Alma de Rio e os violeiros Wilson Dias e Gustavo Guimarães interpelam nossa consciência e nos convocam.

Alma de Rio e os violeiros Wilson Dias e Gustavo Guimarães interpelam nossa consciência e nos convocam.

Por frei Gilvander Luís Moreira[1]

Tive a alegria de assistir ao “show” – melhor palavra não é show, pois, além de ser palavra inglesa, não foi exibicionismo – dos violeiros Wilson Dias e Gustavo Guimarães, no Cine Theatro Brasil Valourec, em Belo Horizonte, MG, na noite de ontem, 19 de outubro de 2017. Saí da apresentação Alma de Rio irradiando alegria, com o espírito, os olhos, os ouvidos e o coração alimentados por uma das belezas culturais dos violeiros. Cônscio de que palavras são incapazes de transmitir a eloquência da apresentação de Wilson Dias e Gustavo Guimarães, arrisco aqui expressar algumas belezas que experimentei em Alma de Rio.

O clima de fraternidade e bem querer entre todos/as que lotaram o Cine refresca nosso espírito em tempos de tanta violência do capitalismo, dos capitalistas, das transnacionais, dos golpistas, do agronegócio, da classe política etc.. Clima que experimentamos antes, no reencontro de muitos/as amigos/as, durante a bela obra de arte e após o término da apresentação, nos abraços de “até breve”.

Em todas suas músicas, Alma de Rio conduz-nos a uma verdadeira imersão em uma mística libertadora e humanizadora. Os violeiros Wilson Dias e Gustavo Guimarães tiveram a sensatez de compartilhar o brilho de Alma de Rio com a participação especial de duas crianças encantadoras: Thaila Rodrigues – filha de Dito Rodrigues e Marizete Pereira – e Ana Teresa – filha de Wilson Dias e Nilce. A ternura dessas duas crianças com vozes lindas mexeu nas cordas mais profundas do nosso ser.

Com Wallace Gomes – no violão -, Pedro Gomes – no baixo -, Gladson Braga – na percussão – e André Siqueira – no bandolim ou na flauta – a banda de Wilson Dias e Gustavo Guimarães construiu uma harmonia encantadora. Todos muito talentosos! O poeta Gonzaga Medeiros, como porta voz dos rios, recheou a apresentação com poesias que interpelam nossa consciência ao revelar com beleza poética os clamores dos rios moribundos, condenados a pena de morte covardemente.

A beleza das letras das músicas de Alma de Rio é inspiradora e nos leva aos bons tempos de campos preservados e fartura d’água. Uma das músicas cita 38 nomes de pássaros. Na música Deus é Violeiro muitos rios de Minas são cantados.

Durante a apresentação de Wilson Dias e Gustavo Guimarães, recordei-me muito da Caravana Cultural da 20ª Romaria das Águas e da Terra de Minas Gerais, com sete shows “Eco-lógico”, de Carlos Farias e Wilson Dias, em sete cidades do noroeste de MG. Há uma íntima relação entre essas duas obras de violeiros: Eco Lógico e Alma de Rio. Durante os sete shows Eco Lógico, várias vezes, Wilson Dias fez referência a uma metáfora muito eloquente. Dizia ele: “Não sei se vocês já viram um roçado pegando fogo. Quando o roçado pega fogo, os pássaros, em alvoroço, cantam e gritam muito para alertar que algo muito perigoso está acontecendo. Sem o roçado, os pássaros sabem que não terão futuro. Com tanta devastação ambiental, nós violeiros juntamos nossas vozes para cantar e convocar todo mundo para salvarmos o roçado que está pegando fogo. Nosso roçado é Minas Gerais, é o Brasil, é o mundo. Os rios onde nadávamos na nossa infância já foram secados. Com urgência, precisamos frear os processos de devastação. Basta de monoculturas, de agronegócio, de hidronegócio. Cuidar dos olhos de água se tornou necessário e vital para o futuro das próximas gerações.”

Ao final da apresentação de Alma de Rio, descobri mais uma vez que de fato Deus também é violeiro, mas uma esposa de violeiro, que é faxineira, me alertou que Deus também é faxineira. Recordei de Sem Terra que já me disse que Deus é Sem Terra e de povo das Ocupações Urbanas que afirmam que Deus não tem moradia. Enfim, o Deus da vida está em – e com – todos/as que são de fato expressão da luz e da força divina no tecido das relações sociais e humanas, mas de forma humanizadora e revolucionária.

Nossa gratidão também à Nilce, à Célia e a todos/as que construíram e tornaram realidade a apresentação de Alma de Rio.

Socializo essas belezas pensando em quem não teve a oportunidade de saborear a beleza da apresentação de Wilson Dias e Gustavo Guimarães, em Alma de Rio. Não percam a próxima oportunidade! Oxalá seja em breve! E que, contagiados/as pela beleza humanizadora de Alma de Rio, sejamos militantes construtores de uma sociedade justa, solidária e sustentável ecologicamente, antes que seja tarde demais.

Belo Horizonte, MG, 20/10/2017.

[1] Padre da Ordem dos carmelitas; licenciado e bacharel em Filosofia pela UFPR; bacharel em Teologia pelo ITESP/SP; mestre em Ciências Bíblicas pelo Pontifício Instituto Bíblico de Roma, Itália; doutor em Educação pela FAE/UFMG; assessor da CPT, CEBI, SAB e Ocupações Urbanas; e-mail: gilvanderlm@gmail.com –www.freigilvander.blogspot.com.br –  www.gilvander.org.br  – www.twitter.com/gilvanderluis  – Facebook: Gilvander Moreira III

Obs.: Eis, no link, abaixo, uma das músicas de Alma de Rio: Deus é Violeiro, apresentada por Wilson Dias e Gustavo Guimarães.

 

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