Festa do Batismo do Senhor – Lc 3,15-16.21-22 -Ano C – TEXTOS INSPIRADORES

Festa do Batismo do Senhor – Lc 3,15-16.21-22 -Ano C – TEXTOS INSPIRADORES

Festa do Batismo do Senhor. Reprodução Vaticano News

Batismo, início da vida itinerante de Jesus

Pe Adroaldo

“Quando todo o povo estava sendo batizado, Jesus também recebeu o batismo” (Lc 3,21)

Terminado o “tempo natalino”, começamos o tempo litúrgico conhecido como “tempo comum” (Ano C), ou seja, a vida pública de Jesus, sua missão como Filho em favor dos filhos. Toda a liturgia deste ano (2025) deve estar iluminada pelo tema do “Ano Jubilar: Peregrinos de esperança”.

O relato do batismo – que marca a passagem da vida em Nazaré para a vida peregrina – faz referência a uma experiência fundante de Jesus: confirmado pelo Pai, impulsionado pelo Espírito, Ele descobre o sentido de sua vida e a missão que devia realizar.

Com o seu Batismo, Jesus “começa algo novo”, um movimento de vida, fora das estruturas religiosas de seu tempo. É a primeira coisa que os evangelistas deixam claro. Todo o anterior pertence ao passado. Jesus é o começo de um caminho novo e, com uma presença inconfundível, reacende a esperança nas pessoas, sobretudo naquelas mais excluídas.

O relato do evangelho deste domingo afirma que Jesus deixou Nazaré, sua casa e sua comunidade, e se dirigiu para as margens do Jordão, onde fora batizado por João. Começa sua vida itinerante.

A estrada é a vida e a missão de Jesus, enviado para revelar o rosto misericordioso de Deus à humanidade. A sua estrada é marcada pela solidariedade e cuidado para com os mais excluídos e sofridos.

Ele é o “autor” da estrada; Ele é a estrada do cumprimento da vontade de amor e de salvação do Pai; Ele é o Caminho, a Verdade e a Vida. Essa estrada deverá ser a mesma também dos discípulos, a do seguimento, a que conduz à plena bem-aventurança. Um Caminho que faz viver e realiza a comunhão em plenitude.

Com os itinerantes Jesus dá início a um movimento a serviço do Reino e Ele mesmo é um itinerante. Não permanece numa casa, não se fecha em um lugar, não fundou uma instituição vinculada a um tipo de templo, sinagoga ou santuário, mas percorre, com um grupo de discípulos(as)/amigos(as), também itinerantes, os povoados e aldeias da Galileia, anunciando e realizando o Reinado do Pai.

Ele é o inspirador de toda itinerância; com sua peregrinação Ele abre possibilidade de outros caminhos. Ele convoca a todos a um seguimento que está profundamente conectado com o seu próprio destino.

“Fazer caminho” não significa apenas deslocamento geográfico. As travessias nunca são apenas exteriores. Não é simplesmente na cartografia do mundo que o ser humano anda. Isso significa não perceber a profundeza do seu ser; “deslocar-se”, querendo ou não, implica uma mudança de posição, uma expansão do próprio olhar, uma abertura ao novo, uma alteração do ângulo habitual, uma adaptação a realidades, tempos e linguagens, um encontro com o diferente, um diálogo inspirador ou deslumbrado, que deixa necessariamente impressões muito profundas.

Seguir Jesus Cristo é aderir a Ele incondicionalmente, é “entrar” no seu caminho, recriá-lo a cada momento e percorrê-lo até o fim. Seguir é deixar-se “configurar”, isto é, movimento pelo qual cada um vai sendo modelado à imagem d’Ele.

Para entrar em sintonia com o Peregrino, é preciso sair dos lugares estreitos, das posições fechadas, das ideias fixas…, e “fazer estrada” com Ele. Aqui está a verdadeira identidade dos(as) seguidores(as) de Jesus: o(as) “adeptos(as) do caminho”.

