{"id":7138,"date":"2020-06-21T20:27:18","date_gmt":"2020-06-21T23:27:18","guid":{"rendered":"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/?p=7138"},"modified":"2020-06-21T20:37:16","modified_gmt":"2020-06-21T23:37:16","slug":"%ef%bb%bfpoema-madreuscula-de-antonio-souza-capurnan","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/gilvander.org.br\/site\/%ef%bb%bfpoema-madreuscula-de-antonio-souza-capurnan\/","title":{"rendered":"\ufeffPOEMA &#8220;Madre\u00fascula&#8221;, de Ant\u00f4nio Souza Capurnan"},"content":{"rendered":"\n<p><strong>Poema &#8220;Madre\u00fascula&#8221;, de Ant\u00f4nio Souza Capurnan<\/strong><\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-audio\"><audio controls src=\"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/Madre\u00fascula.mp3\" autoplay><\/audio><\/figure>\n\n\n\n<p><strong>Narra\u00e7\u00e3o<\/strong>:\nCarmem Imaculada de Brito<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Poema Madre\u00fascula, de Ant\u00f4nio Souza Capurnan<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>M\u00e3e foi no sempre uma mulher de coragem, andeios e\ntravessia.<\/p>\n\n\n\n<p>Contam que certa feita, l\u00e1 na ro\u00e7a, M\u00e3e, quieta,\ncalada, torrava farinha de manjoca, e pai, com seu feitio de homem tempestivo,\nenfezava M\u00e3e, numa briga de voz apunhalada. \u00c0 certa altura, ela se descuidou de\nsi, e ele veio por tr\u00e1s e a jogou no ch\u00e3o. M\u00e3e n\u00e3o se fez de triste abatida\nn\u00e3o. Alevantou-se e p\u00f4s um ti\u00e7\u00e3o aceso no olho direito de pai, que nunca mais\nse atreveu a bater em M\u00e3e.<\/p>\n\n\n\n<p>Noutra ocasi\u00e3o, o que contam, m\u00e3e de pai, minhav\u00f3,\nfoi atacada por uma vaca enraivecida. Dizem que pai gritava, chamuscava,\nxingando para que um fosse l\u00e1 espantar a vaca, mas pai mesmo n\u00e3o tinha coragem\nde enfrentar o bicho alevantado.&nbsp; M\u00e3e se\narrevestiu de for\u00e7a, pegou num enxad\u00e3o, enfrentou a vaca e, despois, esbravejou\npai com o enxad\u00e3o triscando em punho.<\/p>\n\n\n\n<p>M\u00e3e foi de sempre uma senhora mulher de bem e\nrezadeira. De palavra. Entendia Deus, e Deus a entendia. Num cochicho de\nberanoite. Padre e past\u00f4?! Ela nunca teve n\u00e3o. De religi\u00e3o mesmo, M\u00e3e s\u00f3 tinha\ne bendizia a inteira vida. Sua escola, sua letra e leitura.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas M\u00e3e n\u00e3o foi de ignor\u00e3\u00e7as.<\/p>\n\n\n\n<p>Negra\u00edndia,&nbsp;\nde zoios cor de palha seca e cora\u00e7\u00e3o de riacho em permanente fundo.<\/p>\n\n\n\n<p>In certo dia, M\u00e3e encasquetou com pai que\nencasquet\u00f4&nbsp; cum M\u00e3e que trovejou a tarde\ne encasquetou-se o dia como se a tarde fosse uma serepente enrodilhada.<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;Adicidiu-se\nM\u00e3e mudar de ventos, de terra e tempestades.&nbsp;\n<\/p>\n\n\n\n<p>Pois \u00e9, Vereda o&nbsp;\nnome da fazenda de meu pai que divisava com as terras de Joaquim Japira.\n<\/p>\n\n\n\n<p>Vereda em rio, Vereda in \u00e1rvore, Vereda ni toda\ngente dali.<\/p>\n\n\n\n<p>Parece que pai se acabrunhou. Pois valentia e mando\ndo bicho-homem s\u00f3 termina \u00e9 na virtude da mulher. Assim \u00e9 no batente, senhora.\nAssim \u00e9 na pul\u00edtica. \u00c9 disso que macho tem medo: virtude. E pai se acabrunhou.