Precisa-se com urgência respirar esperança (Marcos 1,14- 20) – Por Marcelo Barros

Neste janeiro de 2024, precisamos, no plano social e político, respirar esperança e retomar forças para lutar por uma sociedade mais democrática e justa. Muitas pessoas sofrem e choram diante do que está acontecendo, mas não são capazes de aprofundar as causas sociais. Não veem que é preciso lutar contra diversas exclusões, como também contra o racismo estrutural da sociedade e caminhar para formas de organização social e política mais de acordo com a Ecologia Integral e a vocação espiritual da humanidade.
Nesta realidade, é bom que este 3º domingo comum do ano de 2024 traga para a leitura nas Igrejas o evangelho de Marcos 1,14- 20.
A primeira boa notícia desse evangelho é que Jesus assume o lugar do profeta João Batista: “Depois que João foi preso, Jesus foi para a Galileia, a fim de proclamar a boa notícia de Deus”. A boa notícia é esta: prendem o profeta, mas não conseguem acabar com a profecia. João foi preso. Jesus toma o lugar dele. Só que de um modo novo e original.
Marcos traduz bem: se trata do evangelho (boa nova) de Deus. É o mais abrangente e amplo possível. É macro-ecumênico, como em 1992, definiu o profeta Pedro Casaldáliga. Isso significa que vai além da Igreja, vai além do Cristianismo e vai além das religiões. Jesus proclama Deus como boa notícia para o mundo. Acolher Deus e relacionar-se com Deus significa abrir-se à alegria, ao convívio amoroso e a uma educação para a amorosidade. E esta é a base da caminhada de libertação e de uma vida nova para todos e todas. Isso é o que Jesus chamou Reino de Deus. Ele nunca disse o que é exatamente. Nunca quis definir. Mas, nos anunciou que vai chegar e nos disse como acolher e como viver isso.
Há coisas na vida que provocam na vida uma reviravolta tal que quando ocorrem, de fato, nos mudam por dentro. A boa nova que Jesus traz ou é assim ou é sinal de que não aconteceu ainda. É como água que penetra na terra, mas não chegou ainda a atingir aquele núcleo mais profundo do nosso ser. Atingiu só a superfície. No grego, o nous é o mais profundo da mente. É a raiz dos nossos pensamentos, das nossas decisões interiores e da nossa forma de ser e do nosso estilo de vida. Jesus propõe meta-noia. Metanoia significa mudar a mente e a vida a partir mesmo da raiz. Não é só agir diferente. É ser uma pessoa nova. Isso nem é espontâneo, nem basta falar ou mesmo querer para fazer. É um processo. Só consegue fazer quem aceita ter um método para isso. Para isso, um instrumento fundamental tem sido o diálogo espiritual, no qual a pessoa tome como método a revisão de vida, a capacidade da autocrítica e leve a sério a crítica fraterna.
Como testemunho disso, Jesus começa a organizar um pequeno grupo de companheiros e companheiras dos quais os primeiros foram Simão e André, Tiago e João.
Hoje a gente não associa a missão com essa linguagem de “pescadores de homens”. Seria uma missão ruim porque, ao pescar, se tira o peixe das águas e se mata. Nos antigos profetas, essa expressão significava de fato a luta contra os opressores. Se vocês lerem Jó 41,1- 7, verão que Deus pergunta a Jó se ele vai poder pescar com anzol o Leviatã, o monstro do mar, que todo mundo temia. Em Jeremias 16,16, Deus ameaça os ricos de Judá a pescá-los com anzóis e em Amós esta ameaça ainda é mais clara:
“Ouçam esta palavra, vocês, vacas de Basã, que vivem nos montes da Samaria e oprimem os pobres. Vocês que esmagam os necessitados e dizem a seus senhores: Venham cá e bebamos. O Senhor Deus jura pela sua santidade que, em breve, vão chegar dias nos quais vos levarão com ganchos e vão pescar os filhos de vocês com anzóis” (Amós 4,1–2).
Vocês sabem de alguém a quem, hoje, vocês queiram gritar essa profecia? Antes disso, me expliquem porque as nossas Igrejas transformaram essa imagem de “pescar homens” em pastoral vocacional para levar pessoas aos seminários ou a escolas de pastores em Igrejas evangélicas?
O evangelho de hoje conta como Jesus chamou os primeiros discípulos. Eles e elas serão discípulos do reino de Deus no mundo e não organizadores de Igreja e menos ainda administradores de estruturas eclesiásticas.
É bom pensarmos também em quantas pessoas e comunidades nas nossas Igrejas precisam de oxigênio para retomar a vida e sermos todos e todas testemunhas de esperança.