De fato, em seus inícios, o cristianismo era conhecido como “o Caminho” (At 18,25-26). Tornar-se cristão não era simplesmente entrar numa nova religião; era encontrar o caminho acertado da vida, caminhando sob as pegadas de Jesus, para viver com sentido e esperança. A  cristã não era entendida como um “sistema religioso” (leis, ritos, doutrinas, hierarquias…), mas um “caminho novo e vivo” que fora inaugurado por Jesus, um caminho que era percorrido com os olhos fixos n’Ele. Ser cristão significava, para eles, “seguir” a Cristo. Isto era o fundamental, o decisivo.

Por isso, não é estranho que ainda hoje podemos encontrar muitas pessoas que se sentem cristãs simplesmente porque foram batizadas e cumprem alguns deveres religiosos, embora nunca tenham considerado a vida como um seguimento de Jesus Cristo. Este fato, bastante generalizado, seria inimaginável nos primeiros tempos do cristianismo.

Então, qual o sentido do batismo de Jesus? Trata-se de um acontecimento que traz uma mensagem nova e que supera radicalmente o Batista. Os evangelistas cuidaram com esmero desta cena. O céu, que permanecia fechado e impenetrável, se abre para mostrar seu segredo. Ao abrir-se, não descarrega a ira divina que João Batista anunciava, mas revela o amor de Deus, o Espírito, que pousa pacificamente sobre Jesus. Do céu se escuta uma voz: “Tu és o meu Filho amado”.

A alusão aos céus que se abrem definitivamente é a expressão de uma esperança de todo o AT: “Quem dera rasgasses o céu e descesses!” (Is 63,19). A comunicação entre o divino e o humano, que havia ficado interrompida por culpa da infidelidade do povo, é, a partir de agora, possível graças à total fidelidade de Jesus. A distância entre Deus e o ser humano fica superada para sempre. Jesus ouviu a voz dentro de si mesmo e esta lhe deu a garantia absoluta de que Deus estava com Ele para levar a missão a bom termo.

A mensagem é clara: com Jesus Cristo o céu permanece aberto; de Deus só brota amor e paz; podemos viver com confiança. Apesar de nossas limitações e de nossa mediocridade, também para nós “o céu se abre”. Também nós podemos escutar com Jesus a voz do Pai: “tu és para mim um filho amado, uma filha amada”. De agora em diante podemos assumir nossa história de vida como a marca da dignidade de filhos(as) de Deus, e que devemos cuidar com zelo e agradecimento.

Para quem vive a fé no Deus que “rasga os céus e desce”, a vida se revela cheia de momentos de graça: o nascimento de uma criança, o encontro com uma pessoa cheia de bondade, o serviço gratuito, a experiência de um amor oblativo, o cuidado com a criação…, que põem em nossa vida uma luz e um calor novos. De imediato nos parece ver “o céu aberto”. Algo novo começa em nós: sentimo-nos vivos, desperta-se o melhor que há em nosso coração, reacende-se uma nova esperança, novas relações interpessoais são vividas.

Talvez aquilo que sonhávamos secretamente, agora nos é presenteado de forma inesperada: um início novo, uma vida diferente, um “batismo de Espírito”. Por detrás dessas experiências está Deus nos amando como Pai, está seu Amor e seu Espírito, doador de vida.

Recebemos o batismo gratuitamente; talvez, por isso mesmo, não damos o devido valor.

Efetivamente, não fomos consultados para ser batizados, mas tampouco fomos consultados para nascer, nem na família que temos. Tampouco nos pediram opinião para amanhecer em determinado lugar do mapa, nem para ser de uma determinada raça. E, no entanto, tudo isso é decisivo e nos constitui como pessoas.

Por que não damos o devido valor ao nosso batismo? Por que não somos mais humildes e nos coloquemos na fila dos demais? Por que não somos mais agradecidos e, com Jesus, mergulhemos nas águas do Jordão para sermos rebatizados?

