Conto de Natal

Conto de Natal

Eliseu Lopes[1], in memoriam

Contos e contos de Natal existem para todos os gostos. “Conto de Natal” tornou-se um gênero literário clássico e todo escritor que se prezava publicava o seu ou os seus.

 

 

Os primeiros contos de Natal estão nos Evangelhos de Mateus e Lucas.  São “Midraxe”, ficção e a eles se pode aplicar o que diz Guimarães Rosa: Se fato, é muito belo.  Se imaginado, mais belo ainda.

O de Mateus é para leitores judeus. A genealogia começa com o Pai Abraão.  Na Angústia de José com a gravidez da noiva, transparecem os costumes judaicos.   A visita dos Magos do Oriente inspira-se na profecia de Isaías.  A informação sobre o local do nascimento é tirada do profeta Miquéias.  O grande lamento pelo infanticídio decretado por Herodes foi previsto pelo profeta Jeremias. A estrela-guia lembra a coluna de fogo que mostra ao Povo o caminho do Êxodo.  O Êxodo também é evocado na fuga para o Egito e no infanticídio e no retorno à palestina.  É reeditada em Jesus a mesma trajetória de Moisés.  É o novo Moisés!

O destinatário do conto de Lucas é mais universal.  A genealogia termina em Deus, passando por Adão. Retroage ao anúncio do nascimento de João Batista.  No seu exuberante estilo teatral, Lucas apresenta uma cascata de cenas animadas por diálogos envolventes: Zacarias e o anjo no altar; o anjo e Maria; a visita de Maria a Isabel; o nascimento de João Batista; o nascimento de Jesus e toda a encenação com o decreto do recenseamento, o parto, a convocação angélica  dos pastores;  a apresentação de Jesus e a louvação do profeta Simeão e a profetisa Ana; a longa sabatina de Jesus pelos doutores da Lei no templo.  Cenógrafo e dramaturgo, Lucas movimenta cenários, pessoas, anjos, luzes, cores, vozes, louvores, diálogos, poemas sálmicos em profusão.  Nasce o Salvador do Mundo!

 

Estorinha

Esses dois lindos contos de Natal dão margem a devaneios. Aos meus filhos pequenos, eu contava a seguinte estorinha:

Zé e Maria moravam em um lugarejo chamado Nazaré.  Zé era como o Tião: pedreiro, carpinteiro, lavrador, fazia de tudo.  Maria estava com um barrigão, esperando um filho.

Um dia, Zé voltou do serviço preocupado e Maria perguntou por que.  Ele disse que tinha saído uma ordem do governo para todo mundo se alistar no lugar onde nasceu.  O prazo era pequeno. Ele tinha  de ir para Belém que ficava a uns 3 ou 4 dias de vigem. Nas  vésperas de  ser mãe, não convinha que ela fosse junto.  Já tinha combinado com seus pais  para ela ficar na casa deles.

Maria reagiu: De jeito nenhum!  Ia também.  Zé não concordava porque a criança estava nasce-não-nasce.  Maria teimava que era justamente por isso que tinha de ir, pois fazia questão que ele estivesse presente quando a criança viesse ao mudo.  Estava grávida, mas não estava doente.  O peso da barriga era normal. A viagem não ia ser diferente da que ela tinha feito quando foi visitar a prima Isabel.  Zé viu que era inútil  insistir e acertaram o que tinham de providenciar, prevendo que a criança nascesse.  Marcaram a viagem para dois dias depois.

A longa viagem era descrita como uma verdadeira aventura, cheia de detalhes pitorescos, como as crianças gostam e com a ativa participação delas. Subidas e descidas.  Fontes, córregos, lagoas.  Frutas silvestres, canto de aves, rebanhos pastando, pequenos animais e até cobras em fuga.  Paradas para descansar ou comer alguma coisa. Dormida em casas acolhedoras ou mesmo ao relento.  O frescor da alvorada, o mormaço do meio dia, a amenidade e a beleza do crepúsculo, o encanto da noite estrelada.  Momentos líricos e momentos áridos, momentos de boa disposição e momentos de cansaço.   Finalmente a chegada em Belém, já no final da tarde, a sombra da noite caindo e se debatendo contra a luz bruxoleante dos lampiões das ruas que começavam a ser acesos.

Zé, que migrara com a família para a Galileia ainda criança, não conhecia ninguém. Milhares de belemitas, peregrinos como ele, superlotavam a cidade e não havia mais vaga nos hotéis, nas pensões e nos alojamentos.  Procuraram agasalho em algumas casas. Vendo a gravidez adiantada de Maria, seus donos se desculpavam e fechavam a porta.

Era um desespero. A criança dava sinais de que podia nascer a qualquer momento.  Zé e Maria cansados e desanimados sentaram-se em uma pedra à beira da estrada. Maria caíu no choro.  Uns pastores viram aquela cena e tiveram pena. Disseram ao Zé que, bem perto dali, havia um estábulo onde poderiam arranchar-se.  O casal se arrastou até lá e, mal chegou, o menino nasceu.

Completava a estorinha com empréstimos de Mateus e Lucas. As crianças, já adormecidas, talvez sonhassem com estrela, magos, pastores e uma seresta de anjos.

 

Protesto

A celebração do Natal sofreu a mais abominável profanação. O Natal se tornou uma deslavada e revoltante mentira, pretexto ignóbil para a exploração desenfreada de um mercado iconoclasta, devastador dos símbolos e valores mais sagrados.

Enquanto as “melhores famílias” pretensamente “cristãs” trocam presentes e se empanturram em lautas ceias, milhares de crianças estão reeditando o nascimento de Jesus nas mais precárias condições, voltadas ao abandono de uma sociedade egoísta, injusta e cruel.

 

Belo Horizonte, MG, Brasil, 21/12/2011.


[1] eliseu hugo de lucena lopes. Identidade: hugo. eliseu codinome religioso.  Nasceu no sítio Pilões, interior do Ceará.  Estudou nos seminários de Fortaleza e São Vicente em Petrópolis, onde foi ordenado padre Lazarista.  Entrou depois na Ordem Dominicana, onde lhe impuseram o nome de Eliseu e estudou na Escola Teológica de Saint-Maximin, na França.   Dispensado do celibato, casou-me com Vera Lúcia e Deus os abençoou com três filhos: João, Isabel e Marcos.  Desde 1979, trabalhou no Centro Ecumênico de Estudos Bíblicos – CEBI – www.cebi.org.br – até o dia 22/11/2002, quando passou para a vida em plenitude, vida terna e eterna. Eliseu Lopes deixou um grande legado espiritual e profético no CEBI, pois contribuiu enormemente para o desenvolvimento do Leitura Popular, comunitária e militante da Bíblia. Eliseu Lopes foi também um grande batalhador na resistência contra a ditadura militar-civil-empresarial que se abateu sobre o povo brasileiro de 31/03/1964 a 1979.

 

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