Calor excessivo é febre alta do capitalismo, máquina de moer vidas. Por Frei Gilvander Moreira[1]

O Instituto Nacional de Meteorologia (INMET) emitiu alerta para risco de morte devido a uma grande onda de calor que atinge municípios do Mato Grosso, Distrito Federal, Goiás, Tocantins e parte de Minas Gerais. O alerta vermelho indica situação meteorológica de grande perigo e calor de intensidade excepcional, com riscos para a integridade física ou mesmo à vida humana e à vida muitos outros seres vivos da biodiversidade. De acordo com os dados divulgados, entre os dias 5 e 9 de outubro de 2020, a temperatura ficará 5 graus centígrados acima da média, causando risco de hipertermia, que é elevação e/ou manutenção das temperaturas do corpo humano ou de outro organismo vivo a patamares capazes de comprometer, ou mesmo de colapsar, seus metabolismos, podendo levar à morte por colapso da fisiologia do corpo.
O aumento da temperatura está intimamente relacionado com o aquecimento global, que não é por vontade de Deus e nem por causas naturais, mas tem como provocadores os gases de efeito estufa emitidos tanto durante as queimadas na Amazônia, no Pantanal, na Caatinga, nos Pampas e no que resta do Cerrado e da Mata Atlântica – biomas brasileiros -, que produzem dióxido de carbono (CO₂), resultante da combustão incompleta de combustíveis fósseis – petróleo -, como da emissão de metano (CH4, também conhecido como pum das vacas – produzido pela pecuária), que retém muito calor e é cerca de 25 vezes mais danoso que o CO₂ para o aquecimento global.
Só no Brasil, 73% da emissão de Gases do Efeito Estufa são derivados do agronegócio, segundo o Inpe. 60% da emissão de metano no mundo tem origem na indústria agropecuária. Quem tem olhos veja e quem tem ouvidos ouça: o agronegócio está causando o fim da espécie humana e da maior parte dos outros seres vivos. Agro não é top e não é dez. Agronegócio é plantação em sistema de monoculturas, com uso indiscriminado de agrotóxicos, uso de tecnologia de ponta e, muitas vezes, com emprego de mão de obra em condições análogas à escravidão. Agronegócio mata o meio ambiente, desertifica os territórios, mata o povo e mata as condições de vida para as próximas gerações. Agronegócio está gerando pandemia de câncer: estima-se que mais de 700 mil pessoas estejam contraindo câncer por ano, no Brasil, mais de 250 mil mortos por ano. Portanto, é MENTIRA o que o desgoverno brasileiro e a mídia alardeiam: “o agronegócio está garantindo a economia do Brasil com as exportações de grãos e carne”. Mentira! A verdade é que o agronegócio está desertificando o Brasil, está causando epidemia de câncer, enxotando o povo para as periferias das grandes cidades e exterminando as condições objetivas de vida. O calor excessivo é a febre que revela essa doença crônica do capitalismo, “sistema que mata”, conforme dito pelo papa Francisco. Mente também quem, em uma postura de resignação, diz: “está na Bíblia que o fim do mundo está chegando”. O Deus da vida, Deus solidário e libertador, quer vida e liberdade em abundância para todos os seres vivos. Quem está provocando um apocalipse final para a humanidade e muitos outros seres vivos é o sistema capitalista e seus executivos e vassalos.
A solução e o caminho da vida passam necessariamente por realização de reforma agrária, que é democratização e socialização da terra; titulação dos territórios dos Povos e Comunidades Tradicionais e respeito aos seus modos de vida, preservação ambiental, plantio de florestas, agricultura familiar com agroecologia e redução do desenvolvimento econômico e do progresso que só beneficiam uma minoria de enriquecidos e traz miséria, violência e morte para a maioria do povo. Óbvio que só teremos futuro com estilo de vida simples e austero. Basta de consumismo! Fora, tudo o que é supérfluo! Boicote aos produtos de luxo e às empresas que estão devastando o meio ambiente! Mais do que valor ético, superar o individualismo, o consumismo, as lógicas e estruturas capitalistas – competição, concorrência, acumulação de bens e capital – tornou-se necessidade de sobrevivência. A pandemia da COVID-19 já matou mais de 1 milhão de pessoas no mundo. A pandemia do capitalismo segue matando milhões de seres humanos e outros seres vivos todos os dias. A pandemia do fascismo, do moralismo e dos fundamentalismos também seguem matando. Feliz quem não estiver sujando as mãos em tanto sangue! Maldito quem continuar sujando as mãos de sangue ao contribuir na reprodução desse sistema capitalista, máquina de moer vidas.
07/10/2020
[1] Frei e padre da Ordem dos carmelitas; doutor em Educação pela FAE/UFMG; licenciado e bacharel em Filosofia pela UFPR; bacharel em Teologia pelo ITESP/SP; mestre em Exegese Bíblica pelo Pontifício Instituto Bíblico, em Roma, Itália; assessor da CPT, CEBI, SAB, Ocupações Urbanas e Movimentos Populares; prof. de “Movimentos Sociais Populares e Direitos Humanos” no IDH, em Belo Horizonte, MG. E-mail: gilvanderlm@gmail.com – www.gilvander.org.br – www.freigilvander.blogspot.com.br – www.twitter.com/gilvanderluis – Facebook: Gilvander Moreira III – Instagram: gilvanderluismoreira (Frei Gilvander Moreira)