“Memória Penitencial” da Missa da terra sem males, de Pedro Casaldáliga, Pedro Guerra e Martin Coplas.
Narração: Carmem Imaculada de Brito
“Memória Penitencial” da Missa da terra sem males, de Pedro Casaldáliga, Pedro Guerra e Martin Coplas
Memória Penitencial
Herdeiros de um Império de extermínio,
filhos da secular dominação,
queremos reparar nosso pecado,
viemos celebrar a nova opção: Ressurreição.
Na Ceia da Morte e da Vida,
a antiga memória perdida;
a morte dos Povos do passado
na Festa do Povo esperado: Ressurreição;
a História da América inteira,
nesta Memória de Libertação;
na Páscoa do Ressuscitado,
a Páscoa Ameríndia
ainda sem ressurreição… ressurreição,
sem ressurreição…
Eu sou América,
sou o Povo da Terra,
da Terra-sem-males,
o Povo dos Andes,
o Povo das Selvas,
o Povo dos Pampas,
o Povo do Mar…
Do Colorado,
de Tenochtitlan,
do Machu-Pichu,
da Patagônia,
do Amazonas,
dos Sete Povos do Rio Grande…
Eu sou Apache.
Eu sou Azteca.
Eu sou Aymara.
Eu sou Araucano.
Eu sou Maia.
Eu sou Inca.
Eu sou Tupi.
Eu sou Tucano.
Eu sou Yanomani.
Eu sou Aymore.
Eu sou Irantxe.
Eu sou Karaja.
Eu sou Terena.
Eu sou Xavante.
Eu sou Kaingang.
Eu, Guarani.
E é com canto Guarani
que todo o resto do Continente,
todos os povos do meu Povo,
cantam agora seu lamento.
Irmãos, vindos de fora,
se quereis ser irmãos,
escutai o meu canto!
Queremos escutar,
de coração aberto,
com a mão do remorso
sobre a ara do peito.
Queremos reparar
a História desta Terra,
massacre secular.
Eu tinha uma cultura de milênios,
antiga como o sol,
como os Montes e os Rios de gran de Lacta-Mama.
Eu plantava os filhos e as palavras.
Eu plantava o milho e a mandioca.
Eu cantava com a língua das flautas.
Eu dançava, vestido de luar,
enfeitado de pássaros e palmas.
Eu era a Cultura em harmonia com a Mãe Natureza.
E nós a destruímos,
cheios de prepotência,
negando a identidade
dos Povos diferentes,
todos Família Humana.
Eu era a Paz comigo e com a Terra…
E nós te violamos
ao fio das espadas,
no fogo do arcabuz
queimamos teu sossego.
Eu conhecia o ouro, o diamante, a prata,
a nobre madeira das matas,
mas eram para mim os enfeites sagrados
do corpo da Terra Mãe.
Eu respeitava a Natureza
como se respeita a própria esposa.
Caravelas do Lucro,
viemos navegando,
para vender a Terra
para explorar lucrando.
Eu vivia na pura nudez,
brincando, plantando, amando,
gerando, nascendo, crescendo,
na pura nudez da Vida.
E nós te revestimos
com roupas de malícia.
Violamos tuas filhas.
Te demos por Moral
a nossa Hipocrisia.
Eu tinha meus pecados,
eu fiz as minhas guerras…
Mas eu não conhecia
a Lei feita Mentira,
o Lucro feito Deus.
E nos te revestimos
com roupas de malícia.
Eu era a Liberdade
-não uma estatua apenas-,
Moara em came humana,
a Liberdade viva.
Eu era a Dignidade,
sem medo e sem orgulho,
a Dignidade Humana.
E nós te escravizamos.
E nós te sepultamos
na escuridão das minas.
Dobramos o teu corpo
sob os canaviais.
E te jogamos contra
as árvores amadas,
para cortar madeira,
cortando o teu espírito,
o cerne do teu Povo.
Meu tempo era o Dia e a Noite,
o Sol e a Lua,
as Chuvas e os Ventos gerais,
meu tempo era o Tempo, sem horas.
E nós te amarramos
ao tempo do relógio,
no nosso pouco tempo
de pressas e interesses,
ao tempo-concorrência.
