Jesus Cristo ressuscitou. Que maravilha! E agora? Por frei Gilvander

Jesus Cristo ressuscitou. Que maravilha! E agora? Por Gilvander Moreira[1]

Jesus Cristo ressuscitou. Que maravilha que Jesus, ressuscitado, vive no nosso meio! E agora? Qual nossa missão? Para respondermos esta pergunta, não apenas verbalmente, mas pelo nosso jeito de viver, conviver e lutar, precisamos compreender bem quem é Jesus que de tão humano se tornou Cristo, pelo que ensinou e testemunhou.

Quem é, de fato, o Jesus que ressuscitou?

É aquele que amou a todos/as profundamente até o fim;

É aquele que incomodou os opressores (os ‘cidadãos de bem’, da época);

É aquele que amou e respeitou as mulheres admirando o protagonismo delas, questionando, assim, uma sociedade patriarcal e machista;

É aquele que se fez servidor, pegou uma bacia e toalha e lavou os pés de seus discípulos e discípulas, em uma sociedade imperial escravocrata e patriarcal que escravo devia lavar os pés do seu senhor/patrão, mulher devia lavar os pés do marido e as crianças deviam lavar os pés dos adultos;

 É aquele que se compromete com a liberação dos escravos, dos presos e dos empobrecidos, em uma sociedade com políticos lavando as mãos como Pilatos;

É aquele que foi subversivo, revolucionário e promoveu insurreição, porque ensinava a partilhar o pão enquanto o imperialismo romano seduzia a todos/as para acumular riquezas e poder;

É aquele que curava gratuitamente os doentes, enquanto sacerdotes tinham privatizado o sistema de saúde – para ser declarado puro tinha que pagar (Lc 2,22-23) -, ele desrespeitava dogmas e leis que declaravam como impuras as pessoas doentes;

É aquele que se fazia solidário com os marginalizados, explorados e admirava sua sabedoria e fé;

É aquele que andava no meio do povo da periferia e com as causas desses se comprometia;

É aquele que não apenas fazia caridade, assistência social ou filantropia, mas lutava por justiça denunciando as causas das injustiças;

É aquele que escrachava os podres poderes dominantes da política, da economia e da religião, sempre de cabeça erguida, desobedecendo toda e qualquer lei ou regra que oprime, discrimina e é injusta;

É aquele que se colocava sempre ao lado dos injustiçados, fazendo opção de classe;

É aquele que considerava verdade tudo o que liberta (Jo 8,32).

Enfim, a ressurreição de Jesus Cristo atesta que sempre triunfarão o amor e a verdade que libertam. Não amor piegas, assistencialista e nem verdade caricata e medíocre.

“E agora, José?” Não adianta mais ficar de braços cruzados, enquanto pede, por meio de mil formas de oração, que Deus e Jesus Cristo resolvam nossos problemas e as injustiças perpetradas contra o povo por uma elite escravocrata, opressores muitas vezes travestidos de ‘cidadãos de bem’.

Maria Madalena, o discípulo amado e as primeiras comunidades cristãs ressuscitaram ao fazer a experiência existencial de que Jesus estava vivo, pois tinha ressuscitado. Sempre que o inocente e injustiçado for pisado e humilhado, ele ressuscitará, pois “os senhores da morte e da opressão já não dormem e vencidos estarão” (Zé Vicente).

Nós seremos portadores da verdade e do amor que libertam – sementes de ressurreição? Se sim, ressuscitaremos e impediremos a extinção da espécie humana. Condição para isso é tirarmos todas as melhores lições da pandemia do coronavírus, uma delas nos diz: se vocês voltarem à normalidade anormal de antes, vocês estarão galopando rumo ao abismo. Não será mais possível insistir em estilo de vida capitalista – individualista, consumista e competitivo – “mais do mesmo”. Sem pão, água e oxigênio não dá para viver. O oxigênio é imprescindível para nos manter vivos, mas estamos ficando sem ar, abafados em nosso próprio egoísmo e insensatez.  Adoecemos e sangramos a Mãe Terra com agronegócio que, com o uso indiscriminado de agrotóxicos, envenenam nosso alimento de cada dia. A grandes mineradoras – tipo dragão do Apocalipse -, com requintes de crueldade, se esmeram em perpetrar repetidas ‘sexta-feira da paixão’ ao apunhalar as entranhas da mãe Terra com uma ganância assassina interminável. E com monoculturas desertificadoras nossas fontes de água estão sendo exterminadas.

É fundamental ressuscitar o Cristo que vive dentro de nós, o divino que insiste em triunfar em nós. Devemos mudar o jeito de caminhar de cada pessoa por um mundo melhor, justo e simples. Melhor passar a palavra aos povos originários (indígenas) e aos povos tradicionais (quilombolas, geraizeiros, vazanteiros …) e termos a humildade de aprender com eles a reinventar o jeito de viver e conviver em harmonia com a natureza, toda biodiversidade. Páscoa, verdadeiro milagre da vida para fecundar nosso chão e nosso espírito. Os nossos anciões ancestrais nos ensinaram a respeitar a terra, a água, o fogo e o ar. Estilo de vida simples e austero será imprescindível se quisermos continuar vivendo no planeta Terra. A história dirá se teremos a grandeza humana de ressuscitar como Jesus Cristo ressuscitou. “Oh meu velho e invisível AVÔHAI[1] – avô e pai. Tocai-nos! Páscoa de verdade desejo a todos/as[1].


[1] Avôhai, letra e música de Zé Ramalho, é a sabedoria que consegue passar por gerações …, é um neologismo que aglutina as palavras avô e pai.


[1] Gratidão à Alenice Baeta, pós-doutora em Arqueologia e Antropologia, que fez a revisão deste texto.

Abraço terno. Frei Gilvander

12/4/2020


[1] Frei e padre da Ordem dos carmelitas; doutor em Educação pela FAE/UFMG; licenciado e bacharel em Filosofia pela UFPR; bacharel em Teologia pelo ITESP/SP; mestre em Exegese Bíblica pelo Pontifício Instituto Bíblico, em Roma, Itália; assessor da CPT, CEBI, SAB e Ocupações Urbanas; prof. de “Movimentos Sociais Populares e Direitos Humanos” no IDH, em Belo Horizonte, MG. E-mail: gilvanderlm@gmail.com – www.gilvander.org.br – www.freigilvander.blogspot.com.br      –       www.twitter.com/gilvanderluis        –     Facebook: Gilvander Moreira III

Leave a Reply

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *