Antelmo Calixto e Frei Gilvander trabalhando no CEFOP, do CEBI/MG, Ribeirão das Neves, MG, dias 17 e 18/6/2020.
Videorreportagem de frei Gilvander Moreira da CPT, das CEBs, do CEBI e do SAB.

Um Reencontro de Almas e Espiritualidade
Por Clodoaldo Bento[1]
“Tá vendo aquela igreja, moço, onde padre diz amém?…. E o padre( frei) me deixa entrar” (Zé Geraldo).
Encantador e emocionante esse vídeo do reencontro entre esses dois amigos. Gilvander e Antelmo. Os dois amigos se conheceram na década dos anos oitenta, do século XX, nas comunidades do Parque Novo Mundo, em São Paulo. Tempo esse de erupção de uma nova forma de ser igreja, que eram as Comunidades Eclesiais de Base.
Antelmo era um dos líderes das comunidades, muito observador e inteligente. O encontro aconteceu mais precisamente na Comunidade Nossa Senhora Aparecida, na Cidade Nova. Fazia ali um trabalho junto com as Irmãs Vicentinas, ajudando na formação e organização das pastorais e movimentos sociais.
Frei Gilvander foi trabalhar como jovem carmelita nas comunidades. Estudava teologia e aos finais de semana fazia pastoral e formação bíblica nas comunidades. Foi nesse contexto de efervescência de uma espiritualidade de base que Gilvander, o jovem seminarista, ávido de aprender com o Povo de Deus, conheceu Antelmo, amigo e futuro compadre.
O futuro jovem frei e estudante de teologia ficou encantado e apaixonado pelas comunidades e as pessoas que moravam ali. Queria aprender com aquele povo simples e suas lideranças, entre elas o Antelmo, que o admirava, e as irmãs Vicentinas (Aninha, Neuza, Iracy e Elza). Desde novo, Gilvander tinha em seu discurso um cunho político e social sempre à luz da Palavra de Deus. Era um crítico social contra a exploração dos trabalhadores.
Antelmo, por sua vez, era apaixonado também pela política e pela Palavra de Deus encarnada na vida do povo. Logo, os dois, de cara, já se identificaram com a forma de ver a vida e de pensar. Um encontro de ideias e espiritualidade. Gilvander contemplava e amava aquele povo simples que fora tão importante na sua formação política e na sua fé.
Depois desse pequeno relato e contexto histórico, voltemos ao seu reencontro em Minas. E não poderia ser em outro lugar, senão numa construção de um Centro de Formação Popular (CEF0P) – Areias CEBI Ribeirão das Neves, MG.
Os símbolos falam mais que as palavras. Antelmo pedreiro e Gilvander, seu ajudante de pedreiro.
Ali percebe-se um encantamento um pelo outro. Recordam as comunidades do Parque Novo mundo. Ainda em seus corações queimam as chamas de uma espiritualidade encarnada na vida do povo. O cansaço foi deixado em segundo plano. Estavam apenas dois amigos, construindo mais um espaço onde o povo pobre pode se reunir, estudar a bíblia e refletir sobre as realidades que oprimem o pobre e como a Palavra de Deus pode libertar o povo da opressão.
Ha décadas, o jovem futuro frei seminarista foi beber sua espiritualidade no território sagrado onde Antelmo era protagonista e líder. Agora o jovem senhor Antelmo é quem bebe no poço da espiritualidade onde Gilvander trabalha.
Antelmo contempla seu amigo como o frei o fizera anos atrás. É espiritualidade do caminho, dos reencontros. A alegria dos dois é contagiante, numa admiração mútua. O jovem que outrora admirava o líder das comunidades passou a ser admirado pelo jovem senhor pedreiro que se encanta com o seu amigo frei. É, sobretudo, um reencontro de almas, de utopias de um mundo melhor.
As palavras de Antelmo para com seu compadre dizendo que já fizeram muitas obras como pedreiro, mas aquela era sua obra mais importante… Sua alegria em ver que mesmo perdendo seu ajudante de pedreiro, ganha um ajudante especial, seu amigo, tornando esse vídeo um sinal de esperança. A felicidade dos dois exala pelos seus poros e nos contagia. Tudo o que os dois viveram está impregnado em suas almas.