Eu adorava a Deus,
Maíra em toda coisa,
Tupã de todo gesto,
Razão de toda hora.
Eu conhecia a Ciência
do Bem e do Mal primeiros.
A Vida era meu culto,
a Dança era meu culto,
a Terra era meu culto,
a Morte era meu culto,
eu era um Culto vivo!
E nós te missionamos,
infiéis ao Evangelho,
cravando em tua vida
a espada de uma Cruz.
Sinos de Boa-nova,
num dobre de finados!
Infiéis ao Evangelho,
do Verbo Encarnado,
te demos por mensagem,
cultura forasteira.
Partimos em metades
a paz de tua vida,
adoradora sempre.
O amor do Pai de todos
me batizou com água da Vida e da Consciência
e semeou em mim a Graça do seu Verbo,
Semente universal de Salvação.
Quando nós te ferramos
com um Batismo imposto,
marca de humano gado,
blasfêmia do Batismo,
violação da Graça
e negação do Cristo.
Eu era um Povo de milhões de vivos,
de milhões e milhões de Gente Humana,
milhões de imagens vivas do Deus Vivo.
Todos
E nós te dizimamos,
portadores da Morte,
missionários do Nada.
Eu vos dei a beleza do Mar e suas praias,
eu vos dei minha Terra e seus segredos,
os pássaros, os peixes, os animais amigos,
servidores.
O milho da espiga apertada e repartida,
o bulbo generoso da mandioca
o pão de cada dia,
o guaraná cheiroso da floresta,
o caldo assossegante do chimarrão do Sul.
O remédio da Terra enfermeira.
A canoa, voadora nas águas.
O Pau-brasil de fogo,
nome do coração do vosso País…
E nós te depredamos,
desnudando as florestas,
calcinando teus campos,
semeando veneno nos rios e no ar.
A Terra generosa
separando, por cercas,
os homens contra os homens:
para engordar o gado
da fome nacional
para plantar a soja
da exportação escrava.
Eu era a Terra livre,
eu era a Água limpa,
eu era o Vento puro,
fecundos de abundância,
repletos de cantigas.
E nós te dividimos
em regras e em fronteiras.
A golpes de ganância
retalhamos a Terra.
Invadimos as roças,
invadimos as tabas,
invadimos o Homem.
Eu fazia um caminho a cada vez que passava.
Era a Terra o caminho.
O caminho era o Homem.
Nós abrimos estradas,
estradas de mentira,
estradas de miséria,
estradas sem saída.
E fizemos do Lucro
o caminho fechado
para o Povo da Terra.
Eu era a Terra inteira,
eu era o Homem Livre.
E nós te reduzimos
em Vitrina e Reserva,
em Parque zoológico,
em Arquivo-poeira.
Eu era a Saúde dos olhos,
penetrantes como flechas,
dos ouvidos atentos,
dos músculos harmônicos,
da alma em sossego.
E nós te mergulhamos
nos vírus, nos bacilos,
nas pestes importadas.
Teu Povo reduzimos
a um Povo de doentes,
a um Povo de defuntos.
Eu vivia embriagado na Alegria.
A aldeia era uma roda de amizade.
Meus Chefes comandavam,
servidores do Povo,
com a sabedoria e o respeito
de quem se reconhece igual ao outro.
E nós te embriagamos
de cachaça e desprezo.
Fizemos-te objeto
do Turismo impudente.
Tornamos os teus Povos
uma placa de rua,
e o teu Saber antigo,
Tutela de menores.
Pusemos as algemas
dos nossos Estatutos
na tua Liberdade.
Jogamos tua Língua
nas covas do silêncio,
e os teus Sobreviventes
à beira das estradas,
à beira dos viventes
mão de obra barata
nas fazendas e minas,
nos bordéis e nas fábricas;
mendigos dos subúrbios
das cidades sem alma;
restos do Continente
da grande Lacta-Mama
Eu era toda América,
eu sou ainda América,
eu sou a nova América!
E nós somos agora,
ainda e para sempre,
a herança do teu Sangue,
os filhos dos teus Mortos,
a aliança em tua Causa.
Memória rediviva,
na Aliança desta Páscoa.
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