Esquecemos que “ser cristão” é “seguir” Jesus Cristo: mover-nos, dar passos, caminhar, construir nossa vida seguindo suas pegadas. Nossa vivência cristã, às vezes, permanece numa fé teórica e inoperante, ou se reduz a uma prática religiosa rotineira, estéril, sem maiores compromissos; não transforma nossa vida em seguimento. “Batiza-nos, Senhor, com teu fogo!”

Para meditar na oração:

Nutramos nosso “ser peregrino” que carregamos dentro de nós! Deixemos que ele se submerja nas águas da vida, para um novo renascimento.

Despertemos a esperança adentrando-nos em “nosso Jordão”! E desfrutemos da paisagem externa, descobrindo assim a paisagem de dentro. Deixemos emergir nosso mapa interior. Contemplemo-lo e agradeçamos… tudo. O bom. O boníssimo e o difícil ou tortuoso. Assim é o caminho da vida.

– Sua vivência batismal se reduz a algumas práticas religiosas egóicas? Ou ela tem a marca de Jesus que, após seu batismo, viveu o compromisso com os pobres e excluídos até a radicalidade?

NOVA ESPIRITUALIDADE

José Antonio Pagola

«Espiritualidade» é uma palavra desafortunada. Para muitos só pode significar algo inútil, afastado da vida real. Para que pode servir? O que interessa é o concreto e prático, o material, não o espiritual.

No entanto, o «espírito» de uma pessoa é algo valorizado na sociedade moderna, pois indica o mais profundo e decisivo da sua vida: a paixão que a anima, a sua inspiração última, o que contagia os outros, o que essa pessoa vai colocando no mundo.

O espírito alenta os nossos projetos e compromissos, configura o nosso horizonte de valores e a nossa esperança. Segundo o nosso espírito, assim será a nossa espiritualidade. E assim será também nossa religião e a nossa vida inteira.

Os textos que nos deixaram os primeiros cristãos mostram-nos que vivem a sua fé em Jesus Cristo como um forte «movimento espiritual». Sentem-se habitados pelo Espírito de Jesus. Só é cristão quem foi batizado com esse Espírito. «O que não tem o Espírito de Cristo não lhe pertence». Animados por esse Espírito, vivem-No todo de forma nova.

O primeiro que muda radicalmente é a sua experiência de Deus. Não vivem já com «espírito de escravos», cansados pelo medo a Deus, mas com «espírito de filhos» que se sentem amados de forma incondicional e sem limites por um Pai. O Espírito de Jesus faz gritar-lhes do fundo do seu coração: Abbá, Pai! Esta experiência é o primeiro que todos deveriam encontrar nas comunidades de Jesus.

Muda também a sua forma de viver a religião. Já não se sentem «prisioneiros da lei», das normas e dos preceitos, mas libertos pelo amor. Agora conhecem o que é viver com «um espírito novo», escutando a chamada do amor e não com «a letra velha», ocupados em cumprir obrigações religiosas. Este é o clima que entre todos temos de cuidar e promover nas comunidades cristãs, se queremos viver como Jesus.

Descobrem também o verdadeiro conteúdo do culto a Deus. O que agrada ao Pai não são os ritos vazios de amor, mas que vivamos «no espírito e na verdade». Essa vida vivida com o espírito de Jesus e da verdade do Seu evangelho é para os cristãos o seu autêntico «culto espiritual».

Não temos de esquecer o que Paulo de Tarso dizia às suas comunidades: «Não apagueis o Espírito». Una igreja apagada, vazia do espírito de Cristo, não pode viver nem comunicar a sua verdadeira Natividade. Não pode saborear nem contagiar a sua Boa Nova. Cuidar da espiritualidade cristã é reavivar a nossa religião.

Tu és o meu filho amado, em ti está o meu agrado

 Ildo Bohn Gass

A liturgia deste final de semana propõe abrir-nos a Deus, da mesma forma como Jesus o fez ao acolher o dom do Espírito enquanto estava em oração logo após o seu batismo.

