrenegar, eu o renegarei diante do Pa<\/em>i. <\/p>\n\n\n\n<p>Na par\u00e1bola do ju\u00edzo final no\nmesmo evangelho de Mateus quando Jesus diz: <em>Vinde\nbenditos do meu Pai porque tive fome e me destes de comer, tive sede e me\ndestes de beber&#8230;<\/em> e dir\u00e1 aos que n\u00e3o o reconheceram nos mais pobres: <em>n\u00e3o vos conhe\u00e7o<\/em>&#8230; As imagens tanto de\numa passagem quanto da outra s\u00e3o dos apocalipses, que ainda falam de julgamento,\nc\u00e9u e inferno. Hoje, crist\u00e3os chegam a dizer que o coronav\u00edrus foi provocado\npor Deus e acham que falam bem de Jesus. Testemunham um deus de direita,\nfascista, amigo dos seus amigos e cruel com os que o ignoram. Hoje, falar bem\nde Jesus \u00e9 denunciar esta religi\u00e3o do mal. Falar bem de Jesus \u00e9 colocar a f\u00e9 e\no culto a servi\u00e7o do amor, da justi\u00e7a eco-social e da liberta\u00e7\u00e3o dos\noprimidos.&nbsp; &nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Nesta pandemia, temos motivos\npara ter medo, mas a palavra de Jesus nos d\u00e1 for\u00e7a para enfrentar todos os medos.\nA can\u00e7\u00e3o do padre Zezinho nos lembra: \u201c<em>Tende\nmedo somente do medo. A verdade vos libertar\u00e1, libertar\u00e1..<\/em>.\u201d. <br><\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator\"\/>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref1\">[1]<\/a> Padre monge beneditino, te\u00f3logo&nbsp; e biblista da Teologia da Liberta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u201cTende medo somente do medo\u201d. &#8220;N\u00e3o adianta querer cuidar das ovelhas sem enfrentar os lobos.&#8221; Por Marcelo Barros[1] O refr\u00e3o desta m\u00fasica pastoral do padre Zezinho, muito cantada no meu tempo de jovem, me vem<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":7135,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[21,49,27,30,26],"tags":[],"class_list":["post-7134","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-artigo","category-direito-a-terra","category-direitos-humanos","category-fe-e-politica","category-teologia-da-libertacao"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7134","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=7134"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7134\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":7137,"href":"https:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7134\/revisions\/7137"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media\/7135"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=7134"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=7134"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=7134"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}