Rito Penitencial da Missa dos Quilombos, de Milton Nascimento, Pedro Casaldáliga e Pedro Tierra.
Narração: Carmem Imaculada de Brito

Alma não é branca,
Luto não é negro,
Negro não é folk.
– Senhor do Bonfim
Do bom começar:
Não seja a alegria
Apenas de um dia;
Não seja a folia
Para desfilar
Na avenida sua.
Que seja, por fim,
A tua alforria
E nossa a rua,
Senhor do Bonfim!
Da raça maldita
Gratuitamente,
A raça de Cam.
Secular estigma
Da escrava Agar,
Mãe espoliada,
Ismael dos povos,
Denegrida África.
Terras de Luanda,
Costa do Marfim,
Reino de Guiné,
Pátria de Aruanda
Estamos aqui
Carne em toneladas,
Fardos de porão.
Quota da coroa
Fichas de batismo,
Marcados a ferro
Para a salvação.
Entregues à morte,
Sendo cristo a vida.
Humanos leilões,
Pecas de cobiça,
300 Milhões
De africanos mortos
Na segregação
Caça das bandeiras,
Do esquadrão da morte.
Exus do destino,
Capitães-do-mato.
Quantos Jorge velho
De todos os lucros,
De todos os tempos,
De todas as guardas!
Quantas áureas leis
Da justiça branca!
Queimamos, de medo
– Do medo da história –
Os nossos arquivos.
Pusemos em branco
A nossa memória
Cultura à margem,
Culto condenado,
Fé de freguesia,
Giro tolerado,
Revolta ignorada,
História mentida.
Ressaca dos portos.
Harlem dos impérios,
Apartheid em casa,
Favela do mundo.
Com “direito a enterro”
Sem direito à vida.
Pelourinhos brancos,
Flagelados pretos.
Negro sem emprego,
Sem voz e sem vez
Sem direito a ser,
A ser e a ser negro.
Dobrados nos eitos,
Os peitos quebrados,
Os peitos sugados
Por filhos alheios,
Senhores ingratos.
Bebês imolados
Pelas Anas pais,
Testas humilhadas
Nas águas dos cais,
Bronze incandescente
Nas bocas dos fornos.
Peões de fazenda,
Pé de boia-fria,
Artista varrido
No pó da oficina,
Garçom de boteco,
Sombra de cozinha,
Mão de subemprego,
Carne de bordel…
Pixotes nas ruas,
Caçados nos morros,
Mortos no xadrez!
Negro embranquecido
Pra sobreviver.
(Branco enegrecido
Para gozação).
Negro embranquecido,
Morto mansamente
Pela integração
Mulato iludido,
Fica do teu lado,
Do lado do negro.
Não faças, mulato,
A branca traição
Padres estudados,
Pastores ouvidos,
Freiras ajeitadas,
Doutores da sorte,
Cantores de turno,
Monarcas de estádio…
Não negueis o sangue,
O grito dos mortos,
O cheiro do negro,
O aroma da raça,
A força do povo,
A voz de Aruanda,
A volta aos quilombos!
– Bom Jesus de Pirapora,
Na procura desta hora,
Tem piedade de nós.
Senhor morto,
Deus da vida,
Nesta luta proibida,
Tem piedade de nós
– Irmão mor da irmandade,
Na paixão da liberdade,
Tem piedade de nós.
Autoria: Milton Nascimento, Pedro Casaldáliga e Pedro Tierra.
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Obs.: O desafio de realizar a “missa para os negros” foi lançado por Dom Helder Câmara, arcebispo de Olinda e Recife, em 1979, em Goiânia, logo depois da apresentação da Missa da Terra sem Males, em desagravo à histórica exploração dos índios do continente americano pelo homem branco. Milton Nascimento havia sido convidado a assistir a missa por um de seus autores, o bispo Pedro Casaldáliga, de São Félix do Araguaia, MT, que compôs a peça junto com o poeta Pedro Tierra e o descendente indígena Martin Coplas. Milton e os dois Pedros logo concordaram em criar juntos uma peça religiosa em louvor aos negros que também pagaram um preço alto na colonização da América. Milton faria a trilha musical da Missa dos Quilombos, enquanto Pedro Casaldáliga e Pedro Tierra se encarregariam das letras.