EVANGELHO DE LUCAS (Lc 1,1-4; 4,14-21): PROJETO DE LIBERTAÇÃO INTEGRAL – Por Emerson Sbardelotti

Frei Carlos Mesters e Francisco Orofino[1] afirmam: “Lucas inicia o seu Evangelho dizendo que muitos já tentaram escrever sobre Jesus e que, por isso, ele também resolveu escrever (Lc 1,1). E a gente logo pergunta: “Se já havia tantos escritos sobre Jesus, por que ele precisava escrever mais um?”. Aqui está o nó da questão. Havia muitas tendências e grupos: “Eu sou de Paulo. Eu sou de Apolo. Eu sou de Pedro. Eu sou de Cristo” (1Cor 1,12). Havia muita confusão. “Há pessoas que estão semeando confusão entre vocês e querem deturpar o Evangelho de Cristo” (Gl 1,7).
Cada um apresentava as coisas que Jesus fez e ensinou conforme o seu próprio gosto (cf. Gl 1,6-10). Havia gente que anunciava um Evangelho diferente daquele que Paulo tinha anunciado. Paulo chega a dizer na carta aos Gálatas: “Maldito seja quem anuncia um Evangelho diferente daquele que vocês receberam” (Gl 1,8-9). Lucas vivia no meio dessa confusão. Ele era um pagão convertido. O Apóstolo Paulo, seu grande amigo, tinha sido criticado por ter acolhido pagãos convertidos nas comunidades sem exigir deles a circuncisão nem a observância das leis da pureza legal. Alguns judeus achavam que isso não era correto, e diziam que todos deviam ser circuncidados para poder ser salvos (At 15,1), e que a abertura para os pagãos, propagada por Paulo não vinha de Jesus, mas era uma “invenção humana” (cf. Gl 1,11). Por tudo isto, Lucas resolveu escrever, ele também, para trazer uma luz. E ele o fez com muito critério e pesquisa. Consultou pessoas que, “desde o princípio, foram testemunhas oculares e ministros da palavra” (Lc 1,2) e fez “um estudo cuidadoso de tudo que aconteceu desde o princípio” (Lc 1,3). Escreveu para mostrar que o ensinamento de Paulo é sólido e que a abertura para os pagãos é o rumo certo. Foi o próprio Jesus quem o iniciou.
A preocupação de Lucas é uma só: ajudar as comunidades a superar estas dificuldades, crescer em fraternidade e, assim, revelar melhor a Boa-Nova de Deus que Jesus nos trouxe. Quem era o “excelentíssimo Teófilo”, a quem Lucas dedica seus dois livros? Alguns acham que Teófilo foi a pessoa que ajudou Lucas com dinheiro para ele poder escrever e editar o seu livro. Naquele tempo não havia gráficas nem editoras. Os livros eram escritos a mão. Para alguém poder escrever e editar um livro, precisava de muito dinheiro para comprar papel (papiro) e tinta e para contratar copistas que soubessem escrever. Teófilo teria sido uma pessoa de posse que contribuiu com dinheiro para que Lucas pudesse escrever e editar o seu livro. É possível. Mas o mais provável é que Teófilo seja o nome para designar todos os destinatários do livro de Lucas. O nome Teófilo significa amigo de Deus.
Muito provavelmente, Lucas não se refere a uma pessoa determinada, mas sim aos cristãos convertidos do paganismo, aos tementes a Deus, todos eles pessoas muito amadas de Deus, amigos de Deus. Nós também somos os destinatários do Evangelho de Lucas, pois somos e queremos ser Teófilos, amigos de Deus. Lucas escreve para que possamos crescer em amizade. Lucas quer mostrar a Teófilo que as profecias estão se realizando em Jesus” (MESTERS & OROFINO, 2019, p.13-14).
Frei Gilvander Luís Moreira[2] nos diz: “O lugar e a data de composição de Lucas e Atos são ainda hoje objeto de grande discussão entre os exegetas. O mais provável é que eles tenham sido escritos entre quarenta e sete e cinquenta e dois anos depois da execução de Jesus, entre os anos 80 e 90 E.C. A obra lucana testemunha a primeira enculturação da fé cristã, ou seja, a Boa-Notícia anunciada por Jesus Cristo aos pobres (Lc 4,18-19) encarna-se na cultura helenística. A obra lucana foi escrita provavelmente em uma – ou mais de uma – grande cidade marcada pela cultura grega e ligada a estrutura do Império Romano: Antioquia da Síria (cidade de 700 mil habitantes); Éfeso, na Ásia Menor (400 mil habitantes); e/ou Corinto, na Grécia (500 mil habitantes). Lucas escreveu em grego clássico a introdução geral à sua obra (1,1-4), e todo o seu evangelho está em um grego elegante, que se aproxima do grego da Septuaginta e algumas vezes da koiné, o grego comum falado na época de Jesus. Lucas escreve prioritariamente a cristãos oriundos do mundo pagão, para comunidades mistas formadas de pessoas vindas do judaísmo helenístico e para pessoas vindas do paganismo, de fora da Palestina, em ambiente gentio, na diáspora. Essa informação pode ser constatada pelo nome grego do destinatário: Teófilo; pelo cancelamento, nas fontes, de assuntos que dizem respeito exclusivamente aos judeus (pureza/impureza); pela substituição de nomes judeus por nomes gregos (epistatés = mestre, e não rabi/rabbouni); pela ampliação da genealogia de Jesus até Adão e, também, até Deus, não somente até Abraão, como em Mt; citações do Primeiro Testamento segundo a LXX e outros. O prologo do evangelho “de” Lucas, que está em 1,1-4, introduz não apenas o evangelho, mas toda a obra lucana. Aí está a intenção de Lucas: “Dar solidez (aspháleia = “garantia”, “segurança”, “solidez”) a Teófilo”. Em 4,14-21 está o Ministério de Jesus na Galileia. A terra dos galileus é apresentada como o campo de treinamento dos discípulos. Eles serão quem dará testemunho do Mestre. A Galileia é vista como o ponto de partida do grande “êxodo” de Jesus rumo à Ressurreição e Ascensão, passando pelo grande confronto da morte em Jerusalém” (MOREIRA, 2022, p. 15-16; 19;23).
José Antonio Pagola[3] afirma: “Jesus é Profeta de Deus. Não foi ungido com óleo de oliveira, como se ungiam os reis para transmitir-lhes o poder de governo, ou os sumos sacerdotes para investi-los de poder sagrado. Ele foi “ungido” pelo Espírito de Deus. Não vem governar nem reger. É Profeta de Deus dedicado a libertar a vida. Só podemos segui-lo se aprendermos a viver com seu espírito profético. Jesus vive dedicado a libertar. Entregue a tarefa de libertar o ser humano de todo tipo de escravidões” (PAGOLA, 2019, 7, p. 301).
Amém! Axé! Awirê! Aleluia!
[1] MESTERS, Carlos. OROFINO, Francisco. Crescer em Amizade – Uma chave de leitura para o Evangelho de Lucas. São Paulo: Paulus, 2019.
[2] MOREIRA, Gilvander Luís. Lucas e Atos: uma teologia da história – Teologia Lucana. 4.reimp. São Paulo: Paulus, 2022.
[3] PAGOLA, José Antonio. A Boa Notícia de Jesus – Roteiro homilético Anos A, B e C. Petrópolis: Editora Vozes, 2019.
Muito boa a reflêxäo do Evangelh de Lucas.