{"id":747,"date":"2017-11-27T08:31:19","date_gmt":"2017-11-27T10:31:19","guid":{"rendered":"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/?p=747"},"modified":"2017-11-27T08:31:19","modified_gmt":"2017-11-27T10:31:19","slug":"tributo-a-frei-henri-des-roziers-continuaremos-sua-luta","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/gilvander.org.br\/site\/tributo-a-frei-henri-des-roziers-continuaremos-sua-luta\/","title":{"rendered":"Tributo a frei Henri des Roziers: continuaremos sua luta."},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: center;\"><strong>Tributo a frei Henri des Roziers: continuaremos sua luta.<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">Por S\u00f4nia Maria Alves da Costa<a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\">[1]<\/a><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-749 aligncenter\" src=\"http:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2017\/11\/Sonia-e-frei-Henri-300x225.jpg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"225\" srcset=\"https:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2017\/11\/Sonia-e-frei-Henri-300x225.jpg 300w, https:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2017\/11\/Sonia-e-frei-Henri-768x576.jpg 768w, https:\/\/gilvander.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2017\/11\/Sonia-e-frei-Henri.jpg 960w\" sizes=\"auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>O falecimento do frei Henri Gui Emile Burin des Roziers, neste domingo, 26 de novembro de 2017, deixa muita tristeza pela perda de um grande mestre e excepcional amigo, exemplo de vida para muitas\/os lutadoras\/es do povo, cuja vida foi dedicada de maneira abnegada \u00e0 luta contra todas as formas de injusti\u00e7a e grande parte de sua vida\u00a0 empenhada\u00a0\u00e0 defesa das classes trabalhadora e camponesa no norte do Brasil, inicialmente em 1979 no antigo norte de Goi\u00e1s, na cidade de Porto Nacional e em seguida no munic\u00edpio de Gurupi, atual estado de Tocantins e tamb\u00e9m no Sul do Par\u00e1, nos \u00faltimos anos, uma das regi\u00f5es emblem\u00e1ticas e de intensa injusti\u00e7a agr\u00e1ria e exist\u00eancia de trabalho escravo, uma das mais violentas do pa\u00eds, de onde ele saiu em 2013, muito a contragosto, para fazer um tratamento de sa\u00fade, j\u00e1 gravemente doente e retornou ao seu pa\u00eds de origem, sua cidade Natal, Paris. A cada visita de uma brasileira ou de um brasileiro ele repetia que \u201cqueria voltar para morrer no Par\u00e1\u201d! Eu me recordo muito bem dessa frase firme dele, com a mesma firmeza com que conduziu sua luta pelos Direitos Humanos, na Europa, na Am\u00e9rica Central e em muitas outras fronteiras de luta e especialmente no Brasil, onde dedicou d\u00e9cadas de luta ao povo injusti\u00e7ado do Norte do nosso pa\u00eds, onde ele se sentia muito realizado,\u00a0mesmo diante\u00a0das\u00a0graves e constantes amea\u00e7as de morte que recebia. Foi uma grande luta para ele aceitar a prote\u00e7\u00e3o da Pol\u00edcia Federal 24 horas por dia em um dos momentos mais cr\u00edticos de sua perman\u00eancia no Par\u00e1. Ele alegava que se o povo a quem defendia n\u00e3o tinha o mesmo tipo de prote\u00e7\u00e3o, por que ele deveria merec\u00ea-la?<\/p>\n<p>Eu n\u00e3o tenho o dom da poesia, mas penso que um poema de Bertolt Brecht ilustra a miss\u00e3o exercida pelo frei Henri:\u00a0\u201cH\u00e1 homens que lutam um dia e s\u00e3o bons, h\u00e1 outros que lutam um ano e s\u00e3o melhores, h\u00e1 os que lutam muitos anos e s\u00e3o muito bons. Mas h\u00e1 os que lutam toda a vida e estes s\u00e3o imprescind\u00edveis\u201d. Frei Henri se tornou uma pessoa imprescind\u00edvel para os camponeses, para os milhares de trabalhadores submetidos ao trabalho escravo contempor\u00e2neo, para a CPT, para a RENAP, enfim, para o povo lutador brasileiro e de muitos outros pa\u00edses.