<\/p>\n\n\n\n<p>M\u00e3e recolheu meninos, juntou a trouxa, arreou\ncoragem e reza e, dispois, rasgou estrada com os filhos na enfieira. Enveredou\nch\u00e3o por onze l\u00e9guas, noite adentro, no enfrentar de bichos e fantasmas.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o \u00e9ramos muitos naquela noite da di\u00e1spora. \u00c9ramos\nin dez. N\u00e3o. Digo nove, que Maria M\u00e3e deixou&nbsp;\ncum pai, por uns tempos e distempos. Cuidando dele.<\/p>\n\n\n\n<p>M\u00e3e era mulher de muita sensatez e sincera. Ponderava\nsempre, real\u00e7ando no que pai tinha de bom e no que tinha de ruim. Nunca se\ndesajeitou por saudades dele, mas senhorava-se que f\u00f4ssemos l\u00e1 tomar a b\u00ean\u00e7\u00e3o. <\/p>\n\n\n\n<p>Desconfio que M\u00e3e nunca amou meu pai. <\/p>\n\n\n\n<p>Desconfio que pai nunca amou minha M\u00e3e.<\/p>\n\n\n\n<p>E a gente tinha de amar os dois. Por devo\u00e7\u00e3o e\nrespeito.<\/p>\n\n\n\n<p>Com o tempo j\u00e1 n\u00e3o \u00e9ramos dez l\u00e1 dentro de casa.<\/p>\n\n\n\n<p>Pai nunca p\u00f4s os p\u00e9s no indentro de casa. E M\u00e3e.<\/p>\n\n\n\n<p>Teve de ser tudo: foi p\u00e3o, c\u00e3toria, escola, conselho\ne belisc\u00e3o. Ajeitou no prato de cada um o seu quinh\u00e3o de ternura. E nunca\nfraquejou no adverso. <\/p>\n\n\n\n<p>Na primeira viagem que fez para a Capital, quando\nparou em Toflotone, M\u00e2e pediu \u00e1gua para banhar um neto. Meio de banda o\nrapazinho lhe falou que a \u00e1gua era vendida. M\u00e3e estatalou seu zoio de folha\nseca e pediu que arrepetisse. No que disse:<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;Cum\u00e9 qui podi\nsi vend\u00ea \u00e1gua, meu Deus? Maldi\u00e7uou&nbsp; aquilo.\nE resmungou: Ofimdumundo.<\/p>\n\n\n\n<p>Foi a primeira desaven\u00e7a de M\u00e3e com a Mudernidade.<\/p>\n\n\n\n<p>M\u00e3e era lavadeira de roupa, senhora. E tinha \u00e1gua do\nNorte todo santo-dia na berada da saia.<\/p>\n\n\n\n<p>Nun si pode neg\u00e1\nagua! Num\nse pode vend\u00ea agua! <\/p>\n\n\n\n<p>Um dia, dona Quer\u00f4, a terceira mulher de pai, veio\nficar em casa nossa na Capital, pois que precisava ela de tratamento de sa\u00fade.\nM\u00e3e acolheu dona Quer\u00f4 em sua casa. Uma vizinha incomodada com aquilo indagou\nM\u00e3e do fato em si: <\/p>\n\n\n\n<p>&#8211; Cumo \u00e9 qui a sinhora consegue? Dex\u00e1 ni sua casa a\nmulh\u00e9 di seu ezmarido? <\/p>\n\n\n\n<p>M\u00e3e serenou-se de meio sorriso esfregando as m\u00e3os: <\/p>\n\n\n\n<p>&#8211; \u00c9 puri\u00e7o mesmo: ezmarido! Eu tive poblema com ele;\neu num tive poblema cum ela.<\/p>\n\n\n\n<p>E os tempos se foram indo: o preto ficando branco na\ncabe\u00e7a de M\u00e3e.<\/p>\n\n\n\n<p>At\u00e9 o dia em que o cora\u00e7\u00e3o de M\u00e3e pediu arrego.<\/p>\n\n\n\n<p>No dia em que M\u00e3e virou riacho fez vento forte na\ncidade.<\/p>\n\n\n\n<p>Eu j\u00e1 era mo\u00e7o crescido.<\/p>\n\n\n\n<p>Desdessidia eu fiquei ruim da cabe\u00e7a, esbarro no\ntempo, nas coisas, escrevo no ar. Troco de letra e palavra.<\/p>\n\n\n\n<p>Nas luas cheias, fico com as vistas tortas, o\ncora\u00e7\u00e3o pequeno, falando e cantando sozinho. Converso com as paredes.<\/p>\n\n\n\n<p>Nenhum rem\u00e9dio me cura. <\/p>\n\n\n\n<p>Sou um Z\u00e9 Velho na beirada do tempo. <\/p>\n\n\n\n<p>S\u00f3 vou ficando melhorzinho quando me oferecem um l\u00e1pis,\numa parede, um papel.