Em Lucas, a narrativa a respeito do batismo de Jesus vem depois do Evangelho da Infância. Entre as narrativas da infância (Lucas 1-2) e o início da missão de Jesus (Lucas 4,14 em diante), os autores deste Evangelho inserem o relato da preparação do caminho do Senhor feita por João Batista (Lucas 3,1-20) e o relato da preparação de Jesus para sua missão (Lucas 3,21-4,13). Como dobradiça que liga as duas partes, está a narrativa a respeito do batismo de Jesus (Lucas 3,21-22). Temos, assim, um paralelo entre dois batismos: o de João com água e o de Jesus com o Espírito e com o fogo.

João aponta para o Messias

A comunidade de Lucas faz questão de situar historicamente o início da atividade de João (Lucas 3,1-2). Do ponto de vista político, foi no tempo de Tibério, imperador romano de 14 a 37 d.C., e de Herodes Antipas, governador da Galileia desde 4 a.C. até 39 d.C. Do ponto de vista religioso, foi na administração do sumo sacerdote Caifás (sumo pontífice no templo de 18 a 36 d.C.), genro de Anás (6-15 d.C.), nomeado sumo sacerdote por Herodes Antipas em nome do imperador.

Por um lado, João denuncia profeticamente o reino da opressão representado por Tibério e por Herodes, em aliança com o templo de Jerusalém. Diante de tanto sofrimento, o povo esperava ansiosamente a vinda de um libertador. João Batista faz fortes críticas aos poderosos, anunciando um juízo severo para eles (Lucas 3,17). Por isso, o povo começou a ver em João a esperança da vinda do messias, o rei ungido por Deus que viria para libertar o seu povo.

Por outro lado, João anuncia a vinda do Reino de Deus para breve (Lucas 3,9.17), chamando à conversão, à mudança de mentalidade e de vida, convocando à partilha e à vivência de relações fraternas (Lucas 3,11-14). Em consequência dessa prática profética, ele foi preso e encarcerado pelos poderosos de seu tempo (Lucas 3,19-20). Assim, João cumpriu sua missão como profeta que faz a ponte entre a Aliança de Deus com Israel e a Aliança em Jesus com toda humanidade.

Para Lucas, a tarefa de João é fazer com que as pessoas se convertam e se abram ao Reino de Deus presente no novo agir de Jesus. Lucas o apresenta mostrando para Jesus. João não é o Messias, o Cristo, o Ungido. Seu batismo era somente com água, sinal de purificação e de conversão para acolher Jesus de Nazaré, mais forte do que João. Sua atitude é de estar a serviço, menor ainda que os servos, de quem também era tarefa desatar as sandálias de seus senhores.

As sandálias também lembram a lei do levirato (Deuteronômio 25,5-10). Segundo esta lei, quando um marido morria sem deixar filhos, um parente próximo devia assumir a viúva para gerar um herdeiro para o falecido. Assim, além de dar continuidade à vida do falecido, resgatava sua terra, de modo que ela permanecesse no clã. Quando o parente mais próximo se negava a assumir a tarefa do resgate para seu irmão falecido, outro parente devia cumprir a lei. Era então que o parente mais próximo dava uma de suas sandálias ao novo resgatador, o novo “noivo”. Era o sinal que este passava a ter o direito de resgate, de gerar descendência para o falecido. Ao não desatar a correia das sandálias de Jesus, João reconhece nele o resgatador, o messias libertador de todas as formas de opressão. João é o último representante da Antiga Aliança. Jesus, porém, é o noivo da Nova Aliança.

O Messias assume a sua missão

Jesus é batizado com água junto ao povo, em meio ao povo. Em seu batismo, Jesus é investido para a sua missão, guiado pelo Espírito de Deus. É somente Lucas quem faz referência à atitude orante de Jesus no seu batismo. E é esta atitude de intimidade de Jesus com o Pai que faz com que o Espírito o transforme e o envie para evangelizar os pobres (Lucas 4,18-19). Também para nós Jesus pediu que tivéssemos essa atitude orante durante a vida toda, abrindo-nos ao Espírito de Deus. Ele é fruto da oração, da acolhida, é dom (Lucas 11,13).

