A IGREJA E QUESTÃO SOCIAL – Por padre Waldemir Santana

A IGREJA E QUESTÃO SOCIAL – Por padre Waldemir Santana, da Arquidiocese da Paraíba

A questão social é inerente à missão da Igreja. Não se pode querer que a Igreja que está no mundo e a serviço do mundo viva num estado permanente de alienação. Já teve membro da alta hierarquia da Igreja católica que chegou a afirmar que o Evangelho não tem nada a ver com as questões sociais. Como servidora do Reino de Deus, e a exemplo de Jesus Cristo, que procurou fazer a vontade do Pai, a Igreja sempre quis ajudar e promover as pessoas mais pobres da sociedade e construir uma sociedade terna e fraterna.

Ao longo da história, desde os Padres da Igreja, a justiça e o cuidado com os pobres sempre tiveram centralidade na reflexão teológica e pregação. Santos e doutores defenderam com muita intrepidez a dignidade e o direito dos pobres. Houve também muitas omissões e tentativas de calar as vozes mais proféticas que se rebelaram contra as injustiças. Hoje, muitos membros da Igreja são rotulados de agitadores, de agirem de forma ideológica ao atuarem nas diversas pastorais sociais. 

O documento Rerum Novarum de 1891 abriu a Igreja para a questão social que surgia com a civilização industrial. Depois do Vaticano II, na América Latina, a Igreja, no seu empenho evangelizador, se comprometeu com a defesa dos pobres e a promoção da justiça. Figuras como Hélder Câmara, Oscar Romero e outros figuram na linha de frente de verdadeiros pastores e profetas que lutaram pela vida dos pobres. O papa Bento XVI, no seu documento Deus é Amor, integra de maneira lúcida a justiça e a atenção aos pobres na vida da caridade.

É discurso vazio e hipócrita querer separar evangelho e justiça social. Os desafios que eclodem na sociedade vão evoluindo conforme as transformações que a própria sociedade vem sofrendo. A questão do desenvolvimento, da pobreza e das estruturas injustas estará presente nas preocupações da Igreja na sua globalidade. O luxo de uma minoria e a pobreza e miséria da maioria tornam-se um desafio permanente para a Igreja na sua missão de evangelização. Uma Igreja que fica calada diante das injustiças e dos imensos sofrimentos de homens e mulheres, sob o argumento de que não pode abandonar sua missão essencial, é traidora do Evangelho.

A crise provocada pelo capitalismo de corte neoliberal é avassaladora e preocupa grupos e pessoas quanto ao futuro da humanidade. A crise não pode ser reduzida somente à questão econômica, os capitalistas, como sempre, estão satisfeitos com os elevados rendimentos que conseguem no sistema financeiro, basta olhar quanto os rentistas ganham com a elevação das taxas de juros. O argumento de sempre é que o mercado pode não gostar se baixar a taxa Selic. A economia cresce significativamente. A humanidade nunca dispôs de tantos recursos técnicos, financeiros e humanos para acabar com a pobreza. Hoje, ninguém duvida que se possa acabar com a pobreza, mas a questão crucial é não haver vontade política, que não é só dos responsáveis políticos e econômicos, mas também de todos os cidadãos. Como aceitar a convivência chocante de uma minoria sempre mais rica e a grande maioria pobre? 

A economia deve estar orientada em prioridade para a satisfação das necessidades da maioria pobre, para as pessoas viverem como seres humanos e não como animais, como ainda acontece com muitos. A teoria liberal há muito tempo vem apresentando o mercado como o melhor instrumento para conseguir uma melhor redistribuição dos bens. Só uma pessoa totalmente desinformada acreditaria nesse engodo. Na prática, isso nunca aconteceria. Pelo contrário, o mercado virou um fim em si mesmo, cujo objetivo fundamental é sempre o lucro, sempre maior. O tal do mercado sem controle não integra ninguém, é extremamente excludente, fortalece os fortes e elimina os fracos. As forças do mercado, financeiras, ideológicas, culturais, políticas, jurídicas e militares, procuram eliminar qualquer elemento que possa restringir ou contrariar sua expansão.

É nesse contexto que a Igreja, na sua missão evangelizadora, procura anunciar o evangelho da vida. Todo o ensinamento social dos papas desde Leão XIII até hoje, a questão do desenvolvimento e as grandes desigualdades estão no centro das suas preocupações. A Constituição Pastoral — Gaudium et Spes — é importante para a chamada questão social. Apesar de seus limites, alguns bispos da América Latina desejavam que ela integrasse plenamente o tema e os desafios do desenvolvimento.

A missão da Igreja consiste em promover o desenvolvimento da pessoa humana na sua integralidade, não só o crescimento material, mas também social, político, cultural, moral e espiritual, e promover a solidariedade de todos os homens e mulheres.

Paulo VI qualificou a Igreja de “experta em humanidade”. A longa experiência teórica e prática da Igreja a qualifica para propor um novo caminho para a história à luz do Evangelho. Hoje, mais do que ontem, os cristãos têm algo para dizer ao mundo sobre o sentido da vida e da sociedade, têm ações para fazer para desenvolver integralmente a pessoa humana. Essa é uma dimensão central da dimensão social da Evangelização. O Evangelho tem tudo a ver com a questão social.

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