“UM ESTRANHO NO CAMINHO” (Lc 10,25-37) – Por Marcelo Barros

Neste XV Domingo comum do ano C, o evangelho proposto (Lucas 10, 25- 37) é a parábola de Jesus sobre o homem ferido na estrada que foi socorrido não pelos religiosos do templo, mas sim pelo samaritano. A tradição chamava de “parábola do bom samaritano”, embora o próprio evangelho não o chame assim. Essa página do evangelho é das mais queridas pelas Igrejas da caminhada.
“Um estranho no caminho” foi o título que o papa Francisco deu ao segundo capítulo da encíclica Fratelli Tutti, no qual ele comenta essa página do evangelho. As comunidades que estão por trás do Evangelho de Lucas colocam a cena do encontro de Jesus com um professor da Bíblia, um teólogo, e a parábola do samaritano no capítulo 10, no qual, como já vimos no domingo passado, Jesus manda os discípulos e as discípulas em missão libertadora. Portanto, agir como samaritano que socorre a pessoa ferida, assaltada e semimorta é visto pelo evangelho como elemento essencial da missão dos discípulos e discípulas de Jesus.
Nos versículos anteriores, Jesus tinha dito que Deus revela os seus segredos às pessoas simples e pequeninas que o acolhem e compreendem, enquanto os grandes e entendidos do mundo os rejeitam (Lc 10, 21- 24). E aí o evangelho descreve imediatamente essa cena, na qual um professor da Bíblia, portanto, alguém considerado sabido e importante, pergunta uma coisa básica. Hoje, a pergunta do professor de Bíblia equivale a alguém que questiona: “Qual o sentido da vida? Como posso dar à minha vida um sentido que a torne feliz?”.
Jesus responde de modo diferente. Não entra na discussão exegética do texto. Pergunta ao professor como compreende o assunto. Então, o homem cita o início da oração do Shemá Israel (Escuta, Israel) que, na tradição judaica, se costuma orar pela manhã, ao acordar e à noite, ao deitar. Essa oração não é dirigida a Deus como é costume na maioria das preces. Começa pela recitação do texto do Deuteronômio 6, 4- 9 que diz: “Amarás o Senhor, teu Deus, de todo o teu coração...”. O professor da Bíblia liga esse verso (Dt 6, 5) ao do livro do Levítico 19, 18 que diz: “Ama ao próximo como a ti mesmo”. Essa é a resposta do doutor da lei. Jesus concorda com essa resposta e conclui: então, pratique isso e você será feliz.
Apesar de que Jesus tenha aprovado a resposta do escriba, esse se sente meio repreendido e tenta uma escapatória no estilo da casuística judaica: quem é meu próximo? Em outras palavras: Até que ponto, ou com quem exatamente sou obrigado a esse amor? Até que grau de proximidade?
Jesus responde colocando-o diante de um fato histórico concreto. Como Jerusalém fica a 750 metros de altitude e Jericó a 350 metros abaixo do nível do mar Mediterrâneo, a descida é muito abrupta, cheia de despenhadeiros e o caminho meio deserto. Ali, na época de Jesus, era comum acontecerem assaltos. Jesus conta que alguém foi assaltado e os assaltantes o deixam ferido, semimorto e caído na beira da estrada. Passam por ali dois religiosos do templo (um sacerdote e um levita). Jesus diz que ambos veem o homem ferido, não se comovem, rodeiam e seguem adiante. Agem como religiosos que lamentam as injustiças e sofrimentos das pessoas feridas e caídas à margem da estrada, mas pensam que aquilo nada tem a ver com a religião e, portanto, eles não têm o que fazer. Hoje, nas igrejas e em muitas religiões, muita gente lamenta as violências do mundo, mas acha que não tem nada a ver com isso. Afinal, religião não é pronto-socorro, nem hospital… Ao contrário dessa postura, o papa Francisco comparava a Igreja com o que chamou de “hospital de campo”.
O professor da Bíblia, teólogo da época, questionou Jesus, assim como, em nossos dias, muita gente de Igreja questiona até que ponto é o caso de se envolverem em questões sociais. Há padres católicos e pastores evangélicos que perguntam: Até que ponto a Igreja deve entrar em questões políticas? Não é o caso de se manter apenas no que diz respeito ao religioso e espiritual?
Seria como se o mestre da lei tivesse dito para Jesus: amar a Deus sobre todas as coisas, tudo bem. É nossa fé. Mas, essa história de amar o próximo, até que ponto? Quem é meu próximo?
