PALAVRA DE MULHER – Por Marcelo Barros[1]

Irmão Marcelo Barros. Reprodução Redes Virtuais
A cada ano, a humanidade celebra o dia internacional da mulher e constata que, na sociedade, a condição feminina ainda não foi radicalmente transformada. No Brasil, as estatísticas mostram que, apesar de leis mais claras e até de um Ministério das Mulheres, como organismo de governo e muito competentemente dirigido pela querida irmã e companheira Márcia Lopes, muitas mulheres ainda sofrem abusos e violências.
Infelizmente, as religiões que deveriam ser instrumentos de humanização e justiça, quase todas têm sido injustas com as mulheres. Desenvolvem uma visão patriarcal de Deus e da fé. Fazem leitura fundamentalista de textos sagrados, escritos em antigas culturas patriarcais. Por isso, sustentam que o homem deve ser o chefe da família e discriminam a mulher no acesso aos ministérios de coordenação eclesial. No Judaísmo, só na corrente mais aberta, as mulheres podem ser rabinas e ainda não são muitas as que conseguem. Na Bíblia, os primeiros textos proféticos vieram de mulheres e foram redigidos em forma de poemas e canções: o cântico de Míriam, irmã de Moisés (Ex 15, 20 – 21); o cântico de Débora, a juíza que, em tempos de fixação na terra, teria dirigido o povo bíblico nas lutas contra seus inimigos (Jz 5), o cântico de Ana, mãe do profeta Samuel (1 Sm 2). Também no Novo Testamento, de acordo com o evangelho, as primeiras manifestações proféticas ocorreram no encontro de Maria, mãe de Jesus e Isabel, mãe de João Batista (Lc 1, 39 – 47).
No Islã, em geral, os imãs são homens. No Hinduísmo não existem mulheres reconhecidas como lamas (gurus). No Cristianismo, as Igrejas orientais e a Católica não aceitam o sacerdócio feminino. Igrejas evangélicas aceitam, mas em um modelo de ministério, ainda pensado a partir do masculino e dentro de uma Igreja ainda patriarcal.
Apesar da marginalização injusta que as mulheres sofrem por parte da maioria das religiões, nas diversas tradições espirituais, elas formam a maioria das comunidades e, nelas, assumem responsabilidades.
As religiões de matriz africana são quase as únicas, nas quais as mulheres sempre tiveram papel importante. Vários templos do Candomblé são coordenados por Yalorixás, ou mães de santo, reconhecidas como sacerdotisas e guardiãs das culturas afrodescendentes.
Entre todas as grandes mudanças sociais, características do século XX, o feminismo foi uma das principais conquistas da sociedade. Foi a maior revolução pacífica da nossa história recente. O feminismo nasceu fora das religiões, transformou a democracia e os direitos humanos individuais e coletivos. Incluiu as mulheres como protagonistas da história e da libertação da humanidade e da Mãe-Terra. O feminismo surgiu na sociedade civil, mas acabou contagiando a caminhada das comunidades das principais tradições espirituais.
Desde 1970, o Ecofeminismo é uma corrente do feminismo que liga a exploração da natureza com as opressões que as mulheres sofrem. São opressões, todas enraizadas na cultura patriarcal e capitalista. Esse movimento mostra que a dominação masculina e patriarcal sobre a natureza e sobre o corpo feminino tem a mesma lógica. Por isso, o ecofeminismo propõe justiça socioambiental, que valorize o cuidado com as pessoas, a sustentabilidade ecossocial e não mais a maximização do lucro[2].
Nas últimas décadas, em diversas religiões e, especialmente, nas Igrejas, desenvolvem-se teologias feministas que ressaltam a profecia da mulher nas Igrejas e no mundo. Reescrevem a história das religiões e das espiritualidades, a partir da perspectiva de gênero e dão voz e protagonismo às mulheres. Assim, era normal que, no mundo inteiro, surgisse, também, uma teologia ecofeminista, que liga à luta pela libertação da mulher à opressão que a terra e a natureza têm sofrido[3].
Na década de 1960, em vários países da América Latina, surgiu a Teologia da Libertação, a partir das experiências de participação de cristãos e cristãs nos movimentos de libertação social e política. Esse movimento teológico nasceu em Igrejas de cultura patriarcal e no mundo, no qual, mesmo os grupos considerados de esquerda, eram machistas. Por isso, infelizmente, os teólogos que iniciaram a Teologia da Libertação levantaram a questão das classes e das opressões sociais, mas só despertaram para a iniquidade que é o patriarcalismo e todas as suas consequências, a partir do momento em que abriram o estudo da teologia às mulheres e, nos organismos teológicos, serem por elas liderados. Por isso, no nosso continente, com toda razão, algumas das primeiras teólogas feministas acusaram a Teologia da Libertação de ser ainda uma construção patriarcal e não suficientemente atenta às questões de gênero.
As teólogas feministas latino-americanas converteram os seus irmãos da Teologia da libertação e revelaram que a causa da igualdade de gêneros e da defesa da mulher é tarefa de mulheres e homens que, juntos, aprendem vida e teologia. Embora com enfoques que podem ser diversos, a causa é a mesma. Atualmente, as teologias da libertação expressam-se em várias correntes, como a ecoteologia, as teologias negras, indígenas, feministas e outras. Se um teólogo (homem) não assumir as causas da teologia feminista, como sendo causa sua, esse teólogo pode fazer pesquisa sobre teologia da libertação, mas não é teólogo da libertação.
Uma anedota judaica conta que, no início de tudo, Deus tinha criado a mulher. Como esta sentiu-se sozinha, pediu a Deus um companheiro e este hesitou:
– Você sabe que, por natureza, o homem (macho) é arrogante. Tem sempre a sensação de ser o primeiro. Quer ser mais importante de tudo. Não se conformará em ser o segundo.
A mulher respondeu:
– Então, isso fica um segredo entre nós. E para mim mesmo viver sossegada, é melhor que ele pense que foi o primeiro a ser criado.
Deus aceitou:
– Tudo bem. Guardemos então esse segredo e deixemos o homem pensar que foi o primeiro.
A mulher quis garantir:
– Então, você, Deus, promete mesmo manter esse segredo? Dá-me a sua palavra de que guardará isso só para nós?
Deus respondeu:
– Prometo. Palavra de Mulher!
[1] – Marcelo Barros é monge, teólogo feminista da libertação e assessor de movimentos populares e comunidades eclesiais de base. Entre seus 67 livros publicados, o mais recente, escrito em coautoria com Rosemary Fernandes, é A proposta revolucionária da Ceia de Jesus – Encher o mundo de ágapes de amor. Rio de Janeiro: Editora Metanoia, 2025.
[2] CF. D’EAUBORNNE, Françoise. Feminismo ou Morte. Editora Bazar do Tempo, 2025.
[3] – Cf. GEBARA, Ivone. Teologia Ecofeminista. São Paulo: Editora Olho d’Água, 2008.