João batiza Jesus com água. No entanto, Jesus batiza com o Espírito e com o fogo. Por isso, o seu batismo é superior ao de João. É no Espírito Santo, representado pelo fogo de Pentecostes (Lucas 3,15-16; Atos 2,1-13). Neste Evangelho, ainda antes do batismo de Jesus, há uma ênfase muito grande na apresentação de pessoas abertas à ação do Espírito Santo. Lembramos João Batista, Maria, Zacarias e Simeão (Lucas 1,15.41.67; 2,26-27). E o fogo recorda a presença de Deus no êxodo, na libertação do povo oprimido pelo sistema faraônico (Êxodo 3,2-3; 13,21; 19,18). É o mesmo fogo de Pentecostes, o dinamismo do Espírito, que entusiasma os discípulos e as discípulas de Jesus para o anúncio e a vivência da boa-nova até os confins da terra (Atos 1,8; 2,1-13).

Uma vez preso João, Jesus dá um novo rumo à sua missão. Diferentemente do Precursor, que anuncia a vinda do Reino de Deus para breve e como um juízo severo, Jesus vive o Reino já presente no seu jeito de se relacionar especialmente com as pessoas mais discriminadas, revelando a misericórdia do Pai (Lucas 7,22; 11,20; 17,20-21).

Lucas apresenta o batismo de Jesus depois da prisão de João como o ato em que o Espírito de Deus vem confirmar o Nazareno enquanto Messias, ungindo-o para a missão do serviço, da mesma forma como fora ungido o servo de Deus em Isaías 42,1 e 61,1. Nesse momento, Jesus estava em oração, isto é, em íntima comunhão com a fonte da vida, com o projeto do Reino. Tão íntima é essa comunhão que, em Jesus, Deus e a humanidade se encontram. Esse é o significado da abertura do céu (Lucas 3,21), realizando a esperança do povo (Isaías 63,19b). Em Jesus, céu e terra estão tão próximos que é possível perceber a presença materializada (“em forma corpórea“) do Espírito de Deus nas atitudes de Jesus. Se em Gênesis 8,8-11 a pomba foi a mensageira da vida recriada depois de submersa pelas águas do dilúvio, agora a presença da pomba anuncia que o Espírito de Deus impulsiona Jesus a realizar a nova criação, mulheres e homens recriados a partir das águas do batismo. No batismo, morremos com Cristo e ressuscitamos com ele para uma vida nova (Romanos 6,1-14). Viver como pessoa renovada e ressuscitada é, portanto, missão de todos nós.

Ao lembrar a entronização do rei que vem libertar o povo (Salmo 2,7: “Tu és o meu filho“), a comunidade de Lucas apresenta Jesus como o verdadeiro Rei e Messias, que veio governar com justiça e no serviço ao povo. Por isso, lembra também a missão do servo em Isaías 42,1 (“em ti está o meu agrado“). No batismo de Jesus, temos uma epifania, ou seja, uma manifestação do filho de Deus ao mundo, gerado como o messias que vem libertar o povo.

No batismo, Jesus assume publicamente o seu compromisso com as novas relações do Reino de Deus já presente em seu agir. Batizar-se em seu nome, na linguagem paulina, é revestir-se de Cristo, ou seja, é agir como o próprio Cristo agia, superando todas as formas de discriminação (Gálatas 3,27-28).

*Ildo Bohn Gass é biblista, assessor do CEBI e autor de diversos livros, dentre eles a coleção Uma Indrodução à BíbliaQuatro retratos do apóstolo Paulo e O Pão nosso de cada dia dá-nos hoje.

Festa do Batismo do Senhor!