Nessa história, Jesus deixa claro que para Deus, socorrer o ser humano ferido e violentado é mais importante do que o próprio culto no templo. Na lei do primeiro testamento aparecem como dois mandamentos: amar a Deus e amar ao próximo. Jesus muda essa perspectiva ao dizer que o amor a Deus só é verdadeiro, se se expressar no amor ao próximo.
A Carta de João explicita: “Não pode amar a Deus a quem não vê, quem não ama nem o seu irmão ou irmã a quem vê” (1 Jo 4, 20). O amor ao próximo se torna modo de amar a Deus.
Por isso, Jesus inverte a pergunta que o professor da Bíblia lhe faz. Ele pergunta: “Quem foi o próximo da vítima que estava caída na estrada?”
Ao invés de responder à pergunta: quem é meu próximo, ele interpela: você é próximo de quem?
Isso significa: O que interessa não é saber quem é seu próximo e sim de quem você se torna próximo.
O teólogo Gustavo Gutierrez dizia: “A questão é que o próximo não é a pessoa que entra na minha estrada, mas a pessoa em cuja estrada, eu me encontro”. É uma reviravolta na perspectiva. Quem define qual é a missão ou se devo me envolver não é a minha vontade, nem alguma teoria. Ou doutrina social da Igreja. Quem define a missão de solidariedade e inserção amorosa é a necessidade concreta de quem precisa. O critério é a realidade. Não se trata apenas de dar esmola. O texto diz que o samaritano teve suas entranhas revolvidas de compaixão para com o ferido. O verbo grego usado pode ser traduzido: as entranhas se moveram. É algo sentido e sofrido.
No mundo atual, sob a ditadura do mercado idolatrado, o problema é que não se trata apenas de alguém ferido, que corre risco de vida e sim de mais de um bilhão de seres humanos que vivem na pobreza extrema. Milhões de migrantes abandonados à sua própria sorte. Milhões de vítimas de guerras, das desigualdades sociais e das catástrofes ecológicas.
Cada vez mais, grande parte da humanidade está ferida e jogada à margem da estrada da vida, vítima do modo de organização social, que os poderosos dão a esse mundo. No Brasil, milhões de pessoas ainda vivem a insegurança alimentar e jazem na pobreza extrema. Não somente como pessoas isoladas e sim como classes: trabalhadores rurais sem-terra, pessoas sem teto nas cidades, comunidades inteiras de povos originários/indígenas, remanescentes de Quilombos e povos tradicionais, aos quais se negam os direitos, não só individuais, mas coletivos.
Ainda hoje, sacerdotes e levitas das diversas religiões do templo continuam passando na estrada e, insensíveis, deixam as pessoas feridas, à margem do caminho. Não param e não socorrem.
Hoje, muitos ainda defendem que religião nada tem a ver com ação social. Há muitos que não apenas não param para socorrer o ferido, como até dão apoio e o seu voto aos que exploram e massacram o povo. Atualmente, no Brasil e em vários países do mundo, a extrema direita recebe votação expressiva de pessoas que se dizem cristãs, mas votam nos opressores e contra os oprimidos.
Essa declaração de voto no ódio, na violência e no sistema baseado na desigualdade social é pior do que os assaltantes que atacam diretamente o homem ferido. Nas entrelinhas a parábola do samaritano diz que foram religiosos do templo os que assaltaram a pessoa ferida e semimorta, pois “ela descia de Jerusalém, do templo”.
Hoje, com os pobres, também está agredida e ferida a mãe-Terra, a água e a Vida no planeta. O jeito eficaz de socorrer o povo e a Terra assaltados na estrada da vida tem de ser inserção efetiva nos movimentos populares e nas lutas sociais por direitos. A solidariedade incondicional tem de tomar a expressão de uma luta coletiva para mudar as estruturas injustas do mundo. Viver essa inserção solidária é a forma como podemos escutar hoje a palavra de Jesus: O que fizestes a cada um dos pequeninos em meu nome foi a mim que fizestes.
Enfim, a parábola do samaritano propõe que sejamos protagonistas de solidariedade libertadora, profética, aquela que socorre as pessoas violentadas e denuncia os causadores da violência de religiosos de templo que usam em vão o nome de Deus e abusam de versículos bíblicos para tosquiar o rebanho ao invés de cuidar amorosamente do rebanho.