BEBER DA FONTE DO BEM-VIVER E DO BEM-QUERER (Jo 4, 5-42) – Por Marcelo Barros

Irmão Marcelo Barros. Reprodução Redes Virtuais
Neste 3º Domingo da Quaresma, antigamente, realizavam-se os primeiros escrutínios, isso é, a consulta e verificação para que a comunidade pudesse sentir se, de fato, as pessoas adultas que faziam o catecumenato para serem batizadas na Noite da Páscoa estavam preparadas para receber o sacramento da vida nova. Por isso, desde aqueles tempos, nesse domingo, as Igrejas costumam meditar sobre o evangelho do encontro de Jesus, na beira de um poço, com a mulher da Samaria (João 4, 5- 42).
Nas regiões semiáridas, como no sertão do nordeste brasileiro, os poços são essenciais. Assim como as cisternas e a captação de água da chuva podem transformar a vida. Na cultura bíblica, na região semiárida, os poços representam o centro da vida. É o local onde as pessoas se encontram e no qual firmam-se as alianças de vida.
Alguém já afirmou que todo deserto sempre esconde ao menos um poço. A vida humana consiste em caminhar na direção do poço, para que as águas da Vida renovem em nós a energia do viver e do amar. No deserto do mundo, somos sempre atraídos por algum poço. Existem poços que são miragens. Quando deles nos aproximamos, vemos que estão secos. Em alguns desses poços, as águas não são potáveis. No entanto, existem poços de águas límpidas, que nos fazem gostar de ter sede, só para saborear aquelas águas repousantes e renovadoras.
Apesar de que o encontro de Jesus com a samaritana é relato simbólico, no qual Jesus representa a comunidade do quarto evangelho e a mulher samaritana simboliza um grupo da religião samaritana, malvista na época, mas que se aproxima da comunidade cristã. O evangelho quer formar a comunidade para acolher as pessoas de outra cultura. Provavelmente, o texto parte de recordações ocorridas na história de Jesus.
A primeira coisa que chama a atenção nesse evangelho é que, naquela época e desde séculos, as famílias e grupos judaicos, vindos da região norte da Galileia para ir em peregrinação ao templo de Jerusalém, no sul, evitavam a Samaria, para não serem contaminados(as) pelo contato com algum dos templos pagãos que os samaritanos construíram em seu território. Na volta da peregrinação, como já voltavam do templo, alguns menos rigorosos preocupavam-se menos com isso. Aceitavam tomar o caminho mais direto e passavam pela Samaria. Conforme o relato de João 4, parece ser o caso de Jesus e os discípulos e discípulas. Eles e elas voltam da Judeia para a Galileia, passando pela Samaria.
O evangelho afirma que Jesus devia passar por ali. Assim como a comunidade cristã deve ir às pessoas excluídas, hereges e malvistas. Era como se, hoje, dissesse: para fazer uma verdadeira inserção na realidade das pessoas mais pobres, é preciso entrar na relação com outras culturas e outras religiões.
O texto salienta que era meio dia. Isso indica que aquela mulher era muito marginalizada. Qualquer pessoa com pouco mais de direito humano reconhecido iria ao poço pela manhã ou à tarde, em horário mais adequado para buscar água. Naquele clima semiárido, só iria ao poço buscar água ao meio dia quem não tinha direito de ir em outro horário. O evangelho diz que o próprio Jesus está cansado e senta à beira do poço. É ali, naquela situação que ele rompe as barreiras do preconceito, ao aproximar-se de uma mulher samaritana e faz isso, não como mestre e sim como alguém que precisa dela. Coloca-se como necessitado e lhe pede água.
Na Bíblia, o poço é o lugar no qual se selam alianças. Conforme o relato bíblico, patriarcas como Isaac, Jacó e mesmo Moisés conhecem a mulher com a qual se casariam na beira de um poço e o juramento do casamento ocorreu na beira de um poço. Agora, conforme o evangelho, é Jesus que, na beira de um poço, encontra a samaritana. É no poço de nossos desejos e nossas sedes que Jesus nos encontra. Mas, será que temos claro qual é nossa sede mais profunda e onde está o poço do qual tiramos a água para renovar nossa vida?