Maria da Graça Rodrigues

É com esta festa que encerramos o tempo do Natal. A Palavra de Deus que nos é dirigida nos traz ricos elementos de reflexão.

primeira leitura nos traz um texto de Is 42, 1-4.6.7, que pertence ao primeiro dos quatro cânticos do Servo.

Este texto escolhido na celebração do Batismo do Senhor coloca-nos na revelação da pessoa de Jesus Cristo e da sua Missão. Ele é o Filho de Deus a quem o Pai apresentou, consagrou e ungiu com o Espírito Santo.

“Eis o meu servo”. Em primeiro plano, não está claro se é uma personalidade individual (um rei de Judá, o profeta, ou o messias), ou uma coletividade (todo o povo de Israel ou parte dele), ou um indivíduo como símbolo de todo povo. O texto anuncia um misterioso “Servo”, escolhido por Deus, que seria enviado aos homens, para instaurar um mundo de paz sem fim.

Esse “Servo” é nosso Senhor Jesus Cristo, que veio para concretizar a vontade de Deus Pai, na missão salvífica de todo ser humano. Jesus realiza-a na humildade e simplicidade, não recorrendo ao seu poder divino. O seu estilo é de profunda mansidão, paz, comunhão com Deus e com todos por quem se faz doação e construção de um mundo novo e livre. O seu agir é de benção, de oferta de vida e de plena humanidade.

salmo responsorial (Sl 28/20, 1ª.2.3ac-4.3b.9b-10) nos mostra que o Senhor desceas águas para nos fazer ressurgir pessoas novastransformar a nossa vida. “O Senhor abençoará seu povo na paz”.

segunda leitura (At 10,34-38) nos fala do anúncio proclamado por Pedro para os companheiros pagãos do centurião Cornélio (At 10,34-43). Pedro anuncia a missão de Jesus como Messias e Filho de Deus a partir de seu batismo por João. Por meio de Cristo, o Pai restabelece o reinado da justiça, que os apóstolos e os mártires, com a Igreja testemunham. Deus não faz distinção de pessoas, nação, raça ou cor, mas todos são chamados a fazerem parte do seu Reino, na prática da justiça e do temor do Senhor.

Esse evento é de suma importância, pois significa a investidura de Jesus para sua missão messiânica. Jesus é o Messias, o “ungido” com o Espírito Santo.

No Evangelho de hoje (Lc 3,15-16.21-22), o Senhor traz como boa notícia o batismo do Senhor, revelando para nós quem é Jesus, o que Ele fez, quem são os seus seguidores, quem são chamados a realizar na sociedade, o compromisso com Deus na construção de um mundo justo e igualitário. É preciso vivê-lo no compromisso com o Evangelho, como verdadeiros cristãos, em prol da Igreja e dos irmãos, que padecem injustiças, e não conhecem Jesus.

batismo por João era o batismo de conversão, provavelmente um rito de iniciação à comunidade messiânica. João era a última testemunha do tempo da antiga aliança. O batismo de Jesus por João marca o começo de um novo tempo, o tempo em que Deus vem ao mundo feito gente, trazendo vida e salvação para a humanidade. João estava batizando o povo no Rio Jordão, para preparar o povo, a chegada do Messias. Ele anunciava: “Depois de mim virá alguém mais forte que eu.”(Lc 16) “E eu nem sou digno de desamarrar as suas sandálias”. Jesus Cristo é o ungido, das promessas de Deus, que chegou, apresentado como o “forte” por João Batista.

Toda esta narrativa é um convite para reconhecer quem é Jesus e para avaliar o valor do batismo, semelhante ao de Jesus, mas diferente do de João.

A celebração de hoje deve fazer-nos vivenciar e comprometer com o nosso batismo. Pois pelo batismo fomos “enxertados” em Cristo e com Ele somos identificados como sacerdotes, profetas e reis. O batismo é uma realidade dinâmica. Ele cria relações intensas e dinamismos vitais com Deus e com os irmãos.