<\/p>\n\n\n\n<p>Que a\u00ed eu escrevo. <\/p>\n\n\n\n<p>Tenho muito medo, quase medonho, de n\u00e3o escrever e\ntamb\u00e9m virar um riacho. <\/p>\n\n\n\n<p>Que M\u00e3e me ensinou \u00e1gua em peneira, fulorzinha no\npote, mas num me ensinou a digerir as tempestades.<\/p>\n\n\n\n<p>Guardo n\u00e3o. Nenhum rancor de meu Pai.<\/p>\n\n\n\n<p>Quando fico com muita sede, sinhora, dou dim\u00e3o com a\nsaudade e vou l\u00e1 no riacho, lugar bunito e de frescor, onde M\u00e3e vive dibem com\nos peixes.<\/p>\n\n\n\n<p>Meu irim\u00e3o Kelezin tam\u00e9m ficou ruim da cabe\u00e7a e me\ndisse na derradera lua nova que M\u00e3e \u00e9 a palavra mar bonita da l\u00edngua\nportuguesa.<\/p>\n\n\n\n<p>J\u00e1 eu, fio e desconfio um tanto: penso que M\u00e3e \u00e9\ncoisa maior que dinheiro.<\/p>\n\n\n\n<p>Um arbusto maior que a cidade!<\/p>\n\n\n\n<p>Coisa mais grande que palavra!<\/p>\n\n\n\n<p>Maior do que toda a religi\u00e3o!<\/p>\n\n\n\n<p>M\u00e3e \u00e9 um coisa de Deus!, <\/p>\n\n\n\n<p>Um milagre!<\/p>\n\n\n\n<p>= = = = = = =<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image is-resized\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/Ant\u00f4nio-Capurnan.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-7140\" width=\"519\" height=\"718\" srcset=\"https:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/Ant\u00f4nio-Capurnan.jpg 300w, https:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/Ant\u00f4nio-Capurnan-217x300.jpg 217w\" sizes=\"auto, (max-width: 519px) 100vw, 519px\" \/><figcaption>Poeta Ant\u00f4nio Souza Capurnan <\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>Se gostar, compartilhe.\nSugerimos. <\/p>\n\n\n\n<p>*Inscreva-se no You\nTube, no Canal Frei Gilvander Luta pela Terra e por Direitos, no link:\nhttps:\/\/www.youtube.com\/user\/fgilvander, acione o sininho, receba as\nnotifica\u00e7\u00f5es de envio de v\u00eddeos e assista a diversos v\u00eddeos de luta por direitos\nsociais. <\/p>\n\n\n\n<p>#FreiGilvander\n#NaLutaPorDireitos #PalavrasDeF\u00e9ComFreiGilvander #Cora\u00e7\u00e3oDaDivisa<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Poema &#8220;Madre\u00fascula&#8221;, de Ant\u00f4nio Souza Capurnan Narra\u00e7\u00e3o: Carmem Imaculada de Brito Poema Madre\u00fascula, de Ant\u00f4nio Souza Capurnan M\u00e3e foi no sempre uma mulher de coragem, andeios e travessia. Contam que certa feita, l\u00e1 na ro\u00e7a,<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":7140,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[50,27,30,43,57,45],"tags":[],"class_list":["post-7138","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-audio-de-frei-gilvander","category-direitos-humanos","category-fe-e-politica","category-pedagogia-emancipatoria","category-podcast","category-poesia"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7138","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=7138"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7138\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":7142,"href":"https:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7138\/revisions\/7142"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media\/7140"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=7138"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=7138"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=7138"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}