Nesse momento, não existe o intelectual, teólogo, filósofo, mestre nas sagradas escrituras. Frei Gilvander sempre aproveitando o momento do quotidiano para ensinar. E diz que todos nós, uma vez na vida, precisamos trabalhar em trabalhos manuais como pedreiros, empregadas domésticas, garis, para sentirmos na pele a importância dessas funções. A sociedade não valoriza esse tipo de trabalho, mas apenas o trabalho intelectual. Gilvander não só demostra na teoria que todos são importantes na construção de um país mais justo, mas demonstra na prática, colocando a mão na massa junto com seu amigo, dizendo: “Eu e você somos iguais perante Deus”. Somos, sim, singular em funções diferentes, mas igualmente importantes para Deus.
Esse reencontro é cheio de simbolismos. O reencontro numa construção de espaço popular. O pedreiro e o intelectual juntos e misturados como eles mesmo dizem. Outro símbolo que aparece imponente nesse vídeo é a árvore sucupira. Antelmo a vê no fundo e logo chama atenção de seu amigo. Os dois contemplam a criação divina. Logo, Gilvander lembra de seu pai. Acho lindo como ele se refere a seu pai, chama de papai. Isso me remete a como Jesus chama Deus, de Abba, que significa paizinho. Gilvander fala pra seu amigo Antelmo que seu papai dizia que a semente de sucupira cura tudo, todas as doenças. E também cura: fascistas, preguiçosos, bolsonaristas( risos). O professor, usando sempre do bom humor e ironia para fazer uma critica social e política.
Concluímos essa reflexão com uma música do Zé Geraldo, chamada Cidadão. “Tá vendo aquela igreja, moço, onde o padre diz amém? Pus o sino e o badalo, enchi minhas mãos de calos, lá eu trabalhei também. Lá, sim, valeu a pena, tem quermesse, tem novena, e o padre me deixa entrar”.
Parafraseando essa música diria:
Tá vendo aquele centro de formação popular, moço, que Antelmo construiu com seu amigo Frei Gilvander? Ali podemos entrar. Estudamos sobre a Palavra de Deus. A Bíblia é refletida e partilhada com as pessoas. Ensina-se a Palavra de Deus com um pé na Bíblia e um pé na vida. É a espiritualidade das Comunidades Eclesiais de Base. Fé e vida: as duas coisas não são indissociáveis, e sim, juntas, uma complementariedade.
Tá vendo aquele espaço, moço? Jesus é apresentado ali como Jesus de Nazaré, que de tão humano só poderia ser mesmo Deus, como diz Leonardo Boff. O crucificado é o ressuscitado. A igreja ali, moço é apresentada como Povo de Deus, sendo Jesus a cabeça e nós seus membros.
Então, meus amigos, o reencontro de Gilvander e Antelmo, não é só um reencontro de amigos que se amam, mas também encontro de utopias, de amigos que sonham juntos com uma igreja que nasce da base e de Deus que nos é apresentado como Aquele que ouve o clamor do seu povo e desce para libertar. Ali todos têm seu lugar à mesa: os sem-teto, os sem-terra, os excluídos da sociedade. Nesse pequeno espaço que Antelmo e Gilvander estão construindo, se prega o Reino de Deus e anuncia a boa nova de Jesus que é reino de justiça e paz.
Que os sonhos desses dois amigos se propague pelo mundo. As sementes já estão lançadas. Que cresçam e floresçam e deem frutos. Como aquela árvore de sucupira, que com suas sementes curam tudo, como o Abba de frei Gilvander, com sua sabedoria popular, nos disse. E viva a amizade dos dois! Viva as Comunidades Eclesiais de Base! Viva Jesus Cristo!
Amém.
Data: 20/06/2020.
[1] Com correção de Adriana Goodfellow e Nádia Aparecida de Oliveira Sene.
*Filmagem: Antelmo Calixto. Edição: Frei Gilvander Moreira
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