“Se acabarem com Dandara, eu morrerei também.”
Frei Gilvander Moreira[1]
No dia 9 de outubro de
No dia 3 de outubro, a Defensoria Pública do Estado de Minas Gerais verificou que o juiz Renato Luiz Fararo, da 20ª Vara Cível de Belo Horizonte, MG, Brasil, expediu ordem de reintegração de posse contra a Dandara, dia 27 de setembro de 2011, atendendo pedido da Construtora Modelo Ltda.
A coordenação de Dandara, as Brigadas Populares e Rede de Apoio a Dandara consideram essa ordem judicial injusta, inconstitucional, imoral, desumana, além de ser uma decisão que ignora o grande drama humano envolvido nesse grave conflito social.
A decisão é injusta, porque as cerca de 1.000 famílias que exercem na Dandara seu direito de morar chegaram à conclusão de que não aceitam mais sobreviver na rua, em área de risco, ser crucificadas pelo aluguel que retira o pão da boca dos filhos ou sobreviver de favor sendo um peso a mais nas costas de parentes. Dados da Fundação João Pinheiro, de 2005, apontam que
A decisão é inconstitucional, porque a propriedade de 315 mil m² (
A decisão não considera o grande drama humano envolvido nesse grave conflito social, porque se trata de mais de 5 mil pessoas que devem ter sua dignidade respeitada. Retirar a mãe terra que, hoje, cumpre uma função social acolhendo tanta gente e entregá-la para uma Construtora que visa somente ao lucro é algo imoral.
A decisão é desumana, porque lá na Dandara as famílias são necessitadas. Há centenas de idosos que com suas aposentadorias, e pegando dinheiro emprestado em bancos, ajudaram a construir 800 casas de alvenaria. Por isso estão endividados. A maioria dos idosos da Dandara resgatou a saúde. Dizem sempre: “Dandara me salvou. Antes eu estava com depressão, vivia tomando 8, 10 tipos de remédios. Eu pegava a aposentadoria no banco e deixava na farmácia. Aqui na Dandara, sou outra pessoa. Nasci de novo. Aqui tem paz. Aqui sou feliz.”
Na Rua Nelson Mandela mora dona Elisabeth, 57 anos, com aparência de 65 anos, é gari da SLU. Além de ter um filho deficiente preso, mora numa casa da Dandara com outras 14 pessoas: 5 filhos/as e 9 netos de 3 filhas que se separaram e, sem terem onde morar, voltaram a morar com a mãe.
Há várias famílias como a da Angélica, que tem sete filhos, de 5 meses a 17 anos. Anderson, esposo de Angélica, trabalha como chapa, entregando material de construção – sem ter ainda uma casa para agasalhar com dignidade seus 7 filhos -, ganha 180 reais por semana, enquanto Angélica, em casa, cuida das crianças e borda para ganhar uns trocados. Vivem numa casinha construída com a solidariedade de outros: um pequeno banheiro, cozinha e um quarto, onde dorme Angélica, o esposo e os sete filhos. Angélica, com a voz embargada e com lágrimas nos olhos, desabafa: “Viemos para Dandara, porque fomos despejados de onde a gente morava, porque não conseguimos pagar mais o aluguel. Ser despejado de novo? Não agüento. Sou um ser humano. Não sou de ferro. Nem parente tenho aqui
Belo Horizonte, MG, Brasil, 13 de outubro de 2011
[1] Padre carmelita; mestre