QUE ESTA NOSSA PÁSCOA SEJA SEM FIM – Por Marcelo Barros

QUE ESTA NOSSA PÁSCOA SEJA SEM FIM – Por Marcelo Barros

“Que se apresente sempre de modo mais claro na América Latina o rosto de uma Igreja que seja verdadeiramente pobre, missionária e pascal, desligada de todo poder temporal e corajosamente comprometida com a libertação de toda humanidade e de cada ser humano, em todas as suas dimensões”  (2ª Conferência geral dos bispos latino-americanos – Medellín, 1968  – Doc.   5, 15).

Isso foi dito para toda a Igreja Católica da América Latina, mas, mesmo naqueles anos, só uma minoria de bispos, padres e grupos católicos levaram a sério a proposta de tornar a nossa Igreja pobre, missionária, pascal e consagrada à libertação integral. Atualmente, nos meios do clero e da hierarquia, assim como de muitos grupos católicos, a rejeição a essa proposta ainda é mais generalizada e radical. Muitas de nossas dioceses e paróquias rejeitam totalmente a proposta de uma Igreja em saída para as periferias do mundo. Não querem inserir-se no mundo atual, nem dialogar com as pessoas de cultura contemporânea. Optam por uma Igreja que, ao contrário de uma Igreja pobre, apresenta-se sempre com estruturas muito caras e é centrada no clero e voltada para si mesma. Muitos ministros e fieis acreditam em Deus como todo-poderoso e não como Amor. Optam pela espiritualidade do sacrifício, portanto da violência e da morte. Proclamam em liturgias solenes e formais que o Cristo ressuscitou, mas, infelizmente, negam-se a testemunhar isso em uma fé profética que ensaie o mundo novo, que queremos construir, sob a inspiração do Espírito que ressuscitou Jesus.  

Apesar disso, esse modelo de Igreja proposto pela conferência de Medellín continua atual para nós que seguimos firme na caminhada. Os bispos nem precisariam ter detalhado que para ser pascal a Igreja precisa ser pobre, missionária e consagrada à libertação da humanidade e de cada pessoa. De fato, Páscoa significa passagem e, no primeiro testamento, foi passagem da escravidão do Egito à libertação. Portanto, para ser pascal, a Igreja tem de se colocar sempre a caminho. Isso significa viver com o essencial e levar pouca bagagem. É missionária, não porque prega e sim porque testemunha no mundo, o projeto divino de vida e libertação que como resumia nosso profeta Pedro Casaldáliga: “a missão é sair por aí e espalhar ressurreição”.

Com o Concílio Vaticano II aprendemos que Igreja é essencialmente local. Portanto, antes de tudo, temos de começar por nós e tornar pascal o nosso grupo, as nossas comunidades. Temos de ser pascais, mesmo em meio a uma Igreja Católica e Igrejas evangélicas que, majoritariamente, procuram reconstruir as velhas estruturas de Cristandade.

A boa notícia de que o Cristo ressuscitou e essa ressurreição começa a contaminar o mundo inteiro foi dada na madrugada do domingo da Páscoa, ainda no escuro da noite. Foi como uma conspiração de algumas poucas mulheres corajosas que, naquele momento de repressão e enfrentando forte risco de vida, saíram pelos caminhos. Eram camponesas da Galileia para a qual a cidade era estranha e perigosa. Apesar disso, elas saíram sem pedir permissão a nenhuma autoridade apostólica, nem esperar pelos discípulos. Eram conduzidas pelo carinho e pelo cuidado. Foram elas as primeiras a descobrir que o túmulo estava vazio.

Agora, na celebração dessa Páscoa, nós somos convidados e convidadas a juntar nossos corpos e nossos afetos a aquelas mulheres meio loucas e testemunhar  que, hoje, também e ainda a vida vence a morte.

Neste momento, o Brasil, a América Latina e o mundo atravessam uma noite social e politicamente pesada. A violência cometida pelo império contra Venezuela e contra Cuba, sua intervenção em países como Argentina e Honduras que fizeram a direita ganhar as eleições, assim como suas ameaças sobre todos os nossos povos são sinais de que a pobreza da Venezuela, a dignidade do povo cubano e nossas minorias abraâmicas por todo o continente desafiam o poder do Império. A resistência e a teimosia em crer que outro mundo é possível revelam que a Cruz dos povos crucificados de hoje é cruz de ressurreição.

Na noite do sábado, ou madrugada do domingo, seja em celebrações formais, seja em algum momento de oração em casa, somos convidados e convidadas a renovar o nosso batismo. Concretamente, isso deve significar que nos comprometemos de novo a dar mais um passo no caminho da conversão interior e da transformação do nosso ser mais profundo, para juntos ensaiarmos a transformação do mundo.

No século IV, São João Crisóstomo, bispo de Constantinopla, afirmava: “Por sua ressurreição, o Cristo vem tornar a nossa vida uma festa contínua, mesmo em meio às lutas e dificuldades que enfrentamos”.

Que nossa Páscoa seja sem fim. O Cristo ressuscitou realmente, aleluia.

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