Além de mergulharmos na comunhão trinitária, mergulhamos na comunhão com toda a igreja e com a humanidade inteira. E impele-nos a prosseguirmos um caminho comprometido com o projeto de Jesus Cristo: Caminho, Verdade e Vida.

Tu és o meu filho amado- Lucas 3,15-16.21-22

Frei Bruno Godofredo Glaab

No batismo, Jesus inicia oficialmente sua missão. Ele reza e é confirmado pelo Espírito Santo e pelo Pai. Isso quer dizer nele se realiza a vontade do Pai. Jesus, pela oração, sintoniza-se com o Pai e sua missão se inicia. O povo pode confiar, pois ele agrada ao Pai. Na primeira leitura, Is 40,1-5.9-11 aponta para uma grande novidade. O povo que estava no Exílio é consolado e vai voltar para sua pátria. Deus já perdoou seu pecado.

Como pastor, carinhosamente cuida de seu rebanho. Deus agraciou seu povo. O profeta, de forma poética, descreve a volta de forma pitoresca: os vales serão aterrados. A ação de Deus a favor dos pecadores sofridos é pura graça. A segunda leitura (Tt 2,11-14; 3,4-7) mostra que esse agraciamento de Deus ao seu povo se plenificou na pessoa de Jesus. Não foi mérito dos discípulos, mas pura misericórdia dele, dando o banho da regeneração e o Espírito Santo.

Em Cristo, o povo é agraciado, como outrora o povo na volta do Exílio. No evangelho (Lc 3,15-16.21-22) se ilustram as expectativas messiânicas do povo. Lucas, valendo-se do pano de fundo do AT, esclarece que João não é o Messias esperado, mas que ele aponta para o verdadeiro realizador da nova aliança. Em Dt 25,5ss se fala da lei do levirato (o homem que não quer assumir como sua mulher a cunhada viúva de seu irmão, terá a sandália tirada).

Jesus, o que está por vir, não renuncia ao direito de ser o esposo da nova aliança; por isso, João não pode desamarrar a sandália (Dt 25,9). Ele vai batizar com o Espírito Santo e com fogo (cf. Is 4,4; Jr 4,11-12). Em outras palavras, o realizador das esperanças messiânicas é Jesus, não João. O batismo de Jesus, na versão de Lc 3,21-22, difere um pouco da de Mt 3,13-17 e de Mc 1,9-11. Não se narra o diálogo de Jesus e de João. Jesus está anônimo entre o povo. Ele se esvaziou e assumiu a vida do povo (Fl 2,6-11). O testemunho que recebe do Pai e do Espírito confirma sua missão. O Espírito em forma de pomba lembra a esperança do fim do dilúvio (Gn 8,12) e o amor (Ct 2,10).

Muita gente desconhece a grandeza e a dignidade que o batismo lhe conferiu. O batismo de Jesus no Jordão revela sua identidade e sua missão. Ele é o servo de Deus, o Senhor de todos, o Filho amado do Pai. O sacramento do Batismo também revela nossa identidade e nossa missão de cristãos. Em nosso batismo, celebramos o grande amor do Senhor Jesus que se entregou em nosso favor, alcançando-nos o perdão dos pecados por sua morte redentora. Pelo derramamento do Espírito, no batismo, o Senhor nos faz novas criaturas, filhos e filhas de Deus. Nós somos servos de Deus, cidadãos do Reino, filhos amados do Pai. No batismo, nasce nossa responsabilidade na missão de Cristo e da Igreja. 

De qualquer forma, a pessoa que recebe o batismo, a exemplo de Jesus, recebe o Espírito Santo e é vocacionada pelo Pai para a missão. Ninguém deve receber o batismo por tradição ou por qualquer outro motivo. Batismo é inserção na comunidade de fé. Batismo é o início da missão de Jesus, é também o início da missão dos discípulos.

  • O que acontece no Rio Jordão?
  • O que significam as palavras: “Este é o meu Filho amado; nele está o meu agrado”.

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