PARA ONDE VAI A HUMANIDADE – Por padre Waldemir Santana, da Arquidiocese da Paraíba

O mundo está em crise e ela se manifesta de várias formas. Entende-se por crise uma fratura que ocorre num continuum, ao mesmo tempo, é também uma perturbação em um sistema que até então parecia tranquilo no seu desenrolar. Diante de uma crise as incertezas eclodem. Edgar Morin foi muito preciso ao afirmar que estamos num devir no qual a crise nos aparece não como um acidente em nossas sociedades, mas como um modo de ser.
A sociedade é cada vez mais complexa. As mudanças acontecem numa velocidade meteórica, riscando de luz fugaz o céu das nossas percepções. Para onde estamos indo? Qual o futuro da humanidade? Essas questões são instigantes e desafiam os grandes pensadores contemporâneos. Quem tem medo da história? As mudanças históricas amedrontavam àqueles que queriam a permanência do status quo. Hoje o medo é generalizado, pois, a história humana pode conhecer seu fim.
A opressão, a injustiça e a angústia são algumas das experiências que a humanidade está vivendo. A crise ecológica acompanhada pela econômica, que atropela grupos sociais injustiçados, torna o cotidiano simplesmente insuportável. A quantidade de pessoas sem trabalho, sem os meios para continuar vivendo, sempre ameaçadas de perder direitos duramente adquiridos durante muitos anos em saúde, educação e outros benefícios, faz com que o futuro se torne cada dia mais incerto. Nessas condições perguntamos: Para onde vamos? Que fontes podem nos inspirar para construirmos um novo processo civilizatório?
Há uma constatação de que a atual realidade econômica hegemonizada com seu dinamismo estrutural avassalador revela a face nua e crua do sistema capitalista neoliberal que vai assumindo uma configuração preocupante. A chamada era do capital improdutivo com sua voracidade de cada vez mais auferir lucros monstruosos e com seu espírito predador levará os biomas que formam a teia da vida à uma instabilidade genocida. O mercado com sua mão invisível vai alimentando um culto crescente ao consumo. A sordidez do sistema capitalista produziu duas raças antagônicas: a raça dos que tem tudo e vivem na opulência e a dos que não tem nada e vivem na miséria.
O velho Karl Marx já dizia com muita propriedade que as ideias dominantes são as ideias das classes dominantes. Essa ideologia com a perversidade que lhe é peculiar atualiza a dialética hegeliana do senhor e do escravo, que por meio da mídia burguesa controla as mentalidades da grande maioria da população. Será que existe alternativa ao capitalismo neoliberal? Muitos se questionam a esse respeito. Devemos ter a esperança que o novo está sendo gestado a partir das contradições do presente. Não podemos nos deixar escravizar pelo pessimismo. Como disse acertadamente Frei Betto, “deixemos o pessimismo para dias melhores”.
Nesse momento de incertezas e fanatismos crescentes devemos ter a lucidez do espírito para podermos perceber as articulações que estão acontecendo em várias frentes. Estamos navegando num mar extremamente tempestuoso, as ondas são gigantes e podem nos engolir, por isso, precisamos de um timoneiro que mantenha a chama da esperança acesa.
Estamos dentro de uma mudança de época. As transformações ocorridas a nível cultural, antropológico, econômico, fez com que viessem à tona sentimentos variados de exultação como de temor e perplexidade. Alguns pensadores, devidos às mudanças ocorridas no campo das comunicações, afirmam peremptoriamente que estamos em um tempo revolucionário marcado por grandes realizações que deixam a humanidade em estado de estupefação. Há uma tese elaborada nos EUA que preconiza um transumanismo, isto é, um melhoramento, aperfeiçoamento do ser humano. As controvérsias sobre esse transumanismo é crescente em vários campos, inclusive para a teologia. Sem dúvida as implicações éticas desse fenômeno só irão aumentar.
A sociedade encontra-se embriagada pela tecnologia das comunicações. Com o advento da Inteligência Artificial essa embriaguez só tende a aumentar. O humanismo do passado parece mão mais influenciar a sociedade moderna. Uma nova onda civilizatória da tecnologia está surgindo. A tecnologia com seus inventos mais sofisticados parece hoje ter uma palavra sobre quase tudo o que diz respeito ao ser humano, desde os aspectos biológicos ao afetivo-cognitivo. A questão ética que se manifesta está na pergunta: o que é meio e o que é fim? Meio é um instrumento para se chegar a uma resposta de uma determinada questão. O fim é o objetivo alcançado. O perigo do avanço produzido pela técnica moderna é a ausência de fins. O avanço técnico transformou-se num fim em si mesmo. Nesta perspectiva a tecnologia passou para o primeiro plano. O perigo é a ausência substantiva do elemento axiológico, ou seja, valorativo.
O poder migrou para a tecnologia e os impactos que surgirão nos vários campos da existência humana será significativa. Quem dominar a biotecnologia provavelmente terá a pretensão de dominar a própria vida. As implicações éticas e políticas já começaram por parte de muitos governos. Diante de uma questão que levanta grandes questionamentos, deve se levar a sério a inspiração do filósofo Hans Jonas no seu livro de grande envergadura: “O Princípio Responsabilidade”. Sem um horizonte ético que imponha limites a essa loucura humana de querer ser deus, caminharemos para o fim dos dinossauros.
Fica a advertência de Edgar Morin: “Não sabemos se a agonia em que entramos é aquela do nascimento ou da morte da humanidade”.
Por padre Waldemir Santana, da Arquidiocese da Paraíba