O ouro da coroa e a coroa de espinhos. Por Marcelo Barros

Nestes dias, os jornais dedicam páginas inteiras a mostrar em detalhes a coração do rei Charles III da Inglaterra. Ao lado das fotografias que revelam o horror da guerra na Ucrânia, os meios de comunicação competem na cobertura da cerimônia tradicional da coroação que durará duas horas a menos do que a da rainha Elizabeth II em 1953. Nobres e representantes de governos disputam os lugares de honra na nave da velha abadia. No mundo inteiro, pela televisão, muita gente verá a carruagem dourada, puxada por oito cavalos, que, em pleno centro de Londres, conduzirá o rei e a rainha, de volta da cerimônia, para o palácio.
É provável que esta oportunidade de encontro da nobreza que se considera de sangue azul e de representantes da elite política e econômica sirva de pretexto para muita gente que adora monarquias e sonha com um mundo de contos de fada, desde que eles e elas sejam os príncipes e princesas e não os servos da gleba.
Nos países do Sul, ao verem a coroa real colocada pelo arcebispo na cabeça do novo rei e o brilho da carruagem dourada, indígenas e negros poderão imaginar que aquele ouro ali concentrado custou o sangue de seus pais e avós escravizados nas minas de mineração na América Latina ou na África. Embora seja de extrações anteriores, é o mesmo ouro que provocou o genocídio dos povos originais na América e até hoje tenta exterminar de vez o povo Yanomami e a sua Amazônia, ferida por tantos garimpos e sítios de mineração.
No próprio Reino Unido, alguém poderá se perguntar sobre a legitimidade de usar o dinheiro público dos impostos de uma população pluralista, hoje, de várias religiões e cuja maioria nem é religiosa, com essa cerimônia de luxo que oficializa um chefe de Estado em uma Igreja cristã.
Quem discutir esse assunto estará se questionando sobre o que significa, hoje, um Estado se legitimar através do rito de uma religião civil. Talvez, ao verem essa cerimônia, haja menos pessoas que se perguntem a que ponto chegou o Cristianismo e como foi possível que a fé cristã, a mesma do evangelho de Jesus trocou a coroa de espinhos da cruz de Jesus e dos povos crucificados pela legitimação de uma monarquia, que, como todas as outras, concentra uma história de conquista e colonização que provocou milhões de vítimas em vários continentes para que, neste momento, um descendente da mesma família real possa receber do prelado cristão a coroa que o legitima como rei.
A cerimônia é realizada pela Igreja Anglicana, assim como, no passado, a Igreja Católica legitimou o poder de outros impérios igualmente sangrentos e coloniais. Outras Igrejas, se pudessem, fariam a coroação de novos reis em outros templos, como o que se diz de Salomão.
Essa concepção de Igreja Cristandade é a mesma que faz as pessoas pensarem uma assembleia da CNBB como se fosse a assembleia de toda a Igreja no Brasil e não como, apenas, a conferência dos bispos católicos. Isso ocorre nas melhores famílias, apesar de que, de acordo com a proposta da Sinodalidade sobre a qual o papa Francisco tanto insiste, esta deveria, junto com outras instâncias, formar a Assembleia do Povo de Deus, de comunhão católico-romana em nosso país. Na década de 1990, Dom Luciano Mendes de Almeida convocou por duas ou três vezes uma assembleia dos Organismos do Povo de Deus. Depois dele, isso não teve continuidade.
O Cristo Ressuscitado nos chama a renunciar às seduções de uma Igreja Cristandade, legitimada pela sociedade dominante e injusta e que arma como ilusório set cinematográfico, o palco de uma coroação de reis. No lugar disso, ministros e fieis, assumamos a coroa de espinhos do Cristo, vivida, hoje, pelos povos crucificados, aos quais devemos ajudar a descer da cruz e a ressuscitar para um mundo baseado no bem-viver.