<\/p>\n<p>Frei Henri era extremamente comprometido com a luta, muito exigente, mas de uma humanidade indescrit\u00edvel, daquelas pessoas que te proporcionava muito prazer em dividir uma ta\u00e7a de vinho e discutir sobre a vida e a conjuntura do pa\u00eds e, com a mesma determina\u00e7\u00e3o, segui-lo andando a p\u00e9 por diversos quil\u00f4metros at\u00e9 uma ocupa\u00e7\u00e3o de camponeses Sem Terra, no meio da mata ou virar a noite elaborando pe\u00e7as processuais ou ainda escrevendo notas de rep\u00fadio para autoridades pelo tombamento de mais uma v\u00edtima pelo bra\u00e7o armado dos latifundi\u00e1rios e pela omiss\u00e3o-cumplicidade do Estado!\u00a0Egresso da Sorbonne, Doutor pela Universidade de Cambridge, recebeu dezenas de pr\u00eamios nacionais e internacionais, em Direitos Humanos, mas valorizava muito mais cada vit\u00f3ria resultante da sua luta em defesa do povo empobrecido a quem defendia na condi\u00e7\u00e3o de incans\u00e1vel advogado, porque era uma pessoa muito simples.<\/p>\n<p>Ele foi inspira\u00e7\u00e3o para muitas pessoas e eu tive a felicidade de conhec\u00ea-lo na minha adolesc\u00eancia, por uma feliz coincid\u00eancia de morar vizinha ao escrit\u00f3rio da Comiss\u00e3o Pastoral da Terra (CPT), na cidade de Gurupi, onde, inicialmente participei de reuni\u00f5es\u00a0organizadas por ele\u00a0com as pessoas da vizinhan\u00e7a para celebrar e para conversar sobre a realidade, em algumas noites, para conhecer um pouco a realidade local e compartilhar sua vida e luta. Dessa forma, alguns anos depois, inspirada pelo seu exemplo de vida, decidi estudar Direito. Resumidamente, por pertencer a uma fam\u00edlia nobre da Fran\u00e7a, frei Henri abdicou da vida naquele pa\u00eds, para se dedicar \u00e0 luta pelos Direitos Humanos e chegou ao Brasil no fim do ano de 1978, ainda durante a Ditadura Militar e permaneceu por aqui at\u00e9 o ano de 2013.<\/p>\n<p>Sua hist\u00f3ria de compromisso com os camponeses injusti\u00e7ados inspirou a mim e a muitas outras\/os lutadoras\/es do povo e eu tive a felicidade de trabalhar quase uma d\u00e9cada ao lado dele e foi o melhor est\u00e1gio que eu poderia ter tido na vida para o exerc\u00edcio da advocacia popular, mas sei que n\u00e3o interessa a minha vida, apenas cumpre registrar essa importante e valiosa contribui\u00e7\u00e3o na minha forma\u00e7\u00e3o jur\u00eddica, desde a escolha do curso e a op\u00e7\u00e3o da atua\u00e7\u00e3o profissional, que poderia ter trilhado outros caminhos,\u00a0mas\u00a0eu tenho imensa satisfa\u00e7\u00e3o e serei eternamente grata por essa oportunidade na vida.<\/p>\n<p>No escrit\u00f3rio da Comiss\u00e3o Pastoral da Terra (CPT) Araguaia-Tocantins, onde fui trabalhar alguns anos ap\u00f3s conhec\u00ea-lo, foi onde tive acesso \u00e0 livros importantes, tais como \u201cBrasil: Nunca Mais\u201d, \u201c1968: o ano que n\u00e3o terminou\u201d, \u201cOlga\u201d e muitos outros, mas especialmente foi onde conheci a dureza dos conflitos agr\u00e1rios e a sangrenta e implac\u00e1vel persegui\u00e7\u00e3o aos trabalhadoras\/res rurais do norte do ent\u00e3o Estado de Goi\u00e1s, Sul do Par\u00e1 e Sul do Mato Grosso, grande regi\u00e3o abrangida pela atua\u00e7\u00e3o da CPT Araguaia-Tocantins naquela \u00e9poca. Ali fiz descobertas sobre a gravidade da viol\u00eancia perpetrada pelo