Esse encontro de Jesus com a mulher samaritana nos fala de várias sedes. A samaritana vem buscar água no poço. Jesus fala de uma água que quem bebe nunca mais precisará voltar ao poço. Isso faz a mulher perguntar sobre o Messias e sobre as questões sociais e religiosas que existiam entre judeus e samaritanos. Jesus responde: Sou eu que estou falando com você.
No Candomblé de tradição Ketu, uma das grandes festas anuais é a das Águas de Oxalá. À noite, todos os membros da casa purificam-se com um bori e preparam-se para carregar as águas. Antes do nascer do sol, a comunidade é acordada pela Ialorixá. Todas as pessoas, vestidas de branco, saem em silêncio, em procissão, carregando potes e moringas, tendo à frente a Ialorixá tocando o seu Ajá. É como se fosse um rito de pedido de perdão pelas injustiças sofridas por Oxalá, em sua visita ao reino do seu filho Xangô. Neste ritual, é a água que purifica e que simboliza o perdão. É a água que faz o Orixá Oxalá retomar o seu trono de rei, pai de Xangô.
No Cristianismo é a água que nos faz filhos e filhas de Deus e tem a característica de despertar em nós mais sede. Sede da intimidade divina e sede de justiça e Paz. Para nós e para as Igrejas é sempre um desafio unir a sede mais íntima que temos no coração e a expectativa social e política da libertação. Até hoje, nas Igrejas, ainda vemos certa divisão. Muitas vezes, as pessoas que cultivam a espiritualidade interior não ligam para o social e as pessoas que se dedicam mais ao social nem sempre sabem como ligar a sua sede de justiça e libertação com a sede do coração que só se sacia em Deus.
Nos anos 1980, Gustavo Gutierrez escreveu o livro “Beber do próprio poço”. Baseado em um verso do livro dos Provérbios, propõe viver a espiritualidade a partir da realidade de nossas vidas, tanto no plano afetivo, como no social e político. Precisamos descolonizar a fé e a espiritualidade, como queremos descolonizar a nossa cultura e a própria vida.
Cada página do evangelho sempre possibilita várias leituras que não se excluem. A conversa de Jesus com a samaritana é muito subversiva porque ali, claramente, Jesus revela a superação da religião do templo. Ele diz à mulher que chegou a hora, na qual não se deve mais adorar a Deus nos templos, de forma cultual e formal. Deus é espírito e verdade e seus adoradores devem adorá-lo em espírito e verdade. Em sua tradução desse evangelho, Jean-Yves Leloup mostra que, na cultura de Jesus, o espírito é sopro. É respiração vital. A verdade é o amor solidário. Então, a verdadeira adoração de Deus é retomar o mais profundo sopro de vida. É o que hoje os povos indígenas chamam o bem-viver. A verdade não é apenas conceito intelectual e sim práxis da justiça social libertadora. Quem restringe a espiritualidade ao templo e ao cultual não descobriu ainda esse apelo de Jesus no evangelho.
Neste ano, esse 3º Domingo da Quaresma cai exatamente na data em que a humanidade comemora o Dia Mundial da Mulher. No Brasil inteiro, somos chamados e chamadas a nos mobilizar contra a violência contra a mulher e, especificamente, o feminicídio, ou seja, o crime contra a vida da mulher que tem se tornado como uma epidemia que fere e dilacera a todos nós, homens e mulheres. Que a nossa conversão quaresmal nos comprometa na defesa intransigente e radical da vida e da segurança das mulheres. Neste ano, a Campanha da Fraternidade chama-nos à solidariedade com as pessoas que não têm garantido o direito humano à habitação digna. Nesses dias, o Brasil tem testemunhado a calamidade provocada pelas inundações e temporais na zona da Mata de Minas Gerais e em outras regiões. Mais uma vez, quem mais sofre com essas tragédias são as mulheres e as crianças desabrigadas.
Pior ainda do que o desastre natural é o pouco caso praticado por alguns governos estaduais e pela naturalidade que a repetição frequente de tragédias como essa provoca na sociedade. É importante a mobilização de solidariedade às vítimas e, ao mesmo tempo, o nosso clamor coletivo para que essa realidade receba dos poderes públicos a prioridade que merece e o direito à moradia digna e segura seja sinal de um país mais justo com o seu pov
Baião da nova mulher
Zé Vicente
Viva, viva, a mulher desta nação
Que vai gerando no ventre
A nova semente da libertação!
E vem trazendo no sangue
A semente nova da revolução!