latif\u00fandio contra aquelas fam\u00edlias\u00a0de posseiras e posseiros centen\u00e1rios, cujos pais ou av\u00f3s j\u00e1 viviam por ali, forjando sua sobreviv\u00eancia da maneira poss\u00edvel, sem a presen\u00e7a do Estado, sem nenhuma pol\u00edtica p\u00fablica, pessoas simples que viviam em uma regi\u00e3o isolada, mas que foram marcadas de maneira indel\u00e9vel pela viol\u00eancia do Estado, dos latifundi\u00e1rios e dos grileiros que pela gan\u00e2ncia ceifaram centenas de vidas e tornaram outras tantas escravas em nome do \u201cdesenvolvimento\u201d, apenas para um reduzido grupo de exploradores violentos, para quem a vida dessas pessoas n\u00e3o importava.<\/p>\n<p>Nesse cen\u00e1rio de verdadeiro massacre durante d\u00e9cadas sem tr\u00e9gua e sem poderem se defender diretamente, frei Henri, advogado lutador e extremamente corajoso e comprometido com as causas do povo violentado daquela regi\u00e3o de intenso conflito agr\u00e1rio, proporcionava, de maneira incans\u00e1vel, todos os dias da semana, alguma esperan\u00e7a de justi\u00e7a, ainda que tempor\u00e1ria para continuar a luta. Muitas vit\u00f3rias importantes foram conquistadas, muitos assentamentos de Reforma Agr\u00e1ria, mesmo tendo que computar nessa luta desigual muitas vidas ceifadas, mas sem perder a capacidade de indigna\u00e7\u00e3o e retirando energia no combate intenso e incans\u00e1vel de lutar pela justi\u00e7a.<\/p>\n<p>Esse legado de compromisso com causa do povo campon\u00eas expropriado da regi\u00e3o norte do nosso pa\u00eds, fez com que o frei Henri des Roziers se tornasse exemplo para o seguimento de muitas advogadas e muitos advogados populares que entraram e seguiram na luta, mesmo com a mudan\u00e7a de cen\u00e1rio, sem mudar a dif\u00edcil realidade dessa popula\u00e7\u00e3o que permanece na luta incans\u00e1vel at\u00e9 os dias atuais, inspiradas e inspirados nos seus ideais de luta, cujo exemplo n\u00e3o nos deixa perder a capacidade de indigna\u00e7\u00e3o e seguir na luta sem desanimar e tentando tamb\u00e9m envolver outras lutadoras e lutadores nessa dif\u00edcil \u2013 mas necess\u00e1ria &#8211; miss\u00e3o de lutar pela justi\u00e7a, ainda que ela continue extremamente seletiva e classista, mas proporcionando as esses sujeitos de direito uma esperan\u00e7a e for\u00e7a para continuar lutando pelo justo, com o Direito que lhes pertence, na luta pela dignidade, embora seja dif\u00edcil alcan\u00e7\u00e1-lo, em face da imensa desigualdade social e a nefasta estrutura agr\u00e1ria e injusta concentra\u00e7\u00e3o de riqueza e renda em nosso pa\u00eds capitalista, que n\u00e3o permite esquecer que os constantes golpes pol\u00edticos e de outras variadas formas nos atingem, mas pelo seu exemplo de luta frei Henri e de tantas outras e outros lutadoras e lutadores, continuamos o nosso embate, com coragem e determina\u00e7\u00e3o para construir o nosso pa\u00eds e defender \u201ctodos os direitos para todos\u201d!<\/p>\n<p>Bras\u00edlia, Brasil, 26\/11\/2017.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\">[1]<\/a> Advogada Popular, membro da RENAP (Rede Nacional de Advogadas e Advogados Populares \u2013 <a href=\"http:\/\/www.renap.org.br\">www.renap.org.br<\/a> ), do Coletivo Feminista Marietta Baderna, IPDMS, FIAN e Doutoranda em Direito na UnB e advogada volunt\u00e1ria no Projeto Maria da Penha\/NPJ\/UnB; email: <a href=\"mailto:soniacosta0807@gmail.com\">soniacosta0807@gmail.com<\/a><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Tributo a frei Henri des Roziers: continuaremos sua luta. 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